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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Um caracol


No momento em que escrevo, a greve dos motoristas de matérias perigosas já causou transtorno, designadamente sob a forma de notícias sobre o facto de a greve dos motoristas de matérias perigosas ainda não ter causado transtorno. (...)
Ou melhor, já há gente que sofre e muito. Os organizadores de festivais do caracol, feiras do fumeiro e festas do marisco, que nesta altura do ano costumam receber a visita de diligentes jornalistas estagiários, perdem a oportunidade de preencher horas de emissão dedicada a certames. Quem diz certames diz iniciativas. Ou mostras. Esta costuma ser a época dos certames, das iniciativas e das mostras. E dos eventos. (...) O que significa que as peças jornalísticas que estão a substituir as reportagens sobre o festival do caracol não valem o caracol.

Ricardo Araújo Pereira, Solidariedade com a feira do fumeiro, Visão, nº1380, de 15/08 a 21/08/2019, p.130

Humoristas portugueses


Lembro-me de a Amália Rodrigues contar, no maravilhoso documentário que o Bruno Almeida fez sobre ela, que estava muito deprimida em Nova Iorque, e pensou em matar-se, mas na televisão apareceu o Fred Astaire a dançar e ela esqueceu-se de que queria suicidar-se. O humor é sabermos que estão a acontecer coisas terríveis mas, por um momento, podermos dançar. (...)
Inegavelmente, o melhor humorista desta geração é o Ricardo Araújo Pereira (...) [mas] não é o mais internacional, se considerarmos o André Carrilho e o João Fazenda, por exemplo, que fazem caricatura para jornais americanos. (...)
O Dino D'Santiago é que devia ter feito o discurso do 10 de Junho. Um rapaz que veio da Quarteira, os pais estão em Cabo Verde e ele chegou a Lisboa, juntou-se com músicos diversos, e fez um álbum com uma canção chamada Nova LisboaO Dino é o melhor exemplo do que é hoje Lisboa, para lá do turismo. (...)
[Nós, portugueses] podemos ser óptimos intermediários a juntar pessoas à mesma mesa, conseguimos conversar com África, com a América, com a Europa. Lisboa é uma das cidades mais interessantes do mundo por causa disso. (...)
A dada altura, havia muito aquela coisa "vem aí o grande intelectual, deixa ver o que ele diz". Obviamente, ninguém tinha paciência para isso. (...) Agora, caímos no extremo oposto, em que precisamos de referências, um bocado como aconteceu na política. (...)
É absolutamente necessário ter o direito de ofender, tal como o direito de ficar ofendido. (...)
É um disparate exigir que se censure o texto da Bonifácio. De repente, está toda a gente a discutir o racismo. Não era uma boa discussão sobre isso que precisávamos? O texto cumpriu bem esse papel. (...) O limite é quando se diz que é preciso matar aquele tipo. Obviamente, isso tem de ser proibido. (...)
O jornalismo perdeu relevância porque o entretenimento comeu tudo. A morte do jornalismo começou quando o que se puxa para a primeira página não é o que é mais relevante, mas o que vende mais. (...) Terá de acontecer aos jornais o que aconteceu ao audiovisual, ou seja, em Portugal só sobreviverão com apoios. (...) Se a democracia precisa de jornais, o Estado tem de cobrar uma taxa qualquer para que se paguem projectos jornalísticos, não haverá outra possibilidade

Nuno Artur Silva, entrevistado por Vânia Maia, para a Visão nº1379, de 08-08-2019 a 14-08-2019, pp.60-65

sábado, 29 de dezembro de 2018

Borga


Um automobilista vê um cidadão de colete amarelo e pensa: será um manifestante? Não, é um azarado a mudar um pneu. (...) O problema é que esse mal-estar [em relação a várias situações da vida política] produz um tipo de reivindicação vaga, que gera palavras de ordem pouco sedutoras, tais como "Somos a favor de coisas boas e contra coisas más!" (...) O senhor em causa [espécie de representante dos 'coletes amarelos' a falar aos jornalistas] também não é um tribuno especialmente notável, o que prejudica a eficácia da transmissão da mensagem. No início da entrevista disse: "Isto começou numa brincadeira de seis amigos. Ninguém se conhecia". Ou seja, eram amigos, mas de outras pessoas. Entre eles, não se conheciam. O que talvez explique o fiasco da organização. Talvez devessem ter estreitado laços primeiro (...).

Ricardo Araújo Pereira, Por um 2019 pouco amarelo, Visão, 27-12-2018

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ontem à noite, na Capela do Rato (II)



«Interessam-me muito as palavras, é disso que vou sentir falta em relação ao P. Tolentino, porque as venho beber todos os domingos à capela do Rato; é sobretudo esse lado dele, de poeta, que faz toda a diferença, porque nos obriga também a levantar voo, a ganhar asas, ao meditar sobre o Evangelho. Desejo-lhe toda a sorte do mundo.» (Maria Rueff)