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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Rousseau e o problema do mal


Apesar de a «profissão» argumentar contra as formas tradicionais de autoridade religiosa, defendeu claramente a fé tradicional na Providência. O motivo de Rousseau para a afirmação dessa fé foi claro: deve haver recompensa e castigo noutro mundo, ou as desgraças neste haviam de ser demasiadas para poderem ser suportáveis.(...) É justo dizer que Rousseau foi o primeiro a tratar o mal como um problema filosófico - e a propor a primeira coisa que se aproximou de uma solução. 
Antes de Rousseau, os pensadores  eram obrigados a tomar uma de duas posições. Declarar que este mundo é o melhor é considerar todos os males como fundamentalmente aparentes: qualquer coisa que consideremos um mal é de facto uma parte necessária de uma obra maior. Leibniz pensou que um dia acabaríamos por percebê-lo, mas Pope achou que não. Concordaram, no entanto, em que há uma ordem na qual tudo o que se parece com o mal leva ao bem de forma mais generalizada. Daqui resulta que nenhum mal particular é genuíno. (...) Esta era a chamada «doutrina do optimismo», e muitos pensavam que deu uma má reputação aos optimistas. (...) Foi o que expressou Rousseau (...): Negar a existência do mal é a maneira mais conveniente de desculpar o autor desse mal; os estóicos, antigamente, expuseram-se ao ridículo por menos. (...) Rousseau também observou que estas doutrinas levavam ao quietismo. (...) Na realidade, qualquer acção podia ser considerada ímpia. (...) Aqueles que admitiram que os males são genuínos descobriram que eles desafiam literalmente qualquer explicação. Não só todos os recursos do raciocínio falham ao explicá-los, mas além disso a persistência do mal faz-nos duvidar das capacidades do próprio raciocínio. (...) Antes de Rousseau, em suma, havia apenas duas opções: ou o mal não é um problema, ou não há qualquer resposta a dar-lhe.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.57-58.

*Para Rousseau, são os humanos que causam o mal, mas um mal societário, um mal que pode ser resolvido. Se atentarmos historicamente, veremos como o mal foi surgindo e como é possível procurar resolvê-lo (colectivamente). Sim, há uma consequência (um mal natural no reino político e social) de um mal moral (humano).  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Sínteses - o mal no pensamento moderno


*Susan Neiman entende que a filosofia dos séculos XVIII e XIX foi guiada pelo problema do mal;
*A distinção entre mal natural (como o que acontece sem o concurso humano, como no caso de terramotos) e mal moral (aquele no qual o humano é decisivo para que o mal aconteça) desenvolveu-se no decurso deste debate (e, olhando agora, o que distingue, de forma abismal, Lisboa de Auschwitz);
*Do Iluminismo até ao presente, dois tipos de perspectiva, independentemente do tipo de mal em causa: de Rousseau a Hannah Arendt, a posição de que a moral nos obriga a tornar o mal inteligível; de Voltaire a Jean Améry, a noção de que a moralidade nos obriga a não o fazer. Susan Neiman simpatiza, sobretudo, com o primeiro destes dois pontos de vista.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Hobbes, Rousseau, ou os dois

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A maioria dos seres humanos consegue, na verdade, ser brutal, selvagem, dissimulada, interesseira, nobre, tola, inocente e adorável. Ninguém consegue ser tudo ao mesmo tempo, embora haja quem tente. As visões sombrias ou soalheiras da Humanidade continuam intactas na erudição contemporânea.

António Damásio, A estranha ordem das coisas, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2017, p.308

sábado, 16 de setembro de 2017

O problema do livre-arbítrio, segundo Luc Ferry


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Reforça-se: para o filósofo Luc Ferry, a felicidade tem um carácter antinómico, isto é, o que nos faz felizes é também responsável pelos momentos de infelicidade. Reparemos na liberdade: como poderíamos ser felizes na servidão? Mas, sendo a liberdade a opção de escolha entre diferentes hipóteses, muitas vezes verdadeira e terrivelmente dilemáticas, estar perante essa decisão é, em si mesmo, causa de infelicidade. Neste âmbito, Ferry começa por colocar o binómio felicidade/liberdade como pólos alternativos: prefiro ser feliz, mesmo que à custa da liberdade (não é que esta última não seja relevante, mas na ordem dos valores, podemos, eventualmente, concebê-la num plano secundário), ou prefiro ser livre, ainda que à custa da felicidade? Entre os autores que se situariam na primeira das opções, de acordo com este pensador, estariam, de modo mais ou menos controverso segundo interpretações diversas - e penso em especial nos campos em que Ferry coloca Hans Jonas ou Rousseau - Hobbes, Marx, a ecologia política - é citado Hans Jonas); entre os que se filiariam na segunda das opções, estariam Rousseau, Kant, Tocqueville.
Em nome da felicidade (Hobbes), da sabedoria (Espinosa) ou da serenidade (Nietzsche) fomos tendo, inclusive, a pura e simples negação da existência da liberdade (livre-arbítrio). Ferry concede: "a liberdade e a responsabilidade são fardos, factores incontestáveis de perturbação, que nos impedem de andar à roda [dançar]". E isto porquê? "Desde que eu esteja convencido de que o mundo poderia ser diferente do que é, que eu poderia ter agido de forma diferente no passado ou que deveria corrigir o tiro no futuro, então é certo que a perturbação se instala na minha vida. Digamos as coisas francamente: o sentimento da liberdade, a convicção de que existem possíveis, de que o curso do mundo poderia ser outro, pode deixar-nos acordados durante a noite, estragar-nos o sono" (p.147). O facto de a liberdade poder ser perturbadora é motivo suficiente para a considerarmos inexistente? "Será isso uma razão para negar a nossa liberdade? Duvido, e, sem a menor hesitação, se eu tiver de escolher entre a felicidade e a liberdade, opto, seja qual for o custo, pela segunda, sem entrar sequer no debate metafísico sobre o seu carácter ilusório ou não, pois o debate que desde sempre opõe o kantismo e o espinosismo parece-me impossível de decidir, «infalsificável», como dirá Popper. Pelo que estou convencido de que a única categoria filosófica que nos permite pensar de maneira adequada as relações da liberdade e da felicidade é a do trágico no sentido que os gregos tinham dado a este termo. Porque o trágico designa em primeiro lugar os dilaceramentos do mundo engendrados pelas nossas escolhas livres e resolutas, dilaceramentos que, decerto, arruínam a vida de quem os vive, mas são inseparáveis daquela liberdade sem a qual eles já não se considerariam mais como seres humanos dignos desse nome - pelo que o exercício do seu livre-arbítrio soberano tem primazia sobre a preocupação com o seu bem-estar" (pp.147-148)

Luc Ferry, Sete lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Representação



Sobre o modo como os deputados portugueses decidiram interpretar os resultados das últimas legislativas, escreveu Pedro Norton um interessante ensaio na XXI - Ter opinião (nº7), no qual evidenciava o modo diverso como o mandato parlamentar pode/foi sendo ao longo dos tempos interpretado: i) "o primeiro é o modelo trustee ou do fiduciário. Neste modelo, o eleito, enquanto fiduciário, é investido com a responsabilidade formal de zelar pelos interesses do eleitor. Tem nesse sentido um enorme grau de autonomia e pode, no dizer de Norberto Bobbio, agir por conta dos seus representados, interpretando, segundo o seu critério, os interesses deles. Representa-os sem qualquer vínculo de mandato imperativo. A este tipo de formulação da representação subjaz, não é possível negá-lo, uma concepção elitista ou 'burguesa' da democracia. No limite, dirão os críticos, não estamos aqui muito longe de uma concepção platónica da democracia, com os seus magistrados e reis filósofos a decidir o que as massas ignaras não podem decidir por elas (dando de barato que existe um nexo causal entre educação e capacidade de discernimento do interesse próprio) (...) Estes eleitos, autónomos e sem nenhum mandato imperativo, devem representar os interesses gerais e não os interesses particulares (ou corporativos) dos seus representados (...) A autonomia não poderia rimar com a defesa de interesses demasiado específicos" (p.30); ii) "o segundo modelo de representação é o modelo do delegado. Um delegado é alguém que é escolhido para agir em nome de outrem com base num mandato muito preciso e muito claro. O eleito tem de ser uma 'extensão' do eleitor. Pensa pela cabeça deste e não tanto pela sua (...) A expectativa subjacente é que se comporte de acordo com as instruções do eleitor e que actue, como um embaixador, em seu nome e de acordo com as suas instruções. Volto a Bobbio. O eleito "será pura e simplesmente um porta-voz, um mensageiro, um legado, um enviado dos seus representados, e o seu mandato será assim extremamente limitado e revogável ad nutum. A este tipo de formulação do mandato costuma estar associada uma representação de interesses particulares ou corporativos dos eleitores" (pp.30-31). Ora, se Edmund Burke pode ser associado à primeira das concepções de representação, já Thomas Paine e Jean Jacques Rousseau podem ser vinculados à segunda. Neste sentido, nas reacções aos resultados das últimas legislativas, e no que isto significou de interpretação do mandato parlamentar, esquerda e direita portuguesas teriam invertido os papéis histórica e ideologicamente mais próximos dos seus (com a esquerda a assumir o modelo trustee e a direita a postular uma concepção de delegado).
Se, contudo, deixarmos o caso português, e pensarmos no Reino Unido dividido quanto à questão do Brexit, e se, como explicava Gonçalo Almeida Ribeiro num recente Prós e Contras (04-07-2016), cabe ao Parlamento (numa democracia com constituição não escrita e supremacia parlamentar, como é a do U.K.) a solicitação para as negociações, com a UE, com vista à saída do Reino Unido da União Europeia, podemos aquilatar como, de novo, a equação do papel do representante é determinante: não propriamente porque o resultado do referendo não seja juridicamente vinculativo, mas muito mais porque a quando de uma negociação com a UE os representantes terão de interpretar se aquele concreto acordo que se venha a formular respeita o resultado do Brexit (talvez, aqui, delegação), mas, ainda, e sem precludir, se  o acordo beneficia o interesse geral, o bem comum do Reino Unido (uma formulação que pode ser tida como elitista, mas que creio não poder ser descartada por esses mesmos representantes).

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ANALFABETOS DOS SENTIDOS




Para mim, foi uma estreia - a presença, durante a tarde de hoje, nas Correntes d'escritas, na Póvoa do Varzim. Cheguei a tempo da conferência inaugural, de José Tolentino de Mendonça, passei pela mini-feira dos livros acantonada à beira do Cine-Teatro Almeida Garrett onde decorrem os trabalhos, escutei um pouco a apresentação de livros numa sala contígua ao palco principal, regressei ao anfiteatro para o debate das 17h30, com Hélia Correia, Manuel Alegre e António Torres - ficando a faltar Eduardo Lourenço que, por doença (não grave) não veio. A conferência inaugural teve por título O silêncio dos livros. O debate até ao fim da tarde fez-se em torno de literatura e catarse. Sempre com a moderação (espirituosa não raro) de José Carlos Vasconcelos. Lugares completamente esgotados na sala (o que inclui os mais recônditos pousios, das escadas, aos camarotes sobrelotados e com bancos desconfortáveis, ou ao plano inclinadíssimo na zona cimeira da sala de espectáculos).

José Tolentino de Mendonça foi apresentado por José Carlos Vasconcelos como sendo "uma das vozes mais singulares e significativas da poesia portuguesa actual", gerando, não raramente, com as suas palavras, uma "grande perplexidade, até pelos lugares que ocupa". De resto, "a sua poesia é de uma grande riqueza e diversidade" alcançando no leitor "o maravilhamento da coisa de existir". Paradoxalmente, disse Vasconcelos, "a sua poesia recorda a de Alberto Caeiro".

Tolentino de Mendonça deixou, a principiar, uma senha, chave-de-leitura para o que se seguiria: a obra "A estética do silêncio", de Susan Sontag.
Principiou esta verdadeira oração de sapiência pela evocação de escritores que, a dado momento, abandonam a actividade literária. Rimbaud, eis o primeiro dos exemplos mencionados: de escritor passa a comerciante/traficante (na África do Norte). Mas pensemos, ainda, em Wittegenstein - o filósofo que abandona a actividade (filosófica) até aí prosseguida e passa a enfermeiro que presta auxílio aos militares. Tais abandonos, sublinha Tolentino, obrigam-nos a olhar "para o interior da escrita". De que material é feita?
Anna Akhmatova, que viu a sua vida (e dos seus mais próximos) torturada pelo jugo estalinista, deu conta de como a procura por um filho preso pelo regime do terror pode ser o lugar do indizível (de cadeia, em cadeia, sempre sem saber a sorte, nem se quer o local que lhe calhava, como que perdia a capacidade de expressar por palavras o que sentia). Portanto, há dimensões do humano que não são passíveis de serem ditas, escritas, traduzidas por palavras. Mas as palavras, no seu silêncio, podem manter vivas as perguntas.

O mote para a alocução seria o diagnóstico do filósofo Byung Chul-Han (em particular, pôde perceber-se, em A sociedade do cansaço) sobre a sociedade contemporânea no que esta tem de viragem do paradigma do imunológico para o de uma fadiga radicada no excesso de emoções, no acervo incontrolável de informação, na insaciável teimosia em nunca desligarmos (ou, com Pessoa, "de que estou cansado não sei e de nada me serviria saber, porque o cansaço ficaria na mesma"). Em este contexto, o do excesso de estimulação sensorial, cumpre, com efeito, "combater a atrofia dos sentidos" e retomar o caminho da sensibilidade. "Ah, se eu pudesse sentir!..." - eis o desespero contemporâneo.

Mas indaguemos, melhor, do que falamos quando falamos em atrofia.

a) A FORMA COMO LIDAMOS COM O SOFRIMENTO: há um "mito" que paira sob as nossas existências. O de que temos o "controlo da vida". Ora, pura e simplesmente, trata-se da "negação do princípio da realidade". Com tal pressuposto falacioso, a consequência é a de não estarmos preparados (equipados) para acolher "a irupção do inesperado". A dor, em esta cosmovisão que nos atravessa, é sempre vista como "tempestade estranha, tirânica". Somos completamente "capturados por ela". Há uma "combustão fechada" que se forma, "um incêndio íntimo que cresce" (aqui Marguerite Duras, em A dor, é agora a autora convocada). Ignoramos o que fazer. Precisamos de outros recursos para lidarmos com a dor. Ignoramos a melodia das coisas.

b) A ROTINA: a rotina começa por ser um "esforço de regulação", um positivo/favorável esforço de regulação. A vida seria impossível sem ela (o caos emergente). Só que esta virtude, esconde, contudo, um grave perigo: por vezes, "a rotina substitui-se à vida". Deixa de haver "lugar para a surpresa". A nossa vida passa para "piloto automático". Bem podem os dias ser novos (que adianta?). Sejamos claros: "a rotina não basta ao coração do homem". Intuímos, no fundo, que a nossa divisa deveria ser: "em cada dia, olhar tudo pela primeira vez", "cada instante como porta por onde entra a alegria".

c) EXCESSO DE COMUNICAÇÃO: segundo o maior estudioso das coisas da comunicação, McLuhan, com o excesso de comunicação, "o indivíduo passa a ser uma presa". Em especial, "um dos efeitos da TV é retirar a identidade pessoal". Passamos a ser, apenas, um "grupo colectivo de iguais". Perde-se a singularidade pessoal. No tempo em que vivemos, somos, pois, remetidos para uma "hipertrofia dos olhos e dos ouvidos" ("viste aquilo? Ouviste a última?"; de entre os sentidos são estes que mais, ou quase exclusivamente, são agora reclamados). Sentidos à distância (contrariamente a sentidos de proximidade, como o tacto ou o paladar (e nos nossos supermercados, o olfacto perde, tudo tende a tornar-se asséptico). Tenhamos consciência de que "não é assim em todas as culturas". A nossa "distância da natureza tornou-se tão grande" que, por exemplo, "deixamos de saber andar descalços", ou "acariciar vidas desprotegidas". Em suma, "tornamo-nos nos analfabetos emocionais que somos" - Ingmar Bergman.

O silêncio é a experiência humana mais profunda. Silêncio que os livros geram. Permite-nos reaprender a arte de ser, quer dizer, a arte de saborear, escutar, ver, olfactar. 

Em "Contra a Interpretação", Susan Sontag diz-nos que vivemos na "sociedade do comentário" (sendo que na sociedade portuguesa, da política ao futebol, passando pelo social, esta evidência atinge o paroxismo). Bem ao invés, os livros, no seu silêncio, carregam a vida nua, a possibilidade de experiência, a alfabetização dos sentidos. Numa palavra, "a literatura é uma máquina de gerar vida; de gerar presença e presente".

Em definitivo, concentremo-nos nos sentidos:

TACTO: desde a Antiguidade Clássica que se pensou ser o tacto o primeiro dos sentidos (apesar de, em Aristóteles, aparecer em terceiro lugar). E o livro, justamente, TOCA-NOS. Porque, na ordem da criação, em primeiro lugar, somos criaturas tácteis. O desenvolvimento dos sentidos terá começado no tacto (no feto). O tacto vem descrito como "o nosso primeiro olho". Ele permite que haja encontros: um tocar e um ser tocado. E olhemos as mãos com Rainer Maria Rilke: "as mãos são um organismo complexo, um delta onde desagua um rio que vem de muito longe". As mãos "têm direito próprio à sua beleza". E podem dizer uma biografia: "da forma como fomos tocados". O tacto "é um dicionário, um léxico".

O pintor catalão Miró teve um Mestre, Francisco Gali, que (em termos pedagógicos) arriscava por caminhos inesperados. Assim, colocava, nos discípulos, uma venda, para que estes tocassem o objecto (a desenhar) com os dedos (desenho a realizar, pois, não só com os olhos). O pintor, de outra forma, acreditava Gali, não conseguiria chegar à representação do mundo.

[verificámos, já, com o que vem dito, que sempre se procurou produzir uma hierarquia dos sentidos]

PALADAR: para S.Tomás de Aquino, o paladar era o mais perfeito dos sentidos. Para o autor, o tacto, o olfacto e o paladar são os sentidos inferiores - e, destes, o paladar é o mais limitado. Possui, muito escassamente, cinco categorias elementares. Já para Rousseau, "há milhentas coisas indiferentes ao paladar, ao olfacto, ao tacto, mas não ao gosto". Feuerbach questiona a divisão tradicional: também o paladar é elevado a acto científico e espiritual.
Em realidade, não são, hoje, raros "os primatólogos que atribuem ao paladar um papel-pivot no desenvolvimento humano". O desenvolvimento da cozinha terá permitido a expansão do cérebro ( e de aí, a composição das grandes sinfonias, ou as gravuras das cavernas).

VIVEMOS UMA MUDANÇA EPOCAL: COMPREENDEMOS QUE CARECEMOS DE UMA SABEDORIA MAIS INTEGRADORA. NÃO APENAS A MENTE (CONTA). Contamos o TODO QUE SOMOS. Há, pois, uma "maior consciência de nós próprios". Sabemos que sabor e saber - desde logo na sua origem latina - adquirem uma ressonância de grande proximidade. Segundo Ruben Alves, alunos e professores, por consequência, deviam passar, antes das aulas, por uma cozinha para tentar perceber a ligação saber-sabor (desejo).

OLFACTO: actua em nós como contacto fusional com o mundo. Há dimensões que se captam apenas pelo odor. Algo que é muito diferente da imagem. Cura-se, no olfacto, de "impregnação pura". Enquanto que na visão o objecto está fora de nós, no olfacto, exemplifique-se, quando sinaliza o perfume este já caiu sobre nós. Mais: na primeira semana de vida fora do ventre materno, o bebé já reconhece o cheiro da mãe. E é pelo olfacto que chegamos "à casa da nossa infância", "ao brinquedo" de outrora. "No reconhecimento de um odor, esperamos mais do que em qualquer outra representação" (Walter Benjamim). O cérebro reconhece 10 mil odores e este, o odor, "desperta sensações que nem sempre a linguagem reconhece".

AUDIÇÃO: o mundo que nos rodeia é completamente sonoro e, ainda assim, dele só captamos uma pequena parte. Pensemos, ilustrando, na capacidade auditiva dos animais: o elefante, até com as patas, capta som. Nossa limitação: 2 mil Hz. É a frequência mais aguda a que chegamos. Ora, a baleia azul emite sinais sonoros capazes de serem colhidos a centenas de quilómetros.
Escuta desinteressada do outro: não há, apenas, escuta com os ouvidos, mas também com o coração. E na escuta, escutar o quê, afinal: "Ouve, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo. Capta outra coisa que eu própria não consigo dizer" (Clarice Lispector). 

VISÃO: a luz viaja a 200 mil/km por segundo. A visão é a síntese de todos os outros sentidos: cores, profundidade, distância são-nos dados por esta. Segundo o poeta Tonino Guerra, tal como os crentes, os agnósticos também têm dúvidas. E, para este agnóstico em particular, nada o faz mais entrar em dúvida do que "o milagre absoluto que um olho é". O olhar remete para a reflexividade e, logo, para o binómio vidente/visível. O olho é fundamental, também, para o encontro com os outros e connosco mesmos. Essencial para nos lançarmos no mundo. Niculau de Cusa dedicou, num certo sentido, à visão um tratado, De visione Dei: o ângulo dos teus olhos à luz de Deus é infinito. As criaturas existem pela Tua visão. O ser das criaturas é o Teu ver e ser visto.

A literatura é uma "lente para nos olharmos melhor" (Marcel Proust). Leitura: com ela, fazemos uma experiência de vida que de outro modo não faríamos. Inscreve em nós uma brecha. Consegue introduzir lentidão (em nossas existências). Silêncio: escola de solidão. "Estamos sempre sozinhos com aquilo que amamos" (Truman Capote). A solidão fala, é polifónica.

A literatura de um país é o silêncio (chão) comum. O que foram as grandes paixões, silêncios, emoções que aquela comunidade viveu. A literatura é iniciação à vida. Na nossa cultura, perdemos os rituais de iniciação. Somos uma sociedade (secularizada) muito cinzenta. A literatura pode potenciar um encontro de homens e mulheres livres.

Porque é que se escreve? Acho que pelo mesmo motivo porque se lê. Se eu não escrever, morro - literalmente, os verdadeiros leitores, os leitores fanáticos sentem que definham se não lerem; a leitura afigura-se-lhes, pois, como "tábua de salvação", "arte de resistência", até "face à própria morte".
Precisamos de valorizar o silêncio como linguagem. Face a um conflito, dizemos: "a falar é que a gente se entende". Sim, é verdade. Mas também o silêncio "constrói pontes de entendimento que faltam, às vezes, às palavras". Silêncio: escola de paz e de reconfiguração. "Gostaria de ver o silêncio declarado património imaterial da humanidade" (risos na plateia). O silêncio é forma de comunicação extraordinária; comunhão, proximidade que nenhuma palavra do mundo é capaz de dizer.
Muitos dos grandes poetas chineses escreveram um único poema, um verso sobre uma rocha, ou numa árvore. O escritor é um bicho silencioso. "É da ruminação do silêncio que o encontro profundo com a palavra pode fazer-se".

Não iludamos: "o silêncio é a grande tentação do escritor". Do poeta. "É o demónio necessário da criação".

Nesse "evangelho muito amado que é o de S.João", encontramos a afirmação de que "no princípio era a Palavra" (não o silêncio). Alguns traduzem por "no princípio era a Relação", ou "no princípio, era o desejo de Palavra". Na verdade, "o silêncio é apofático: não dizendo, diz; não revelando, manifesta". Há no silêncio uma tensão utópica imensa: coloca-se no campo do não feito. "O poeta é alguém que se expõe ao silêncio, por vezes tem que se tornar um foragido, um indigente, um pária, tem de ganir como um cão". Um poeta é uma consequência do silêncio.


[a partir do caderno de apontamentos que tomei para a conferência inaugural das Correntes d'Escritas 2016. Qualquer erro e/ou limitação face à exposição de Tolentino de Mendonça é, pois, da minha inteira responsabilidade]

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Da nossa História (II)


O Brasil deriva o seu nome das substâncias corantes com o mesmo nome (pau-brasil) presentes na lucrativa madeira vermelha que foi encontrada pelos portugueses quando acham o litoral brasileiro. Inicialmente, deslumbrados, como se pode ler em Pero Vaz de Caminha - com semelhanças com a atitude de marinheiros ingleses e franceses com as beldades do Taiti e das ilhas do Pacífico - com a inocência dos "selvagens" que encontram - o Adão em estado puro, pronto para a conversão, o "bom selvagem" antes de ser teorizado filosoficamente -, mas logo, em virtude da não completa obediência e acatamento dos ameríndios a todo o tipo de trabalhos forçados impostos, tidos por "bestas" incorrigíveis (que punem, sem tino, com uma ferocidade, ela sim, selvática). Em virtude da ameaça da possível fixação dos franceses neste território, D.João III promove a sistemática colonização do território.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da ideologia no interior de uma cultura





1.As opções ideológicas que formulamos não se encontram à margem da cultura que frequentamos, do conjunto de convicções, crenças, ideias, desejos, representações, concepções, sentimentos que prevalecem em um dado momento; daquilo que conforma, em suma, o espírito do tempo.

2.A associação entre o paradigma cultural (hoje) predominante e a ideologia professada (por uma maioria de cidadãos) conta-se, assim, como o principal contributo que Raffaele Simone traz com O monstro amável – o mundo está a tornar-se de direita?

3.Muito radicalmente, nos debates do interior da esquerda, a pergunta última, fundamental, que o autor formula é se esta, a esquerda, ainda tem lugar, se os seus ideais conseguem alguma validade e legitimação popular, quando o consumo, o individualismo, a competição, o curto-prazo como medida definem o ar que se respira. Mais, ainda: se a pulsão inata do ser humano passa por uma afirmação sobre os demais, por um certo egoísmo, algum exibicionismo, pelo desejo de possuir, não será como que co-natural ao humano ser de direita (que, assim, no entender deste autor, melhor representaria tais impulsos naturais, na valorização que faz da hierarquia, numa certa recusa de uma limitação, via impostos, à propriedade, por exemplo)? E a esquerda, com os postulados de auto-contenção e redistribuição não remeteria para o artificial (auto- limitação da minha propriedade em favor de outrem, será algo natural em mim? p.178 e ss)?

4.A provocação intelectual é desafiadora, no contexto dos debates no interior de partidos de tipo social-democrata, porquanto representa um género de questionamento que implica uma elaboração bem mais demorada e densa para uma resposta capaz, cabal, do que as respostas que, parecendo mais práticas e rápidas de implementar, mantém, no fundo, o estado de coisas (com respostas espelhares às daqueles a que se aspira a ser alternativa). Nesta interpretação do mundo, o adversário (dos sociais-democratas) não se alberga já em um partido ou movimento político; muito mais, em uma dada evolução histórica e cultural (maxime, a existência de uma “cultura de massas despótica”).

5.Os problemas de legitimidade, à esquerda, nas últimas décadas advieram, desde logo, do conhecimento dos horrores cometidos em países governados por partidos comunistas; em segundo lugar, pela sua omissão de intervenção política – e, se quisermos, de prévia produção intelectual/discussão/debate - em temas tão centrais, para diferentes populações europeias, como a imigração ou o fundamentalismo islâmico; em terceiro lugar, os socialismos que o mundo ainda hoje conhece, como o venezuelano, não entusiasmam os próprios socialistas europeus; quarto problema não menos relevante: desde a ideia do Estado do bem-estar, nenhuma outra relevante teria surgido, desta banda político-ideológica, desde então (p.54). As dificuldades, à esquerda, assumem, portanto, um eminente carácter intelectual, que se reflecte em autoridade e prestígio (em perda, nesta ala política), pois que sem um projecto para o futuro estes se esvaem.

6.Perda para a esquerda, ainda, na última década/década e meia: a) o desaparecimento da classe trabalhadora como classe predominante; b) a mudança antropológica e económica do povo de esquerda; c) o desinteresse da juventude pela política.

7.Os capítulos (4º e seguintes) que detalham esta mutação permanecem os mais interessantes e agudos desta obra: nenhum operário seria figura para entrar num Big brother, isto é, não seria apetecível para a televisão e, em assim sucedendo em um tempo em que só o visível/visualizável conta, perdem o interesse para um partido político; por sua vez, mesmo a classe trabalhadora, numa época em que cada um se define pelo patamar de consumo que consegue atingir, aquilo que parece pretender é, sobretudo, alcançar o patamar de consumo acima do seu e, finalmente, nem mesmo esta (classe) se define de modo homogéneo, nem politicamente se revê em uma oferta de (auto) contenção (mesmo que essa recusa, no fundo, resulte em seu desfavor); as causas comuns, o interesse público e geral, o bem comum, quando é esse mesmo consumo que, afinal, nos definirá, não assumem particular relevo, e os mais jovens, a quem a publicidade mais se dirige, naturalmente, afora uma dimensão mais carreirista, afastaram-se, de um modo geral, da cena política, quando haviam sido um conjunto de agentes propulsores de mudança, outrora.

8.Quando o curto-termismo é um factor crucial de uma época, o desejo de transformação não é palpável.

9.Com certeza que não deixa de ser curioso que o reputado académico, linguista, de esquerda prefira Hobbes a Rosseau na conceptualização antropológica que produz; é discutível que se possam arrumar, definitivamente, a um canto, como sugere, as distinções, in statu nascendi, entre esquerda e direita, que Bobbio apresentou no clássico Esquerda e Direita; se a compaixão e a solidariedade são tópicos essenciais para cristãos e socialistas, respectivamente, e políticas há que a ambos podiam satisfazer, não se compreende, por outro lado, a recusa, tão peremptória, de alianças entre partidos democratas-cristãos e social-democratas ou a crítica ao religioso, que produz neste livro; nem todos aceitarão a descrição de direita que propõe, nomeadamente a univocidade desta (a Nova Direita enquanto o referido sistema de representações, concepções, desejos prevalecentes hoje, traduzida por “cultura de massas despótica”), nem, tão pouco, a generalização de certas características (como as acima apontadas, ou a absoluta recusa da importância do sector da cultura, por exemplo); as suas posições sobre segurança, imigração ou a questão palestiniana, dificilmente alcançariam consenso à esquerda (como, de resto, se pode verificar pela apresentação de Joaquim Estefanía, à edição em castelhano); as apropriações de algumas passagens de autores como Tocqueville não deixam de ser questionáveis (se o autor as lê como a descrição de um domínio absoluto por um dado sistema de crenças, elas poderiam ser interpretadas, igualmente, e talvez mais próximas do original, como crítica, liberal, a um Estado paternalista).

10.Em todo o caso, a deslocação do território exclusivamente económico-social para um de ordem cultural, como absolutamente carecido de ocupação e de trabalho (em especial por partidos sociais-democratas), por parte daqueles que procuram mudanças societárias e políticas em profundidade, constitui o iluminar de um topoi provavelmente demasiado tempo negligenciado (e que, nem por sombras, entrou na discussão que precedeu as primárias do PS, apesar dos esforços do Prof. Manuel Maria Carrilho, dos poucos a suscitar tal problemática no espaço público português).


sábado, 10 de setembro de 2011

A pergunta eterna


Ricardo Menéndez Salmón assinou, nos últimos anos, uma trilogia (ficcional) sobre o mal (A ofensa; Derrocada; O revisor). A sua investigação, as leituras canónicas, o documentário de Lanzmann, os labirintos do encontro com esse mundo nunca (totalmente) decifrado, ficam bem patentes, na crítica literária, no Babelia deste Sábado (10/09/11), a propósito de uma obra de Golding. Mesmo partindo, certamente, de uma mundividência diversa da que perfilho, eis sinuosos percursos que nos poderão interessar, em viagens nunca fáceis, mas a que não podemos furtar-nos:  


Cautivos del mal

I - El azar, que escribe recto con renglones torcidos, quiso que en mayo del año 2006 la visita de Benedicto XVI a los campos de exterminio de Auschwitz coincidiera con la emisión, en La 2 de Televisión Española, de Shoah, el monumental trabajo de Claude Lanzmann, de casi diez horas de duración, acerca del Holocausto.
La pregunta por el mal -una de las palabras más cortas, uno de los viajes más largos- acompaña desde siempre al hombre.
Roberto Bolaño nos recordó en '2666' que, en las autopistas de la libertad, el mal es como un Ferrari
El hombre perdió su inocencia paradisiaca en el momento mismo en que se le hizo la prohibición, escribe Safranski.
Durante cuatro madrugadas de aquella primavera, sospecho que la summa de Lanzmann acompañó a unos pocos pero aguerridos espectadores insomnes en su intento por hallar una respuesta a la pregunta que Joseph Alois Ratzinger formulara al Dios cristiano en uno de los escenarios privilegiados de la Endlösung (solución final): "¿Por qué, Señor, callaste?". Por descontado, Lanzmann no fue tan pérfido como para interrogar a divinidad alguna en su película, sino que desplazó la pregunta hacia otra clase de señores, aquellos que encarnaban el poder en los años más pavorosos de la Weltanschauung (cosmovisión) nacionalsocialista y su industria del odio.
Lo más conmovedor de Shoah es su ausencia de retórica a la hora de presentar el annus mundi que fueron los Lager (campos de concentración o exterminio). No hay rencor ni cólera en la película del autor de La liebre de Patagonia, pues el dolor que destila su trabajo es tan auténtico que excluye todo sentimiento de venganza. Al contrario, hay un enorme caudal de dignidad y una honestidad implacable en su generoso metraje: Lanzmann no apaga la cámara cuando las víctimas lloran por algo que les ha sucedido hace más de cuarenta años, pero tampoco siente piedad ante la vergüenza y las mentiras de los verdugos. El cineasta ha aprendido que el aullido de la Humanidad es la mejor explicación que existe para el silencio de Dios.
El arte, en este caso el documento fílmico, se revela una vez más como un notable desenmascarador de mistificaciones. No conviene olvidar, en ese sentido, que a propósito de una de las composiciones musicales de Adrian Leverkühn, el protagonista de Doctor Faustus, hay una iluminadora reflexión de la voz narradora: "Una obra que trata del Tentador", escribe Thomas Mann, "de la apostasía, de la condenación, ¿qué otra cosa podría ser más que una obra religiosa?".
En efecto, si aceptamos que vivimos en un mundo posreligioso, donde la trascendencia ya no puede residir en los frutos de la fe o en sus encarnaciones proféticas, entre otros motivos porque la inmanencia de la razón instrumental ha sido capaz de inyectar yeso en las matrices de mujeres embarazadas y de confeccionar pantallas para lámparas empleando piel humana sin que voz alguna se elevara desde los cielos de Europa, ¿dónde podríamos hallar ese horizonte de "más allá" si no es en ciertas obras que se acercan al problema por antonomasia, el que funda la teodicea y presta sentido a todas las angustias humanas, desde Platón y san Agustín a Celan y Améry, desde Antígona y Job a Stavrogin y Bardamu, desde Cantos de Maldoror y El Horla a Meridiano de sangre y Zona?
Porque la pregunta por el mal -una de las palabras más cortas, uno de los viajes más largos- acompaña desde siempre al hombre "en busca de sentido", por emplear la célebre expresión de Viktor Frankl. Y porque desde los albores de la palabra escrita hasta el último fruto sacado de la chistera de mago de J. M. Coetzee, Gonçalo M. Tavares o David Grossman, la incómoda, fatal, ominosa interrogante continúa viva: ¿por qué existe el sufrimiento en el mundo y eso que llamamos el mal, un mal que en cada época adopta distintas formas, y qué poder posee la literatura para hacer frente a este sufrimiento, a este mal tantas veces arbitrario?
II El 19 de septiembre de 1911 nacía en Cornualles, el finisterre inglés, uno de los grandes exégetas de la maldad durante el siglo pasado, el Nobel de Literatura William Golding, personalidad ambigua y atormentada, devorada por dudas existenciales y extravíos religiosos, dueño de una biografía en la que no faltan las sombras ominosas y los escándalos sexuales, amén de novelista que ha tenido que pagar el precio de escribir una primera obra mítica, cuya estatura y presencia devora al resto de su producción.
Alegoría un tanto esquemática que replantea el viejo conflicto entre Hobbes y Rousseau acerca de la condición de la naturaleza humana, dispuesto esta vez sobre el tapete de una isla poblada por niños, en una suerte de vuelta de tuerca siniestra al clásico de Jules Verne Dos años de vacaciones, pero extrayendo las lecturas incómodas y perversas que el escritor bretón apenas se atrevió a sugerir en su robinsonada, El señor de las moscas ha empañado el cómputo de la producción de Golding, un corpus que, grosso modo, ha hecho de la pregunta por la maldad su venero sentimental e intelectual. De hecho, Golding emparenta con la obra de los grandes pesimistas americanos y rusos de la literatura decimonónica, sobre todo con el pathos de Melville y su radical misantropía y con las angustias de Dostoievski y su obsesión por el cristianismo, aunque el Nobel inglés manifestó siempre que su principal influencia a la hora de escribir había sido el teatro griego clásico, con Eurípides como figura señalada.
El inédito en español Pincher Martin, Caída libre o La oscuridad visible conforman un bordado exacto y a menudo paranoico de las obsesiones de Golding en torno a los mitos articuladores de la maldad. Así, el cuerpo como cárcel y podredumbre en Pincher Martin, guarida de todos los desmanes y de todas las perversiones humanas; la asunción del pecado original como condición irremediable de la racionalidad en Caída libre, al asumir la tesis de que el ejercicio de la libertad conduce a la existencia del Hombre Fáustico; o el mesianismo vacuo de un alma herida y por ello mismo terrible en La oscuridad visible, donde se dibuja el perfil de un monstruo frágil pero a la vez invulnerable, resumen las preocupaciones de Golding como escudriñador de los diversos territorios donde el ser humano confiesa sus anhelos y es torturado por sus actos. A menudo contradictorio, en ocasiones sublime, casi siempre repugnante, el Homo sapiens es para Golding depósito privilegiado y confuso del mal: la literatura, en definitiva, como cartografía de nuestras más incómodas regiones.
IIIRoberto Bolaño, uno de los últimos intérpretes de la maldad como asunto seminal, tuvo dos intuiciones al respecto que conviene recordar. Si en Los detectives salvajes nos previno contra el mal casual, frente al que es complejísimo luchar, por oposición al mal causal, frente al cual al menos hay razones que oponer, en 2666 nos recordó que, en las autopistas de la libertad, el mal es como un Ferrari.
Quizá ahí radique el meollo de este asunto inagotable y fascinador: en que la existencia objetiva de la maldad nos habla de la existencia no menos objetiva de la libertad. Con su habitual elegancia y rigor, el filósofo Rüdiger Safranski ha dejado constancia de esta dialéctica inextricable en El mal o El drama de la libertad, guía inmejorable a la hora de perfilar la genealogía e hitos inexcusables de este tema humano, demasiado humano.
En las líneas que registran el texto bíblico y uno de los primeros relatos fundacionales, el de la Caída, ese que tanto obsesionó a Golding, Safranski expresa bellamente los límites del conflicto: "En el caso de que hubiera habido una vida más allá del bien y del mal, un estado de inocencia que ignorara tal distinción, el hombre no perdió su inocencia paradisiaca cuando comió del árbol del conocimiento, sino en el momento mismo en que se le hizo la prohibición. Cuando Dios dejó a la libre disposición del hombre la aceptación o la conculcación del mandato, le otorgó el don de la libertad". Habrá que esperar unos cuantos siglos y el advenimiento de las Luces para que a su mayor ideólogo semejante tentación lo aterre: "Kant retrocedió con espanto ante el pensamiento de que el mal mantiene un vínculo secreto con la trascendencia del bien y puede triunfar asimismo sobre todos los intereses empíricos de la propia conservación, por más que ese pensamiento pertenezca al misterio de la libertad. ¿Por qué la libertad ha de ser aprehendida por lo incondicional y conducir más allá de los intereses empíricos sólo en el sentido bueno? ¿Por qué eso no ha de ser posible también en el sentido malo?". Pero sólo habrá que aguardar a que transcurran otro par de siglos para que Hitler ejecute, en clave racial, el escenario atroz de una libertad llevada a su paroxismo: "En la política de Hitler, la locura destruye la realidad. Ahí está la catástrofe de la libertad. La libertad incluye la capacidad de cambiar la realidad según patrones que no proceden ellos mismos de la realidad, sino del mundo de lo imaginario. Y ¿qué es imaginario? ¿Es solamente la materia a partir de la cual se hace arte? Los judíos no eran lo que Hitler veía en ellos. Pero los transformó de acuerdo con su visión: los vio como bacilos y los hizo matar como bacilos".
El camino que conduce del mordisco de Eva al Zyklon B, pasando por el descubrimiento de que la razón genera sus propios monstruos, es el camino de una libertad a menudo extraviada pero siempre inmanente. Como sabemos desde Alien, cumbre del cine ateo de todos los tiempos, "en el espacio, nadie escucha tus gritos". Pero como también sabemos desde Caída final, alucinada versión de Golding de la mácula original, sólo los verdugos y las otras víctimas pueden escuchar esos gritos en la tierra, pues no en vano "no somos los inocentes ni los malvados. Somos los culpables. Caemos. Nos arrastramos a gatas. Lloramos y nos despedazamos".