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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Certezas


Lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche, mas parece haver sempre alguém a fazê-lo, todos os dias. Quase toda a gente que alguma vez tenha ensinado cursos de humanidades terá conhecido estudantes que descobriram que palavras como «bom» e «mau» estão desactualizadas, pois são usadas por diversas culturas de maneira diferente. O que pode ter ficado por dizer é que, embora hoje poucos proclamem certezas sobre princípios éticos gerais, a maioria está quase certa sobre paradigmas éticos particulares. A perda de certezas absolutas sobre os alicerces gerais dos valores não afectou as certezas sobre os exemplos particulares; talvez tenha acontecido o contrário. Há três séculos, quando esses alicerces eram tidos como mais sólidos, a tortura e a morte públicas eram largamente aceites. Hoje são universalmente condenadas, apesar das diferenças de princípios. (...) Pode não haver um princípio geral que prove que a tortura e o genocídio são condenáveis, mas isso não nos impede de os considerarmos casos paradigmáticos de mal. (...) Assim, agrupei os pensadores segundo as perspectivas que defendem sobre a natureza das aparências: haverá outra ordem melhor, mais verdadeira, que aquela que experimentamos, ou tudo o que existe são os factos com que os nossos sentidos se confrontam? Está a realidade esgotada naquilo que existe, ou sobra algum espaço para tudo o que poderia ser? Dividir os filósofos de acordo com as suas posições sobre uma grande questão é fazer uma divisão grosseira, e produz estranhas alianças. Entre os filósofos que insistiram em encontrar uma ordem para além da ordem miserável fornecida pela experiência incluo Leibniz, Pope, Rousseau, Kant, Hegel e Marx. Entre aqueles que negaram a realidade de tudo o que fosse além das cruas aparências, identifico Bayle, Voltaire, Hume, Sade e Schopenhauer. Nietzsche e Freud não podem encaixar-se em nenhuma destas divisões.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno..., Gradiva, 2005, pp.23-26.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Riso


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Considere-se uma das características das pessoas que as distinguem das outras espécies: o riso. Nenhum outro animal ri. (...) Mas em que consiste o divertimento? Nenhum filósofo, estou em crer, conseguiu alguma vez responder cabalmente. A descrição de riso de Hobbes como «glória súbita» tem uma certa qualidade mágica, mas «glória» sugere que todo o riso é uma forma de triunfo, o que está longe da verdade. Schopenhauer, Bergson e Freud tentaram identificar o pensamento peculiar que se encontre no cerne do riso - nenhum deles, creio, com mais do que um sucesso parcial. Helmuth Plessner viu o riso e o choro como chaves da condição humana, características que tipificam a nossa distinção. Mas esta linguagem fenomenológica é opaca e não conduz a uma análise clara do riso e das lágrimas.
Contudo, uma opinião razoável poderá ser afirmar que o riso exprime uma capacidade para aceitar as nossas inadequações muito humanas: rindo, podemos atrair a comunidade de sentimento que nos vacina contra o desespero. Este facto sobre o riso - apontar para uma comunidade de sentimento - foi bem apontado por Frank Buckley. Todavia, dessa sugestão segue-se outra: só um ser que faz juízos pode rir. De um modo geral, rimos de coisas que ficam aquém das expectativas ou de gracejos que põem as nossas acções lado a lado com as aspirações que ridicularizam. (...)
Por conseguinte, para explicar o riso temos de explicar os processos peculiares de pensamento envolvidos no nosso julgamento dos outros: temos de explicar o prazer que sentimos quando o ideal e o real entram em conflito e também a intencionalidade social peculiar deste prazer. Claro que podemos intentar este tipo de explicação, postulando programas cognitivos no cérebro humano e na «mente física» nos quais são impressos. Mas por enquanto a explicação será pura especulação, com pouco ou nenhum contributo da genética.

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.27-29