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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O Pontificado de Bento XVI - para uma síntese (III)


Bento XVI tinha afrontado a questão [da pedofilia na Igreja] já como cardeal perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, distinguindo-se por uma linha rigorosa. Talvez não demasiado partilhada pela Cúria. A ele, deve-se a centralização dos processos destes delitos em Roma, para superar as incapacidades e os incumprimentos dos episcopados locais. Exactamente, a 18 de Maio de 2011, através da carta De delictis gravioribus, que aplica  o já mencionado motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela, a Congregação para a Doutrina da Fé assumia para si «o delito contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de dezoito anos de idade», incluindo-o entre os delicta graviora. Até esse momento, a competência era dos bispos diocesanos, e desde então já não. Roma queria vê-lo claro e fazer justiça. Ademais, para não frustrar as denúncias, estabelece-se que o termo da prescrição começa a ser efectivo a partir da maioridade da vítima. Quando é conhecido o texto da carta, por parte de alguns sectores da opinião pública aparecem críticas pelo facto de que sobre estas causas impender o segredo pontifício, como que se entendendo que se procurava ocultá-las. Em realidade, nos procedimentos canónicos, o segredo deve-se ao facto de [procurar] garantir a boa fama de todas as pessoas implicadas até ao juízo definitivo. 
Como Pontífice, Ratzinger não foi minimalista em decisões e intervenções ante aquilo que havia considerado uma «ferida aberta»; inclusivamente, segundo o parecer dos peritos, pode ser considerado «a pessoa mais determinada» neste âmbito [cita-se a entrevista de Hans Zollner a John Allen Jr.]. De imediato, faz cumprir duas condenações da «sua» Congregação para a Doutrina da Fé sobre dois conhecidos sacerdotes, considerados até então como protegidos por alguns altos prelados do Vaticano e de um clima reticente geral dentro da Igreja: Luigi (Gino) Burresi, fundador dos Servos do Coração Imaculado de Maria, ao qual se impede o exercício do ministério, obrigando-o ao retiro da vida pública (27 de Maio de 2005) e Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo (obrigado, em Maio de 2006, então octogenário, a «uma vida reservada de oração e penitência, renunciando a qualquer ministério público») (...) Ratzinger não queria perder tempo diante das «imundícies» da Igreja, como havia escrito por ocasião da Sexta-Feira Santa de 2005. Tais decisões não expressam apenas um impulso reformador do começo do seu pontificado, já que são os primeiros movimentos de uma perspectiva que atravessará efectivamente todos os seus anos de Governo. De facto, há que atribuir ao próprio Papa os retoques de transparência da Cúria e da Igreja em tal âmbito, superando as preocupações «pelo bom nome da Igreja e para evitar escândalos» (...) Em 2010, tenta individuar as raízes socioculturais dos abusos, que são reconhecidas na secularização: afastamento dos sacramentos, debilitamento da vida de oração e a tentação de adequar-se ao pensamento da sociedade moderna por parte dos sacerdotes e consagrados.

Roberto Regoli, El Pontificado de Benedicto XVI. Mas allá de la crisis de la Iglesia, Encuentro, 2018, pp.164-165. [tradução minha]

P.S.: neste livro, as declarações do Papa no avião que o transportou a Lisboa em 2010 são sublinhadas, nomeadamente a ideia de que os principais inimigos não estão no exterior da Igreja, mas procedem do pecado da mesma (do seu interior) e que o perdão não substitui a justiça. 
Nesta obra, dá-se também conta daquele que terá sido o momento talvez mais infeliz durante o Pontificado de Bento XVI - como aliás o próprio reconhecerá em entrevista a Peter Seewald. Roberto Regoli descreve assim esse momento: "Nos mesmos dias da remissão da excomunhão [dos lefevbrianos], outro evento catalisa, monopoliza e tergiversa o sentido da discussão. A televisão sueca, precisamente a 21 de Janeiro de 2009, difunde uma entrevista (realizada previamente em Novembro) de mons. Richard Williamson, um dos quatro bispos da Fraternidade (que havia entrado nela procedente directamente do anglicanismo), com conteúdos negacionistas sobre as câmaras de gás e sobre uma notável diminuição di número de judeus mortos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial". À tentativa de unidade na Igreja, sucedia, naturalmente, um clamor pela reunião de uma Fraternidade que tinha gente desta, com o Papa a não ser informado, e a sentir-se alvo deliberado, daquela entrevista prévia e de semelhantes conteúdos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O Pontificado de Bento XVI - para uma síntese (II)


O primeiro sinal para o grande público de que se está a levar a sério o âmbito litúrgico ocorre a 22 de Fevereiro de 2007, quando se publica uma importante Exortação Apostólica do Papa sobre a liturgia, Sacramentum Caritatis (...) O documento, eminentemente teológico, toca também aspectos mais ordinários referidos à celebração litúrgica: o respeito [devido] aos livros litúrgicos, aos gestos e silêncios, às palavras, aos cantos, aos movimentos do corpo e às cores litúrgicas dos paramentos. Toma posição sobre a arquitectura sacra (que deve saber dar unidade aos elementos próprios do presbitério), na música litúrgica (valorizando o canto gregoriano), à estrutura da celebração litúrgica (da homilia bem preparada ao intercâmbio sóbrio da paz, e não só), até à denúncia dos abusos litúrgicos e à proposta de novo do latim, sobretudo em ocasião de reuniões internacionais e na formação litúrgica dos seminaristas. A revalorização do latim durante o Pontificado beneditino recebe diversas reacções, que vão desde o apreço (...) à incompreensão (pp.122-123) (...) Em qualquer caso, entre 2007 e 2010, as principais petições de celebração do rito romano antiquiori referem-se à Europa, América do Norte e Austrália, em segundo lugar a alguns países da América Latina, e muitos poucos de Ásia e África (p.125) (...) A reforma litúrgica também passa pelos gestos. Nas liturgias papais, a partir de 2008, Bento XVI não distribui a comunhão na mão, mas diretamente na boca, a pessoas em cadeiras de roda. Sobretudo esta última postura é característica da visão litúrgica do Pontífice: Deus presente no sacramento e para adorar. O conjunto de estas mudanças litúrgicas visa incluir principalmente os tradicionalistas, unindo-os, sem embargo, também às franjas mais criativas presentes no catolicismo (p.126). 

Roberto Regoli, El Pontificado de Benedicto XVI - Más allá de la crisis de la Iglesia, Encuentro 2018, pp.122-126 [tradução minha]


P.S.: durante o Pontificado de Bento XVI, apenas 2 teólogos vêem os seus escritos condenados: Jon Sobrino e Margaret A.Farley (pp.117-118). Se João Paulo II havia mostrado interesse pela história da santidade da sua própria nação polaca, sob Bento XVI apenas 10 beatos e santos são alemães. Com Ratzinger, continua a internacionalização da santidade (p.151). Pode mencionar-se a valorização teológica da busca de Lutero, sobre a qual Bento XVI ofereceu, na mesma ocasião, um juízo que não tem precedentes entre os Papas. De facto, Ratzinger apresenta Lutero como um buscador apaixonado de Deus, e precisamente de um Deus misericordioso (p.197).

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Abusos sexuais


Roberto Regoli aborda o problema dos abusos sexuais contra menores, fazendo referência a diferentes culturas: "em países de cultura confuciana, como o Japão ou a Coreia, é muito difícil falar publicamente de abusos sexuais. O elemento cultural é determinante. Em muitos países africanos, as raparigas casam-se e têm filhos entre os 14-16 anos; em Angola, os rapazes entre os 13 e os 16 anos são levados durante um ou dois anos a boy camps, nos quais são iniciados à sexualidade, incluindo aquilo que no Ocidente seria considerado um abuso" (p.162).

Para este passo do seu livro, Regoli louva-se nesta entrevista de Hans Zollner a John Allen Jr. (concedida a 16 de Fevereiro de 2013, para o Catholic National Report, sendo que há uma pequena nuance: na entrevista, Zollner diz, a propósito dos acampamentos de rapazes em Angola, "há ritos de iniciação para meninos", enquanto no livro de Regoli escreve-se "os rapazes entre os 13 e os 16 anos são levados". A nuance de "os rapazes" é que, tal formulação, pode sugerir uma "universalidade" que a expressão da entrevista não parece conter).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O pontificado de Bento XVI - para uma síntese


Com Bento XVI, dá-se uma novidade na linguagem pontifícia. Pela primeira vez na história, um Papa escreve e fala publicamente não só a partir da sua cátedra, mas também como pessoa privada. É o caso dos livros sobre Jesus, que a propósito levam a assinatura não só de «Bento XVI» mas também de «Joseph Ratzinger». Sobre estes seus escritos, o Papa pede liberdade de opinião, incluindo crítica aberta. Observa-se que é um catedrático aberto à confrontação e sem temor às opiniões diferentes. Trata-se de uma nova forma de comunicar, tanto com católicos como com os diversos crentes e não crentes. Na renovação da comunicação pontifícia é de assinalar também a entrevista publicada em 2010 de Peter Seewald (trata-se da primeira entrevista «directa e pessoal» de um Papa), que se insere na modalidade comunicativa dos seus predecessores (que, sem embargo, adoptou a técnica da pergunta e resposta escrita) e também a herança dos diálogos de Paulo VI com Jean Guiton (que, certamente, não são entrevistas e na intenção do Papa não deviam ser públicas). (...)
O Papa no conjunto do seu discurso de Magistério propõe um «cristianismo essencial, puro, não sobrecarregado de super-estruturas. Uma fé íntima vivida concreta e publicamente». Quer fazer superar a percepção pública de um catolicismo reduzido a normas e a proibições, e para isso quer apresentar o seu coração no conceito de Deus-amor: Deus Caritas Est, que será o título da sua primeira encíclica (25 de Dezembro de 2005). O Papa recorda que na origem da fé está precisamente um acto de amor, o encontro com Cristo, como de facto escreve no primeiro parágrafo da encíclica: «Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande ideia, mas sim pelo encontro com um Acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com ele, uma orientação decisiva». Apresenta uma imagem fascinante e pacífica do cristianismo. Apresenta um cristão [como aquele] que elege a via da caridade com um compromisso prático em uma comunidade de amor, que é a Igreja. O crente ama quando não se busca a si mesmo, mas quando cuida do outro, sabendo ademais sacrificar-seSó em Itália, em apenas dez dias, a encíclica vende um milhão de cópias
A segunda encíclica, Spe Salvi (30 de Novembro de 2007), toca um tema fundamental da fé cristã:a esperança. Da reflexão teórica passa-se a um exercício concreto. Trata-se de um texto que toca a escatologia, quer dizer, a grande esperança cristã da vida eterna. O Pontífice vai contra a secularização da esperança, para revalorizar nela o seu significado cristão profundo
Na mesma linha, publica-se, a 29 de Junho de 2009, a encíclica social Caritas in Veritate, que busca redefinir as relações económicas, produtivas e financeiras segundo o bem comum universal, ancorado na ética da responsabilidade e na justiça social, seguindo-se a solidariedade e a subsidariedade. No texto, o Papa afirma estar a propor uma visão «de que há uma normatividade do amor ao próximo que se orienta pela vontade de Deus e não apenas pelos nossos desejos». À encíclica são dirigidas algumas críticas a partir do ambiente chamado «teo-con» norte-americano, em relação a passagens [do texto] nas quais o Papa fala do mercado (com reflexões sobre «o dano que as transferências de capitais ao estrangeiro com ganância exclusivamente pessoal pode produzir à própria nação», n.40) e da globalização (com a crítica «às reduções das redes de segurança social», n.25). O problema está no facto de que, se em Centessimus Annus [encíclica de João Paulo II] o capitalismo era integrado na visão católica, agora «o novo texto Pontifício mostra-se mais cauto e inclusivamente aventa algumas críticas» [citação que remete para o livro de Paolo Rodari e Andrea Tornielli, Attaco a Ratzinger...] 
Algumas críticas à proposta da encíclica (particularmente a segunda parte) vêem também da «esquerda» (Paolo Prodi). Mas, de facto, as adesões [à encíclica] são muito mais transversais e de amplo leque.
Nesta apresentação do rosto belo da Igreja entra o projecto pessoal do Papa de apresentar o único rosto da Igreja, que é o de Cristo, e por isso escreverá e publicará três volumes sobre Jesus de Nazaré. O desafio para a Igreja, hoje, é fazer redescobrir Deus e por isso também a nível pessoal [o Papa] se sente implicado, e assim se dedica ao melhor que sabe fazer: escreve, escreve como Papa e Professor. (...) Sobre isto, sente uma responsabilidade pessoal, como confessará a Peter Seewald: o Papa é «o responsável pela manutenção da fé que mantém os homens unidos, [para] que siga viva e permaneça intacta na sua identidade». A grande tarefa do Papa, como da Igreja, é «colocar novamente Deus em primeiro lugar». Para o Pontífice, os crentes necessitam de «ilhas, em certo sentido, nas quais a fé em Deus e a simplicidade interior do cristianismo estejam vivas e irradiem; oásis, arcas de Noé nas quais o homem possa refugiar-se sempre de novo». (...) E o Pontificado de Ratzinger conjugará o tema da fé numa visão harmonizada com a razão; a relação entre as duas converte-se, em tantos e numerosos textos, na preocupação fundamental do pontificado.

Roberto Regoli, El Pontificado de Bento XVI. Mas allá de la crisis de la Iglesia, Encuentro, 2018, pp.105-106 e 112-114.


P.S.: neste livro, escreve-se também que os quadros da Cúria e adjacências, até João Paulo II, advinham, quase sempre, de diferentes regiões de Itália (eram "quadros regionais"); com a eleição do Papa polaco, passaram a emergir quadros que se alinhavam pela nacionalidade do novo Pontífice ("quadros nacionais"); por sua vez, com Bento XVI, a recomposição da Cúria, dos Dicastérios teve por base uma rede de ex-alunos, colaboradores e amigos de Ratzinger (p.62).
Talvez alguns não tenham notado, mais Bento XVI foi o primeiro Papa a pedir (aos fiéis) que rezassem por ele, após a sua eleição (p.53).
O livro confirma uma auto-crítica que Bento XVI realizou no último livro de entrevistas com P.Seewald: "se Bento XVI segue minuciosamente os dossiers, tem mais dificuldades para seguir as pessoas" (p.73). Não gostava de ser o centro das atenções (p.116).