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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Ir para velho


1.No final da sessão comemorativa do Dia Mundial da Filosofia, a Ricardina, vinda de uma outra área disciplinar, a História, abeirou-se de nós, os que estávamos na mesa após apresentação de Aporofobia, de Adela Cortina, e partilhou uma pequena história que, ao seu tempo de estudante universitária, ilustrava, de modo espirituoso, como o adentrar no (hermético) pensamento/linguagem de certos filósofos poderia ser tarefa espinhosa. Para o caso, o exemplo era Hegel. Contava-se, então, que muitos estudantes universitários alemães, de Filosofia, quando as obras de Hegel foram vertidas para francês foram adquirir os respectivos volumes...para ver se o entendiam. 
A colega de Filosofia, retorquiu: no meu tempo, dizia-se que para o compreender era necessário estudá-lo durante 6 anos consecutivos, 6 horas por dia. A boa disposição a encerrar a manhã.

2.Se o tempo permite conhecer melhor o que cada qual pode oferecer a uma organização, este (generoso e elegante) desafio de, ainda que provindo de fora de uma concreta área disciplinar, poder, porventura, adicionar e trazer algum elemento substantivo, honrou-me e procurei, pelo estudo e investigação, corresponder e estar à altura. Amador é tanto o que não faz profissionalmente o ofício a que pode, em qualquer caso, dedicar-se também; amador enquanto aquele que gosta muito (ama). No caso, a coincidência do livro proposto ser, também, o mesmo que acabara, nas deambulações privadas, por adquirir. O tal conhecimento inter-subjectivo e profissional. Finalmente, o texto publicado com arbitragem científica versava vários aspectos, contendia claramente com o que agora diria também, pelo que a validação científica (e um não amadorismo) estavam, igualmente, presentes.
O "excelente pensador" não é, evidentemente, para tomar à letra (pensadores somos todos), e é sinal do respeito à dedicação/empenho colocados no que fiz, mas tem a virtude de colocar o ponto, todavia, onde creio que faz mais sentido: não o "escreve muito bem", ou "tem muito jeito para a escrita", ou "gosto muito de o ler" - ainda que em qualquer tipo de texto, e nomeadamente o ensaio, importe o estilo (o Steiner tem um belíssimo livro dedicado ao assunto, A poesia do pensamento) -, mas antes, no caso vertente, perceber se os autores convocados para dialogarem com a obra em presença e em apreciação, se um balanço crítico foi realizado de modo pertinente, capaz de ilustrar, radicalmente, o que subjazia a toda a problemática, identificando modos de ler a mesma realidade divergentes entre si e de estar à altura da complexidade do que foi escrito originalmente.

3.A Paulina dizia-me, ainda a manhã mal despertara, que de um lado daquela sala só se falava de futebol, e do outro só se falava de escola, exortando-me a conduzir umas conversações, entre a corporação, que introduzisse outra coisa; a necessidade de uma outra conversa - mas agora com hora e dia marcados. À disposição. Penso que a) à medida que o materialismo aumenta, contribui para uma grande sede espiritual (aqui entendida como a necessidade de uma conversa que avance mais fundo e toque aspectos decisivos da pessoa actualmente descartados, à superfície, como inúteis); b) à medida que a atomização e o extremar do individualismo avançam, a vontade de uma comunidade (no sentido mais estrito desta, no que de familiar/vizinha tem) faz sentir-se com maior força. Apesar de paradoxais, ou porque paradoxais - a verdade do complexo que somos só no paradoxo se sustenta -, estes pares que nos surgem antitéticos materialismo/espiritualidade, atomização/comunidade, em realidade, reforçam-se mutuamente (ou, se se preferir, a tendência incrustada no primeiro dos elementos de cada par aqui identificado, promove o segundo). Uma espécie de old firm, à escocesa. A juntar a tudo isto, c) a inexistência de "um grama de actualidade" nos mais novos, e essa coisa supremamente irónica que se traduz por d) ensinar obrigar, em muitos campos, ou quase todos, a investigar, e para preparar o ensinar e completar toda a burocracia não haver tempo para investigação,congregam-se para que esta sede possa ser expressa a mais do que uma voz.

4.Um ponto liga a teorização de Tiago Freitas acerca da nova realidade paroquial (o livro saiu agora nas Paulinas), com a noção, de Halík, da responsabilidade acometida aos capelães e responsáveis de ordem idêntica, incluindo leigos, em diferentes instituições: o de terem/deverem estar disponíveis para todos, não apenas os da "irmandade". No seu "Quero que tu sejas!", Halík refere-se ao alargamento das possibilidades espirituais (de todos; na disposição da troca, mas conhecendo-se o que se vai oferecer/propor), na recusa do proselitismo ou, como agora grafa no novo livro, de uma "apologética barata". Mas percebe-se bem como a sociedade em que estamos criou a necessidade destes espaços, desta convivência, deste ir ao fundo do poço. E da urgência da preparação para um diálogo frutuoso onde possamos mostrar como lemos, diversamente, a mesma realidade, e os mesmos silêncios. E um diálogo que pressupõe que não se dite, a priori, não se reclame para si, conclusões e como as coisas têm que ser.

5.Na semana do honoris causa, a Agustina Bessa Luís, na UTAD, é com A ronda da noite que concluo: "há coisas que se lêem nos livros mas que, nem por isso, deixam de ser assim" (p.13).