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terça-feira, 5 de junho de 2018

CRISE


Se a Europa sempre esteve em crise (Paul Hazard), o que se "modifica em profundidade", com as guerras mundiais (nas suas consequências, mundiais; europeias na origem), no séc.XX, é "a semântica do conceito": "a crise deixa de ser entendida como cisão mediante a qual o processo europeu de civilização, ultrapassando um impasse temporário, atinge uma fase mais elevada de desenvolvimento. E passa a ser considerada o derradeiro limiar, para lá do qual se abre o risco de um desvio incontrolável. A não ser que se assuma uma decisão radical - o outro sentido do termo grego Krinein -, será equivalente a uma intervenção cirúrgica resolutiva num doente terminal. É como se, depois de ter adquirido um significado sociopolítico a partir de finais do século XVIII, o conceito de crise voltasse à sua acepção médica inicial de alternativa entre vida e morte. Ou se opera com uma determinação irrevogável, mergulhando o bisturi no corpo doente da Europa, ou então a doença conduzi-lo-á à morte. É com esta alternativa drástica que os intelectuais europeus se debatem. Aos seus olhos, uma época chega ao fim sem que nada se configure nas suas margens externas." (pp.23-24, Roberto Esposito, De fora, Edições 70, 2018).

P.S.: Diferentemente, nos EUA "o próprio paradigma de «crise» é entendido de modo muito diferente de como é interpretado pela filosofia europeia. A crise não é o bloqueio letal do desenvolvimento, mas o filtro móvel através do qual a democracia se transforma, adaptando-se à dinâmica ambiental em que está inserida. A história norte-americana apresenta-se, ela própria, como permanente produção e superação de crises - desde a guerra de libertação até à guerra civil e ao conflito inter-racial"(pp.65-66).

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Âmbitos de inscrição


O pior que pode acontecer é olhar para o Papa Francisco como um ovni. Claro que para compreendê-lo é essencial ler os Evangelhos ou a poética radical de Francisco de Assis. Mas não se entende Francisco sem o conceito de biopolítica de Foulcault, e da sua denúncia de que, no neoliberalismo, a liberdade produz-se negando-se; sem o retrato da vida nua perante a arbitrariedade dos poderes soberanos de que fala Giorgio Agamben; sem a dialéctica communitas/immunitas que os escritos de Roberto Esposito iluminam, onde a imunidade surge como o fechamento numa identidade da qual se exclui os outros, organizando em torno a ela os múltiplos cordões imunitários que conhecemos; sem o desejo de comunidade de que fala Zygmunt Bauman numa modernidade que tende a liquidificar todas as identidades; sem o alerta de Michael Burawoy: quando o mercado é imposto como única solução para todos os problemas humanos, denunciar a ditadura do mercado torna-se a condição necessária para afirmar a esperança. O Papa não fala sozinho e isso reforça a sua voz.

José Tolentino de Mendonça, E - A revista do Expresso, nº2324, 13 de Maio de 2017, p.95