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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Yu Hua e a China (II)


Alunos, no Secundário, no parapeito da janela, pernas estendidas, conversando com quem está na rua, no recreio, afinal boa parte dos alunos, o Professor de Física dá a aula para si próprio, indiferente ao desinteresse ostensivo geral, excepto quando tem que fazer a ginástica necessária para se desviar do giz com que procuram provocá-lo, retomando, impassível, de novo, a matéria. Insultar, humilhar o professor, este de Física como qualquer outro, estava plenamente justificado enquanto "acto revolucionário". Que, durante a época da Revolução Cultural chinesa, justificava, já se vê, tudo - ainda que o vale tudo na Educação, em época revolucionária, não se confine, como bem sabemos, ao espaço geográfico chinês. Como conta, e muito também, na procura de tentar compreender uma dada realidade (nacional), o que não está no livro, percebe-se que o respeito pelos mais velhos, essa especial deferência senão uma hierarquia extremamente rígida com o Professor como um dos símbolos, com que contamos em civilizações milenares, não se encontra por aqui (e aqui é tanto o Secundário quanto a restante sociedade de que o livro fala). 
Durante a época da Revolução Cultural, época em que foram assassinados entre um a dois milhões de pessoas e várias centenas de milhares foram feridas, os chineses, e no caso concreto Yu Hua (A China em dez palavras), passam directamente do Secundário para, com pouco treino, dentistas (e profissões análogas). O autor considera-se, mesmo, e à distância, um "dentista pirata". Piratear tornou-se nos anos 2000, anos de grave "crise de valores e de ética" da sociedade chinesa, um dos mantras, não isentos de prestígio. China em dez palavras, proibido na China, foi um desses alvos de contrafacção. 
Entre 1980 e 1989, há um significativo conjunto de reformas políticas na China; isso é travado, definitivamente, com a revolta, e sucessiva repressão, de Tiananmen; diversamente, em termos económicos, a aceleração das reformas disparou. Tudo se passou a vender, números de porta incluídos (dada a importância atribuída ao 6, vida tranquila e sem sobressaltos, e ao 8, vida repleta de fortunas e riquezas, pelos chineses), mesmo que isso implique desordenar ruas e lugares (perdendo-se, nestas, a sequência). Aldrabar passou a fazer parte do dia-a-dia, no qual podemos ir a uma Cidade chamada "Coca-Cola", com rua "pasta de dentes Heimei", ponte "preservativos Sexto Sentido", praça "leite em pó Sanlu", ou "bairro lingerie AB". Numa das localidades, o governo local decide introduzir exames para professores, seleccionando-os de entre os que não seriam viúvos ou com filhos a cargo: uma série destes, em consequência, divorcia-se, furtando-se a ser examinado. 
Numa espécie de posfácio ao livro, o tradutor Tiago Nabais nota que a importância do líder, tão notória com Mao, depois dissolvida no colectivo decisor como conta Yu Hua, regressou com Xi Jinping (tratado como Xi Dada pelos chineses). Desde 2009, data em que quase todos os textos foram originalmente escritos, quase passou uma década e espera-se que em breve o autor, já comparado, pela sátira, a Mark Twain, nos ilumine, desde dentro, sobre o pulsar da China dos nossos dias. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Delírios do quotidiano


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Além de Mao Zedong, existiam outros quatro líderes. Na sala de aula da primeira classe, por cima do quadro, estava pendurado o retrato de Mao. Na parede de trás estavam os retratos de Marx, Engels, Lenine e Estaline. Foram os primeiros estrangeiros que vi na vida. (p.28)

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Uma rapariga da primeira classe da nossa escola dobrou algumas vezes um retrato de Mao, o que fez com que surgisse uma cruz de vincos sobre a sua cara. Por esta razão foi denunciada, e passámos todos a chamá-la de 'pequena contrarrevolucionária'. Na sessão de crítica, em frente de toda a escola, ela chorou convulsivamente e de forma desarticulada confessou o seu crime. (p.29)

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Depois desta sessão o professor reuniu a turma da primeira classe, pedindo-nos para expor os outros pequenos contrarrevolucionários que se escondiam entre os colegas. Lembro-me de dois colegas que foram denunciados. O primeiro nome não reconheci, só depois de o professor falar algum tempo é que percebi que se tratava de uma criança de três anos, denunciada por um vizinho, por ter proferido uma frase reacionária. Um dia, ao início da noite, disse: "O Sol pôs-se". Na época, as pessoas referiam-se frequentemente a Mao como o "Sol Vermelho", consequentemente não se podia dizer "sol" de forma casual. Assim, quando anoitecia, declarava-se "o céu está a escurecer. Ao dizer que o Sol se pôs, aquela criança estaria a sugerir que Mao fora derrubado. (p.29)

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Durante a Revolução Cultural não foram apenas os poemas de Mao que foram adaptados para canções, o mesmo aconteceu com vários excertos do seu livro de citações. Estas músicas eram cantadas por adultos e crianças, assim como por académicos e analfabetos. Não só as massas populares as sabiam de cor, como também os donos das terras, camponeses ricos, contrarrevolucionários, maus elementos e direitistas. Podemos assim concluir que Mao Zedong foi seguramente o letrista mais influente da história da China.
Ao mesmo tempo, os versos e as citações de Mao estavam em toda a parte, rodeando cada momento das nossas vidas. Da cidade ao campo, dos muros de tijolo às paredes de terra, dentro e fora das casas, tudo estava forrado com as palavras de Mao, e também com o seu retrato em que aparecia irradiando luz e brilho como o Sol vermelho. As tigelas onde comíamos tinham escrito: "A revolução não é uma refeição com amigos", e nos copos onde bebíamos água estava escrito o verso de Mao: "Ah, o sabor das águas de Changsha, e agora comer o peixe de Wuchang". As palavras de Mao eram presença constante nos nossos dias, e na hora de dormir deitávamos a cabeça numa almofada com a inscrição "nunca esquecer a luta de classe", e tapávamo-nos com lençóis que diziam "avançar com coragem face ao vento e às ondas".
Nas paredes das casas de banho havia retratos de Mao, e nas cuspideiras estavam escritas algumas das suas citações mais famosas. (p.35)

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Durante a Revolução Cultural, um homem da nossa vila foi a Pequim e, ao regressar, contou que tinha apertado a mão ao Presidente Mao. Com lágrimas nos olhos, disse-nos: "O Presidente Mao apertou-me a mão e, com grande afecto, perguntou-me o meu nome. No total, segurou a minha mão por mais de quatro segundos, mas depois outra mão puxou-o para longe". Em seguida, lamentou-se: "Por pouco não foram cinco segundos...".
Como é evidente, este homem tornou-se herói da vila, e via-o frequentemente a passar na rua muito feliz, sempre com uma mochila militar às costas. Como a sua mão direita tinha tocado na mão de Mao, ele não a lavou durante um ano, até que a certa altura parecia maior do que a mão esquerda, assemelhando-se à pata de um urso de tão escura e suja que estava. As pessoas que o conheciam corriam para apertar aquela pata de urso, e depois exclamavam com satisfação: "Apertei uma mão que apertou a mão do Presidente Mao!".
Depois de crescer, quando conversava com amigos de outras zonas do país sobre as nossas experiências da Revolução Cultural, costumava contar esta história. No entanto, rapidamente percebi que toda a gente conhecia um homem destes na sua terra, e às vezes até mais do que um. Comecei a desconfiar da veracidade da história que o herói da minha vila contou, pois era impossível ser assim tão fácil apertar a mão de Mao Zedong. O mais provável é ele ter apenas visto Mao ao longe, no meio das grandes massas que se juntavam na praça de Tiananmen. Talvez tenha visto a mão do líder e depois tenha imaginado que deram um aperto de mão. Mais tarde, quando toda a gente da vila acreditou sem reservas na sua história, é possível que ele próprio também tenha passado a achar que era verdade. (p.37)

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A minha mulher contou-me que na sua vila havia um presidente de um sindicato que tinha o apelido de Mao. As pessoas da vila tratavam-no por "Presidente Mao", e ele naturalmente respondia. Consequentemente, foi derrubado durante a Revolução Cultural, sendo o seu crime fazer com que no mundo existissem dois presidentes Mao. Este homem caiu em desgraça e, sentindo-se injustiçado, defendia-se em lágrimas dizendo que eram os outros que o chamavam por esse nome, ele nunca afirmou ser esta a forma como o deviam tratar. As massas revolucionárias que o denunciaram retorquiram: "Os outros podem chamar-te assim, mas tu não podes responder. Ao responder por esse título estás a assumir o teu carácter contrarrevolucionário" (p.27)


Yu Hua, China em dez palavras, Relógio d'Agua, Lisboa, 2018. A tradução é de Tiago Nabais, o livro foi publicado originalmente em 2010 (embora esta seja a 1ªedição em português).