Escutar - Maria Filomena Molder, na Culturgest. Aqui.
Poesia de Sá de Miranda.
Mal de vivre
(poesia do séc.XIX)
Antes
dos modernos, os homens não sentiam isto e aquilo?
Errado. Temos consciência histórica doentia, que os medievais não tinham e os
renascentistas começaram a ter, mas sobretudo nos finais do séc.XVIII/início do
séc.XIX com a emergência da História como disciplina histórica.
Então e o taedium
vitae, o tédio de viver?
(terá sido cunhada a expressão por Séneca)
O tédio é traduzível
por desprezo, melancolia, desconfiança, cansaço. A melancolia é mais antiga, vem dos gregos – expressão existencial de
um acontecimento fisiológico, a “bílis negra”.
A acédia medieval é parente destas experiências: ela representa a
tristeza que se nega a qualquer experiência compassiva com o que quer que seja.
Atacava os monges medievais dado o seu isolamento, em particular os que não
tinham tarefas para realizar. Exercícios espirituais criados, também, para
evitar que os monges caíssem nesta grave perturbação, perversão da disposição
anímica, como que negação da bondade da criação.
Com Baudelaire, o spleen (vem dos gregos).
Nomeadamente em “As flores do mal”. Spleen: baço, cansaço de viver,
indiferença, tristeza como arma de negação da confiança. Spleen ideal: expressão que junta uma aspiração antiga, a uma
ameaça moderna. Os blues americanos.
Mais próximo de nós, a depressão. Tudo isto está ligado com a temporalidade e a
relação com a morte. Nalguns casos, dar vazão a esta sensação do mal de viver
pode levar ao suicídio.
Jean
Amery, que se
suicidou, escreveu, dois anos antes do suicídio, Atentar contra si. A morte não é o pior mal. O pior mal é uma vida
má. Dar morte a si próprio um traço característico dos humanos. Isto está
acompanhado de uma grande dor. Amery foi preso em Auschwitz. Fugiu. Foi
apanhado. Torturado. Nunca voltou a conseguir entender-se com o mundo.
Não há sinais de
antecipação do suicídio em Sá de Miranda. Mas está desajustado com ele próprio,
está mal com o mundo, e até numa relação difícil com a língua portuguesa. Sá de
Miranda que atravessa muito, e por vezes até de forma bem explícita, A faca não corta o fogo, de Herberto Hélder.
O que é a sabedoria? A
sabedoria é “uma intuição intelectual”, diz Fernando Gil. Intuição
intelectual remete para a filosofia alemã, desde logo para Kant. Os seres humanos não podem ter intuições intelectuais, só intuições sensíveis. As intuições
fundantes, as intuições puras chamam-se espaço e tempo. Isto é muito original;
nunca ninguém o tinha pensado no Ocidente. No Oriente, no pensamento védico
parece que há equivalentes. O espaço e tempo concebidos como elementos da nossa
sensibilidade, elementos criativos da nossa afecção; que têm a ver com a nossa
subjectividade; elementos que não existem senão na nossa subjectividade; não
com a relatividade, mas com a nossa subjectividade – a única estrutura que
produz espaço e tempo, o ser humano.
O ser humano é um “entre”:
nasce e morre – aí não somos originais -, mas sabe que vai morrer. Esse entre é
expresso pelo desejo e preenchimento dele, que conhece todas as cores e
variações possíveis.
Lobo e cão são duas
constelações. Da nossa escuridão. Luz crepuscular: já não é dia, mas ainda não
é noite. Sá de Miranda diz que há alturas que não sabe se é dia, se é noite. A
luz que lhe convém é a luz dos dois crepúsculos. Dois títulos de livros de
Baudelaire assim evocados também.
O rosto não é parte do
corpo: é a nossa presença. É nossa manifestação, a nossa aparição. A imagem do
rosto aparece poeticamente, religiosamente, filosoficamente associada à
presença de alguém, ao medo respeitoso de alguém. De costas, não aparecemos. O
filósofo contemporâneo que mais se preocupou com o rosto foi Wittgenstein. Para Wittgenstein não há
nada que não tenha rosto, incluindo a fisionomia das frases da língua materna.
Que não se veja o rosto a nada significa que se perdeu a relação com a
expressividade da vida, em particular com os seres humanos. Homens
petrificados, imobilizados. Que não veja o rosto a ninguém é um grito de
desespero. Em certas ocasiões de alma, uma gripe ou alguma fome ligeira até,
reduzimos a riqueza das particularidades do outro. As horas não têm nada que as
diferencie (“entre lobo e cão”).
Em As razões de ser, Fernando Gil diz que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis
o que a frase quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder
o fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos,
são elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa
relação entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes
de termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a
nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar
viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do
recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à
vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela
esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária. Será terrível colocar em causa essa
confiança, esse princípio da existência. Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse
esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa
disposição para a vida. Lembra-te de
viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe). Tradição estóica e epicurista dos exercícios espirituais. No poema de Sá de miranda, mesmo
aquele que passou por torturas, que foi náufrago, mas acabou por chegar a
terra, quer voltar ao mar alto.
Fernando Gil fala de 3
razões de ser da vida (que são três momentos de desenvolvimento e transmutação
do agarrar-se à vida): a) descobrir que a vida é um bem (para F.Gil, trata-se
de uma tautologia); b) aspirar a alguma coisa e sentir-se obrigado a outra coisa
qualquer (conjunto de aspirações e obrigações que dão forma à vida); c) os
direitos. A segunda e a terceira são o desenvolvimento da primeira, que é a
mais forte. Aqui é preciso falar da felicidade e da alegria. Há em todo o
desenvolvimento e aspiração, a reivindicação de um direito a procura da
felicidade. E o que é a felicidade? Vejam o filme “Vidros partidos”, de Victor Erice (“Testes para um filme em
Portugal) sobre trabalhadores de fábrica desactivada que chegou a ser uma das
fábricas de fiação mais importante da Europa. Indistinção entre ficção e
documentário, com um poder incomparável. Estes trabalhadores falam um português
de uma precisão, fundura e beleza a que não estamos habituados, um português
próximo do de Sá de Miranda.
Intuição
intelectual: acto de criatividade suprema de um ser
que não conhece afecções. Ente racional por excelência. Deus. Aquela sabedoria
que não pode ser senão conhecida pelas palavras que os poetas escrevem. Marina Tsvetaeva: poemas que estão
antes dos grandes poetas. Nenhuma eufonia nem nenhuma lógica sintáctica fácil.
Poema que não chegou a cair na linguagem. Sem nenhuma retórica. Às vezes até
temos medo do que lemos na poesia. Nos exercícios espirituais não temos medo
nenhum. A poesia não almeja à felicidade. É um elemento patológico elevado a
mitológico, de certa forma. Na poesia não há argumentação: essa é a sabedoria.
A melhor forma de
aceitação da vida, na leitura de F.Gil, é a saudade do perecível, saudade do
que passa. Isto nenhum grego poderia pensar, muito menos Platão – amores,
desamores, casa que habitamos, os nossos amigos, nós próprios.
Serão os poemas
exercícios espirituais? Estou a pensar que não – diz M.F.Molder.
Exercício espiritual:
1)
Atenção
ao presente – única maneira de afastar peso do
passado e do terror do futuro, é amar o dia. Atenção ao que está diante de nós
é o mais difícil.
2)
Distanciar-se.
É só levantar-se um pouco, subir a uma colina, ir ao andar de cima. Destacar-se
um pouco da torrente. Entre mim e uma preocupação que eu tenho, p.ex.
Libertação da parcialidade. De estarmos agarrados aos nossos pontos de vistas,
crenças, preconceitos.
3)
Ousar
esperar/Imaginação: aspecto des-realizante. Afastar todos os finalismos. Fazermos coisas sem
porquê. Tentativa de fazer as coisas sem porquê. Audácia de imaginar a leveza.
Chama-se esperança a isso. A esperança tem a ver com expectativa que precisa de
ser preenchida; sentimos satisfação sem fim.
4)
Amor fati
(Nietzsche): aceitação da vida. O
perecível como o mais nobre. Sem qualquer reserva.
Platão, passando por
Leibniz até Heidegger: porquê o ser e não o nada? não é à medida humana. Tem a
ver com o fundamento. Fiquemos com o que nasce e o que morre.
[Da plateia, uma
pergunta que também nos havia surgido ao escutar a conferência: porquê
Wittegenstein, e não Levinas como “o
grande filósofo sobre o rosto”?]
Maria Filomena Molder
concede: “tradicionalmente, Levinas é o grande filósofo do rosto”. Mas o que a
impressiona mais em Wittegenstein, que, aliás, também era religioso (embora
como motivação mais escondida)? É mais simples, menos metafísico que Levinas:
quando alguma coisa é olhada com muita atenção, tem rosto; então tudo pode ser
um rosto. Mais modesto, mais próximo da nossa vida. Tenho esta parcialidade;
temos preferências, amores e não podemos evitar. Às vezes, exageramos.
Esta poesia que está
antes dos grandes poetas não conhece uma tradição, não sabe uma tradição; os
grandes poetas estão já dentro da poesia. Esta ingenuidade e leveza podem fazer
com que estes poemas possam até ser mais importantes do que muitos que achamos
decisivos na [história da “grande”] poesia. Os poetas não são ingénuos; há é
inocência.
A linguagem é uma
infecção. Para tudo arranjamos um nome. No poeta, não há nada de espontâneo.
Não é tudo estudado, embora muito seja estudado.