6.
Daniel faz-se à vida como “one man show” (p.20), nada mais apropriado aos
tempos (híper-individualistas), sendo o “bobo” – e o narrador reflete acerca do humorista como o colaboracionista que
evita(va) ao mundo revoluções dolorosas e inúteis, pois que responde ele, com
as suas piadas, sketches e outros motivos, com violência à violência (do mundo)
- que converte todo o tipo de estereótipos sobre comunidades (particulares) em
motivo de escárnio, fazendo do obsceno um veículo de atracção de massas. No
mesmo espectáculo, congrega piadas anti-islâmicas e anti-semitas (p.41). Ele
que passa pelo cinema (p.41), tem um último espectáculo precisamente intitulado
“100% de ódio” (p.50). Chega a ter 6 milhões de euros (p.27). E não lhe escapa
o que isso significou quanto ao modo como encarou o trabalho: “fora de certo modo uma espécie de puta,
adaptara-me ao gosto do público” (p.174). A escrita, contudo, nesta
narrativa de vida que enceta – e quanto à narrativa da vida, não há regras
(p.26) –, e em particular a quando da perda no/do amor, dava-lhe “a ilusão do auto-controlo” e isso “permitia-me não desabar” (p.340). Até
porque “é graças à memória que o sono
não destrói de modo nenhum a sensação de identidade” (p.25).
As
memórias de Daniel não são, em qualquer caso, um mero adentrar sociológico num
dado espaço-tempo; elas são, em grande medida, uma reflexão existencial de quem
parte da premissa de que “a vida não
tinha [tem] nada de divertido” (p.174). “Na primeira parte da vida, só sabemos da felicidade quando a perdemos;
depois, sabemos que quando começamos a viver uma felicidade a acabaremos por
perder. Na terceira fase, a antecipação da perda de felicidade inibe a própria
vida” (p.143). A juventude “era o
tempo da felicidade, a sua única estação” (p.321). A maior parte das
pessoas nasce, envelhece e morre sem conhecer o amor (p.144). A humanidade, já
se sabe, está longe de ser grande coisa, na mundividência de Daniel1: “é uma tendência da sociedade (…) uma tendência geral para a barbárie, não há
nenhuma razão para esta seita [elohimita, no interior da qual se registam
homicídios e lutas fratricidas pelo poder] escapar”
(p.299). Fox, o cão, era “o único ser
digno de ter sobrevivido” (p.393), segundo o clone neo-humano do narrador que, acerca da vida, ela mesma, não era
propriamente mais optimista que o seu antecessor: “o simples facto de existir era só por si uma desgraça” (p.390); “apreendia o meu corpo como um veículo de
nada. Não fora capaz de ascender ao Espírito; continuava, no entanto, à espera
de um sinal” (p.386). Este ser “nunca
tivera decisões nem iniciativas a tomar, esse processo era-me totalmente
estranho” (p.365), numa vida, aliás, organizada/regida pela Irmã Suprema, uma guia à laia de big brother (totalitário). E que lá pelo
séc.XXIV vivia completamente isolado, rodeado de umas criaturas, os “selvagens”,
que na economia do livro de Houellebecq como que são o mais aproximado dos (antigos)
humanos: a “brutalidade das suas
relações, com a ausência de compaixão pelos idosos e pelos mais fracos, pelo
apetite indefinidamente renovado de violência, de humilhações hierárquicas ou
sexuais, de crueldade pura e simples” (p.386). Havia, aqui, uma perenidade
que se entendia observar: “as cenas a
que eu assistira perto de Alarcón, ela vira-as repetir-se, quase as mesmas, em
Nova Iorque – embora as tribos se encontrassem a distâncias consideráveis e não
tivessem há sete ou oito séculos nenhum contacto” (p.386).
Interessado
no religioso porque, como pontuou com grande sagacidade, ele tem a
capacidade/natureza de permear/influenciar/determinar todos os sectores da vida
social, Daniel que encontrara um católico com dificuldades de relacionamento
sexual em virtude da sua filiação religiosa, no entanto “quando discutia com um cristão ou muçulmano no liceu tinha sempre a
impressão de que a sua crença era de ‘segundo grau’: era evidente que eles não
acreditavam, diretamente e no verdadeiro sentido, na realidade dos dogmas
apresentados, mas de que se tratava de um sinal de reconhecimento, de uma
espécie de palavra-passe que lhes facultava o acesso à comunidade dos crentes”
(p.212). O seu clone, quando passa por “condições
extremas” lamenta “a ausência de
Deus, ou de uma entidade da mesma ordem” (p.384) a quem se dirigir [assunto
de há muito arrumado no séc.XXIV; ao mesmo tempo, a resposta necessária face ao
mal, no sentido de Pascal: é absurdo que Deus não exista – na medida de uma
reparação final (necessária/urgente); embora também “é absurdo que Deus exista”
em face do mal, para o francês; de qualquer modo, fica uma dada concepção e
imagem que muitos possuem de Deus (como bombeiro)].
Num
sublinhado curto, mas incisivo Daniel alude àqueles que “pelo simples facto de serem pais seriam [viriam a ser] julgados
culpados” (pelos filhos) (p.327). Como que de tal sorte sublinhando ser
essa a condição da parentalidade; dada a sua intrínseca imperfeição, a
sobrevinda da crítica, o elenco de faltas ou falhas [pelo dedo acusador da
descendência…que dali a nada se transformará em acusada, assim mude de papel].
Mal nasce, o pai ou a mãe, é culpado, pois que não foi – nunca será – perfeito.
A sua “culpa” inapelável e nunca superada.
Em
uma visão sombria da vida, dos humanos e do estádio civilizacional em que se
encontra (em que nos encontramos), Daniel não pode contemplar ou conferir, como
não contempla nem confere, qualquer carácter salvífico às suas memórias: as
pessoas, mesmo que soubessem que o humorista/escritor estava a redigir acerca
de um grande acontecimento “não se
importariam, porque estavam habituadas a uma vida insípida e a um comentário”
(p.302). O comentário insere-se na
lógica do achismo quotidiano, que
sobre cada assunto tem uma opinião, para no fundo não levar nada a sério, no
meio da cacofonia (de que participa); o comentário
da sociedade dos comentadores que
merecia ser substituída pela sociedade
dos artistas, bem mais inspiradora, seguramente (Tolentino de Mendonça).
Numa
conferência, na Culturgest, há cerca
de um ano, Maria Filomena Molder recordava
que, em “As razões de ser, Fernando Gil dizia
que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase quer
dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o fôlego”),
os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são elementos
da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação entre a
confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de termos
nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança
a nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar
viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do
recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à
vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela
esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária.
Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência.
Mas depois é necessário um esforço de despertar para a
vida. Esse esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas
numa disposição para a vida. Lembra-te de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe)”.
Se tivéssemos que nos
recolher a autores para quem a vida é um bem, na qual importaria depositar
confiança, há um dom que importa agraciar e talentos a colocar a render, então,
evidentemente, como pontos de partida, a ideia da vida como “desgraça”, a
existência como incessante “dor de ser”, a imagem que retiramos desse mundo na
mediação humana – sempre com lobos
ferozes por rostos e companheiros, em vez de seres que fazem do amor, do
apego, o essencial e entendem a alma, a dimensão espiritual como algo que lhes
permite tocar os valores eternos – bem, verdade, beleza - não seria,
evidentemente, à cosmovisão expressa pelo narrador Daniel que recorreríamos.
Todavia, se a partir de um
ponto de vista em que queremos perseverar nessa confiança na vida e no mundo,
se a mundividência postulada passa pela necessidade da relação, de um forte
vínculo e preocupação com o outro, então a crueza, a brutalidade, a violência
extrema de um universo povoado de átomos que são indiferentes ao que quer que
seja – sem riso e sem lágrimas -, incapazes de se perguntar por qualquer
sentido – nenhuma conversa séria – e deixando de fruir das grandes indagações
filosóficas e teológicas que marcaram a sua caminhada (algo agora simplesmente
inacessível, com o aniquilamento da religião, sob o signo do cristianismo, e da
Filosofia, pelo culto do cientismo, do tecnológico), nesse mundo onde todo o
dissenso foi castigado, nesse cosmos de humanos que não passam de exclusiva
biologia, então, dizíamos, a denúncia sem equívocos de Michel Houellebecq
adquire uma grandeza incontestável em virtude do seu talento literário (e de um
background onde avultarão, nesse
sombrio sobre a existência, Nietzsche ou Schopenhauer).
A propósito deste romance, e
da distopia que ele encerra – o fim do amor, das relações como a
libertação/emancipação da humanidade; o isolamento como a nova condição, num
humano maquinal e petrificado, no qual apenas a razão instrumental permanece -
Leonidas Donskis faz suas as palavras de Slawomir Mrozek: “o amanhã é o dia de hoje exceto por chegar um dia depois”. “A
possibilidade de uma ilha, de Houellebecq, é uma teoria sociológica da
morte da sociedade, uma teoria apresentada sob a forma de literatura e que
desenvolve uma narrativa convincente. A morte da sociabilidade na fase tardia
da modernidade não é uma fantasia. As pessoas já não querem estar juntas. Já
não têm razão alguma para ficar umas com as outras”. Assim, “tudo o que resta da sociedade são
indivíduos atomizados, solitários, fragmentados, com um frágil poder de
associação. O seu único problema é consigo mesmo e com a sua morte e extinção.
Uma cultura viva cria as suas próprias formas de vida. Uma cultura moribunda já
não cria mais nada, apenas se interpreta” (Donskis). Num universo muito
marcado pelo determinismo, o fatalismo assacado ao fim das próprias relações
humanas, de cada relação que entabulamos, parece querer surgir como resposta -
na narrativa de Houellebecq. Contudo, testando-o até ao extremo, circunscreve
um limite que irrompe enquanto esperança, e esta com(o) uma força da natureza
que não adquiriria num texto delicodoce: “a
história das relações humanas é sempre cíclica: elas começam, desenvolvem-se e
depois definham silenciosamente. Só uma pessoa amada ou amiga pode romper o
ciclo e superá-lo. Vencer o ciclo das relações humanas e a sua morte constitui
a própria essência do amor e da amizade” (L.Donskis). Como Daniel sabia, “acabamos sempre por morrer de amor ou falta
de amor” (p.146). Um amor inscrito em/mediado por Esther: “não sobreviveria à sua partida [para
Nova Iorque, para uma Academia de Piano, e para representar uma peça de
Sócrates]” (p.273). A perda do amor seria uma verdadeira “catástrofe” e aí estava a angústia pronta a devorar (p.274). É na
debilidade da ferida, na inocência talentosa – e talento é algo que falta aos
sem carácter, desenvolve – que Daniel se oferece na beleza da lágrima, na
redenção do sentimento, na verdade do viver [num inusitado golpe romântico, de
alguém que, porém, assume as suas “oscilações
ciclotímicas entre o desânimo e a esperança”, p.349]: “ao mesmo tempo, tornara-me um perfeito cachorro, que um simples torrão
de açúcar teria bastado para apaziguar (…) mas ninguém me ofereceria esse torrão de açúcar” (p.341). Numa
palavra, “um pouco sentimental, um pouco
cínico” (p.327).
Podemos, pois, dizer que
nesta obra “ainda assim, Houellebecq
deixa-nos uma palavra de esperança (…) As suas palavras sobre o amor como
mistura de desejo e compaixão transformam-se na esperança do homem líquido
moderno (…) O breve e infeliz amor de Daniel por Esther (…) isso é esperança.
Se a extinção dos poderes de comunidade, sociedade e sociabilidade representa o
começo do fim do mundo, e se os indivíduos que se usam uns aos outros, mas não
se querem ver nem ouvir, aceleram a autodestruição mútua, então esse ciclo só
pode ser superado por uma vitória, mesmo que apenas momentânea, sobre o
determinismo: por exemplo, uma inesperada palavra de compaixão” (L.Donskis).
O desiderato de despertar para a vida pode ribombar com
um tremendo som estridente de um chicote usado sem clemência – “A
possibilidade de uma ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia do
século XXI, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da
modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada”
(Donskis) - pela pena de um autor que, em qualquer caso, mesmo no mais
tenebroso dos cenários encontrou espaço para a alteridade.
(conclusão)