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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Um bordão

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Numa carta de Martin Heidegger para Hannah Arendt, a 8 de Maio de 1925 [na edição da Guerra e Paz, 2017, com tradução de Marco Casanova e adaptação para o português de Portugal de Helder Guégués, Cartas 1925-1975, p.30]: 

Seguir silenciosamente junto de ti, sentir a tua adorável mão e o teu grande olhar...Não perguntar para quê e porquê, mas apenas «ser».


[na frase que sublinhámos a negrito, um dístico que Romano Guardini remetia como essência da liturgia, um bordão que Tolentino de Mendonça nos recorda, sobre a vida, com assiduidade]

terça-feira, 23 de junho de 2015

Só para coleccionadores



Agora que a Quetzal reúne crónicas sobre futebol escritas por Dinis Machado, vale a pena dizer que o jogo mereceu já, felizmente, tratos requintados, de calcanhar ou de chilena, por parte de alguns reconhecidos literatos. Recordo, aqui, o clássico de Eduardo Galeano, Futebol a sol e sombra.

O futebol

A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. À medida que o desporto se fez indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar porque sim.
Neste mundo do fim do século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. A ninguém lhe dá a loucura que faz com que o homem seja criança por um instante, jogando como joga a criança com o globo e como joga o rato com o novelo da lã; bailarino que dança com uma bola leve como o globo que vai pelo ar e o novelo que roda, jogando sem saber ao que joga, sem motivo e sem relógio e sem árbitro.
O jogo converteu-se num espectáculo (…) que não se organiza para jogar mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do desporto profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia.
Por sorte, todavia aparece nos estádios, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado cara suja que sai do libreto e comete o disparate de fintar toda a equipa adversária, e o árbitro, e o público das tribunas, pelo puro gozo do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade.

Eduardo Galeano

[tradução nossa]

[este texto permitir-nos-ia reflectir sobre o futebol de Mourinho, Ronaldo e, claro, olhando para o último parágrafo, sobre Messi; mas é a analogia com o jogo na liturgia que Guardini promove que fito em um primeiro instante, nessa liberdade absoluta a que nos convoca]

domingo, 27 de outubro de 2013

Romano Guardini e "o espírito da liturgia" (V)



Aqui, esforça-se por criar a unidade entre o que deseja e o que possui; entre o que deveria ser e o que é; entre a sua alma e a Natureza; entre o corpo e o espírito. Tais são as formas e as imagens a que a Arte dá origem, e que não se propõem nem ensinar, nem moralizar. Nunca um artista verdadeiro teve diante dos olhos um objectivo didáctico ou ético. Na arte ele só busca a solução do conflito íntimo que o corrói, só ambiciona trazer ao mundo da representação, à luz clara da expressão plástica, a vida superior que entrevê em sonho e de que a realidade lhe não oferece senão uma aproximação. Não pretende outra coisa que não seja libertar, exteriorizando-os, o seu ser e o seu sonho, senão projectar a exterior, na forma, a verdade interior. E, por seu turno, o espectador não deve, diante duma obra de arte, desejar senão descansar nela, respirar nela, mover-se livremente nela, nela tomar consciência do melhor de si mesmo, e entrever nela o cumprimento e a realização da sua mais íntima nostalgia. Nunca deve buscar nem ensinamento nem matéria de edificação ou de reflexão.
Muito mais ainda do que a Arte faz a liturgia, pois oferece ao homem a possibilidade e a ocasião de realizar verdadeiramente - levado pela Graça - a sua essência, de ser plena e totalmente o que deve ser, se é fiel ao seu destino divino: "filho de Deus". Na liturgia pode diante de Deus "alegrar-se da sua juventude". Há, aqui, decerto, algo de sobrenatural mas que, justamente pelo carácter de sobrenatural, responde ao mais íntimo da nossa natureza. E, porque esta vida é mais elevada do que a que pode projectar-se na realidade quotidiana, tira as harmonias e as formas, que lhe correspondem, ao único domínio onde as encontra: à Arte. Ela fala pela voz da melodia ou do ritmo; move-se com gesto lento e hierático; veste-se de cores e de vestes que não pertencem à vida habitual; escolhe, para se realizar, datas e locais, ao arranjo e estrutura dos quais presidiram leis superiores. No sentido mais elevado do termo, é uma vida de criança na qual tudo e imagem, dança e canto.
Eis pois a magnífica realização que a liturgia nos oferece: a Arte e a Realidade conciliadas e fundidas na Infância da Sobrenatureza sob os olhares de Deus. O que até ao presente não tínhamos encontrado senão no reino do irreal, no mundo da representação artística, a saber, a forma estética convertida em tradução expressiva da vida humana - transmudou-se agora em realidade.
Mas esta vida nova tem de comum com a da Criança e com a da Arte, o não estar dependente de nenhum critério utilitário. Em compensação está inteiramente repleta do mais profundo sentido.
Não é trabalho, é jogo.
Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia.
 
(cont.)
 
 

domingo, 13 de outubro de 2013

Romano Guardini e o "espírito da liturgia" (III)



Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.
 
 
A diferença é a mesma que existe entre a antiga palestra, onde cada movimento, cada instrumento, é calculado, e a floresta livre, os espaços livres da planície, onde o homem vive e cresce na Natureza e com ela, em ligação com ela. A liturgia cria um vasto mundo animado interiormente pela circulação da mais abundante e mais rica espiritualidade e dá liberdade à alma para aí se mover e desdobrar. A abundância de orações, de actos, de pensamentos, o enquadramento cronológico do ano, a complicação do calendário, etc., tudo isto se torna incompreensível, se o submetermos apenas ao critério da utilidade rigorosa. A liturgia não conhece fim útil" ou pelo menos não pode ser compreendida nem abarcada do só ponto de vista do fim "útil". Não é meio que se empregue para alcançar objectivo determinado. O seu fim - ao menos até certo ponto - é ela própria. Segundo o sentimento da Igreja, a liturgia não deve ser considerada como verdadeira fase, como caminho para um termo situado fora dela, mas sim como um mundo de vida que estriba sobre si mesmo. Isto é importante. Por falta de bem o compreender, esforçamo-nos por encontrar na liturgia toda a sorte de intenções formativas e educativas, que de algum modo nela podem ser introduzidas, mas que lá não estão primitivamente.
Na verdade, há uma razão primeira e capital em virtude da qual a liturgia não pode conhecer fim útil; é que a sua razão de ser é Deus e não o homem. Na liturgia o homem concentra o olhar, não em si, mas em Deus. Não pensa em se formar ou aperfeiçoar; mas todo se volta para o esplendor de Deus. O sentido da liturgia, para a alma, consiste em estar diante de Deus, em desabafar livremente na sua divina presença, em viver no mundo sagrado das realidades, das verdades, dos mistérios e dos sinais divinos, em viver a vida de Deus, que é simultaneamente a vida própria do cristão, vida verdadeira e profunda.
Lemos na Escritura dois passos de notável profundidade que ilustram de maneira definitiva esta questão. O primeiro encontra-se na visão de Ezequiel. Pôr-se-á a questão do "fim útil" para aqueles querubins de fogo que " vão para onde o Espírito os impele... que se não voltam para trás enquanto andam... que vão e vêm como o relâmpago... que vão... e param e se levantam da terra... cujo bater das asas se assemelha ao ruído das torrentes... cujas asas baixam logo que se detêm"? O exemplo destes querubins não deveria desanimar os nossos modernos zeladores, sempre e em toda a parte à espreita do fim útil? Eles são movimento, puro movimento, magnífico e potente movimento, que se desdobra consoante o Espírito o anima e impele,—movimento que não pretende ser mais do que a expressão do Sopro do Espírito, a revelação exterior da Chama e da Força interiores.
Eis a imagem viva da liturgia.
 
(cont.)
 
 

domingo, 29 de setembro de 2013

Romano Guardini e 'o espírito da liturgia'


'O' texto, sobre a liturgia:




Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.

 

Para certas naturezas fortes e viris que, desde a origem, tenderam com todo o esforço de suas vidas para a conquista da Verdade e não vêem da vida e do mundo mais do que a face ética, e procuram por toda a parte na existência o fim que devem alcançar, há na liturgia uma dificuldade de ordem muito peculiar. Afigura-se-lhes ser algo de inútil, uma espécie de pompa supérflua, de criação artificial, complicada e sem objecto. E sentem-se ofendidos e escandalizados pela minúcia com que a liturgia regula o pormenor do desenrolar dos ofícios e das cerimónias, a ordem que preside ao desenvolvimento das mesmas, a orientação - à direita e à esquerda - dos gestos, o tom da voz, que deve, segundo os casos, ser elevada ou baixa. E perguntam para que serve toda esta farfalhice? O essencial da Missa, do Sacrifício e da Comunhão pode reduzir-se a umas quantas linhas tão simples, que não se chega a compreender a razão do estendal de tantos ritos e cerimónias. Se bastam umas poucas palavras para as consagrações essenciais da vida religiosa, se a dispensação dos Sacramentos pode ser feita com tanta simplicidade, de que utilidade são todas estas complicações, todos estes usos exteriores?
Às naturezas desta categoria a liturgia parece facilmente ser uma como que "montagem de teatro".
Esta questão não pode ser desprezada. Nem ao espírito de todos ela se põe. Mas quando a vemos surgir, é indício dum temperamento sério e reflectido que busca o fundo das coisas.
Relaciona-se com outra questão de ordem mais geral, que é a questão de utilidade, de finalidade prática.
Chamamos finalidade prática ao princípio de ordem que subordina certos objectos e actos a outros objectos e a outros actos, que faz que um objecto se oriente para outro, o qual se torna a razão de ser do primeiro. O princípio subordinado, o meio, só tem valor na medida em que se revela apto para servir os interesses do princípio sobreordenado, ou seja do fim. O ser agente não descansa nem permanece ai; esta fase não e, a seus olhos, mais do que uma passagem, um caminho em direcção ao fim, no qual apenas encontra repouso. O critério do meio encarado através deste prisma será a aptidão para se dirigir ao alvo. Tudo quanto aí não conduz directamente, todo o acessório, todo o supérfluo, será impiedosamente sacrificado. Nesta empresa retintamente objectiva entrará em acção o princípio económico da lei do menor esforço, do menor consumo de tempo e de matéria. O estado de alma concomitante será naturalmente caracterizado por certa impetuosidade de acção tensão violenta de todas as energias, pela mais determinada objectividade.
Tal estado de espírito tem indiscutível utilidade na economia geral da vida a qual transmite seriedade e rigor de direcção. Podemos afirmar que corresponde eminentemente ao real, pois que, na verdade, todas as coisas na existência prática são, duma maneira ou doutra, sujeitas ao critério de utilidade. Por exemplo, toda a vida económica e técnica dele depende. Mas há outras manifestações da vida, que dependem muito menos, ou só parcialmente e mesmo até muito pouco. De nenhuma seria justo asseverar que é passiva, inteira e exclusivamente, deste critério. Precisemos. O princípio que dá às coisas, e aos factos, o direito à vida e que legitima a natureza particular das mesmas, não é muitas vezes mais do que a sua adaptação a um fim prático. Poderemos admitir, por exemplo, para as folhas e flores um fim desta ordem? Umas e outras constituem decerto órgãos vitais da planta; mas não foi de maneira nenhuma o fim prático delas que presidiu à escolha da forma que têm, da cor ou do perfume específico. Por conseguinte, a que fim responde a imensa prodigalidade, o estupendo esbanjamento de formas, de cores e de perfumes que a Natureza oferece? A que responde a diversidade das espécies? Tudo isso se poderia executar muito mais simplesmente. A natureza inteira poderia estar cheia de seres cujo progresso ficasse assegurado de maneira muito mais rápida e "prática". O critério da utilidade, integral e uniformemente aplicado ao reino da Natureza, é singularmente contestável. Podemos ainda alargar a questão: qual a utilidade particular desta ou daquela espécie do reino vegetal ou animal? Bastará acaso responder que uma espécie serve de alimentar a outra? Seria esta uma justificação muito insuficiente. Somos levados a concluir que na ordem da Natureza considerada no seu conjunto em nenhuma parte o critério da finalidade prática se aplica de maneira absoluta e que em muitos casos só se aplica em fraca medida. Vistas através deste prisma muitas coisas não têm utilidade prática absolutamente nenhuma. Outro tanto não sucede numa construção técnica numa ponte ou máquina ou ainda numa empresa comercial na burocracia do Estado onde tudo pelo contrário aparece como que subordinado ao princípio do fim prático. No entanto também aqui a utilidade prática não basta para dar uma resposta satisfatória à questão do direito à existência.
Se quisermos penetrar mais fundo na realidade que nos é proposta precisamos de recuar para mais longe o ângulo de perspectiva. O conceito de utilidade situa o centro de gravidade do objecto fora deste último. Concebe-o como uma passagem uma fase num movimento que segue adiante quero dizer que se dirige ao termo. Ora cada objecto é ao mesmo tempo que corresponde a um fim igualmente uma coisa que estriba em si própria que é o fim de si própria. Muitos objectos quase não são mais do que isto. Pelo que melhor empregaremos aqui o termo sentido (Sinn). Com efeito tais objectos se não têm utilidade no valor estrito do termo têm um sentido. Este sentido cumprem-no não procurando um efeito situado fora deles contribuindo para a produção de alguma coisa que lhes é alheia mas pelo só facto de serem o que são. Vazios de utilidade são, e no rigor do termo, cheios de sentido.
Utilidade e sentido são as duas formas que pode revestir o direito à existência. Sob o ângulo da utilidade o objecto insere-se numa ordem que o ultrapassa; sob o ângulo do sentido repousa em si mesmo.

(cont.)