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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A rever


Rui Tavares é um dos pensadores mais interessantes da política portuguesa. Fundador do Livre, historiador, focado na história das ideias, como o próprio se define, autor de vários livros e ensaios, cronista, libertário e de Esquerda.
Lê-lo, na ponderação das palavras e na argúcia dos argumentos, é sempre uma pequena janela de novas abordagens que se abre. Concorde-se ou não com a sua visão do Mundo. (...)
Muitas vezes, as escolhas que fazemos são definidoras daquilo que somos. Rui Tavares não se reverá, com certeza, no caminho que leva a eleita do Livre. E não terá responsabilidades nisso. Mas tem se o partido que lidera continuar a dar cobertura a uma agenda de folclore e identitária que em tudo o diminui.  


Domingos de Andrade, diretor do JNJoacine e Rui Tavares, JN, 04-11-2019.

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Dir-me-ão, não é assim tão grave ter um deputado gago. A Inglaterra teve um rei gago durante um dos momentos mais duros e decisivos dela, estava cercada e sozinha na Europa, e safou-se...Justamente (é o que tem de bom sermos nós a escolher os exemplos quando se escreve), safou-se porque Jorge VI pouco se fazia ouvir e, em compensação, a Inglaterra era conduzida por um Churchill capaz de fazer discursos empolgantes. Não é inútil o falar bem na política. (...) Nesta semana, ouvindo Joacine Katar Moreira, uma conclusão: a sua gaguez é profunda e o seu discurso quase não se entende. (...) Ora Joacine Katar Moreira, que se vangloriou de não ser gaga a pensar, não nos quer comprovar isso e encontrar uma solução para vencer um problema que até agora ela também não resolveu bem?

Ferreira Fernandes, diretor do DN, À espera de Joacine,a deputada, DN, 02-11-2019, p.56.

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Numa democracia plena não há lugar para tabus nem para interditos e é por isso que a gaguez da deputada do Livre Joacine Katar Moreira se tornou objecto de discussão pública. (...) Sim, a gaguez de Joacine, que a impede de comunicar de forma perceptível ao hemiciclo e ao país as ideias que defende ou as propostas que pode apresentar, é matéria que justifica tomadas de posição. É essa a razão deste editorial. (...)
Um deputado, porém, tem de falar. Aos seus pares e ao país. Boa parte da imagem que constrói e projecta passa por essa necessidade. A arte da oratória é importante desde os primórdios do parlamentarismo por uma razão óbvia: é através da discussão que se faz política. Seja no plenário ou nas comissões, dificilmente a deputada do Livre poderá dispor dos argumentos dos adversários para influenciar os cidadãos da bondade das suas propostas. A gaguez de Joacine é uma realidade com evidentes impactes políticos que só por hipocrisia se pode ignorar. Ela pode ganhar experiência e melhorar a sua comunicação. Se não o conseguir, mesmo que à custa de uma debilidade alheia à sua vontade, só por comiseração deixará de ser avaliada negativamente no seu desempenho. Nem ela o merece, nem a verdade democrática o tolera. (...) Pelo que sabemos até agora, as suas dificuldades discursivas limitam de forma severa esse desempenho. Não o admitir é absurdo. Não o afirmar é-o ainda mais.

Manuel Carvalho, diretor do PúblicoO que está em causa com a deputada do Livre, Público, 05-11-2019, p.4.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Anotações matinais


*Completando as informações acerca do retrato sobre a pobreza em Portugal publicado na semana passada pelo INE, através do texto de hoje, do Prof.Carlos Farinha Rodrigues no Público: como se tinha aqui referido, o valor para aferir do risco de pobreza, em Portugal, era, em 2017, (menos de) 468€ por pessoa. Acrescente-se, agora, que para um casal com dois filhos dependentes esse valor é de 982€/mês. A linha de pobreza (o valor para se considerar alguém acima desse limiar) subiu 3% em 2017. A proporção de crianças e jovens em situação de pobreza diminuiu de forma ainda mais significativa, reduzindo-se a sua taxa de incidência de pobreza de 20,7% para 18,9%. A taxa de pobreza das famílias monoparentais e das famílias alargadas com três e mais crianças, dois dos grupos sociais mais vulneráveis à situação de pobreza, diminuiu em 4,9 p.p. e 9.8 p.p., respectivamente. A intensidade da pobreza (quão pobres são os pobres) desceu de 27% para 24,5%; a taxa de privação material severa baixou 0,9%. Mas porque aumentou a pobreza entre os idosos (0,7%)? "Uma explicação possível pode residir no facto de uma parte significativa da população idosa com menos rendimentos se situar muito próxima da linha de pobreza e, portanto, a sua classificação como pobre ou não pobre ser muito sensível às oscilações da própria linha de pobreza. O acréscimo dos seus rendimentos não foi suficiente para compensar o acréscimo do limiar de pobreza. Por outro lado, alguma desadequação dos instrumentos de combate à pobreza dos idosos como o CSI, cujo referencial em 2017 estava cerca de 10% abaixo do limiar de pobreza, pode constituir outro factor explicativo"
Todos os índices de desigualdade registam uma diminuição: "é indiscutível que eles [os números] traduzem uma melhoria relevante da condição social do país e traduzem uma redução dos principais indicadores de pobreza, desigualdade e exclusão social. Tal deve-se em grande medida à recuperação económica do país, ao crescimento económico e à queda do desemprego. Mas deve-se igualmente a uma preocupação acrescida das políticas públicas com as questões sociais, com a preocupação de priorizar o crescimento dos rendimentos das famílias de menores rendimentos e ao reforço das políticas sociais" (p.55).

*Nas sugestões de livros para o Natal do Professor Carlos Fiolhais encontra-se o novo livro do Prof. Onésimo Teotónio Almeida ("O século dos prodígios") que já tenho na estante. Mas não deixei, também, de certa maneira a propósito, de anotar o comentário de João Pedro George, na Sábado (no contexto do debate dos "Descobrimentos"): diz ele que, por um lado, dizemos que não temos nada que ver com a escravatura, foram os antepassados, não tivemos qualquer intervenção nisso; por outro, já nos reclamamos da mesma linhagem - e em "linha recta" - com os inventores de instrumentos científicos, com aqueles que no contexto das descobertas acrescentaram ao mundo. Adicione-se a leitura do capítulo de Michael Sandel em "Justiça. Fazemos o que devemos?" sobre esta herança (de termos alguma responsabilidade ainda hoje pelo legado dos antepassados nacionais) e a obrigatoriedade (ou não) de, enquanto comunidade, nos referirmos a ela (e isto a propósito dos alemães que agora nascem e o problema do nazismo). 
Achei curiosa a referência á permanência das «duas culturas» face à ausência, na comitiva lusa das letras, das «ciências exactas» em Guadalajara (embora creia que em "Dizer Deus na pós-modernidade", o Prof.João Duque faz uma leitura em grande profundidade das várias, múltiplas culturas, já não apenas «duas», «incomensuráveis entre si», com «jogos de linguagem» impenetráveis, ficando a «razão crente», respeitando as várias «razões contextuais», com essa responsabilidade do que Adriano Moreira chamou de «transdisciplinariedade»). 

*Fiquei a saber pelo artigo/homenagem de Rui Tavares que Fernando Belo, agora desaparecido, era ex-sacerdote; desconhecia esse facto. Gostava de ler os seus artigos no Público, que assinava de tempos a tempos, mas nunca li nenhum livro dele. Talvez vá aproveitar a oportunidade para no Natal ler o livro que liga a Filosofia à existência Europa. 

*Com Paula Teles ficámos a saber que a quota de utilização do automóvel, nas áreas metropolitanas de Porto e Lisboa, aumentou, em mais de 20% (em cada uma delas), entre 2001 e 2017, diminuindo, inversamente, a taxa de utilização de transportes públicos.

*A estratégia ambiental do governo passa por, em 2050, termos menos 25 a 50% de efectivos bovinos. 

*O modelo político chinês, na definição de Richard McGregor: "leninismo de mercado". A balança comercial portuguesa é bastante deficitária face aos chineses. No balanço entre o que exportamos e o que importamos da China são 900 milhões de perda. Marcelo fez bem em referir a questão dos direitos humanos face ao homólogo chinês. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Bloco de apontamentos


*Em finais de 2017, havia 13303 reclusos em Portugal. Menos de metade - não chegava aos 6 mil - trabalhava. Ainda existem muitas cadeias, incluindo a de Vila Real, com sobrelotação.

*Paulo de Morais chamava ontem a atenção no Público para o facto de no Orçamento de Estado para 2019 estar incluída uma verba de mais de 1700 milhões para o Fundo de Resolução da Banca. E recordava as declarações de Maria Luís Albuquerque, sobre o mesmo tema, na legislatura anterior: a transferência do OE para o Fundo de Resolução da Banca, naquele ano, seria, irrepetível (no futuro) e o dinheiro recuperável. Chegados aqui, nem uma coisa, nem outra.

*Paulo Rangel também ontem, no Público, reclamava do pouco escrutínio, mediático e da sociedade civil, ao número exagerado de casos, em que membros da mesma família integram o actual Executivo português, no que colocaria em cheque o princípio republicano
No mesmo texto, e ao contrário de outros condescendentes na mesma área política, Rangel escreveu que face a Bolsonaro não se pode hesitar (na sua condenação).

*Não abriu telejornais em Portugal - também porque, como refere Nobre-Correia, quando a televisão pública tem um telejornal com o dobro ou triplo do tempo dos seus congéneres europeus, isso significa uma falta de hierarquização do relevante, o meter-se tudo na mesma sopa turva e não contribuir-se para o empoderamento da opinião pública portuguesa -, mas assistiu-se a uma cisão na Igreja Ortodoxa, na Ucrânia, com o beneplácito de Constantinopla, considerada a maior desde o séc.XI. São placas tectónicas que se movem no fermento de uma sociedade e que, porventura, indiciam ainda ulteriores ondas sísmicas/conflituais.

*Pergunta hoje Rui Tavares no Público: face à objecção recorrente - serão todos os brasileiros/italianos/turcos, etc. - fascistas (para votarem do modo como o fazem)? - a resposta do historiador: e nas primeiras décadas do séc.XX, eram todos os italianos, ou alemães fascistas?

*Em 4 anos, o Salário Mínimo Nacional sobe 95 euros mensais. É bem significativo e não levou a encerramento de empresas, ao aumento do desemprego nem ao abrandamento económico.

*Como mostra a reportagem do La Reppublica, o elevador social em Itália, à semelhança de muitos outros lugares do mundo industrializado, está quebrado. Como são as ilhas de membros de famílias mais desfavorecidas que chegam ao topo?: a) os meninos são muito diligentes nas aulas; b) o contexto social dos outros meninos da turma (que sendo mais elevado pode puxar pelo menino oriundo de famílias com menos apetrechos educacionais/culturais/sócio-económicos; aspecto, aliás, muito relevado por Esping-Andersen nos seus estudos sobre o Estado-Providência, quer nos domínios cognitivos, quer nos não cognitivos); c) melhor clima disciplinar na(s) escola(s) frequentada(s) por estes alunos.  Apenas 6% dos alunos pobres de Itália estão matriculados em "escolas de prestígio". Em Itália, apenas 9% da pessoas entre os 25-64 anos que completou o ensino superior tinha pais que não haviam completado o Ensino Secundário.
Em escolas mais difíceis e periféricas, os professores que lá ensinam são mais precários. Leia-se a notícia  aqui.

*Também em Espanha, a "segregação" escolar - o acesso a boas escolas muito ligado à classe social em que se nasce, com uma brecha logo aos 10 anos - é muito precoce. O ElPaís sublinha, contudo, a importância da resiliência emocional quando observa como, ainda assim, um pequeno grupo, de entre os que nasceram em famílias menos favorecidas, consegue singrar. Vide aqui.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Evolução nos modos de leitura


O século XVIII é aquela fase em que na Europa se passa da leitura intensiva para a leitura extensiva e se passa da leitura em voz alta para a leitura silenciosa. Ou seja, dantes lia-se poucos livros, mas lia-se esses livros muitas vezes. Lia-se a Bíblia, ou A imitação de Cristo, ou literatura, como Quixote ou até a Peregrinação. Os poucos livros que se tinha em casa era para serem lidos muitas vezes e em voz alta para várias pessoas, algumas analfabetas. O Quixote era uma personagem de massas. 

Rui Tavares, entrevistado por Bruno Vieira Amaral, para a Ler, Verão 2018, p.31. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O «censor» enquanto intelectual (de referência)


Na altura [séc.XVIII], os académicos, os intelectuais, os autores, os censores eram mais ou menos a mesma coisa, e o crítico era até visto como menos nobre que o censor. «Censor» era muito utilizado como um elogio para os autores. Vê-se que era uma época antes de o sentido destas palavras se ter separado e censor passar a ser pejorativo e autor, positivo. Na altura havia muitos censores que eram autores e muitos autores que eram censores. A partir do século XIX, isso muda, o autor torna-se o anticensor e o censor torna-se o inimigo do autor. Havia também uma espécie de temor pela perda de poder intelectual, que, para esta cultura, é a perda de poder no sentido mais profundo. Quando olhamos para a política do Pombal, no final, como ele fala da cultura, da literatura e até da caligrafia, da importância de haver no reino quem escreva de uma forma clara e perceptível, entendemos que, para ele, a política cultural é a política, a política cultural é o poder. O poder da cultura e a cultura do poder são a mesma coisa. De uma maneira que, hoje em dia, alguns intelectuais até invejarão. (...)
Manuel do Cenáculo e António Pereira de Figueiredo foram, entre eles, provavelmente os censores que censuraram mais livros naqueles nove anos da RMC [Real Mesa Censória] sob o Pombal. E foram bastante severos. É preciso dizer que a RMC proibia mais livros no seu conjunto do que as três instituições que a precederam. E fazia-o com a ideia de que proibir mais livros era uma coisa boa porque aqueles que ficavam eram livros de mais alta qualidade. Para eles, essa era a função. Entendiam-se como letrados e intelectuais. Ambos escreveram livros sobre literatura, sobre a maneira correcta de escrever quer em português, quer em latim. Eram bibliófilos. Manuel do Cenáculo era um grande colecionador de livros e a sua biblioteca pessoal está na base da biblioteca pública de Évora, que é uma das melhores bibliotecas do País
A sua função na ordem religiosa de que fazia parte, os oratorianos, vai dar origem, em boa parte, ao núcleo inicial da biblioteca da Academia das Ciências. Além disso, o trabalho dele enquanto censor na RMC ainda vai dar origem aos núcleos iniciais da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Paradoxalmente, uma das pessoas que mais livros proibiu naquela época foi uma das pessoas que mais livros comprou, por vezes até ficando a dever aos livreiros, que mais livros colecionou e que mais bibliotecas criou já com o intuito de criar bibliotecas públicas. Fez visitas ao estrangeiro, a Itália, por exemplo, para ver outras bibliotecas, fez planos de como deveriam ser as estantes, como é que deveria ser o acesso ao público. (...) Eles eram habitantes de uma coisa chamada República das Letras. Viviam em correspondência permanente com intelectuais estrangeiros, seja os irmãos [Gregório e Juan António] Mayans de Valência, seja os católicos subversivos de Utreque, os jansenistas, que eram antijesuítas. O António Pereira de Figueiredo era também um autor muito sofisticado, foi o nosso primeiro tradutor católico da Bíblia. A Bíblia tinha sido traduzida por um protestante [João Ferreira de Almeida].

Rui Tavares, entrevistado por Bruno Vieira Amaral, para a Ler, nº150, Verão de 2018, pp.31-32.

Acepções de «Tolerância»


Quando, no século XVI, em França, se passa o Édito de Nantes, que institui a tolerância entre católicos e protestantes, o sentido de tolerância ainda é o de ter de se aguentar qualquer coisa [tolerare, que quer dizer «aguentar», «suportar»]. No século XVIII, isso começa a mudar e muito pela acção de Voltaire que mostra que a tolerância é não só algo que se deve fazer quando não se tem outra hipótese, mas que se deve promover sempre por ser uma coisa boa em si. Ora, os censores [da Real Mesa Censória, ao tempo, e sob a égide, de Pombal] chamavam a essa posição o «tolerantismo». Além do pirronismo, que era a dúvida radical, outra coisa que eles perseguiam nos livros era o tolerantismo. Outra doutrina que os censores perseguem é a do indiferentismo

Rui Tavares, entrevistado por Bruno Vieira Amaral, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.29

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Tendências Globais



Tendências globais verificadas ao longo deste ciclo de debates em Serralves (identificadas por Álvaro de Vasconcelos): empoderamento (desaparecimento do analfabetismo, mulheres a participarem no mercado de trabalho, etc.) dos cidadãos (a nível mundial, com maior exigência cidadã), com cidadania mais activa nos últimos anos (mas com tendência para o populismo também, pondo em causa partidos tradicionais e o sistema representativo); diversidade cultural, mas também nacionalismos identitários; enfraquecimento dos estados e do poder político; difusão do poder a nível global, com um policentrismo hiante; desenvolvimento humano, com milhões a saírem da pobreza para a classe média, mas com graves problemas como o da escassez de água e de alimentos.

Maria João Rodrigues:

A democracia não está a funcionar bem, porque os cidadãos sentem que não têm grande margem de escolha. A nível nacional há margem, mas delimitada pelas regras europeias. Se se pretende aumentar essa margem, então é preciso intervir também a nível europeu. A nível europeu a forma de fazer política está a mudar. Há um jogo de forças entre as instituições europeias e um papel mais activo das famílias políticas europeias. Tem que haver cidadania europeia. Chegamos à seguinte encruzilhada: ou há recuo para posições nacionais – o que não será o melhor -, ou se constroem melhores soluções europeias. Portanto, há necessidade de uma forte cidadania europeia. Se os jovens querem ter uma vida melhor têm que passar à acção e articular uma posição a
nível europeu.

Alda de Sousa:

O meu pessimismo é grande. Não creio que existam posições progressistas no quadro europeu. A Alemanha impõe as suas regras às periferias europeias. A UE está numa deriva anti-democrática. A transformação terá que vir do âmbito nacional. A mudança de correlação de forças irá travar-se a nível nacional. Não creio que haja qualquer identidade europeia. Até me dão calafrios dizer-se que há uma superioridade dos valores europeus, quando vemos, por exemplo, a questão dos refugiados.

José Luis Cruz Vilaça:

aquilo que somos na UE hoje deriva do método comunitário (com iniciativa da Comissão) instituído pelos pais fundadores. Método de co-decisão entre o Conselho Europeu e o Parlamento. E depois há ainda o Tribunal Europeu. Hoje, o défice democrático da UE é muito menor do que há alguns anos. O essencial da luta contra a crise foi feito pelo método intergovernamental, no Eurogrupo. Há uma possibilidade de superação da crise, alterando método comunitário.

Paulo Rangel:

a crise que vivemos não é nacional, nem europeia, mas global: uma crise do Estado. A partir da segunda metade do séc.XX, especialmente depois da queda do muro de Berlim e, mais ainda, depois do 11 de Setembro, dá-se a perda da territorialidade. Desterritorialização do poder. De aí as crises da democracia. Porque a vontade da maioria não decide nada. A UE é uma tentativa de resolver isto. Mas isto também não resolve o problema, porque as tecnologias, por exemplo, permitem a desterritorialização. O território não tem a importância de outrora: isto é claríssimo na questão dos mercados. Quem vota neles? O futuro das democracias passará por uma menor importância do voto, mas maior importância dos direitosDe aí que os tribunais sejam instituições de futuro, e os governos instituições do passado. Os populismos não são apenas europeus. Veja-se o que se está a passar nas primárias norte-americanas. O órgão principal na UE é hoje o Conselho Europeu: ele é que define, hoje.

Se a Catalunha tem Bruxelas, já não precisa de Madrid. O mesmo de Edimburgo face a Londres. Hoje para me afirmar no mundo não preciso de Madrid ou Londres, se tenho Bruxelas. Neste sentido, Bruxelas mina o poder interno.

A natureza humana é uma natureza de violência. A Europa esteve sempre em guerra. Devemos preparar-nos para a guerra. Temos que ter um exército europeu. Já em 2010 disse ao Jornal de Negócios que havia forte possibilidade de guerra.

Rui Tavares: 

o meu cenário preferido é o da democracia europeia. Não necessariamente federal, mas de algum modo inspirado por experiências anteriores. Há 100 anos estávamos em guerra, mas também há 200 e há 300. Portugal esteve sempre presente. A ideia de impedir um poder hegemónico na Europa esteve sempre presente. Mas às vezes com alguma precipitação. A promessa europeia (equivalente ao sonho americano) seria: prosperidade partilhada; estado de direito; direitos fundamentais para maiorias e minorias; soberania popular ou democracia (pode ser desterritorializada). Não acho que a principal crise na europa seja a do euro ou a dos refugiados, mas antes a do Estado de Direito (como com o que se está a passar na Hungria). Reinvenção da democracia necessária: deveríamos eleger os nossos representantes no Conselho da UE (normalmente, são embaixadores, mas legislam e deviam ser eleitos); o programa da Comissão deve ser apresentado com maior clareza; as famílias políticas europeias podem não corresponder às famílias políticas nacionais.
Não estávamos mal equipados com os Tratados europeus, para lidar com a crise: Roosevelt, com muito menos instrumentos (dados pela constituição americana) fez muito mais (do que a Europa). Não fizemos mais porque os Estados não quiseram.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Partidos transnacionais



Foi na leitura de A sociedade do risco, de Ulrich Beck, há uns 4 ou 5 anos - preparando uma entrevista, que não chegou a realizar-se, a Paulo Rangel, a propósito do seu O estado do estado, no qual o pensador alemão tinha um lugar -, que me deparei, pela primeira vez, com a intuição de que fariam sentido partidos transnacionais. Muitos dos problemas que temos não se solucionam, com efeito, em pura lógica nacional: questões ambientais; harmonização fiscal; evasão e planeamento fiscais; regras laborais, etc. Rui Tavares defende a existência destes partidos - desde logo, a uma escala continental (europeia) -, mas facilmente se percebe como funcionam como antecâmara de uma deliberação que se pretende à escala global. Em Esquerda e Direita. Guia histórico para o século XXI, o ex-eurodeputado elabora algo que qualifica, em formulação bem conseguida, como "objectos de desejo" políticos - de uma "herança social" para jovens, até a um rendimento universal de cidadania, um subsídio de desemprego europeu, etc. - como algo capaz de mobilizar em uma agenda a lançar. Mas não ignora que para a financiar necessita que o 'capital' não tenha as possibilidades de fuga que hoje consegue (de aí os mecanismos transnacionais a implementar). Depois, louvando-se na campanha de Barack Obama pretende uma coligação de uma "maioria de minorias", coligando, por exemplo, os desempregados do Sul com os centros criativos do norte. Um cidadão poderia, neste futuro imaginado, ser inscrito em um partido europeu (transnacional) sem estar inscrito em um a nível nacional, ou, até, quiçá, desrespeitar a escolha de filiação que o partido nacional fizesse a uma escala europeia (ou transnacional). Com inteligência, Rui Tavares afasta-se da demagogia apolítica de um Podemos, quando nota que quando se quer fazer do binómio casta vs 99% o sucedâneo do esquerda/direita, significa importar para território seu os mais reaccionários ou os mais revolucionários dos cidadãos, como se, afinal, as diferenças de mundividência, ideológicas não contassem (suprimindo-se a escolha, suprimindo-se a política; em resultado curiosamente espelhar ao dos que referem que as soluções são técnicas e não há que discutir o caminho único).
O historiador pretende ver Portugal manter-se no euro e, de novo com subtileza, responde aos que se querem fora da moeda única e/ou do projecto europeu (pense-se aqui em muito do que tem dito João Ferreira do Amaral): "argumentar que a democracia historicamente só funcionou à escala do estado-nação, por exemplo, não é só argumentar como a direita, supondo que o que houve até agora é aquilo que por natureza deve haver, mas esquecer a enorme importância que para a democratização nacional tiveram os movimentos internacionais do seu tempo. A história é a história. O futuro sê-lo-á a seu tempo, da forma como o conseguirmos fazer. Hoje, outra soberania é possível" (p.105).

domingo, 14 de junho de 2015

"Revolução"


Com a Revolução Francesa, até a palavra "revolução", explica Rui Tavares em Esquerda e Direita. Guia Histórico para o século XXI, ganhou um novo significado: deixa de ser a reviravolta para se regressar ao normal, à ordem, para se tornar na mudança que não volta atrás.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Exigência, ou braços caídos?




Rui Tavares equaciona, na entrevista a Vítor Gonçalves (ontem, na RTP Informação), como uma das possíveis frente-charneira, na nossa economia, um ensino superior de grande qualidade que consiga atrair estudantes dos mais variados espaços europeus. Adriano Moreira, em A circunstância do estado exíguo, havia, precisamente, ensaiado sobre a Educação como função de soberania (estatal), porque ao exportar-se o ensino superior - o especialista em Relações Internacionais falava, essencialmente, em uma projecção da nossa universidade para os países que compõem a CPLP; atrair estudantes, em grande número, desta comunidade - poderia alcançar-se uma das formas de manter a nossa independência (com a natural afluência de recursos de aí advinda). No passado fim-de-semana, o Expresso falava na nova geração de imigrantes chineses (com formação superior) que vêem para Portugal - muitos, na sequência das aquisições de empresas de grande dimensão que eram estatais, como sabemos - e cuja exigência na educação se manifesta, por exemplo, nas aulas de mandariam e de inglês que ocupam as manhãs e tardes de Sábado, dos seus educandos, em Lisboa. O inglês será, para estes, prioritário, porquanto o objectivo dos progenitores será colocar os filhos no ensino superior de Inglaterra ou EUA. Que país teríamos, puxados a esta nova vaga, de uma pressão externa nas salas de aula, eis a interrogação maior do semanário. Não creio que o caminho percorrido ao longo dos últimos, razoáveis, anos, entre nós, tenha sido, à luz do que posso constatar - e ainda no dia de hoje pude perceber como encontrar alguém que goste de ler, em várias turmas do terceiro ciclo, é um verdadeiro achado; jornais apenas os desportivos ou locais/regionais - tenha sido no sentido de acomodar, sem dificuldades, esta vitalidade exigente vinda do exterior. Às vezes, fico, mesmo, com uma sensação de braços caídos, como se o ir ao encontro de interesses dos mais jovens, levasse não a um elevar estes a novos patamares de conhecimento e bitola de exigência, mas uma pretensão de tornar o professor, e as aulas, (ainda) mais infantilizadas, como se tal ajudasse os meninos.