Sandro
William JUNQUEIRA,
O Meu Mundial. A Vitória do Tédio Mortal, Expresso. 1. Caderno, n. 2385, 14. 07. 2018, 43
O escritor volta ao futebol romântico do Mundial de
1982, em particular ao Brasil de Zico, Sócrates e Falcão para criticar os
excessos defensivos atuais
Quando resolvi enfiar os dedos na memória e
revolvê-la em busca dos primeiros registos de um mundial, detive-me no ano de
1982. No Espanha 82. Numa chispa voltei a ter oito anos, a comer quatro carcaças
com manteiga ao pequeno-almoço, a querer dar mergulhos suicidas e saltos
pós-apocalípticos com Conan — O rapaz do
futuro, a frequentar a escola primária do Montalvão em Setúbal, a colocar o
Naranjito no rabo do lápis e a mordiscá-lo sempre que me deparava com uma conta
de dividir.
Dentar o Naranjito aliviava-me da frustração de
nunca acertar no quociente e era bem mais agradável ao palato do que a madeira
pintada do Viarco. Aprender a dividir exige muita concentração, alertava-me a
professora Celeste, munida de toda a sua pedagogia. Mas o meu centro já se
tinha inclinado para as alegrias e desgraças resultantes do mundo da bola.
Latto, Boniek, Ardiles, Passarella, Arkonada,
Platini, Rummenigge, Shumacher, Zoff, Gentile, Tardelli, Maradona — eram os
cromos que coloriam de vaidade a minha caderneta “Ases do Mundial”. Os rostos e os nomes que folheava diária e
avidamente como se daquilo dependesse a minha vida e a sorte do mundo inteiro.
Mas o que teimou em ficar grafado numa tatuagem cardíaca, a experiência
iniciática que transformou a minha perceção do jogo, não foi a máquina de fazer golos como quem cospe
cubos de gelo chamada Paolo Rossi, nem o cortejo de lágrimas da seleção das
Honduras após a eliminação, nem sequer a sobre-humana recuperação da Alemanha
contra a França nas meias-finais e o subsequente alvoroço perante a primeira
decisão por penáltis na história dos mundiais; não, nada disto; foi, sim, o frango guisado de um almoço
algures entre Aires e Palmela em casa de amigos, e uma tragédia polvilhada de crueldade servida à hora do lanche na
televisão a cores, quando se deu o Brasil-Itália no Sarriá.
O Espanha-82 foi o meu primeiro mundial. E com ele
veio a minha primeira desilusão. Tive um
caso de amor. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Eder e Júnior: os nomes
responsáveis por este golpe de afeto. O que o escrete fazia no campo era
algo que nunca tinha sido visto pelos
meus músculos, pelos meus terminais nervosos. Sócrates, Zico, Falcão,
Cerezo, Eder e Júnior não vestiam apenas a pele de jogadores de futebol.
Transformaram-se em príncipes, mágicos,
bailarinos, encantadores de serpentes, inventores de beleza, tudo ao mesmo
tempo. Pelos relvados espanhóis, espalharam
batucadas do Chico, do Caetano e do Gilberto como eu ainda não tinha ouvido.
Nas suas chuteiras a bola era empurrada
ora com respeito ora com insolência. Tratada com veneração e desleixo. Chutada
com samba e malandrice.
Perante aquelas montanhas de talento, o selecionador
Telê Santana, humilde e inteligente,
decidiu curvar-se e soprar ao ouvido dos gigantes qualquer coisa à la Quinito, simplesmente isto: oiçam, esqueçam o modelo de jogo e o rigor
tático, divirtam-se e sejam felizes. E
eles foram. Muito. E nós fomos ainda mais, por estarmos ali a ver como a
alegria acontece. Foi tudo tão bonito, tão embriagante, pelo menos até chegar o
fim de tarde no Sarriá em que o icebergue
Rossi decidiu abalroar o casco daquele cruzeiro feito de luxo. O pano fechou-se.
É curiosa a força que as coisas parecem ter quando
precisam de acontecer. Durante aquele Mundial a canarinha produziu puro espanto. Como diria Manoel de
Barros: descobriu insignificâncias.
Em termos práticos, foram inúteis,
derrotados pela Itália por 3-2, eliminados da competição. Mas o capítulo que
escreveram no clássico da literatura dos mundiais, na forma e no conteúdo, foi
sublime em termos estéticos.
A
beleza autoriza tudo. Até autoriza o erro. Um dia,
Wislawa Sczimborska contou esta anedota.
Einstein chegou às portas do céu e, ao ser recebido
por Deus, perguntou: “Durante toda a minha vida me questionei sobre que
princípios teria o criador seguido para fazer o universo. Qual foi o modelo?”
Deus respondeu: “É muito simples.” E escreveu num quadro uma equação muito
longa. Einstein, analisando o que via, comentou: “Desculpe, mas há aqui um erro
que se repete muitas vezes.” E Deus disse: “Exatamente!”.
Se
pudesse voltar atrás — e isto talvez seja uma lição da doce burrice — desejaria
que aquela derrota do futebol-arte se perpetuasse para sempre e por todos os
mundiais. Que a minha deceção amorosa tivesse vindo para ficar.
Ou seja: que o Brasil (ou outra seleção
qualquer) jogasse como aquele Brasil jogou e perdesse como aquele Brasil
perdeu; mesmo permitindo que a Itália (ou outra seleção qualquer) ganhasse como
aquela Itália ganhou. Prefiro o
inferno da desordem ao inferno da organização.
Trinta e seis anos volvidos, faço o contraponto com
o Mundial da Rússia: uma janela
aberta com vista para o tédio. Tirando duas ou três parcimoniosas exceções, os
países participantes vêm-se escudando na grande cobardia tática da ordem. Na
exemplar transição defensiva. Na construção das grandes muralhas. Na engenharia
do resultadismo. E no doutoramento em golos decorrentes de lances onde a bola
está quieta — a grande contradição do futebol moderno.
Onde
a maioria dos comentadores e arautos dos ferrolhos táticos consegue dissecar
virtudes, eu só encontro aborrecimento mortal. E sofro de quebras de tensão.
Continuo a preferir mil vezes a ideia de suportar a tristeza da derrota da
beleza, de sofrer um baque de desgosto, a essa celebração da vitória moral do
prático.
Parece
que o futebol moderno foi ferido de morte pelo neoliberalismo. A professora
Celeste ficaria contente com esta vitória da infalível matemática. Eu é que não.

