Lembro-me de a Amália Rodrigues contar, no maravilhoso documentário que o Bruno Almeida fez sobre ela, que estava muito deprimida em Nova Iorque, e pensou em matar-se, mas na televisão apareceu o Fred Astaire a dançar e ela esqueceu-se de que queria suicidar-se. O humor é sabermos que estão a acontecer coisas terríveis mas, por um momento, podermos dançar. (...)
Inegavelmente, o melhor humorista desta geração é o Ricardo Araújo Pereira (...) [mas] não é o mais internacional, se considerarmos o André Carrilho e o João Fazenda, por exemplo, que fazem caricatura para jornais americanos. (...)
O Dino D'Santiago é que devia ter feito o discurso do 10 de Junho. Um rapaz que veio da Quarteira, os pais estão em Cabo Verde e ele chegou a Lisboa, juntou-se com músicos diversos, e fez um álbum com uma canção chamada Nova Lisboa. O Dino é o melhor exemplo do que é hoje Lisboa, para lá do turismo. (...)
[Nós, portugueses] podemos ser óptimos intermediários a juntar pessoas à mesma mesa, conseguimos conversar com África, com a América, com a Europa. Lisboa é uma das cidades mais interessantes do mundo por causa disso. (...)
A dada altura, havia muito aquela coisa "vem aí o grande intelectual, deixa ver o que ele diz". Obviamente, ninguém tinha paciência para isso. (...) Agora, caímos no extremo oposto, em que precisamos de referências, um bocado como aconteceu na política. (...)
É absolutamente necessário ter o direito de ofender, tal como o direito de ficar ofendido. (...)
É um disparate exigir que se censure o texto da Bonifácio. De repente, está toda a gente a discutir o racismo. Não era uma boa discussão sobre isso que precisávamos? O texto cumpriu bem esse papel. (...) O limite é quando se diz que é preciso matar aquele tipo. Obviamente, isso tem de ser proibido. (...)
O jornalismo perdeu relevância porque o entretenimento comeu tudo. A morte do jornalismo começou quando o que se puxa para a primeira página não é o que é mais relevante, mas o que vende mais. (...) Terá de acontecer aos jornais o que aconteceu ao audiovisual, ou seja, em Portugal só sobreviverão com apoios. (...) Se a democracia precisa de jornais, o Estado tem de cobrar uma taxa qualquer para que se paguem projectos jornalísticos, não haverá outra possibilidade.
Nuno Artur Silva, entrevistado por Vânia Maia, para a Visão nº1379, de 08-08-2019 a 14-08-2019, pp.60-65