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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Conversa solta, entre nós


E no Sábado, uma curta viagem até ao Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta para ouvir Graça Morais: "quando pinto, transformo-me completamente. Quando pinto, sou autêntica, vou ao fim de mim, vou ao fim do mundo". Nessa altura, imersa na pintura, "até a respiração atrapalha". 
Fernando Alves, que neste fim de tarde junto a Sabrosa, fazia perguntas, conversava, picava, como se fossemos todos muito lá de casa, recordou a influência de Chagall na artista plástica transmontana. Que concordou, com matizes: "Chagall foi das primeiras atracções. Hoje não preciso dele para viver...talvez haja outros de que precise mais". 
O metro quadrado, por Lisboa, onde vive Graça Morais, está, hoje por hoje, como se sabe, pela hora da morte, aspecto que a pintora associa ao tipo de obras minimalistas que tem desenvolvido mais recentemente. Os espaços que decidiu arrendar são bastante exíguos, o espaço influencia a artista, e os desenhos pequenos (poemas).
Graça Morais, no pós-25 de Abril, viveu e tudo absorveu em Paris, ao longo de dois anos. Regressou, repleta, à aldeia, destinada a digerir o que vira e o que queria (a) partir dali. Considera a sua obra marcada por uma forte consciência social
Só pinta rostos a quem conhece alma e corpo, desoculta-lhes o mistério, conhece cada ruga da cara das mulheres da aldeia em que nasceu e viveu, não segue uma pintura realista, e encontra o mistério daquelas mulheres num retrato que não se limita a espelhá-las (e estas, quando convocadas à exposição, não se reconhecem nela: "nós não estávamos lá!...". E insiste: "para mim, foi um grande elogio (...): a minha pintura tem que me dar respostas"). Da aldeia, sobra-lhe ainda um gesto que fitou para sempre: "cavar as videiras de joelhos é de um amor extraordinário!...". E já não há quem, ou quase.
A pintora revelou, durante o encontro, que pensa realizar uma exposição dedicada à sua Mãe, em jeito de homenagem: "ela achava que eu a pintava muito mal". E porquê? "Eu pintava-a na sua bravura. A má pintura é muito bonitinha".
A artista plástica, que foi também professora - deu aulas, nomeadamente, em Guimarães -, diz ter aprendido muito com as crianças, e, num gesto livre, todos os anos desenha cerejas, quando estas surgem a ladear a casa. Gosta de "ter amigos e alguns inimigos". 
Num ano em que não choveu em Lisboa, meteu-se no comboio para apanhar chuva no Porto: "aquela luz [de Lisboa] cegava-me". Cidade Invicta a que regressava, solicitada por Manuel António Pina, com o fito de ser entrevistada, pelo escritor, para o JN. Almoçavam, entretanto, no Aleixo, pelos lados de Campanhã, e conversavam sobre tudo, as horas e a tarde lá iam, pelo que a entrevista nunca se fez.
Sobre companheiras de ofício, Graça Morais quis deixar clara a "admiração imensa" por Paula Rego: "uma grande artista do mundo". A certa altura, convidada para fazer o retrato de Jorge Sampaio, Graça Morais deu-se com a vontade de Paula Rego de ser ela a elaborar a figura do Presidente (para a posteridade):"eu fiquei toda contente, porque aquela cara era difícil", disse - sempre, como tudo o que disse na conversa solta, com a simplicidade e o desconcerto, por vezes, capaz de arrancar uma gargalhada. "Tudo o que me é imposto, é-me difícil de fazer". Fez o retrato de Maria de Jesus Barroso para a Cruz Vermelha. Como também retratou o "amigo" Mário Soares
Agustina Bessa-Luís seria uma das mulheres que "eu gostava de pintar: era uma sábia, sibila, uma grande escritora, inteligente, com uma língua muito afiada...o que é bom". 
A primeira ilustração de um livro que fez foi de A.M.Pires Cabral; seguiu-se, uma obra de Manuel António Pina; em 1988 ilustraria um livro de Saramago. Teve uma relação de grande sintonia/empatia com Miguel Torga, na parte final da vida do médico/escritor.