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sábado, 18 de março de 2017

Bento XVI e o futuro da Igreja


Sobre o seu sucessor, Bento XVI afirma, na entrevista a Peter Seewald, Conversas Finais, que se trata de "uma lufada de ar fresco na Igreja, uma nova alegria, um novo carisma com o qual as pessoas se identificam; de facto, é algo bonito" (p.60). A quando da sua eleição, Bento XVI ficou surpreendido ("foi por isso uma enorme surpresa para mim", p.54). Não que tivesse um nome na cabeça, mas um perfil ("não alguém em concreto, mas uma pessoa diferente, sim (...) não pensei que ele fosse um dos candidatos pré-seleccionados", p.55); ainda que o nome de Jorge Mario Bergoglio tivesse surgido com força no conclave que elegeu Ratzinger, a partir daí não mais tinha aparecido e o Papa Emérito não estava a pensar no argentino para Papa ("mas depois a sua forma, por um lado, de rezar e, por outro, de falar ao coração das pessoas acendeu imediatamente a centelha", p.54). Conhecia-o das visitas ad limina, tinha-o como um homem resoluto da argentina ("alguém que, na Argentina, de um modo bastante resoluto, afirmava: 'Isto faz-se e isto não se faz». Não conhecia a sua faceta afectuosa, de dedicação muito pessoal às pessoas", p.55), mas encontrou, agora, um afecto, um apego às pessoas, um calor que desconhecia. 
Francisco não consulta Bento XVI constantemente. Mas envia-lhe documentos - como exortações apostólicas - com especial reverência e simpatia. Sobre a Evangelii Gaudium: "Não é um texto pequeno, mas é bonito. Foi escrito de uma forma que nos prende. Certamente nem tudo é dele, mas contém muita informação pessoal" (p.59). Ou seja, Francisco "é certamente também um Papa da reflexão. Ao ler a exortação apostólica Evangelii Gaudium ou ainda as entrevistas, constato que é uma pessoa meditativa, alguém que trabalha intelectualmente as questões modernas" (p.57). Em todo o caso, Bento XVI acha "bem que que ele [Francisco] estabeleça um contacto tão direto com as pessoas, Pergunto-me naturalmente, quanto tempo é que ele irá aguentar, porque duzentos ou mais apertos de mão, e por aí adiante, todas as quartas-feiras, exige muita-força" (p.58) Vindo da Argentina, o Papa Francisco é também italiano, símbolo de uma união entre o antigo e o novo, no mundo católico que assim bebe uma inspiração tão necessária:

"Significa que a Igreja se mexe, é dinâmica e aberta e nela estão em curso novos desenvolvimentos. Significa que ela não ficou cristalizada num qualquer modelo. Antes pelo contrário, há sempre qualquer coisa de surpreendente a acontecer, ela tem uma dinâmica que a pode renovar constantemente. Admirável e encorajador  é o facto de precisamente também no nosso tempo acontecerem coisas de que não estávamos à espera e que mostram que a Igreja está viva e cheia de novas possibilidades. Por outro lado, era de esperar que a América do Sul tivesse um papel importante.  É o maior continente católico e, ao mesmo tempo, o mais sofredor e o mais problemático. Possui de facto grandes bispos e, apesar de todo o sofrimento e todos os problemas, também conta com uma Igreja muito dinâmica. Nessa medida, de alguma forma, era também a hora da América do Sul, sendo que o novo Papa é simultaneamente interior entre o antigo e o novo mundo, bem como a unidade interior da História (...) É evidente que a Europa já não é o centro da Igreja Universal. Pelo contrário, a Igreja surge agora verdadeiramente na sua universalidade, tendo o mesmo peso em todos os continentes. A Europa mantém a sua responsabilidade, as suas tarefas específicas. A fé na Europa tem-se enfraquecido de tal maneira que isso, só por si, faz com que apenas de forma limitada ela consiga ser a verdadeira força impulsionadora da Igreja Universal e da fé na Igreja. E vemos também que, através de novos elementos (por exemplo africanos, sul-americanos ou filipinos), há uma nova dinâmica que entra na Igreja e renova um pouco o Ocidente cansado, volta a dinamizá-lo, desperta-o mais uma vez do cansaço, do esquecimento da sua fé. Quando penso designadamente na Alemanha, lembro-me de que aí há certamente uma fé viva e um profundo empenho em Deus e nas pessoas. Contudo, por outro lado, temos o poder das burocracias, que está presente, a teorização da fé, a politização e a falta de uma dinâmica viva, que ainda por cima, sob o peso das estruturas, muitas vezes parece ser quase esmagada, pelo que a valorização de outros pesos na Igreja Universal e a nova evangelização  da Europa a partir do exterior são encorajadoras. (...) Não é apenas a Igreja, no seu todo, que influencia a igreja local. Segundo São Paulo, a doença de um qualquer membro afecta todos. O empobrecimento da fé na Europa, por exemplo, é também uma doença para os outros continentes" (pp.56-57 e 60)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O fim do tempo e o tempo do fim


Faz hoje, 28 de Fevereiro, às 20 horas, precisamente 4 anos que Bento XVI assumia o fim do seu ministério petrino (a renúncia fora anunciada a 11 de Fevereiro). Numa decisão que, pela sua raridade não deixou de causar estupefacção, vários foram os contextos de interpretação ensaiados sobre a mesma. Poucos, creio, com a densidade com que o filósofo Giorgio Agamben mergulhou nos textos bíblicos, na Tradição e nos escritos do próprio Ratzinger, dando origem a um livrinho intitulado El misterio del mal. Benedito XVI y el fin de los tiempos (Adriana Hidalgo, 2013), cuja síntese e principais sublinhados procuro deixar a seguir.

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Da renúncia de Bento XVI

Giorgio Agamben nota como a decisão de renúncia de Bento XVI foi meditada: a 4 de Julho de 2009, o Papa deposita, sobre a tumba do Papa Celestino V, em Sulmona, o pálio que recebera no momento da sua investidura. Ora, Celestino V (séc.XIII) também renunciara, e o Papa Bento quase que fez suas as palavras então registadas pelo Sumo Pontífice: debilitas corporis e infirmitas personae são os argumentos, mutatis mutandis, alegados pelos Santos Padres para a renúncia.
Ainda que, sem dúvida, regista o filósofo, tais motivações sejam verdadeiras e devam ter acolhimento, elas estão longe de esgotar o significado do gesto. Sobretudo, em Fevereiro de 2013, não se ignorava o que as fontes antigas asseguravam acerca da renúncia de Celestino V: “fraudes e simonias da corte”. Logo, o “carácter exemplar” da decisão de Bento XVI, nomeadamente para as nossas sociedades, dado que ela encerra, em si mesma, o carácter performativo de questionar radicalmente a razão última de um agir e, mais ainda, de um existir (pessoal/institucional): se a crise que atravessamos é tão profunda, é porque ela não se coloca somente ao nível da legalidade, mas, bem mais, da legitimidade. De aí, que não baste, hoje por hoje, o recurso ao poder judicial para resolver o que nos corrói mais densamente e, bem assim, tenhamos que anotar como a “hipertrofia do direito”, a tendência legiferante assinale “a perda de toda a legitimidade substancial” (p.13). Em realidade, “as instituições de uma sociedade apenas se mantém vivas se estes dois princípios (que na nossa tradição também receberam o nome de direito natural e direito positivo, de poder espiritual e poder temporal ou, em Roma, de auctoritas e potestas) continuarem a estar presentes e atuarem nelas sem pretender coincidir jamais” (p.13). Desde logo, portanto, Agamben assinala: “estamos convencidos de que, cumprindo a ‘grande renúncia’, Bento XVI deu prova não de vileza (…) mas de uma coragem que hoje adquire um sentido e um valor exemplares” (p.11). Afirmar a necessidade e pertinência daqueles dois princípios essenciais – legitimidade e legalidade – não significa, contudo, ordená-los de modo hierárquico, nem fazer com que um se sobreponha ao outro (como sucedia quer no caso e no tempo – como o medieval - de um poder espiritual triunfante e inquestionado, quer, inversamente, quando os Estados totalitários, no séc.XX, prescindiram do princípio da legalidade). E não se subsuma, nos nossos dias, ainda, o princípio legitimador da soberania popular ao momento eleitoral, como que (se) resolvendo “em regras procedimentais juridicamente pré-fixadas”, com a legitimidade a correr “o risco de desaparecer na legalidade” (p.14). Aqui, se prefigura, como nunca, a grandeza e ousadia do que Bento XVI reivindica: “por isso, o gesto de Bento XVI nos parece tão importante. Este homem, que era o chefe da instituição que ostenta o mais antigo e pregnante título de legitimidade, com o seu gesto vem colocar em questão o próprio sentido desse título. Frente a uma cúria, esquecida por completo da sua legitimidade, seguindo obstinadamente as razões da economia e do poder temporal, Bento XVI optou por usar apenas o poder espiritual, da única maneira que viu possível, quer dizer, renunciando ao exercício do vicariato de Cristo. Desta forma, a própria Igreja foi colocada em questão desde as suas raízes” (p.15)
O ensaio de Giorgio Agamben resulta de uma conferência – agora retomada com acertos, mas no essencial intocada, para reflectir sobre a renúncia de Bento XVI, mais ainda, do seu significado para as nossas sociedades hodiernas, contando com apêndice com os principais textos que evoca ao longo da sua dissertação -, por si proferida a 13 de Novembro de 2012, em Friburgo (Suiça), por ocasião do outorgamento da distinção honoris causa em Teologia. Neste contexto, não deve estranhar-nos a competência e proficiência do autor no estudo, investigação, conhecimento bíblico e da Tradição e, de modo especial, em esta estação, dos escritos eclesiológicos – não textos de divulgação, que têm o seu lugar, sublinhe-se, mas textos “técnicos”, de uma visão teológica mais aprofundada e densa – de Bento XVI. Em particular, Agamben toma o artigo de 1956, na Reveu de Études augustiniennes, que Joseph Ratzinger publicou com o título Beobachtungen zum Kiechenbegriff des Tyconius im Liber regularum [Observações sobre o conceito de Igreja no Liber regularum de Ticónio], para mostrar como o verdadeiro tratado de eclesiologia presente no autor que se revelou indispensável e sem o qual não se compreende Santo Agostinho, o marcou, seu olhar sobre a essência e o destino da Igreja, de modo determinante: “o conteúdo essencial da doutrina do corpus bipartitum consiste na tese de que o corpo da Igreja tem dois lados ou aspectos: um, esquerdo e outro, direito; um, culpável, e outro bendito, que constituem, sem embargo um só corpo”, escreve Ratzinger, que completa: “Não há nele [em Ticónio] essa clara antítese entre Jerusalém e Babilónia, tão característica de Agostinho. Jerusalém é, simultaneamente, Babilónia, inclui-a em si mesma. Ambas constituem uma única cidade, que tem um lado ‘esquerdo’ e um outro ‘direito’. Ticónio não desenvolveu, como Agostinho, uma doutrina das duas cidades, mas antes de um só cidade com dois lados”. A consequência desta exposição é, para Ratzinger, a seguinte: “a Igreja é, à vez, – até ao Juízo Final -, a Igreja de Cristo e a Igreja do Anticristo” (pp.17-18). Poucas vezes tão intensamente descrita, esta última, como na lenda do Grande Inquisidor, em Os irmãos Karamazov, de Dostoievsky (como recorda Agamben, p.23). E, no séc.IV, uma escola de pensamento via neste carácter bipartido da Igreja a causa do atraso da parusia.
Se estes dois corpos estão actualmente fundidos e irão ser separados no fim dos tempos, estribando-se Ticónio, na sua exposição, na célebre (e enigmática) passagem da Segunda Epístola de S.Paulo aos Tessalonicenses que contém uma profecia sobre o fim dos tempos, e se Bento XVI, a 22 de Abril de 2009, em audiência geral, volta a retomar Ticónio para fazer compreensível o “mistério da Igreja” hoje, Agamben retira a conclusão de que Ratzinger, ademais chamando a Ticónio “grande teólogo”, coloca sobre aquela concepção eclesiológica – e, com certeza, sobre a Igreja que então o próprio Bento XVI observa – a chancela do Bispo de Roma (o que “não é, em absoluto, indiferente”, p.25). Reitera o Professor de Iconologia no Instituto Universitário de Arquitectura de Veneza: não se trata, tão só, do entendimento da Igreja como sendo permixta, mas ainda, e não menos relevante, das “implicações escatológicas”, da “grande discessio”, a grande separação a ocorrer no fim dos tempos: “a abdicação não pode não evocar, nesta perspectiva, algo assim como uma discessio, uma separação da Igreja decora [justa] face à Igreja fusca [negra]; e, não obstante, Bento XVI sabe que esta pode e deve ocorrer apenas no segundo momento da segunda vinda de Cristo, que é precisamente o que a bipartição do corpo da Igreja, actuando como Katékhon [‘o poder que trava’], parece destinada a atrasar”(p.26).
Mesmo que se diga, com Troeltsch, que a Igreja, desde há tempos, “fechou o seu ofício escatológico” (p.27), “a decisão de Bento XVI mostra, precisamente, que o problema das coisas últimas continua a actuar subterraneamente na história da Igreja” (p.27). A Escatologia, aliás, não remete para uma paralisia das coisas actuais, inutilizando toda a acção, mas, bem melhor, “faz parte integrante do sentido das coisas últimas que estas devem guiar e orientar a acção nas coisas penúltimas” (p.27). É com esta noção que devemos seguir Paulo, a quem “interessa não o fim do tempo, mas o tempo do fim, a transformação interna do tempo que o evento messiânico produziu de uma vez e para sempre e a consequente transformação da vida dos fiéis” (pp.27/28). Desta sorte, o “mysterium iniquitatis da Segunda Epístola aos Tessalonicenses não é um arcano supratemporal (…) é um drama histórico (…) que está em curso (…) a todo o momento e no qual se jogam incessantemente os destinos da humanidade, a salvação ou a ruína dos homens". E uma das teses do Comentário ao Apocalipse, de Ticónio, que Bento XVI conhecia muito bem, era precisamente que as profecias do Apocalipse não se referem ao fim dos tempos, mas à condição da Igreja no intervalo entre a primeira e a segundo vinda, ou seja, no tempo histórico que estamos a viver” (p.28). Postas as questões nestes termos, a renúncia de Bento XVI é apreciada, do seguinte modo, pelo filósofo italiano: “a ‘grande renúncia’ de Bento XVI é todo o contrário de uma remissão ao futuro cisma escatológico: ela recorda (…) que é impossível que a Igreja sobreviva se remeter passivamente para o fim dos tempos a solução do conflito que despedaça o seu ‘corpo bipartido’. (…) O problema do que é justo e do que é injusto tão pouco pode ser eliminado da vida histórica da Igreja, mas deve inspirar, a cada instante, a consciência das suas decisões no mundo. Se, como frequentemente fez a Igreja, se finge ignorar a realidade do corpo bipartido, a Igreja fusca acaba por prevalecer sobre a Igreja decora, e o drama escatológico perde todo o seu sentido. A decisão de Bento XVI traz à luz o mistério escatológico em toda a sua força disruptiva; mas só de este modo a Igreja, que se perdeu no tempo, poderá reencontrar a justa relação com o fim dos tempos. Há, na Igreja, dois elementos inconciliáveis e, não obstante, estreitamente relacionados: a economia e a escatologia, o elemento mundano-temporal e o que se mantém em relação com o fim do tempo e do mundo. Quando o elemento escatológico se eclipsa na sombra, a economia mundana torna-se propriamente infinita, quer dizer, interminável e sem objectivo. A Igreja encontra-se, assim, face ao seguinte paradoxo: desde o ponto de vista escatológico, deve renunciar ao mundo, mas não pode fazê-lo porque, desde o ponto de vista da economia, é do mundo e não pode renunciar a ele sem renunciar a si mesma. Mas precisamente aqui se situa a crise decisiva: porque a coragem – esta parece-nos o significado último da mensagem de Bento XVI – não é senão a capacidade de manter-se em relação com o próprio fim” (pp.29-30).
E como esta indagação profunda, relativamente ao interior da Igreja, sua essência e modo de agir, tem tradução no plano civil, nas sociedades e democracias em que vivemos? Ora, também no âmbito civil, os problemas da sociedade bipartida não podem resolver-se com regras procedimentais, com arranjos técnicos, mas, antes, fazendo com que “a justiça não seja uma mera ideia”, e, assim, face à realidade com que nos confrontamos no presente, na perspectiva do pensador de esquerda, a auto-regulação que “a ideologia liberal hoje dominante” (p.31) proclama, significa não levar a sério, não pensar e não concretizar a justiça (no seu sentido mais completo) e permitir que a sociedade se divida cada vez mais.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Os meus dias (V)


A dificuldade não consiste tanto em dizer, com uma paleta multiforme de manifestações, o que a amizade é, pode ser, foi, sugere ou promete. O problema é remeter para a prática quotidiana, sem a cisão theoria/praxis, sem a qual o trabalho semanal não resiste. Entre a chamada à razão, o não forçar o que só o tempo recompõe (o apelo à sinceridade) e a manutenção da ordem axiológica devida, eis o professor posto à prova.
Lembrei-me do Antunes e do Tomé, aos 10 anos, a chorarem abraçados porque haviam acabado discutir e se zangar o que, manifestamente, contrariava a evidentíssima norma inscrita na natureza. Aprendi pelo exemplo, pois, que é como se deve educar, segundo me garantem e eu concordo. O relativismo virá, apenas, mais tarde.
Entretanto, o João, com uma sensibilidade deslumbrante, inventa um conto que, com uma philiao amor da amizade – desarmante, oferece à turma e às colegas desavindas.
Quando sou fraco, então é que sou forte – terminei, com S.Paulo, prometendo-lhes que da debilidade da amizade ali assumida, ficariam mais fortes e unidas, dali a dias. E nunca se deve faltar a uma promessa.