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sábado, 29 de dezembro de 2018

Infância-Juventude de Gorbatchev

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Mikhail Gorbatchev nasceu a 2 de Março de 1931, na aldeia de Privolnoye, cerca de cento e cinquenta quilómetros a norte da cidade russa de Stavropol, no Cáucaso do Norte
A aldeia natal de Gorbatchev não tinha electricidade, telefone ou rádio (com excepção de uma coluna) (p.70). Filho de pais camponeses, o seu pai tinha tido 4 anos de instrução formal, a mãe analfabeta. Baptizado secretamente com o nome Mikhail - que continha ressonâncias bíblicas -, era tratado por Viktor pelos pais (talvez, à cautela, como sinal de vitória pelos bem sucedido primeiro plano quinquenal previsto por Estaline) (p.35). Amaria profundamente o pai (p.36), de quem se tornaria muito próximo (mesmo que pai e filho não verbalizassem um ao outros os sentimentos que nutriam entre si); a mãe teria um registo de maior severidade e dureza, com um forte lado punitivo: disciplinaria o filho, a golpes de cinto, até aos 13 anos (altura em que o adolescente Gorbatchev o retira das mãos maternas e lhe diz basta). O avô materno mostra-lhe "ternura" (o que era raro naquele ambiente cultural), o avô paterno tinha um pendor mais "autoritário" (mesmo que se rendesse ao neto). Durante alguns anos, viveu com os avós maternos e não com os pais.
A infância e adolescência de Gorbatchev é atravessada, de facto, por uma especial rudeza: além da pobreza do meio em que nasce, a colectivização das terras - gerando não apenas enormes injustiças, milhões de mortos, deportados, mas ainda uma divisão/fractura no interior das próprias famílias -, obrigá-lo-à a um trabalho pesado desde muito novo, a que se somará a guerra que levará o pai para a frente de batalha - tendo a família chegado a receber notícia falsa do seu falecimento, chorando três dias por algo que não sucedera -, como a própria aldeia, tinha Mikhail 10 anos, será alvo do saque e violência nazis. Os tempos de indigência são de tal ordem que se comem sementes que eram para plantar, cozem-se e comem-se rãs, a mãe sai durante 15 dias para trocar roupa por trigo - durante duas semanas, Mikhail está completamente entregue a si próprio, como que passando diretamente da infância para a maioridade. Muitas vezes se questionará se o horror à violência que demonstrará quando podendo usar da força em favor da democracia, deixa que os seus adversários o vençam com recurso aos piores instrumentos, nos idos de 90, não radicará nesta sua experiência. Gorbatchev recusar-se-à, questionado diretamente, a responder, ainda que tenha dito não conseguir não perdoar.
Mesmo no fim da guerra, quando regressar à escola terá as margens do manual de tractor em que o seu pai trabalhava como caderno e mesmo a tinta teriam de ser os alunos a produzi-la. Quando o ano era mau de colheitas, e como os impostos e demais injunções sobre as famílias se faziam sobre o número de árvores que cada um tinha a seu cargo (e mesmo que estas nada dessem), a sobrevivência física era o limite. Em ano de boas colheitas, as famílias desunhavam-se para mostrar os melhores padrões de produtividade socialista, em favor da comunidade e o pai Sergei e o filho Mikhail serão premiados pelo que conseguem arrecadar com o seu labor. A ética de trabalho (duro) é um dos traços mais marcados/marcantes dos anos mais tenros da vida de Gorbatchev, um rapaz de temperamento alegre e optimista (p.36), o primogénito de uma família (jovem; Mikhail terá uma avó com 38 anos, por exemplo) que terá dois filhos
O homem que nascera com um sinal na cabeça que seria uma das suas imagens de marca, sinal, esse, que, para o folclore russo remetia para o demo - e veríamos dali a tanto tempo como, muito embora admirado a Ocidente, Gorbatchev foi muitas vezes vítima de desprezo na sua pátria.
Aluno e cidadão exemplar na escola, era um dos melhores alunos, Gorbatchev seria o primeiro rapaz da sua aldeia a frequentar a Universidade de Moscovo (p.57) - que era uma espécie de Harvard, mas sem a existência da Ivy League.
O liceu ficava a 20 km de casa, mais de duas horas a pé, às vezes a ajuda de um carro de bois; terá, afinal, que permanecer nessa localidade para estudar, regressando a casa Sábado à tarde e fazendo caminho inverso Domingo à noite. Gosta especialmente de História e Literatura, sem negligenciar a Física e a Matemática, receberá uma medalha de prata de mérito escolar; desde cedo gosta de liderar e adora representar: fará parte do grupo de teatro da escola e representará várias peças. Também vê filmes com os colegas, por esta altura.
É tempo de se decidir: passará a trabalhar com o pai, ou continuará a estudar? O pai escreve-lhe colocando-lhe esta questão e prometendo ajuda em tudo o que puder, caso a opção seja a segunda. Entretanto, Mikhail enviará pedido formal de adesão ao Partido Comunista. Pondera, decidido a ir para o Ensino Superior, o curso a seguir. Finalmente, preenche a candidatura assinalando Direito. Trata-se, à época, naquele lugar, de um curso não muito prestigiado, num Estado que não é de Direito. Receberá, daí a pouco, o telegrama que revela que é aceite. Entra na Universidade sem fazer o exame de admissão - no que a candidatura a membro do Partido Comunista e a medalha de produtividade, a meias com o pai, poderão ter desempenhado um papel com relevo.
Parte para Moscovo, onde está longe de brilhar à primeira: o sotaque camponês, o olhar provinciano não impressionam os colegas citadinos. Andará tempos sem meias, à falta de recursos para as mesmas - ele que antes se vira com dificuldades em ir para a escola precisamente por falta de roupa. 
Será um aluno muito aplicado, capaz de estudar sistematicamente até às 2/3h da manhã, acordando às 6h. Participará em debates, tertúlias em que algumas opções do sistema com que se vê confrontado - a confissão como bastando para a condenação, por exemplo - não o convencerão. Mas, de um modo global, é um comunista convicto, mesmo que perceba os laivos de propaganda de musicais que colocam camponeses muito felizes a trabalhar - ele, que veio da terra, sabe que aquilo é tudo falso.
Licencia-se em 5 anos, durante os quais assiste à sua primeira ópera e conhece os museus de Moscovo. Ele que, até aos 13 anos, nunca vira um comboio, ao fim de cinco anos de licenciatura é outro, está bastante mudado. Não quis saber de álcool, cartas e mulheres durante o período da sua formação académica (p.76). Não era propriamente o melhor da turma, ainda que sendo bom aluno, e sentava-se discretamente na penúltima fila
Encontrou, num acaso, Raisa, num baile chamado pelos colegas; para ele, foi amor à primeira vista. Para a rapariga da Faculdade de Filosofia - na altura, com bastante mais prestígio do que o Direito, na Rússia -, nem tanto. Andava com outro caso, cujo fim - dir-se-ia ditado por questões de "classe"; a mãe do namorado não queria o descendente a fixar-se em alguém que viera de "baixo" - a marcou negativamente. Mas dali a nada, o novo casal, para a vida, Mikhail e Raisa, de origens muito semelhantes, far-se-ia e seria ela, de algum modo, a tutora da vida cultural moscovita de Gorbatchev - este, muitas vezes já envolvido na vida do partido, não tinha o mesmo tempo que a namorada para ler. Terão um primeiro filho (por uma falta de cuidado; o objectivo era ter descendência, mas não naquela altura), mas entre o risco de vida para a mãe e para o bebé, o casal decide-se pelo aborto. Mais tarde, mesmo desaconselhados por médicos, serão progenitores de uma menina, Irina. Os amigos dirão sempre que Gorbatchev, um homem considerado muito auto-confiante, era "dominado" pela mulher
O título da tese de Gorbatchev será "Participação em Massa na Administração Estatal a Nível Local" e bem cedo, em 1955, está com um tipo de trabalho que corresponde às suas "convicções políticas e morais", a saber, o processo de reabilitação das vítimas inocentes da repressão estalinista (p.100). Mas por pouco tempo.


[a partir de William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018]