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domingo, 15 de julho de 2018

Quebras de tensão



Sandro William  JUNQUEIRA, O Meu Mundial. A Vitória do Tédio Mortal, Expresso. 1. Caderno, n. 2385, 14. 07. 2018, 43

O escritor volta ao futebol romântico do Mundial de 1982, em particular ao Brasil de Zico, Sócrates e Falcão para criticar os excessos defensivos atuais

Quando resolvi enfiar os dedos na memória e revolvê-la em busca dos primeiros registos de um mundial, detive-me no ano de 1982. No Espanha 82. Numa chispa voltei a ter oito anos, a comer quatro carcaças com manteiga ao pequeno-almoço, a querer dar mergulhos suicidas e saltos pós-apocalípticos com Conan — O rapaz do futuro, a frequentar a escola primária do Montalvão em Setúbal, a colocar o Naranjito no rabo do lápis e a mordiscá-lo sempre que me deparava com uma conta de dividir.
Dentar o Naranjito aliviava-me da frustração de nunca acertar no quociente e era bem mais agradável ao palato do que a madeira pintada do Viarco. Aprender a dividir exige muita concentração, alertava-me a professora Celeste, munida de toda a sua pedagogia. Mas o meu centro já se tinha inclinado para as alegrias e desgraças resultantes do mundo da bola.
Latto, Boniek, Ardiles, Passarella, Arkonada, Platini, Rummenigge, Shumacher, Zoff, Gentile, Tardelli, Maradona — eram os cromos que coloriam de vaidade a minha caderneta “Ases do Mundial”. Os rostos e os nomes que folheava diária e avidamente como se daquilo dependesse a minha vida e a sorte do mundo inteiro. Mas o que teimou em ficar grafado numa tatuagem cardíaca, a experiência iniciática que transformou a minha perceção do jogo, não foi a máquina de fazer golos como quem cospe cubos de gelo chamada Paolo Rossi, nem o cortejo de lágrimas da seleção das Honduras após a eliminação, nem sequer a sobre-humana recuperação da Alemanha contra a França nas meias-finais e o subsequente alvoroço perante a primeira decisão por penáltis na história dos mundiais; não, nada disto; foi, sim, o frango guisado de um almoço algures entre Aires e Palmela em casa de amigos, e uma tragédia polvilhada de crueldade servida à hora do lanche na televisão a cores, quando se deu o Brasil-Itália no Sarriá.
O Espanha-82 foi o meu primeiro mundial. E com ele veio a minha primeira desilusão. Tive um caso de amor. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Eder e Júnior: os nomes responsáveis por este golpe de afeto. O que o escrete fazia no campo era algo que nunca tinha sido visto pelos meus músculos, pelos meus terminais nervosos. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Eder e Júnior não vestiam apenas a pele de jogadores de futebol. Transformaram-se em príncipes, mágicos, bailarinos, encantadores de serpentes, inventores de beleza, tudo ao mesmo tempo. Pelos relvados espanhóis, espalharam batucadas do Chico, do Caetano e do Gilberto como eu ainda não tinha ouvido. Nas suas chuteiras a bola era empurrada ora com respeito ora com insolência. Tratada com veneração e desleixo. Chutada com samba e malandrice.
Perante aquelas montanhas de talento, o selecionador Telê Santana, humilde e inteligente, decidiu curvar-se e soprar ao ouvido dos gigantes qualquer coisa à la Quinito, simplesmente isto: oiçam, esqueçam o modelo de jogo e o rigor tático, divirtam-se e sejam felizes. E eles foram. Muito. E nós fomos ainda mais, por estarmos ali a ver como a alegria acontece. Foi tudo tão bonito, tão embriagante, pelo menos até chegar o fim de tarde no Sarriá em que o icebergue Rossi decidiu abalroar o casco daquele cruzeiro feito de luxo. O pano fechou-se.
É curiosa a força que as coisas parecem ter quando precisam de acontecer. Durante aquele Mundial a canarinha produziu puro espanto. Como diria Manoel de Barros: descobriu insignificâncias. Em termos práticos, foram inúteis, derrotados pela Itália por 3-2, eliminados da competição. Mas o capítulo que escreveram no clássico da literatura dos mundiais, na forma e no conteúdo, foi sublime em termos estéticos.
A beleza autoriza tudo. Até autoriza o erro. Um dia, Wislawa Sczimborska contou esta anedota.
Einstein chegou às portas do céu e, ao ser recebido por Deus, perguntou: “Durante toda a minha vida me questionei sobre que princípios teria o criador seguido para fazer o universo. Qual foi o modelo?” Deus respondeu: “É muito simples.” E escreveu num quadro uma equação muito longa. Einstein, analisando o que via, comentou: “Desculpe, mas há aqui um erro que se repete muitas vezes.” E Deus disse: “Exatamente!”.
Se pudesse voltar atrás — e isto talvez seja uma lição da doce burrice — desejaria que aquela derrota do futebol-arte se perpetuasse para sempre e por todos os mundiais. Que a minha deceção amorosa tivesse vindo para ficar. Ou seja: que o Brasil (ou outra seleção qualquer) jogasse como aquele Brasil jogou e perdesse como aquele Brasil perdeu; mesmo permitindo que a Itália (ou outra seleção qualquer) ganhasse como aquela Itália ganhou. Prefiro o inferno da desordem ao inferno da organização.
Trinta e seis anos volvidos, faço o contraponto com o Mundial da Rússia: uma janela aberta com vista para o tédio. Tirando duas ou três parcimoniosas exceções, os países participantes vêm-se escudando na grande cobardia tática da ordem. Na exemplar transição defensiva. Na construção das grandes muralhas. Na engenharia do resultadismo. E no doutoramento em golos decorrentes de lances onde a bola está quieta — a grande contradição do futebol moderno.
Onde a maioria dos comentadores e arautos dos ferrolhos táticos consegue dissecar virtudes, eu só encontro aborrecimento mortal. E sofro de quebras de tensão. Continuo a preferir mil vezes a ideia de suportar a tristeza da derrota da beleza, de sofrer um baque de desgosto, a essa celebração da vitória moral do prático.
Parece que o futebol moderno foi ferido de morte pelo neoliberalismo. A professora Celeste ficaria contente com esta vitória da infalível matemática. Eu é que não.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jesus e Sócrates


Com efeito, faz todo o sentido pensar em Sócrates, quando se tenta compreender a verdadeira identidade de Jesus. Já tivemos ocasião de nos interrogarmos sobre aquilo que o poderia aproximar de um sábio susceptível de ser considerado um verdadeiro mestre de sabedoria. Só isso bastaria, certamente, para nos remeter para a grande figura filosófica da qual Platão, Aristóteles e muitos outros receberam a herança, e nos transmitiram a reflexão e o ensinamento. Contudo, há uma razão ainda mais específica para aproximar uma da outra, essas duas grandes figuras, às quais a nossa história cultural tanto deve: foi diante da sua própria condenação à morte que Sócrates e Jesus foram chamados a mostrar a verdadeira medida do seu empenho no discurso de sabedoria que ambos tinham mantido, cada um à sua maneira
Tendo sido ambos acusados de lançar o descrédito sobre a concepção de Deus ou do divino predominante no seu ambiente, e de se terem tornado, por isso, causa da subversão social, tanto um como outro preferiram morrer a renegarem-se a si próprios, granjeando assim a consideração pelo menos de uma parte da sua posteridade.
Contudo, isso não impede que se devam registar grandes diferenças entre essas duas prestigiosas personalidades. Por um lado, aquilo que chegou até nós do ensinamento de Sócrates traduz uma importante preocupação pelo governo político da cidade, que não se encontra de modo algum em Jesus. Por outro lado e acima de tudo, não se vê no grande filósofo de Atenas qualquer menção que pudesse dizer respeito à existência de um Deus-Pai e à esperança de salvação para os homens.
Como compreender, por fim, a enorme diferença de comportamento entre um Sócrates que continua tranquilamente o seu discurso diante dos seus discípulos, bebendo, completamente impávido, a taça da cicuta que o mataria, e um Jesus entregue aos suplícios que, numa solidão quase total, não tem medo de manifestar a sua dor física nem a sua angústia moral?

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.89-90

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

História da Ética


A ética vivida encontrou sempre no seu caminho a questão de Deus. Em todas as sociedades da antiguidade o bem e o mal estavam pensados em relação com o deus e os deuses.  As tragédias de Sófocles são disso um exemplo notório. Todavia, não é irrelevante notar que nas suas origens a ética filosófica apareceu como rompendo com o ambiente politeísta da sociedade grega. Deste ponto de vista, a narrativa platónica da morte de Sócrates não deixa de ser consideravelmente paradoxal: Sócrates foi condenado por impiedade e perversão dos jovens, mas, nos últimos momentos antes de morrer, pede a Críton para oferecer em nome dele um galo a Asclépio (deus da medicina), como que para mostrar contra os seus detractores o seu espírito religioso. Ética e religião tiveram relações tão estreitas como complexas. Será que existe também uma ética cristã? Não há dúvida que os Evangelhos e o Novo Testamento na sua totalidade propõem normas de conduta, orientações de comportamento baseadas na fé em Jesus Cristo. A ética do amor, de um amor que perdoa, que vai até ao extremo do amor até pelos inimigos, enraíza-se no próprio agir de Cristo, que chama os seus discípulos a imitá-lo.
Formados pela filosofia grega, os primeiros pensadores cristãos - por exemplo, Justino - propuseram uma teologia cristológica da história, sem preocupação pela possibilidade de uma ética filosófica autónoma. Com efeito, para os teólogos cristãos até ao século XIII, a tarefa principal consistia em mostrar a consistência de uma ética cristã e não estabelecer a autonomia da ética filosófica.

Michel Renaud, A evolução histórica da Ética, in Ética. Dos fundamentos à prática, pp.128-129 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Quem é (o) sábio (?)


Nisso, Sócrates mantinha-se fiel a uma velha tradição grega, que reservava o nome de sábio, não só para aqueles homens dotados de grandes conhecimentos teóricos, mas também (e, muitas vezes, sobretudo) para os que sabiam aconselhar os outros na difícil arte de viver.

Carlos Morujão, Racionalidade prática, in Ética. Dos fundamentos às práticas, coord. Maria do Céu Patrão Neves, Edições 70, p.64

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Um quadro de referência (II)


                                      ÉTICA DO DEVER (a partir do SÉC.XVIII)

Duas teorias sobre o dever:

a) CONSEQUENCIALISMO

b) DEONTOLOGISMO


a) "De boas intenções está o inferno cheio". O que fazemos deve ser medido pelas consequências e não pelas intenções. Por melhor que seja a intenção, se depois tem más consequências, o que fazemos é errado.

A perspectiva UTILITARISTA (Bentham, Stuart Mill, Peter Singer) propugna a maximização do bem-estar. Devemos buscar esta maximização quer enquanto indivíduos, quer na acção política. Conseguir alcançar o maior bem possível, do ponto de vista das consequências, eis o desiderato. O que é o bem-estar? Muitas vezes, tem-se respondido com "prazer", ou "ausência de dor". Esta ética, curiosamente, foi tida por João Cardoso Rosas como excessivamente altruísta - "tenho mil euros no banco, quando podia tê-los entregue a uma instituição de caridade e satisfazer muitas mais pessoas" -, "própria de santos ou heróis".

b) A Deontologia é um sistema de regras. Regras absolutas (em princípio, nunca, em nenhuma circunstância, devem ser quebradas). Pensemos nos 10 mandamentos, na ética kantiana (imperativo categórico). Aqui, estamos perante uma ética centrada no agente e não nas consequências. Para a deontologia, matar e deixar morrer, por exemplo, são coisas diferentes (ao contrário do que sucede, no mesmo exemplo, para o consequencialismo).

Os exemplos de Jim e os Índios (perante um general que capturou Jim e 5 índios, Jim é colocado perante a circunstância de atirar perante um Índio, com a promessa de matando um, os restantes sobreviverem; ou abster-se de matar algum e os cinco morrerem - isto, claro, num óbvio exercício "torturador" por parte do general), isto é, o que faz Jim nesta situação (?), ou o de podendo, nós, capturar, na rua, alguém, para lhe retirar órgãos para salvar 5 pessoas (ainda que à custa da pessoa capturada), ilustram como, umas vezes, seguimos uma lógica deontológica e, em outras ocasiões, uma consequencialista. A hesitação entre a opção por uma, ou outra, dá-se tanto a nível pessoal, como profissional e político.

Na medida em que a ética do dever, embora imperativa (deves fazer isto), nos dá duas pistas diferentes (utilitarismo e deontologismo), será que fracassou? Tem-se colocado a tal ética os problemas do intuicionismo, da motivação e o regresso de uma ética das virtudes.

A questão da motivação, por exemplo, é sem dúvida importante: eu posso achar que devia ser vegetariano e ser incapaz de resistir a um bom bife. Entre o achar que e o fazer vai uma distância considerável. A ética do dever procurou ser um "céu racional".
A ética das virtudes procura que sejam cultivados os bons traços de carácter e, portanto, não tem aquele problema. Em todo o caso, oferecendo orientação, não dá uma solução evidente, uma decisão casuística. "Quando não se acredita em nenhuma regra absoluta, só se pensa nas consequências" (João Cardoso Rosas).

Os Direitos humanos, por sua vez, são uma tentativa de harmonizar consequencialismo com deontologia - um consequencialismo das regras.

Embora não acredite nas regras, o consequencialista pode pensar "ainda bem que as regras existem, porque assim as pessoas sentem-se mais seguras e há maior bem estar". Os juristas tendem a ser anti-consequencialistas.

Em suma, a ética antiga, centrada na virtude, e a ética moderna, focada no dever, são, ambas, relevantes para quem pensa sobre Moral. Perante questões como "O que é a justiça?", ou "O que é a coragem?" - perguntas colocadas por Sócrates - as pessoas não tinham ideias muito claras. Com Platão assistimos a uma hierarquização das virtudes e, sobretudo, a uma visão muito intelectualizada acerca destas, pressupondo o atingir do mundo das Ideias - quem alcançasse as verdadeiras ideias, alcançaria, ipso facto, as virtudes. Para Aristóteles, a virtude ética é um traço de carácter, manifesto no agir habitual. Traço, pois, manifestado empiricamente. Como sabemos o que é a coragem? Na acção é que vemos como é.

Aristóteles erigiu o meio termo, a justa medida, a virtude cardeal. Ela situa-se, aliás, entre dois vícios: vício por excesso e vício por defeito. Pensemos na generosidade: o seu vício por defeito é a avareza, enquanto que o seu vício por excesso é o desperdício. O homem virtuoso atinge a felicidade (corajoso, justo, honesto). Para Aristóteles a felicidade é o telos (fim) do Homem; todas as coisas têm um propósito. 

A ética das virtudes é atractiva, porque nos coloca perante questões como "que tipo de pessoa devemos ser?" como "construção que cada um faz de si próprio" (Cardoso Rosas) e fornece orientação - dá pistas, mas não oferece solução. A sua lógica é teleológica. A ética do dever coloca-nos questões como "como devemos viver?", "o que devemos fazer?", deveres positivos e negativos e baseia-se num olhar da ciência moderna (o mundo sem finalidades ínsitas). O domínio e transformação que preconiza para a natureza parte de uma visão desencantada desta.

sábado, 18 de abril de 2015

Funcionários públicos


*Em 1995, no final dos governos Cavaco, havia em Portugal 647893 funcionários públicos nos quadros (com dezenas de milhares de outros a recibos verdes);

*Em 2002, no final dos governos Guterres, havia 778782 funcionários públicos;

*Em 2011, no final dos governos Sócrates, havia 737774 funcionários públicos;

*Em finais de 2014, a menos de um ano do governo Passos Coelho, havia 655620 funcionários públicos.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Cinco para a meia noite




A conferência de imprensa dos advogados de José Sócrates coincidiu com a intensificação do caso BES, alargado à Suíça, e com uma crescente contestação na rua dos lesados. De acordo com Pedro Delille, o seu cliente usaria os envelopes carregados de dinheiro do seu amigo Santos Silva por não "confiar" nos bancos. Afinal, o homem que como primeiro-ministro nunca pareceu hesitar em intervir na administração e nas guerras internas dos bancos seria, no fundo do coração, um Bakunine anticapitalista. (...) A defesa de José Sócrates, sem prejuízo do princípio da presunção de inocência, parece tornar cada vez mais credível a possibilidade de o país ter tido à frente do governo, durante seis anos, alguém sem qualificações éticas ou substantivas para o cargo. (...) E nós, os cidadãos comuns, estaremos em condições, até psicológicas, de suportar toda a verdade? Teremos a coragem de arcar com todas as consequências se se confirmar que, afinal, a nossa democracia foi impotente para impedir que o nosso sistema político e económico tivesse sido capturado por inimigos do interesse público?

Viriato Soromenho-Marques, Até onde queremos saber?, DN, 14/04/2015.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Só sei que nada sei"




A famosa fórmula de Sócrates: «Só sei que nada sei» não é a expressão de uma modéstia excessiva. Ela significa que o filósofo, que acreditava saber e que descobre que nada sabe, não se satisfaz mais com as aparências do verdadeiro, com as quais, por facilidade, fraqueza, por pressa, nos contentamos a maior parte das vezes. Aquilo que ele procura não é tanto uma verdade absoluta, quase impossível de atingir, mas sim a exigência, incessantemente renovada, de uma medida mais alta da verdade.

Jean d'Ormesson, O mundo é uma coisa estranha, afinal, Guerra e Paz, 2015, p.42.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Correspondência


Será que o mais importante da carta de Sócrates a Mário Soares é a pergunta cuja origem o autor faz remontar a terceiros: "onde estão os seus amigos?" e cuja resposta é "tenho agora comigo [os amigos] que sempre quis ter"? Aguardemos os próximos capítulos.

domingo, 29 de junho de 2014

Ser consequente


Na quinta-feira, António Lobo Xavier reconhecia, na sic notícias, que o que Seguro – através dos seus mais variados apoiantes – tem dito de Sócrates está ao nível do que a Aliança Portugal disse nas últimas europeias. Um remake, acrescentou Pacheco Pereira. De resto, o nível é exactamente o mesmo quando se preferem os adjectivos aos substantivos. Se um governo foi um desastre – como os desconhecidos notáveis do PS que assinaram um nada notável manifesto no I, ao lado da famosa entrevista de João Proença -, deve explicar-se, com detalhe, porque o foi. Só isso permitiria, no PS e no país, do PS para o país, um debate sério e esclarecedor, mesmo que três anos depois (Proença alude às PPP e ao memorando negociado, é certo, mas não vai além disto e não assina o tal manifesto). Não estamos perante questões que digam respeito, exclusivamente, a uma dada pessoa, numa avaliação moral ou judicial do seu comportamento (embora essa avaliação também possa ser e tenha sido realizada). Da mesma maneira que Proença explica que é impossível uma coligação à esquerda três perguntas antes de sustentar essa mesma aliança, por pura táctica, assim, também, num populismo sem qualquer outro valor, Seguro, autor de uma tragédia política pior a cada dia que passa, ataca os governos Sócrates e a seguir apresenta propostas que, a levar a sério as críticas a tais governos, não poderiam ser as que são (dado que os problemas seriam outros e não aqueles que identifica como necessários resolver). Neste contexto, o artigo de Daniel Oliveira, este Sábado, no Expresso, tem o mérito de pôr os pontos nos i’s, mostrando o que está em causa – fora do mundo dos mestres-escola – quando se discute a figura de Sócrates:

“Se Seguro acha que esta crise resulta de Sócrates, isso tem três consequências lógicas: que a crise é essencialmente nacional, e não europeia; que ela nasceu do endividamento público, e não da desregulação do sistema financeiro e, por cá, da enorme dívida externa privada; e que ela resultou de um peso excessivo do Estado. Se Seguro acha isto tudo, não terá, em coerência, outro remédio senão apresentar as mesmas propostas da direita para sair desta crise: uma recuperação centrada na redução da despesa pública, que nunca poderá poupar o Estado social, e uma aceitação do statu quo europeu. O problema da socratização do debate não é Sócrates. É a história que nos conta desta crise. O problema de Seguro não foi afastar-se de Sócrates. Foi (…) ter-se ido instalar no lugar que a direita já tinha ocupado. Sim, por mera conveniência táctica, isso aconteceu apenas com o diagnóstico. Mas se o diagnóstico é esse, o seu programa de governo não pode ser muito diferente do que está a ser aplicado. E para isso já temos Pedro Passos Coelho”.