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segunda-feira, 20 de março de 2017

Metamatemática e algorítmica do pensamento ocidental

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Num ensaio de 1999, "O crepúsculo das humanidades?", George Steiner questionava(-se) acerca de uma má definição - ou ausência dela, de delimitação, fronteira - de Humanidades (o que cabia no interior destas) enquanto sintoma desse mesmo crepúsculo enunciado em epígrafe:

Se há um consenso difuso sobre a inclusão no seio das humanidades da edição e da compreensão das literaturas do período clássico até à contemporaneidade (e aqui a questão da contemporaneidade coloca problemas quase políticos), se a filosofia, a história, a teoria e a história da arte estão ligadas às faculdades de letras e artes, qual será então o lugar das artes performativas, no âmbito humanístico? Será que a linguística teórica e formal, cada vez mais metamatemática e algorítmica, pertence aos litterae humaniores? E será que o mesmo sucede com aspectos econométricos da história económica (ou mesmo da própria história)? E o que dizer da lógica formal no que diz respeito ao discurso metafísico? Ou da filosofia da ciência e da musicologia mais teórica? Não será um elemento central daquilo que está a ser interpretado como uma crise a forma como a matematização exponencial do pensamento ocidental, depois de Descartes e Leibniz, reduziu fundamentalmente (e continua a reduzir) o outrora imperial terreno das humanidades?

George Steiner, As artes do sentido, Relógio d'Água, 2017, p.104 [tradução de Ricardo Gil Soeiro].

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Fragmentos (II)


O pessimismo antropológico de G.Steiner é inequívoco: dizer 'o homem é o lobo do homem' é um insulto aos lobos, afirma em Fragmentos; o altruísmo e "santos leigos" existem, mas não parecem ter demasiada importância sócio-política. 

Praticamente, não há mulheres metafísicas, ou matemáticas, e que isso resulte de discriminações está longe de ser um enigma resolvido. Aqui, Steiner faz como que uma paráfrase de Presenças Reais mas resiste à intuição de então (a questão da criação artística relacionada com o dar à luz).

Por mais meios tecnológicos para a difusão do conhecimento, melhorias na saúde que haja, sempre um pequeno grupo de eleitos (genética/culturalmente) prestarão os relevantes serviços à humanidade (90% não contribuímos com nada e a posteridade não passará além das páginas da lista telefónica). Pelo sortilégio da história, nenhum caucasiano parece vingar na velocidade, enquanto "nenhum teorema algébrico saiu do Congo".

O mal continua a ser refutação suficiente, percebe-se, da divindade, para Steiner, ele que vê o humano submetido absolutamente ao lucro, mesmo na caixa de esmola que tem como escopo a troca dos favores no imanente pelo bem-estar no além mundo.

domingo, 26 de junho de 2016

Fragmentos


Segundo George Steiner, em Fragmentos, faz falta, ainda não foi escrito, um grande romance capaz de documentar a passagem, no interior de uma relação, do amor (eros) à amizade (philia). A amizade assassina o amor, revelando a sua maturidade última e a sua superioridade.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Razões para a tristeza do pensamento (III)


A partir de Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento (de George Steiner):

Um terceiro motivo de uma tristeza inseparável do pensamento: o pensamento (e o pensamento sobre o pensamento), sendo privado, próprio, repete-se vezes sem conta, dificilmente alcançando originalidade. Estamos condenados a dizer o mesmo, ainda que por palavras outras. É a forma verbal, e não o conteúdo, que dá a certas palavras e enunciados uma força imensa, assinala Alexander Pope. E Steiner pergunta que metáforas são verdadeiramente novas, se foram pensadas unicamente pelo emissor, se os receptores as perceberam imediatamente?

domingo, 20 de setembro de 2015

K.


George Steiner, num texto de 1963 incluído em Linguagem e Silêncio, nota como já em 1958 se recensearam 1300 comentários e exegeses da obra, por sinal não demasiado extensa, de Kafka. Este, aparece aos olhos de Claudel como o grande escritor da época, do século, a par de Racine. Diferentemente da recusa alegórica, metafórica, parabólica, o Kafka de Steiner é o profeta do tempo do inumano que pressente (ou constata). Kafka morre em 1924. Os totalitarismos, e a (forçada) "colaboração" vítima-carrasco, antecipada em A colónia penal (os judeus irão cavar, literalmente, nos lager, a sua sepultura). O marquês de Sade é o padroeiro da nossa época, afirma, então, Kafka que, nos diários, reflectirá acerca da impossibilidade de não escrever, o escrever como tipicamente marcando o habitante de Praga também, mas ao mesmo tempo a impossibilidade de escrever, de captar, com a escrita, o indizível. Creio que esta impossibilidade última de comunicação perpassa, ainda, o conto na origem de Viver é impossível, ontem em cena no Rivoli, onde a disposição do chão em que assentavam os personagens remetia-me para o fragmento, para a possibilidade de ilhas, para a forma do aforismo em que Kafka se especializa. K. passou a ser marca registada.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mestres (VI)



"A beleza é o carácter", concretiza, em fórmula depurada, a definição solicitada, Wole Soyinka. É mesmo isso. O homem que esteve preso dois anos, pela ditadura nigeriana, encontra prazer, mas não beleza na sexualidade, no orgasmo. Na cadeia, nunca foram tais temáticas que solicitaram a sua atenção. Motivo de consolação, aí, as obras de arte entranhadas em si, em especial a música, sinfonias sabidas de cor que interiormente percorreu e o salvaram, num silêncio preenchido, na prisão. Além disso, muito logicamente, precaveu-se, lutando para encontrar as fórmulas, equações matemática aprendidas na escola para preservar a sanidade mental, ocupando-lhe muito tempo. Um ofício. Mas, momento belo, na cadeia, ele que viu seus semelhantes agrilhoados, nos pés, a caminho do enforcamento, foi escutar, certo dia, sem aviso, os seus companheiros naquele lugar inóspito, cantarem, cantarem colectivamente, canções tradicionais e outras, cristãs. Uma força que assim se afirmava, ainda que não agressiva.
Saberá Soyinka, o Nobel da Literatura de 1986, porque é que quem leu Rilke e ouviu Beethoven foi capaz, no momento seguinte, de torturar (a grande questão de Steiner)? Tal como Rilke quis aceder ao âmago, à essência (pura) da poesia, os carrascos podem ver-se no papel de escultores de uma humanidade purgada de elementos não puros, perfeitos. O mesmo quanto à exaltação, harmonia e perfeição, dimensão visionária em Beethoven: a transposição dessa perfeição cabia ao verdugo. Soyinka conheceu-o de perto: aquele julga que a humanidade se divide em escumalha e elite, e, obviamente, pertence a este segundo grupo, pelo que cumpre-lhe pôr fim ao restante conjunto (de [sub-]humanos).
O pressuposto de que a vida vale a pena não lhe interessa. Parece-lhe isso: um pressuposto, um a priori que rejeita. Vive-se e pronto. Sem fatalidade, cabendo a cada um cumprir o seu destino (moldá-lo). 
Para a religião yoruba, a que pertence, há três esferas inter-relacionadas: a dos que não nasceram, a dos vivos e dos mortos.
A conversa começara pela indagação acerca de uma eventual percepção do belo pelos animais (maxime, pavão), ou se se trata de propriedade - a percepção - dos humanos. Na infância, já Soyinka retirava consolação da literatura e da Natureza - estando a sós com ambas; gostando, ainda, hoje, de uma hora no mato, para descansar; gostando, ainda, da caça.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Notas de leitura


Apesar de, no nosso tempo, muitos dos melhores talentos seguirem a via académica das ciências duras, e de, aliás, estas – as ciências duras - virem a encontrar novas imagens e renovar a nossa linguagem, a verdade é que sobre as possibilidades do humano nunca a neurociência ou a estatística serão capazes de dizer como Dostoievsky disse (Steiner, 2014).


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Primários


O convívio com Plutarco, ou Ovídio, na escola primária, verificava-se, naturalmente, através de Chaucer, quer na escola isabelina, quer na vitoriana. Esse feliz convívio durou até 1914. A literatura expressava o génio da nação e era elemento determinante para a identidade nacional. Acreditava-se que formava o bom gosto, a sensibilidade estética, mas, também, a sensibilidade moral. As guerras mundiais derrubaram o optimismo e a crença na literatura. Estes tópicos, queridos a Steiner e por ele desenvolvidos vezes sem conta, levam-no a questionar, já em 1965, se se devia continuar a pegar num passado sem presente, ou até futuro (um passado não operativo); se não se devia, logo ali, na década de 60, aprender línguas de outras áreas civilizacionais que não a ocidental para não se ficar com uma visão paroquial; se não era urgente estudar o mandarim, pois que a China determinaria muito, note-se a profecia, o nosso futuro.
Há poucos anos, num livro provocador advindo do mundo chinês, onde se exaltavam algumas diferenças no modo de olharmos a educação a ocidente e a oriente, A mãe tigre explicava que uma sua filha de três ou quatro anos lia, já, Sartre (se não estou em erro; cito de memória). Pareceu-me exagerada a referência e um excessivo forçar do ponto: nós aqui puxamos pelos miúdos.
Já um convívio normal com os clássicos, com mediações nacionais, como o acima exemplificado, me surge natural. Por cá, a tendência para ver, em tudo, uma exigência desmesurada, da escola, sobre as criancinhas parece-me tão pouco equilibrada como ler e entender Sartre aos três anos.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Magris e Steiner


Àqueles a quem falei de Alfabetos, de Claudio Magris, um dos livros do ano (de 2013), disse sempre que ele me fazia evocar, de imediato, tal a erudição, George Steiner. Por isso, achei particularmente curioso que Vasco Graça Moura, na magnífica entrevista dada a Ana Sousa Dias, publicada na Ler (Janeiro 2014) tenha, justamente, procedido a uma comparação entre os dois autores:


Leu o livro dele, Alfabetos? É magnífico. Não conheço outro assim, nem mesmo o George Steiner. O Steiner era homem para fazer uma coisa daquele género, mas precisa de 30 páginas para um bom ensaio e o Magris em quatro vai directo ao assunto e mobiliza uma cultura e uma informação absolutamente extraordinárias. Sabe o que aconteceu comigo? Foi uma das coisas que mais me comoveram, que me abalaram. Ele estava na Gulbenkian, ia falar. Virou-se para mim e citou-me em português uma tradução minha de Gottfried Benn, um poeta alemão. Fiquei com cara de parvo. Isto é uma coisa extraordinária! (p.39)



P.S: Diga-se que em Alfabetos Claudio Magris dedica um dos ensaios a Gramáticas da criação, de G.Steiner, considerando o livro “uma obra-prima da crítica literária”.