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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Porto de férias


1.Do ponto de vista conjuntural, mesmo o plantel sem reforços do FCP seria mais do que suficiente para os azuis e brancos baterem o Vitória SC. A diferença entre as equipas é colossal - e explica-se num orçamento portista que será superior ao do Guimarães em, talvez, mais de 20 vezes. As circunstâncias do próprio jogo, o 2-0 sem que nada se tivesse feito para justificar tal vantagem e beneficiando, ainda, de um golo irregular, acresciam à obrigação de garantir os 3 pontos. Um Vitória que, mau grado a vitória, mal conseguia passar o meio campo, num ritmo pastoso e, como admitiu o seu técnico mesmo no final do jogo, ainda à procura de concretizar a ideia de jogo pretendida só cumulava a impossibilidade de um empate ou derrota. Que, ainda assim, veio a suceder, num harakiri incompreensível. 

2.Sérgio Conceição fez bem o diagnóstico - falta de intensidade, de agressividade, de qualquer alegria de jogar ("os jogadores parecia que estavam à espera que o jogo acabasse", mal a segunda parte tinha principiado). Todavia, Sérgio Conceição não é um mero analista, um comentador; pede-se que vá bem além do diagnóstico. Se, na antevisão do encontro com os vimaranenses, havia dito que frente ao Belenenses SAD se assistira ao pior jogo desde que treina o FCP, é no mínimo estranho que não tenha conseguido fazer passar a mensagem, e sobretudo que não tenha encontrado antídotos técnicos para impedir que se repetisse o cenário visto no Jamor. Mais estranho ainda, se se entende que Conceição é um mestre de motivação, que consegue, incessantemente, colocar as suas equipas com elevados índices de vitalidade, adrenalina, intensidade, agressividade - justamente, o que não se viu no Sábado no Dragão (onde, ao invés, a letargia, a apatia, o deixar andar, o tanto faz como fez foram as notas dominantes).

3.Do ponto de vista estrutural, após um ano sem uma única contratação, se exceptuarmos Vaná, o guarda-redes incógnito, e com uma inesperada vitória no campeonato e consequentes milhões da Champions, a primeira questão a resolver, para a nova época, prendia-se com a continuidade do treinador que resgatara o título. Houve o suspense, e duas ou três semanas para Conceição ser convencido a permanecer. O que acabou por suceder. O treinador do FCP não dissera, nas entrevistas imediatas à conquista do título, que sim, deixou-se querer por emblemas transalpinos, negociou com os flirts...e não custa adivinhar que a questão fundamental não era, propriamente, o seu vencimento, mas o tipo de condições que o clube poderia proporcionar-lhe para o futuro próximo. Não custa adivinhar que garantias tivessem sido dadas, e que a expectativa fosse de melhoria, relativamente substancial, do plantel. 

4.Passadas várias semanas da renovação, passadas duas semanas da pré-época, e com as vendas de passes de jogadores como Ricardo Pereira e Dalot realizadas, Sérgio Conceição viu-se obrigado a fazer soar as sirenes. Aquele que foi um clube cuja liderança era fortemente proativa e capaz de antecipar as jogadas, que num passe resolvia sem que ninguém se tivesse dado conta de problemas ou perspectivas de negócio, tornara-se, agora, numa estrutura incapaz de providenciar um único dos reforços pretendidos pelo treinador, a quem haviam solicitado que permanecesse. Um ponta de lança brasileiro ao fim de muitas semanas de hesitações virou-se para a China; o 8 de eleição acabou num modesto clube inglês. 
Sim, estruturalmente há, também, como se sabe uma questão financeira; mas há, ainda, e muito, uma questão de movimentações no mercado, de rapidez, de agentes, de não deixar as coisas andar.

5.Na primeira entrevista pós-título, ao Porto Canal, salvo erro, Sérgio Conceição não deixou de registar como o modo de funcionamento das coisas nas estruturas do Olival, o modo como se trabalhava entre staff dos mais jovens, ou o grau de exigência e ambição, podia e devia ter um salto qualitativo. Impactante puxão de orelhas ao modo de funcionamento, ao estado do clube. Que ninguém tenha pegado nisto, desde logo as pessoas afectas ao FCP, não deixa de ser significativo quanto ao modo como as vitórias tendem a fazer ignorar aspectos determinantes do estádio de desenvolvimento de um clube.

6.A este estado de coisas entre o staff de escalões mais jovens, desabituados, perdido o vício de ganhar, juntava-se, no início desta temporada, uma decisão que a vários portistas não deixou de surpreender: Rui Barros designado treinador da equipa B do FCP. Sem prejuízo da estima e das grandes memórias que, como jogador, deixou a todos os adeptos do Porto, pese a sua postura irrepreensível do ponto de vista humano, nas relações que ia construindo com todos, o que se lhe vira, mesmo que num tempo curto como treinador da equipa principal, fora uma ausência de identidade de jogo (táctica, técnica, ideia de jogo) e uma séria dúvida sobre autoridade, liderança, capacidade de comunicação para o interior e exterior. 
De resto, durante anos, o FCP privilegiara a formação de treinadores, de jovens técnicos, como um dos traços distintivos do clube, e Rui Barros não parecia enquadrar-se nesse exacto perfil.

7.E, agora, Zakarya, o lateral esquerdo do Belenenses SAD que, tudo indica, virá a ser o suplente de Alex Telles, no FCP. Segundo os relatos de diferentes media, a escolha teve como base a observação de Sérgio Conceição no jogo do Jamor. Zakarya fez 3 jogos, creio, em Portugal. Durante semanas, houve outros laterais esquerdos apontados ao clube. Talvez o clube não tenha tido os recursos para contratar qualquer daqueles. Mas adquirir o passe de um jogador porque o treinador não desgostou da exibição deste num jogo - um único jogo - frente à sua equipa, lembra aquisições, e de outros clubes, na década de 90 (na altura, bastava um jogador marcar um golo ao FCP e ia parar a Lisboa).
Que um departamento de scouting, com Administração e equipa técnica (?), em 6 meses, escolham Paulinho, Ewerton, Jancko, Waris ou Zakarya não pode suscitar o sério receio de que o FCP necessite de um sério upgrade no departamento de scouting (igualmente visado, sublinhe-se bem, por Sérgio Conceição nas entrevistas de pré-época, no caso vertente por não terem visitado os jogadores do clube emprestados a múltiplas equipas, nomeadamente em termos internacionais).

8.A escandalosa captura, ao longo de mais de uma década, dos órgãos que regem o futebol português, e o ataque mesmo ao coração do estado de Direito, pelo clube da luz, não deve ser silenciada e a denúncia não pode baixar a guarda. Com a noção de uma batalha por uma década, não menos do que isso. Simultaneamente, esta perspectiva não pode obnubilar o que está em causa de estrutural, e de interno ao FCP: a) questão financeira; b) deficiente movimentação no mercado, sem antecipação, sem celeridade, com ausência de rumo; c) funcionamento de staff's de equipas jovens impugnado pelo treinador (falta de ambição e exigência); d) scouting a dar mostras de não estar suficientemente oleado; e) gestão estranha com sucessivos jogadores a saírem a custo zero e contratações cujo aval do técnico não parece ter existido (Ewerton, Jancko...).

9.A que acresce uma inusitada guerra entre treinador e Administração, semanas depois de o FCP acabar de ter sido campeão. Cozinhada em lume brando, com recados pelos jornais - primeiro; a seguir, assumida em discurso directo. A meu ver, as justas pretensões de Sérgio Conceição não correspondiam, somente, aos seus interesses como profissional; elas interessavam, igualmente, ao clube. 
Mais, o que Sérgio Conceição fez saber através do jornal OJogo, ainda estávamos em Julho, confirmava-se no início da época, sem especial espanto: o FCP necessitava de mais soluções ofensivas, porque Conceição não só não sabia se não haveria propostas para os jogadores da frente, como era impossível de prever que jogadores como Aboubakar, Marega ou mesmo Brahimi manteriam os índices, e os golos, da época passada. Se isso pode ser válido para qualquer jogador, quando um desempenho fica muito cativo, ou exclusivamente cativo, por ausência de grandes atributos técnicos, de níveis físicos excepcionais, torna-se ainda mais periclitante  a projecção futura - e os casos de Aboubakar, Marega ou Soares são disso claro exemplo.

10.Não chegaram reforços para meio-campo e ataque, e, de modo insólito, o FCP apresenta, depois dos 44 milhões da presença na Champions e de soma idêntica, pelo menos, em vendas de passes de jogadores, um plantel bem mais fraco que o do ano anterior. Campeonato ganho ao sprint. E quando os seus principais rivais melhoraram os seus plantéis.
Escrevi a 22 de Julho de 2017, no lançamento da nova época (2017-2018), que "recordo-me suficientemente bem do que eram os piques de Bosingwa pelo lado direito da defesa e ataque do FCP para saber que, em muitos jogos, era o grande factor de desequilíbrio do FCP e, deste modo, para pensar como muito importante a profundidade que, em ficando no plantel, Ricardo Pereira pode oferecer" (ver aqui). Considero que, depois de Marega, Ricardo Pereira foi o jogador mais importante na época do Porto. Pela dinâmica, imensa, que dava à equipa. Pela profundidade no corredor. Pelos movimentos interiores. Por potenciar extremos e avançados. Por, em grande medida, fazer funcionar a equipa. Pela intensidade e agressividade. Subvalorizado pela crítica, foi um dínamo fundamental. Só essa subvalorização permite a Miguel Guedes dizer que "não saiu ninguém de relevante" face ao ano anterior. Não? 

11.Sentir-se-à Conceição defraudado pelo plantel à disposição? Como não?! Estará ele a viver o seu próprio luto pelo plantel que imaginou e que nunca veio a ter? Implicará isso com o seu insucesso em conseguir que, nas suas próprias palavras, os jogadores tenham a alegria de jogar, a intensidade e a agressividade necessárias? A letargia, a apatia, a falta de vontade, a desinspiração absoluta nunca vistas na equipa sob o seu comando resultarão de o próprio SC andar triste? (desmotivado? ter baixado os braços, depois da coragem em confrontar a Administração?).

12.Tal como se escrevera por aqui também, o próprio SC admitiu nas entrevistas de pré-época (Porto Canal, Sic, Ojogo, JN), que o seu modelo de jogo é, de facto, propício a lesões dos jogadores. As cavalgadas sucessivas sobre os contrários, a fogosidade, a intensidade permanente seriam de molde a potenciar tais lesões. Para mais, o técnico, na primeira época no FCP, não fora dado a grandes rotatividades no plantel (sendo ele, por si próprio, pouco profundo). Ao treinar-se como se joga, nos limites também, imagino que mesmo numa temporada, com apenas 3 jogos, em que não se observa essa mesma intensidade e agressividade, as lesões que aí continuam, como no ano passado, não causem estranheza. "Os médicos têm que ver isso", dizia um João Alves fora de jogo (contexto). Não é dos médicos; é do modelo de jogo. Assumido pelo seu máximo responsável.

13. Após o jogo de apresentação, no Dragão, frente ao Newcastle, com uma boa exibição, em especial na segunda parte, Conceição assumira pequenas nuances diferentes, face ao futebol da última época. A equipa, no segundo tempo, intentara tabelas, jogara um futebol mais curto, de tabelas, menos de grandes rasgos físicos e repelões.
Quando após ter ganho todas as provas em que estivera envolvido, incluindo as internacionais, em 2002/2003, José Mourinho entrou para a nova época, no FCP, registou que mudava o sistema de jogo para com isso dar um desafio (mental) diferente aos jogadores; obrigá-los, portanto, a não adormecerem à sombra do domínio perfeito do esquema anterior; obrigá-los a estar despertos. Mais: o novo sistema era, afirmava o técnico - no que era seguido por outros especialistas -, bem mais complexo de interpretar (no xadrez em que o futebol se estava a tornar definitivamente, era intelectualmente um patamar acima, o losango face ao 4x3x3 com que os jogadores se espraiariam, "naturalmente", no campo em épocas anteriores). O que requeria, de novo, mais atenção por parte dos jogadores. Simultaneamente, colocava mais, ou pelo menos novos obstáculos/problemas às equipas que iria defrontar. O mais extraordinário aqui era o controlo comportamental (os jogadores de barriga cheia, "vaidosos", por tudo terem ganho) controlados via sistema táctico - num Mourinho de vanguarda (á época).
Julguei que Conceição, um treinador inteligente, fosse colocar, mais vezes, a tónica nas nuances, fazer destas mais do que isso - do que nuances - e dar o seu contributo para a inexistência de letargia, de apatia, de ausência de alegria. Até porque manter tudo assente no modelo de cavalgadas, sem Ricardo e sem Marega (como nas primeiras jornadas; sendo que Ricardo será "para sempre"), e sem substitutos à altura, com um plantel que permanece curto não parece boa ideia.

14.Nas bancadas do Dragão, os experimentados adeptos e sócios do FCP, habituados ao melhor em mais de 30 anos consecutivos, percebem que, independentemente do veneno vindo de fora, há mesmo um conflito latente dentro. E estão com Conceição. E não estão, nem compreendem, a Administração.
O conflito, que não é certo que os meses não intensifiquem face aos resultados, levará, contudo, quem quiser permanecer à frente dos destinos do clube - quando a inexistência de um reforço a sério para o meio-campo/ataque deixa os portistas espantados - a possíveis comportamentos que podem não ser bonitos.
Conceição, por outro lado, poderia ser especialmente útil ao clube, mais do que face ao plantel A ou B, na sua propulsão reformista, na identificação das lacunas e nas soluções para as colmatar. Mais do que um treinador, o FCP precisa, na sua própria estrutura, de pessoas com essa mesma vocação para que o clube possa evoluir. Pudesse e quisesse Sérgio Conceição fazer parte desse futuro - mais do que um treinador (embora sem, necessariamente, deixar de ser treinador).
Já há algum tempo (uns dois ou três anos?) que Manuel Queiroz escrevia, em OJOGO, que o melhor FCP foi aquele que soube inovar e estar à frente do seu tempo. É dessa procura que tem que ser feito o FCP pelo qual se espera. 
Provavelmente, até vicejar será necessário muitas tempo passar, muitos conflitos, muitas dificuldades, renovação de pessoas, equipas de Administração, técnicos, tudo o mais.
Por agora, não foi por isto que o FCP perdeu com o Guimarães - conjunturalmente, a vitória era quase, mas apenas quase, garantida. Mas estruturalmente essa vitória com o Guimarães apenas esconderia o que se joga de mais profundo no Dragão.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Reforma, dizem eles


Curiosamente, foi o principal rosto da crítica, no PS, à actual solução governativa, Francisco Assis, a mais cedo identificar a falta de reformismo como o principal óbice a um desempenho conforme do Executivo. A crítica fez o seu caminho. Mas agora é um dos principais rostos que sanciona a engenhosa coligação que sustenta o Governo, Francisco Louçã (vide o seu comentário semanal na sic notícias, na passada sexta-feira), a reconhecer a necessidade reformista. Dir-se-à que quando utilizam a mesma palavra - reformas - Assis e Louçã estão em desacordo quanto ao seu significado ou, se se preferir, que Assis e Louçã defenderão reformas diferentes. O que é certo é que se por reforma se entender uma alteração, de natureza estrutural, desde logo por via legislativa, do modo de conceber um sector, uma actividade, uma área de presença do Estado, então, aqueles dois políticos de sensibilidades distintas, estarão a falar, sensivelmente, do mesmo. Assis e Louçã entendem que sem uma mudança estrutural numa área ou conjunto de sectores - no caso de Louçã, especificou-se o caso da Saúde - o Executivo não andará bem. Creio que vale a pena tentar entender o motivo por que Louçã adopta esta posição, na medida em que, não raro, se arremete(u) contra BE e PCP como causadores de um "imobilismo" ou "conservadorismo" neste âmbito. Ora, creio que precisamente, e desde logo, por uma questão estratégica, Louçã propõe a reforma: se concretizada, a posição da solução governativa, não seria apenas "defensiva", "conservadora" (ainda que o que se conserve seja bom, no caso entendido como estando em necessidade de "conservação" o Estado Social, "alvo de ataque"; diferentemente, à direita, numa teorização que principiou com Paulo Rangel, mas que tem tido o seu curso e feito escola, o Estado Social agora, com esta solução governativa, é que está a ser debilitado, pois sofreria às mãos do "Estado Salarial"[mesmo que este, por definição, também integre o Estado Social], isto é, da devolução de rendimentos à custa de cativações, incluindo sectores como o da Saúde). Em um segundo momento, porque em avançando com uma reforma no sector da Saúde, a geringonça deixaria uma marca sua na governação. Em terceiro, sendo sua a marca, isso tornaria a reedição de uma solução governativa como a actual mais próxima de voltar a suceder (não se ficando como um "parênteses", nas palavras de Mariana Mortágua em célebre troca recente de artigos com Pedro Nuno Santos, no Público) do que havia sido a experiência portuguesa até 2015. Em quarto lugar, a chegada de Rio ao poder, com seu poder de sedução ao PS (ou este a mostrar-se interessado no flirt), podendo pôr em causa, uma solução à esquerda, no pós-2019, ficaria, certamente, mitigado. ou definitivamente abalado, com uma reforma feita à esquerda, numa área tão sensível como a da Saúde. Em quinto lugar, e mais importante do que tudo, a sugestão de reforma neste sector é a confissão dos grandes problemas que se têm observado no sector, no modo como a população portuguesa os sente, e como o seu melhor ou pior funcionamento se traduz em maior ou menor qualidade de vida das pessoas. Em sexto lugar, da avaliação do funcionamento do SNS, dado como o grande adquirido do país no pós-25 de Abril de 1974, resultará, também, em boa medida, uma parte da avaliação do desempenho do Governo. Em sétimo, dada a vinculação do SNS à avaliação global do Estado Social pela população, a melhor maneira de defender este último, na sua globalidade, seria manter um SNS de qualidade. Evitando, pelo caminho, do ponto de vista da esquerda, soluções como co-pagamentos substantivos que viessem a colocar em causa a adesão de uma parte substantiva da população portuguesa a este, podendo, no pior dos casos, ficar como um serviço de minguada qualidade.
Dito isto, o governo parece inclinado à importante reforma da descentralização - veremos em que moldes e com que efectividade - e, a menos de um ano de novo início do ciclo eleitoral principiar, não jogará uma cartada como a da magnitude e sensibilidade daquela presente na Saúde. Uma coisa será desconcentrar serviços, aos poucos, sem grande ruído da oposição, num país extremamente centralista, em que cada passo em sentido contrário será saudado. Outra, seria mexer, estruturalmente, com um país, corporações poderosas, possibilidade de críticas mais fortes, de fantasmas sobre utentes, de reais riscos. O Governo jogará para ganhar de mansinho, na descentralização - poderá dizer "fizemos uma reforma", e com um substancial consenso - mas não ousará, creio, um rasgo maior do que este.

sábado, 12 de agosto de 2017

Contributo católico para a política


Uma síntese, que creio razoavelmente equilibrada, do que pensou e pensa a Igreja, nas últimas décadas e na atualidade, sobre o modelo económico-social em que nos inserimos.  Digamos que podia ser (mais um motivo para) um ponto de partida - mas só um ponto de partida - para quem se interessa por estas questões, seja partindo desta mundividência, seja considerando-a entre várias outras, ir aprofundar, lendo as encíclicas, estudando os textos, para um voto que se pretende sempre mais consciente e sustentado.


Reformar o capitalismo

Muitos adeptos da economia de mercado se entusiasmaram com a vitória do capitalismo, falando mesmo no “fim da história”. Tal euforia teve resultados perversos, pois contribuiu para um capitalismo irresponsável, mais selvagem, menos regulado, com menor consciência social (a qual fora, em parte, estimulada pelo receio do comunismo), desvalorizando a política face à economia. Basta lembrar a vergonhosa falência da Enron no início do século (arrastando consigo a empresa de contabilidade Arthur Andersen), a multiplicação de jogadas criminosas em Wall Street e a grande recessão provocada pela irresponsabilidade na concessão de crédito à habitação evidenciada pela crise hipotecária (subprime) a partir de 2007. Doutrina social da Igreja Entre os triunfalistas da vitória do capitalismo não se contava uma pessoa que havia contribuído como poucos para o ruir do comunismo: o Papa S. João Paulo II. Este Papa logo avisou que o fim do comunismo soviético não significava que tínhamos chegado ao paraíso. Havia muita coisa a corrigir nas economias de mercado. Depois, Bento XVI veio pedir uma nova economia na encíclica Caritas in Veritate, apelando a “uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins”, bem como a “uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento” (nº. 32). A lógica do mercado não pode resolver todos os problemas sociais (n.º 36). Segundo a encíclica, a economia precisa, também, da “lógica do dom sem contrapartidas” (n.º 37). Bento XVI colocou reservas à desregulamentação do trabalho, à mobilidade laboral, aos cortes nas despesas sociais e à limitação das liberdades sindicais (n.º 25), reclamando trabalho “decente” e explicitando o que se deve entender por isso (n.º 63). Naquela encíclica Bento XVI sublinhou que “a sociedade cada vez mais globalizada não nos faz irmãos” (n.º 19). Condenou a globalização selvagem, mas não uma globalização na solidariedade. E como vários dos seus antecessores, insistiu na necessidade de um poder político mundial para enquadrar a globalização. Na Mensagem para o dia Mundial da Paz de 1999 escrevera S. João Paulo II: “A corrida vertiginosa para a globalização dos sistemas económicos e financeiros torna patente a urgência de estabelecer quem deve garantir o bem comum global e os direitos económicos e sociais. É que o livre mercado, por si só, não consegue fazê-lo, uma vez que existem numerosas carências humanas que não têm acesso ao mercado”. E na encíclica Centesimus Annus, que em 1991 celebrou o centenário da primeira encíclica social, a Rerum Novarum de Leão XIII, dizia o Papa S. João Paulo II: “Hoje está-se a verificar a denominada ‘mundialização da economia’, fenómeno este que não deve ser desprezado, porque pode criar ocasiões extraordinárias de maior bem-estar. Mas é sentida uma necessidade cada vez maior de que a esta crescente internacionalização da economia correspondam válidos organismos internacionais de controlo e orientação que encaminhem a economia para o bem comum, já que nenhum Estado por si só, ainda que fosse o mais poderoso da terra, seria capaz de o fazer” (n.º 58). O Papa Francisco, que falou de “uma economia que mata”, vai na linha dos seus antecessores e da Doutrina Social da Igreja, tantas vezes ignorada pelos católicos. Naturalmente que várias afirmações de Francisco não agradam aos católicos que se rendem ao “deus mercado” – acontece sobretudo nos EUA. Também Jesus Cristo desagradou aos poderosos do seu tempo. Inventar alternativas A Doutrina Social da Igreja não rejeita a economia de mercado, mas coloca-lhe limites. Ao longo do séc. XX foi possível tomar algumas medidas no sentido de humanizar o capitalismo, de que é exemplo o chamado modelo social europeu. Mas no séc. XXI as condições para esse reformismo tornaram-se menos favoráveis. A economia cresce menos, a população envelhece (o que coloca restrições financeiras aos apoios sociais), as desigualdades entre os muito ricos e os outros acentuam-se, etc. Será, então de desistir do humanismo reformista em economias capitalistas? Julgo que não, até porque hoje não existe qualquer economia colectivizada que funcione com um mínimo de eficácia e em clima de liberdade. A China não tem liberdade política e o seu sistema económico é um capitalismo de Estado. Já não existem “socialismos reais” como alternativas ao capitalismo, apenas ditaduras mais ou menos grotescas. Nada disto obsta a que não só se tente reformar o capitalismo, não obstante as dificuldades, como a de idealizar sistemas alternativos que funcionem e não sejam liberticidas. Mas é possível que a saída não esteja em descobrir um novo grande sistema económico e social (como foi o comunismo), mas na acumulação de pequenos passos no sentido de uma economia social – como o micro crédito, o comércio justo, a banca ética, etc. – onde o lucro seja uma condição de sobrevivência mas não a finalidade última da empresa.

Francisco Sarsfield Cabral, no site da RR, 12-08-2017. 

domingo, 13 de outubro de 2013

Os acordos redondos do dr.Sampaio


Se Dani Rodrik explicara, em O paradoxo da globalização, como a concorrência fiscal entre países, no quadro da globalização, pela perda de receita que induz, impede, em realidade, livres escolhas (sociais) dos seus cidadãos, nomeadamente a opção por estados sociais (de razoável dimensão), Joseph Stiglitz, em O preço da desigualdade (editado, em português, pela Bertrand, em Setembro último), escreve a páginas 368: "embora se perceba que esta tendência [concorrência fiscal entre países] seja muito do agrado das grandes empresas, visto que a concorrência fiscal aumenta os seus lucros líquidos, tal distorce a economia global e prejudica a capacidade de impor uma justa tributação ao capital".
Convidado, esta noite, do A propósito, de António José Teixeira, na Sic Notícias, Jorge Sampaio apresentou como solução para todos os males do país a existência de grandes acordos entre os partidos políticos "do arco da governação" (além de vários outros parceiros sociais, registe-se). Se a lógica do compromisso pode tornar importante e compreensível o apelo à existência de acordos, mais ainda nas actuais circunstâncias, todavia, nem todo o acordo, qualquer acordo, passa a ser bom acordo, por ser acordo. Citou J.Sampaio o putativo acordo, em torno da reforma do IRC, como sendo susceptível de juntar PS e PSD (como algo benéfico).
Ora, já terá reflectido o ex-Presidente no que a reforma do IRC, com a configuração apresentada, significaria, que ganhos para a comunidade, para a economia, que beneficiários e perdedores com a proposta formulada? Não se lhe oferece nenhuma posição de fundo, nenhum pensamento estruturado do significado da medida no quadro global, nenhum voto a explicar por que apoia algo que, eventualmente, no "espaço onde se situa" (para utilizar a nomenclatura utilizada pelo próprio), seria pouco previsível?
Trouxe aqui, a este propósito, Rodrik e Stiglitz. Para me perguntar que autores sociais-democratas terá o dr.Sampaio à cabeceira. Porque, quanto a autores nacionais, da mesma área política, de José Silva Lopes a Eduardo Paz Ferreira (que não se refugiou no "eu não sou economista", mas, bem ao invés, sublinhou quanto esta matéria é, prima facie, de cidadania, política stricto senso -, passando por abordagens mais técnicas - como a do ensaio, publicado no Jornal de Negócios, pelo 'pai' do IRC, Manuel Henrique de Freitas Pereira  - as limitações apontadas ao desenho da dita reforma - nomeadamente, quanto ao emprego que poderia estimular e, portanto, quanto à contribuição para o crescimento económico -, para beneficiar a comunidade no seu conjunto - acrescente-se a afirmação de António Lobo Xavier, presidente da comissão para a reforma do IRC, dizendo esperar que não fossem os mais desfavorecidos a pagar a substancial quebra de receita que adviria para o Estado...- exigiriam, creio, uma outra cautela, na defesa de um acordo nesta matéria (pelo menos, enquanto o desenho das medidas não evidenciasse, com razoável certeza, como os trabalhadores e os que precisam dos serviços públicos, que carecem de receita para serem mantidos, estariam suficientemente protegidos pela arquitectura da reforma) .