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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ciência séc.XVIII


Mas não foi apenas Newton. Cada nova descoberta parecia dar razão ao argumento do desígnio. De facto, para o século XVIII, essa tese era menos uma teoria que um dado adquirido. A sua afirmação central era apenas esta: a prova da existência de Deus não é mais nem menos que toda a criação. É que esta está tão impregnada de ordem e dos desígnios divinos que não poderia ter sido originada por acidente. Não há necessidade de apontar para algo tão grandioso ou distante como os céus; a estrutura das nossas mãos ou olhos também serve. Desígnios tão complexos requerem um autor. (...) A ciência não era vista como uma rival, mas como uma escrava da fé, já que cada nova descoberta o era da relação constante entre os fenómenos. Qualquer avanço na ciência era a indicação de mais ordem no universo. (...) No livro A Religião nos Limites da Simples Razão (...) Kant escreveu que o rei David jamais poderia ter adorado o Criador como nós, pois sabia muito pouco das maravilhas da criação. Assim, os seus salmos deviam ser ouvidos como um som vazio, pois a emoção que sentimos ao contemplar o trabalho da mão de Deus, agora manifestado na ciência moderna, é demasiado grande para se poder expressar. Estes pontos estiveram tão presentes na literatura como na Filosofia, tanto em francês como em alemão. (...) Newton encarava o seu trabalho como um testemunho da glória de Deus, e nenhum dos seus admiradores do século XVIII discordaria.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.44 e segs.

P.S.: Pope, ao escrever que "o estudo apropriado da humanidade é o homem", como que o precursor da passagem, quanto ao problema do mal, da metafísica e da teologia para o mundo da ética e da psicologia. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Job


Resultado de imagem para Job Bíblia

Afonso X tornou-se rei de Castela em 1252, mas Susan Neiman vê nele o possível primeiro herói do Iluminismo, na medida em que, depois de iniciado por judeus eruditos, na astronomia afirmou: «Se eu tivesse sido conselheiro de Deus no momento da Criação, muitas coisas estariam mais bem ordenadas» (p.30). Concluirá Neiman: "os observadores medievais não estavam inteiramente enganados ao interpretar o desejo de aconselhar Deus como o primeiro passo de um processo que levaria a algo que não poderiam imaginar: não só desejo oitocentista de afastar Deus, mas o anúncio de Nietzsche de que esse acto fora realizado, e já nem sequer era chocante"(p.33).
Afonso sofre a desventura de um dos seus filhos, Sancho, ter conspirado para o depor, sofrimento para muitos merecido como justa punição de quem duvidava da bondade da criação: "assim, o seu destino dificilmente poderá comparar-se com o de Job, cuja história de sofrimento interminável também foi paradigmática para os escritores preocupados com o problema do mal. É importante notar que, tal como os infortúnios de Afonso, os de Job não foram vistos como injustos até muito tarde. Durante o iluminismo, os comentadores deixaram de procurar maneiras de justificar os tormentos de Job. De acordo com Kant, que escreveu um ensaio fabuloso sobre o assunto, os pensadores tinham agido anteriormente na esperança de que Deus estivesse a escutá-los. Tendo perdido essa esperança, tinham menos motivos para experimentar as variações de possíveis teodiceias,  comprovativas de que afinal Job era secretamente culpado de alguma coisa, de modo que a perda de tudo o que tinha era um castigo justificado, ou estava a ser posto à prova para ser recompensado mais tarde. Autores mais antigos, identificados com os amigos de Job, foram os criadores da teodiceia que descobriu uma justificação. Os que vieram mais tarde, identificados com Job, não encontraram nenhuma. Descrever este desenvolvimento pode ser uma forma interessante de passar uma vida inteira, que nunca seria suficientemente longa para analisar a vasta literatura que o livro de Job inspirou" (p.32) [O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Certezas


Lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche, mas parece haver sempre alguém a fazê-lo, todos os dias. Quase toda a gente que alguma vez tenha ensinado cursos de humanidades terá conhecido estudantes que descobriram que palavras como «bom» e «mau» estão desactualizadas, pois são usadas por diversas culturas de maneira diferente. O que pode ter ficado por dizer é que, embora hoje poucos proclamem certezas sobre princípios éticos gerais, a maioria está quase certa sobre paradigmas éticos particulares. A perda de certezas absolutas sobre os alicerces gerais dos valores não afectou as certezas sobre os exemplos particulares; talvez tenha acontecido o contrário. Há três séculos, quando esses alicerces eram tidos como mais sólidos, a tortura e a morte públicas eram largamente aceites. Hoje são universalmente condenadas, apesar das diferenças de princípios. (...) Pode não haver um princípio geral que prove que a tortura e o genocídio são condenáveis, mas isso não nos impede de os considerarmos casos paradigmáticos de mal. (...) Assim, agrupei os pensadores segundo as perspectivas que defendem sobre a natureza das aparências: haverá outra ordem melhor, mais verdadeira, que aquela que experimentamos, ou tudo o que existe são os factos com que os nossos sentidos se confrontam? Está a realidade esgotada naquilo que existe, ou sobra algum espaço para tudo o que poderia ser? Dividir os filósofos de acordo com as suas posições sobre uma grande questão é fazer uma divisão grosseira, e produz estranhas alianças. Entre os filósofos que insistiram em encontrar uma ordem para além da ordem miserável fornecida pela experiência incluo Leibniz, Pope, Rousseau, Kant, Hegel e Marx. Entre aqueles que negaram a realidade de tudo o que fosse além das cruas aparências, identifico Bayle, Voltaire, Hume, Sade e Schopenhauer. Nietzsche e Freud não podem encaixar-se em nenhuma destas divisões.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno..., Gradiva, 2005, pp.23-26.

Sínteses - o mal no pensamento moderno


*Susan Neiman entende que a filosofia dos séculos XVIII e XIX foi guiada pelo problema do mal;
*A distinção entre mal natural (como o que acontece sem o concurso humano, como no caso de terramotos) e mal moral (aquele no qual o humano é decisivo para que o mal aconteça) desenvolveu-se no decurso deste debate (e, olhando agora, o que distingue, de forma abismal, Lisboa de Auschwitz);
*Do Iluminismo até ao presente, dois tipos de perspectiva, independentemente do tipo de mal em causa: de Rousseau a Hannah Arendt, a posição de que a moral nos obriga a tornar o mal inteligível; de Voltaire a Jean Améry, a noção de que a moralidade nos obriga a não o fazer. Susan Neiman simpatiza, sobretudo, com o primeiro destes dois pontos de vista.


O mal no pensamento moderno


O século XVIII usou a palavra «Lisboa» como hoje usamos a palavra «Auschwitz». Que peso pode uma referência cruel transportar? Não é preciso mais que o nome de um lugar para se obter este significado: o colapso da mais básica confiança no mundo, o ponto que torna a civilização possível. Ao perceberem isto, os leitores actuais podem sentir-se melancólicos: ditosa a época em que um tremor de terra podia fazer tantos estragos. O terramoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa e matou milhares de pessoas, abalou o Iluminismo até à Prússia Oriental, onde um desconhecido académico menor chamado Immanuel Kant escreveu três ensaios sobre a natureza dos terramotos para um jornal de Konigsberg. Kant não estava sozinho. A reacção ao terramoto foi tão alargada como rápida. Voltaire e Rousseau encontraram uma ocasião para discutir o assunto, academias por toda a Europa criaram concursos para ensaios acerca do tema, e o sexagenário Goethe, de acordo com várias fontes, foi levado à dúvida e a ter consciência moral pela primeira vez

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno. Uma história alternativa da Filosofia, Gradiva, 2005, pp.15-16.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O lugar literário das grandes verdades


Se Susan Neiman reclamava o romance, mais do que o ensaio, como privilegiado campo de florescimento das indagações últimas, George Steiner, em Pós-Cultura (ensaio de 1970, inserto, agora, em Extraterritorial, 2014), escrevia que "se tantos livros de não ficção exibem uma escrita superior à de grande parte dos romances actuais, são mais sérios e contêm verdades vitais mais intensas, isso significa que a grande época do romance passou" (p.182). Não se contradizem, porém, os autores se percebermos que Neiman identificava no grande romance russo, Dostoievsky e Tolstoi em particular, uma especial possibilidade de aceder ao essencial (da condição humana).

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A guerra, o mal, o humano - referências





Ontem, seguindo a selecção de depoimentos feita BBC (no seu próprio arquivo), como retrato do que foi a I Guerra Mundial, a partir dos relatos de quem a experienciou directamente nas trincheiras (ou em casa, esperando marido, pai, parente, amigo...), em The Great War (que passou na Sic Notícias), e pensando, especialmente, nos depoimentos de (então) soldados que se referiam à guerra como "o regresso à selva, o fim da civilização", ou da impossibilidade de a contar, de a descrever (mesmo perante a tradicional curiosidade materna e seus pormenores; quer dizer, exprimindo os limites da linguagem), recordei, muito vivamente, as palavras de Arturo Perez Reverte, no Pessoal e Transmissível, com Carlos Vaz Marques. A entrevista decorreu em 2007, mas há conversas que nos ficam para sempre. O retrato hobbesiano do ser humano, pelo escritor espanhol, com cores fortes, fica, pois, aqui, de novo. Com uma abordagem bastante diferente, mas muito interessante também, Bernardo Pinto de Almeida, Professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em diálogo com Inês Meneses, na semana passada, em Tanto Para Conversar. Como é do mal que (também) se fala, outro dos momentos altos do programa que ouvia sempre na TSF, Susan Neiman (escutar aqui) que à época - o site da TSF diz-me que a entrevista passou em 2006 - escreveu um livro que se tornaria um clássico, O mal no pensamento moderno, sobre o qual seria possível, pouco tempo depois, ouvir o Prof. Faria Costa a ele referir-se, com grande entusiasmo, em conferência na Faculdade de Direito da Universidade do Porto.