O desfile já teve início. Uma procissão de milionários (...) que põem os filhos em escolas não conectadas e que lhes proíbem o uso das suas invenções, à imagem do inventor do iPad, objecto cuja entrada está vedada no seu domicílio. A maioria deles denuncia o efeito arrasador da conexão sobre a psicologia humana.
Por exemplo, Sean Parker, antigo quadro dirigente do Facebook, que declara publicamente: «Só Deus sabe o que andamos a fazer com o cérebro dos nossos filhos». E que revela que a rede social para a qual trabalhou se aproveita das fraquezas psicológicas dos mais jovens. A ele junta-se Chamath Palihapitiya, outro ex-funcionário do Facebook e que hoje é capitalista de risco e gestor de fundos de investimento. Ou então Justin Rosenstein, criador do botão like do Facebook.
Tristan Harris (...) antigo designer responsável por questões de ética na Google (...) declarou (...) à revista 1843, editada pela The Economist: «O verdadeiro objectivo dos gigantes tecnológicos é tornar as pessoas dependentes, por meio da exploração da sua vulnerabilidade psicológica».
Os arrependidos passaram a juntar-se em associações cujos nomes reflectem o seu programa: Time Well Spent («Tempo bem Gasto») ou Center for Humane Technology («Centro para Uma Tecnologia Humana»). (...)
Tim Berners-Lee, pai da Internet, hoje fá-lo [arrependeu-se de ter criado a net] publicamente. Criou uma fundação, a World Wide Web Foundation, para servir de base ao empreendimento (...) Tenta recuperar a utopia primordial de uma Internet descentralizada. Criou o Solid, sistema onde pequenos grupos informáticos se esforçam por construir soluções colaborativas, sem passar pelas plataformas que passaram a reger as nossas vidas. Os libertários tornaram-se resistentes. Contudo, o que antes era preciso conquistar agora tem de ser reconquistado.
Bruno Patino, A civilização do peixe-vermelho, Gradiva, 2019, pp.39-43.
