Aqui, esforça-se por criar a unidade entre o que deseja e
o que possui; entre o que deveria ser e o que é; entre a sua alma e a Natureza;
entre o corpo e o espírito. Tais são as formas e as imagens a que a Arte dá origem,
e que não se propõem nem ensinar, nem
moralizar. Nunca um artista verdadeiro
teve diante dos olhos um objectivo didáctico ou ético. Na arte ele só busca a solução do conflito íntimo que o corrói, só
ambiciona trazer ao mundo da representação, à luz clara da expressão plástica,
a vida superior que entrevê em sonho e de que a realidade lhe não oferece senão
uma aproximação. Não pretende outra
coisa que não seja libertar, exteriorizando-os, o seu ser e o seu sonho, senão
projectar a exterior, na forma, a verdade interior. E, por seu turno, o
espectador não deve, diante duma obra de arte, desejar senão descansar nela,
respirar nela, mover-se livremente nela, nela tomar consciência do melhor de si
mesmo, e entrever nela o cumprimento e a realização da sua mais íntima
nostalgia. Nunca deve buscar nem ensinamento nem matéria de edificação ou de
reflexão.
Muito mais ainda do que a Arte faz a liturgia, pois
oferece ao homem a possibilidade e a ocasião de realizar verdadeiramente -
levado pela Graça - a sua essência, de ser plena e totalmente o que deve ser,
se é fiel ao seu destino divino: "filho de Deus". Na liturgia pode
diante de Deus "alegrar-se da sua juventude". Há, aqui, decerto, algo
de sobrenatural mas que, justamente pelo carácter de sobrenatural, responde ao
mais íntimo da nossa natureza. E, porque esta vida é mais elevada do que a que
pode projectar-se na realidade quotidiana, tira as harmonias e as formas, que
lhe correspondem, ao único domínio onde as encontra: à Arte. Ela fala pela voz
da melodia ou do ritmo; move-se com gesto lento e hierático; veste-se de cores
e de vestes que não pertencem à vida habitual; escolhe, para se realizar, datas
e locais, ao arranjo e estrutura dos quais presidiram leis superiores. No
sentido mais elevado do termo, é uma vida de criança na qual tudo e imagem,
dança e canto.
Eis pois a magnífica realização que a liturgia nos
oferece: a Arte e a Realidade conciliadas e fundidas na Infância da
Sobrenatureza sob os olhares de Deus. O que até ao presente não tínhamos
encontrado senão no reino do irreal, no mundo da representação artística, a saber,
a forma estética convertida em tradução expressiva da vida humana -
transmudou-se agora em realidade.
Mas esta vida nova tem de comum com a da Criança e com a
da Arte, o não estar dependente de nenhum critério utilitário. Em compensação
está inteiramente repleta do mais profundo sentido.
Não é trabalho, é jogo.
Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada
qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia.
(cont.)