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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (VII)



Não: devíamos ter direito ao “esquecimento digital”, ao “apagamento das nossas pegadas”. Elas não deviam perseguir-nos a vida toda. Há muita gente que, de modo inadvertido, coloca nas redes sociais imagens, fotos, sons, palavras da sua vida íntima de que mais tarde se vem a arrepender (T.Snyder: “Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece", p.69). Há quem tenha progenitores a colar fotos de quem ainda é menor nessas redes sociais, sem que este última intervenha e, pois, tenha nisso qualquer responsabilidade. Como é possível que não haja direito ao esquecimento digital? Como escreve o teólogo António Spadaro, “se a salvação, teologicamente falando, implicava, de algum modo, o 'apagar', ou 'esquecer', isto é, pressupunha o perdoar, já "a salvação digital, o «salvamento» é exactamente o oposto do cancelamento. Se um arquivo é salvo, tudo, até mesmo os erros permanecem fixados, não esquecidos. A salvação digital, portanto, cancela o olvido. E, hoje em dia, a Rede é o lugar onde o olvido é impossível" (António Spadaro, Ciberteologia, 34).

Sim: eis um ponto em que estamos de acordo: se temos direito a saber a informação que os Estados, e os Governos, têm sobre nós, como não obrigar a Google a dizer o que sabe a nosso respeito? O Facebook tem mais habitantes do que a China e as suas decisões acabam, muitas vezes, por ser mais importantes do que as dos governos de Alemanha ou França. E quem guarda estes guardas? (e que relação deles com as democracias?) Razão, aqui, ao politólogo Francis Fukuyama: "Até um certo nível, a regulação é apropriada e também me parece que há grandes problemas pelo tamanho destas organizações: se elas tentam comportar-se como empresas de média ou publishers, tomando decisões sobre o que é apropriado ou não, é um problema, porque estão a tomar decisões para o mundo inteiro!" (Francis Fukuyama, Visão, 27-12-2019).
O problema passa também por, na prática, em vez de uma única internet, termos uma “Chinanet”, ou uma “Russianet”, por exemplo (há muitas leis diversas, mas uma só internet).
Concluo, também, com uma das exortações do investigador Timothy Snyder que mais me tocam: “Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo à leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

Sugestão cinematográfica: “A rede social”, de David Fincher (2010)

Encerramento dos trabalhos.

Daniel Sampaio, Do Telemóvel para o mundo – pais e adolescentes no tempo da internet (2018)           

Consideram o e-mail ultrapassado, e mesmo o tempo de entusiasmo com o Facebook parece ter ficado para trás - porque nele passou a haver demasiados adultos, demasiados familiares, demasiados professoresNão terá ficado completamente obsoleto, porque é utilizado para marcação de eventos, em especial para perceber a adesão que terão - e se vale a pena realizá-los (ou onde efectivá-los, em função do número de likes)Instagram, pelos vistos, é que está a dar, actualizado sucessivamente, especialmente no feminino (com o pico das 10 da noite, hora em que a maioria dos adolescentes está na net). Há pais que entram nas redes sociais dos filhos através de «truques» tecnológicos "pouco éticos" (p.146). Em havendo, como deve haver, uma relação familiar de confiança, faz sentido os pais perguntarem o que os filhos colocam nas redes sociais; no entanto, se os progenitores nada questionam, mas espiam às escondidas para, a partir de aí, proibirem saídas ou impedirem jogos na net, não estão a contribuir para esse aumento de confiança mútua.
Os jovens utilizam a sigla POS (parents over shoulder), para alertar a presença dos pais «sobre o ombro», quando o computador caseiro se situava na sala comum. Hoje a sigla foi substituída por PIR (parents in the room) ou por 99 (parents are gone) para que possam estar mais à vontade. Daniel Sampaio sugere a ideia de limitação do tempo em que um filho, em idade precoces, possa estar na internet e sem negociação ("mais dez minutos..."). Quando esta limitação não é posta em prática, a utilização da internet tende a ser crescente, podendo mais tarde a vir a causar dependência (p.138). O autor de Do telemóvel para o mundo, deixa ainda uma possível sugestão aos pais:
"Serge Tisseron, no seu interessante livro Computadores, Telemóveis e Tablets (Lisboa, Gradiva, 2013) faz uma proposta sobre o uso das novas tecnologias de informação, com etapas progressivas de acordo com a idade:

aos 3 anos podem começar a ver televisão;
aos 6 anos podem começar a usar jogos offline
aos 9 anos podem ligar-se à net, com supervisão parental;
aos 12 anos podem entrar nas redes sociais, também com algum controlo por parte dos pais.

Trata-se apenas de uma orientação, embora proveniente de um especialista de reconhecido mérito" (p.147)

Mais: "as novas formas de comunicação, ao contrário do que por vezes se afirma, podem ser importantes veículos de aproximação entre pais e filhos. A partilha de uma foto, um sítio na internet que se acaba de descobrir, um sms ou mensagem pelo WhatsApp a avisar para onde se vai, são tudo oportunidades para estar mais perto, para educar e para veicular valores. A conversa formal entre pais e filhos, típica da juventude dos avós dos adolescentes de hoje, tem de ceder o lugar aos diálogos de pequena duração, tantas vezes imprevistos e improváveis, mas que podem ser carregados de significado (...) Segundo a revista norte-americana Highlights, num inquérito a 1521 crianças entre os 6 e os 11 anos, estas revelaram achar os pais demasiado distraídos e pouco atentos às suas necessidades, considerando que os telemóveis dos progenitores são os principais responsáveis. Era como se os aparelhos estivessem entre pais e filhos e contribuíssem para uma distância que os mais novos desejavam transpor. No Brasil, outro inquérito revela que 70% das crianças entre os 3 e os 5 anos sabe ligar um computador ou tablet e 42% sabe usar um smartphone" (pp.69-70). O psiquiatra alerta ainda para um estudo que aponta para 80% de pais que colocam fotos dos filhos até aos 2 anos de idade destes no facebook, e sublinha  que muitos empregadores vão verificar tudo o que há na net sobre o candidato ao emprego, pelo que a pegada que fica na net deve ser olhada com grande cuidado: "o nosso menino vestido de índio pode ficar bem numa reunião social, mas pode comprometer a criança junto dos seus amigos. Uma festa familiar pode tornar-se motivo de troça no seu grupo juvenil. Uma angústia desabafada na net, no contexto de uma depressão juvenil, pode tornar o adolescente alvo fácil para cyberbullying" (pp.71).


Gustavo Cardoso, A sociedade dos ecrãs, 2013

A casa organizada sobre a sala (e seus sofás), partilha, controlo (parental), (foco no) colectivo, autoridade, hierarquia, passividade como valores latentes ou explícitos (em causa), deu lugar, em uma significativa medida, a uma “cultura do quarto” como espaço do indivíduo (e do individualismo), autonomia, emancipação, autoridade (parental) negociada senão desaparecida/diluída, responsabilidade (responsabilização), participação, liberdade, (auto) fechamento (no sentido, de isolamento no quarto; não por acaso, de 2003 a 2010, o tempo médio de uma chamada telefónica diminuiu quase para metade, de três minutos para um minuto e quarenta e sete segundos, Gore, 2013, 92), mas, igual e paradoxalmente, de conexão com o mundo (a fluidez público/privado será bem maior no novo caldo de cultura em que nos movemos; o adolescente, no quarto, a assinar uma petição em defesa de um povo geograficamente distante, ou a participar em uma conferência nos antípodas do globo; estamos, crescentemente, “sozinhos juntos”, no dizer da filósofa da internet Sherry Turkle).


Na desocultação dos significados simbólicos e sociológicos da proliferação dos ecrãs (tv, telemóvel, net, tablet, ipad, etc., etc.), importa, na verdade, compreender que os artefactos tecnológicos que construímos respondem a demandas que surgem em uma sociedade – a cultura da participação, da interactividade, da recusa da passividade, do multitasking, da responsabilidade, porventura alimentaram o surgimento da internet, ou, pelo menos, a sua massificação -, inserem-se em uma cultura e fazem bascular os marcos sociológicos anteriores à sua presença (com a comunicação de massas, o centro era o media, na comunicação em rede, o centro é o indivíduo; no seio de uma cultura em que a criança ou adolescente domina melhor que os pais/encarregados de educação os mecanismos informáticos e da net, o controlo sobre estes, sobre tais mecanismos e, não menos relevante, sobre os próprios jovens em maturação, tornam-se delicados – em não poucos casos, a ignorância sobre o fenómeno da internet e, em especial, o das redes sociais, faz com que muitos pais criem uma verdadeira mitologia acerca destas: um estudo de 2007, com jovens norte-americanos, mostra que a motivação destes, quando utilizam as redes sociais é exactamente a mesma de quando enviam sms ou fazem chamadas telefónicas: prolongar a conversação com o grupo de pares. Uma outra investigação com adolescentes norte-americanos, realizada no mesmo ano, conclui que 91% destes jovens utilizava as redes para falar com amigos. De 2011 a pesquisa que mostrou possuir cada utilizador do facebook, a rede social mais utilizada no mundo ocidental, mas também em inúmeros países da Ásia e América Latina, em média, 229 “amigos”, sendo que apenas 7% destes nunca ‘conhecidos’ fora do mundo online. Não se assistiu, pois, à profecia pessimista – diminuição do contacto rosto a rosto, entre as pessoas, em geral, e os mais novos, em especial; nem aos amanhãs (tecnologicamente) cantantes  – não se regista o previsto aumento de sociabilidade; antes, o reforço do contacto com aqueles que já eram os nossos próximos; em conclusão, e nas sábias palavras de Nélson Ribeiro, quanto mais próxima, ou intensa, a relação de mais meios procura servir-se. Mais do que digitais, o que temos são amizades com existência tanto online quanto offline (Ribeiro, 2013); registe-se como, ainda agora, os media mais controlados são a televisão e o telefone [Cardoso, 2013, p.151]). Na socialização actual da pessoa, o possível choque de valores entre grupos de pertença – a família, ab initio – e grupos de referência – os media, e a net em especial – pode fazer sentir-se com acuidade.

Pedro Miranda


(conclusão)

terça-feira, 10 de abril de 2018

O "paternalismo positivo"


Seguindo o Prós e Contras desta noite (de novo) sobre a questão da eutanásia: está visto que, no plano dos princípios e dos argumentos em favor da eutanásia como expressão da autonomia privada, há um claro nó cego que passa por não poder negar-se que, em várias situações da vida social, a lei limita essa mesma esfera, não permitindo ao agente fazer o quer a si mesmo (os exemplos da noite foram a obrigatoriedade de prestar auxílio a quem está a tentar suicidar-se [aqui "não respeitando" a liberdade individual e a eficácia do exercício da mesma em quem pretendia colocar termo à sua vida e, eventualmente, por auxílio de um terceiro não atingiu esse patamar], o uso obrigatório de cinto de segurança ou capacete, mas muitos outros poderiam ser aduzidos), pelo que ineditismo não existe, nem contradição lógica pode alegar-se, em impedir-se alguém de solicitar para si uma morte assistida (por outrem). Depois de muito afirmar a dita autonomia da vontade durante o debate, confrontado com esta limitação - atenta a dignidade e a vida da pessoa -, o Professor Reis Novais, visivelmente contrariado, lá admitiu, em tom quase de sussurro, que sim, a lei, em diferentes âmbitos  - como os acima expostos de limitação à disposição da liberdade individual incidindo sobre o próprio agente - tem, apresenta, configura "algum paternalismo" (sobre os indivíduos). Para pouco depois, porém, acrescentar que, em tais situações, trata-se de um "paternalismo positivo". Saber-se os casos em que, defendendo a lei a pessoa de si mesma - dos actos que possa cometer sobre si mesma - estamos perante um "paternalismo positivo", ou quando essa protecção deve ser apodada de "paternalismo negativo" é algo que poderemos saber perguntando ao Prof. Reis Novais. 
Um outro aspecto bastante desagradável deste(s) debate(s) passa por desqualificar a posição de uma das partes como contendo a expressão de uma sensibilidade prefiguradora de uma posição como assentando em um vínculo (pessoal) de natureza religiosa. É desagradável, tal expressão, por dois motivos: em primeiro lugar, porque em nenhum dos momentos do debate alguém, posteriormente contraditado com uma exposição desta jaez, traz argumentos, de forma direta ou indireta, de âmbito religioso e, no entanto, é confrontado como se a sua posição houvesse sido essa; em segundo lugar, porque essa permanente evocação vem a constituir uma espécie de capitis diminutio para qualquer pessoa que assuma essa dimensão na sua vida. Sim, sim, não se trata de discriminação: não temos nada contra isso, mas não legislem pelo vosso manual. Isso está apenas à superfície. O que lateja é outra coisa: é a própria condição de alguém como tendo esse vínculo - certamente obscurantista e ignaro. É, de modo insidioso, uma forma de argumentar amplamente desrespeitadora e preconceituosa - nova de quase trezentos anos - de escolhas perfeitamente legítimas e razoáveis de qualquer pessoa e cidadão. Para quem tanto se louva na liberdade individual, não está nada mal. Depois da reductio ad hitlerum, nos nossos debates temos, permita-se a liberdade da expressão, a reductio ad religiosum. Em ambos os casos, sabemos quem está a perder o debate. [e talvez fosse aqui permitida a ironia: pensar-se-ia que o progresso histórico impediria que, em 2018 (deixem-me dizer com eles: caramba, estamos no século XXI!), se argumentasse deste modo. Na verdade, a minha fé nunca foi a história - como diria o Milosz, ou "a seta da História" como agora diz o Pacheco Pereira. Não há seta].
Há um elemento argumentativo que os que defenderam a eutanásia esgrimiram e que tem de ser considerado: a rampa deslizante o que significa é que a lei não foi cumprida, quando o que se discute é um projecto de lei que não contempla os casos deslizantes; quando se argumenta(r) que é por estes que se está contra a lei, não se está a ir ao núcleo do que está a ser (pelo menos imediatamente) discutido e do que está em causa. Se se estiver contra a eutanásia em qualquer circunstância, então no plano dos princípios não é necessário o argumento da rampa deslizante. Se o problema é o da rampa deslizante e a lei - em deliberação - não os contempla (isto é, continua a punir essas situações a que se convencionou chamar rampa deslizante) então, evidentemente, não se pode, em uma primeira leitura pelo menos, atacar a lei (nessa base). Porém, isso não impugna completamente o argumento: fundamentalmente, porque do ponto de vista da experiência histórica recente portuguesa, para não falar do ponto de vista filosófico e abstracto, é de facto possível ser contra uma primeira porta de acesso a um obejctivo mais alargado que, em sendo transposta, pode facilitar e conduzir a esse outro caminho que chega logo depois (e que se pretende evitar, mesmo que se aceitasse a lei agora em discussão). Reitero: a história portuguesa recente, em matéria de leis ditas fracturantes, permite e torna plausível essa abordagem. Há, ainda, um outro aspecto: estando vertido na lei um conceito como "sofrimento insuperável", o potencial de "elasticidade" e "flexibilidade" da sua concretização, como a experiência internacional vem demonstrando é, efectivamente, lato. 
Um outro ponto sobre a rampa deslizante: têm razão aqueles que defendendo a eutanásia disseram que o ponto foi igualmente invocado nos debates sobre o aborto ocorridos em Portugal e os números - independentemente dos juízos de valor que possamos tecer sobre a prática e até sobre os milhares de abortos todos os anos praticados no nosso país -, nesse caso do aborto, não o confirmaram (não tivemos, desde a aprovação da lei, um aumento linear, sucessivo e sistemático, de abortos no país). E, portanto, aí, quem pensava que tal viria a ocorrer não pode senão reconhecer que se enganou. Isto dito, não pode concluir-se, necessariamente, que no caso da eutanásia a problemática da rampa deslizante, por não se ter observado no caso do aborto, não venha a ocupar uma dimensão importante, senão decisiva na eutanásia (para o ex-Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, o médico Miguel Oliveira e Silva, como pode ler-se no seu mais recente livro, essa é, inclusive, matéria fundamental para a sua posição individual; já agora, diga-se que Miguel Oliveira e Silva fez parte da campanha pelo sim no refendo sobre a questão do aborto, há uma década; é que isto não tem que resultar na simplificação habitual: não há, para quem queira pensar sobre diferentes questões de costumes, um menu que se assina, em que seja qual for a questão, trate-se de aborto, casamento homossexual, adopções por parte de homossexuais ou eutanásia, a pessoa esteja sempre de um lado da barricada (barricada, em si mesma, diga-se, que parece contraditória com o objectivo de sopesar as matérias e argumentos), esteja sempre do mesmo lado da barricada (em estando numa barricada), nunca tenha dúvidas, ou, mesmo, não evolua, com novos dados, em algumas das matérias; veja-se, aliás, no caso de Miguel Oliveira e Silva a sua própria posição sobre o tema do aborto, em função do modo como veio a ser regulada a lei, depois de miríficas promessas em sentido contrário daquele que veio a ocorrer). 
Um outro ponto que deve ser, igualmente, reconhecido a quem defende a eutanásia e argumentou no debate desta noite, no programa conduzido por Fátima Campos Ferreira: o facto de, mesmo que discutidamente se aceite, a rampa deslizante ter ocorrido noutros países - ou estados dentro de Federações -, tal não implica, necessariamente, que venha a verificar-se (no nosso país) caso uma lei destas seja aprovada - embora, em boa verdade, também não possa garantir-se que tal não venha a ocorrer, mas aqui o ónus da prova (ou da persuasão da opinião pública) encontra-se do lado de quem alega essa realidade. 
Para concluir, ainda, a posição de um médico, neurologista, que interveio da plateia no Prós e Contras: cada um, individualmente, que faça o que entender colocado perante situações de final de vida em que a eutanásia seja uma possibilidade, mas não se imponha uma dada visão sobre a concepção acerca da vida - diríamos, da dignidade da vida e da dignidade da morte - aos outros; a lei deve ser "neutra". Ora, entenda-se a vida, a dignidade, a ideia de auxílio ao próximo, de compaixão como se entender - recordo, por exemplo, que Paulo Rangel, que esteve do lado do não no referendo ao aborto, escreveu no Público que haviam sido, ainda, valores típicos de um universo cultural cristão a serem esgrimidos por parte dos defensores do sim nessa consulta referendária, como os da compaixão, da igualdade, da dignidade da mulher, pelo que por aqui se percebe a latitude de concretização de dado quadro referencial - há uma coisa que me parece muito clara: nunca teremos aqui, nem tal seria possível, qualquer visão "neutra". Por muito jeito que desse a alguma das partes em debate, por muito que o argumento tecnocrata e acima da política fosse tentador - ironicamente, dir-se-ia, a posição de Deus que sabe a posição certa a tomar sobre cada uma das coisas, acima dos humores e inclinações humanas -, a decisão, inevitavelmente dolorosa, dura, complexa sem dúvida, será por valores, e combinações/interpretação de valores, políticos, de visão de mundo, do humano, da melhor forma de o defender. Sem neutralidade.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Prós e Contras


Assisto, em diferido, ao Prós e Contras de ontem, dedicado ao Papa Francisco e ao seu – curto, mas significativo, desde logo na consideração editorial do programa da RTP – Pontificado. O que mais me surpreende é, imediatamente, o modo como se confundem conceitos quanto ao melhor da teoria democrática. Quando Palmira Silva considera que o Papa pronunciar-se sobre questões económicas, ou de costumes, está a confundir o temporal com o espiritual, e ninguém a corrige, fico espantado.
Uma coisa é existir confusão Estado-Igreja, ordens teocráticas, tutela do espiritual sobre o temporal. A Ocidente nada disso, hoje, acontece. Mas outra coisa é procurar proibir-se a Igreja, nos seus mais variados e distintos membros, de se pronunciar acerca de temas públicos. É querer confiná-la ao privado. Impedi-la de retirar para a polis consequências de uma dada mundividência, de um mundo da vida.
Trata-se, aqui, de um exemplo-escola de confusão entre secularidade e secularismo. Mesmo autores conservadores católicos (como p.ex., Marcello Pera, em Porque devemos chamar-nos cristãos) que criticam a versão inicial da razão pública de um teorizador tão importante como John Rawls, sabem que na revisitação que o filósofo fez de tal conceito – nomeadamente em A razão pública revisitada e em A justiça como equidade – esta, a razão pública, implica já a possibilidade – mais ainda, a necessidade até, para que os concidadãos saibam de onde vem cada um dos seus pares – de expressão das razões últimas, da adesão - que principia, em muitos casos, por ser religiosa- a determinados princípios/concepções de justiça.
Muito curiosamente até, na sua obra mais recente, Se Deus fosse um activista dos direitos humanos, um autor que se situa, creio, no mesmo horizonte ideológico de Palmira Silva, Boaventura Sousa Santos, vê, na remissão da religião para a esfera do privado uma perversão ocidental, que acaba por abafar as teologias pluralistas e progressistas – as leituras e classificações de alguns autores na área da teologia nem sempre são incontroversas, neste livro, mas adiante - que fazem uma leitura contra-hegemónica dos direitos humanos e, portanto, que podem ser determinantes para a emergência de uma leitura crítica do que o autor chama de “globalização neoliberal”.
Portanto, e à custa de um motivo táctico, isto é, da posição da Igreja e respectivos Papas acerca das questões de costumes/culturais, Palmira Silva não apenas incorre, a nosso ver, num erro conceptual – confundindo secularismo com secularidade -, não relevando o melhor da teoria democrática, como, nem tão pouco, pelo menos à luz de B. Sousa Santos contempla o conjunto de forças motrizes que poderão defender os excluídos do sistema que critica.
Evidentemente que a boutade “o Papa não é economista”, de André Azevedo Alves, procurando remeter para a descontextualização de certas passagens da exortação apostólica Evangelii Gaudium – descontextualização que, manifestamente, não existiu – e, uma vez mais, para um plano exclusivamente espiritual e para referências puramente abstractas e a-históricas o conteúdo desse texto, relevam de uma opção de política económica que conhecemos do autor e que, à luz deste texto – como do conjunto da DSI – se mostra dificilmente compatível com tais opções (de um liberalismo à outrance). Os extremos tocam-se e, aonde uns queriam o Papa silencioso em matéria de costumes, outros pretendiam-no calado em âmbito económico. Ou como diria Michael Sandel, volto aqui a repeti-lo, em Justiça – fazemos o que devemos?, encontrar uma pessoa que simultaneamente seja conservadora nos costumes (que tenha votado não, no último referendo ao aborto, p.ex.) e defensora de políticas de forte componente de justiça social ao nível da economia política é uma enorme dificuldade. Mas cá estamos.
Diogo Freitas do Amaral fez a sugestão mais audaz da noite: o Papa podia convocar uma cimeira com diferentes líderes mundiais, propondo, cara a cara, muito do que escreveu na dita exortação. Seria, enfim, um natural encontro, da “razão crente” (J.M.Duque) com outro tipo de “razões”. Sem a pretensão de uma tutela/de um absolutismo sem as demais, mas também sem o preconceito de que a religião deve ficar na sacristia, o diálogo seria, finalmente, livre. Quem tem medo da “razão crente”? Se a racionalidade que daqui emerge tiver suficientes (boas) razões para a cidade – e exprimir-se, até, no dialecto desta; sem bem que Habermas pugnasse, como se viu no diálogo com Ratzinger, pela permeabilidade, pela linguagem da cidade, pela pregnância e o mais vasto horizonte de sentidos da linguagem religiosa – porque não tê-la em conta nas decisões e reformas?
Finalmente, importante a chamada de atenção de Freitas do Amaral, para que a Igreja portuguesa “seja mais audaciosa, mais corajosa” na denúncia de políticas erradas – desde uma determinada mundividência, claro – e não apoie governos que o não merecem.
O Prof. João Vila Chã recuperou, bem, a expressão terceira via para caracterizar a DSI.