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domingo, 14 de janeiro de 2018

TRÁS-OS-MONTES, por Álvaro Domingues: "cidades do Estado" e uma "economia assistida"


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Não é cidades-estado; é "cidades do Estado" (p.122). Assim, designa Álvaro Domingues, em Volta a Portugal (p.217), muito do que hoje é Trás-os-Montes, "dada a importância maioritária do emprego e do rendimento gerado pelo sector público" [nesta região]. Mais ainda do que (apenas) a providência do Estado, a assistência (de algum modo exógena) como forma de sobrevivência: "Trás-os-Montes vive de uma economia assistida, sob forma de pensões  ou reformas, poupanças e remessas da emigração, ou transferências do orçamento para o financiamento do Estado Social que ainda existe" (p.122). Todo o investimento infra-estrutural (das Luzes ao Estado Novo, até ao maná da UE) nunca alcançou "nenhum dos milagres anunciados" (p.122).
Em uma visão que poderíamos dizer desencantada, sem um discurso "romântico ou trágico", o geógrafo assinala: "este pano de fundo - pessimista, quase sempre - é filtrado pela assimetria do País entre a capital e as «províncias», pela má consciência face ao «interior», ele próprio autovitimizado pela não superação da sua ideia de assimetria como constituinte da realidade nacional e universal" (p.122). Trás-os-Montes, "terra pobre que exportou a maioria dos seus habitantes, ficou com uma sementeira de aldeias sem gente", marcada, pois, "por um cenário geral de abandono, por contrastes entre a «terra quente» e a «terra fria», por terras escalavradas e algumas cidades prósperas, um sem-fim de aldeias onde já quase não mora ninguém"(p.123). 
Assim sendo, e prosseguindo sem contemplações, Álvaro Domingues considera, por exemplo, que "vão-se fechando linhas [de comboio] no meio de protestos que são mais expressão de um sentimento de abandono do que verdadeiramente resultado da importância do serviço prestado" (p.123). 
E, todavia, "o Reino Maravilhoso guarda uma poética inesgotável e um valor cultural enorme. Não será o olhar para a «aldeia típica» a resgatar este encantamento. Para além do somatório da fragmentação municipal, terá de haver uma entidade regional que cuide daquilo que não resulta do somatório das pequenas coisas. A região chegou a um nível extremo de rarefacção e de envelhecimento e está a perder os seus habitantes «jardineiros da paisagem» como se fora ermamento de há séculos. É preciso redescobrir Trás-os-Montes agora que em todo o mundo se está perto de tudo" (p.123).
Em um livro que recorre ao hipertexto, deixando, muito, ao leitor as conclusões das citações e das fotografias convocadas à compreensão de um lugar, dir-se-ia que é-nos sugerido sobre Trás-os-Montes, ainda, o seguinte: ancestralmente, Trás-os-Montes era lugar isolado, de montanhas e vales profundos, de "clima excessivo", solo pouco fértil, espírito "comunalista vivaz", região delimitada pela "Portela de Homem pela banda do Norte até à ponte do Cavez, e continuando do Poente pelo rio Tâmega até entrar no Douro", com a montanha, que exprime "a ligação entre o Céu e a Terra", a ser horizonte sagrado que atravessa todo o espaço, perpassado, também, pelo centeio (de Vinhais), terra de pão e por não raras casas de atrevido mau gosto, sem "cuidado de ordem e de arranjo, nenhuma preocupação de décor interior ou exterior" que "os melhores arquitectos e paisagistas não desdenhariam achar motivos para as suas obras da mais requintada fantasia". Típicas as casas "de xisto ou feita de granito", região há séculos povoada por gente maioritariamente "robusta e corpulenta", na qual "as pessoas nobres são dotadas de grande primor e brio; muy valentes, e honradas; aptos para a guerra, e tem grande exercício de gineta, e brida, em que fazem sumptuosas festas (...) são muy devotos da Igreja (...), conservão as amizades, e com estranhos são attenciosos. As mulheres nobres têm grande recolhimento, as outras ajudão a cultivar as terras e seus maridos, e às vezes mais trabalhão ellas que elles: em fim diz o Abbade Hoão Salgado de Araujo, que não se sabe desta Provincia vicio algum nativo della" (p.135).
Factos objectivos - demografia, economia, desertificação; interpretação: reino maravilhoso e modo de o procurar promover, ou as consequências dos grandes investimentos; história; geografia física e humana (traços de carácter, ou os carácteres); subjectividades (o gosto das casas, maioritariamente, ou com suficiente presença excêntrica para figurarem no catálogo), mitologia (gente imaculada, sem nenhum vício), auto-compreensão de uma região, sempre e quando se regista, igualmente, em Trás-os-Montes a diversidade dos registos (da Terra Quente à Terra Fria, de cidades mais prósperas até às aldeias sem ninguém; da agricultura abandonada, à do auto-consumo até à produção intensiva). De contrastes e de múltiplos signos o retrato de Trás-os-montes, na pena, e na selecção de fotos e citações, de Álvaro Domingues.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

À lareira

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O seu doutoramento envolveu um trabalho de campo em Rio de Onor.

Uma aldeia onde tive o maior conhecimento sobre mim próprio, sobre o humano, sobre Portugal. Era um espaço rural, uma sociedade plena de trabalho, que produzia o seu tempo, o calendário. E foi o lugar onde provavelmente mais aprendi sobre o funcionamento de uma sociedade, dos indivíduos dentro dela, ou das relações com os envolventes, o poder ou o Estado
Mas também as vertentes mais íntimas, que se transmitem através dos sonhos, das histórias que se contam à lareira, toda essa esfera menos materializável e dita, por ser tão própria do viver de cada um. Quando chegamos a esse território da inutilidade estamos no âmago de uma sociedade. E que é tão essencial, na relação com o Outro, com o cosmos.

Joaquim Pais de Brito, entrevistado por Maria Leonor NunesJL nº1230, ano XXXVII, pp.23-26.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As vantagens da interioridade



Na mesma semana em que, em Vila Real, pudemos deleitar-nos, no Teatro, com um novo concerto de Pedro Burmester - que mereceu, inclusive, chamada a sugestão no suplemento cultural do Expresso - verifiquei (na sugestão da Sábado para idêntico espaço temporal) que o mesmíssimo programa (para Burmester executar), na Casa da Música, implicaria, para o espectador, um investimento que é o quádruplo daquele que faria em Vila Real (sendo, aliás, que é quase 10 vezes mais, se tivermos em conta o preço unitário do bilhete para alguém que seja assinante do cartão do Teatro vilarealense). Nem sempre são (só) desvantagens no interior.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Norte do Norte





Publiquei, originalmente, este texto, a propósito de uma exposição no Centro Português de Fotografia, no Porto, a 13 de Setembro de 2007, no Lamego Hoje.

Para a Lara e para o Rui.


A Norte do Norte

Até 16 de Setembro, no Centro Português de Fotografia (CPF), na Cadeia da Relação, no Porto, ficamos, transmontanos por nascimento e gosto, presos à memória que trazemos connosco: a da jorna dura, rude, campos férteis às mãos da labuta humana sintonizada com o projecto da Criação, egrégios avós que nos legaram identidade granítica, das casas onde viveram ou pelas quais passaram, prados calcorreados, corridos na pastagem das cabras e ovelhas, no leite chupado, sorridente, e sorridentemente, na teta da vaca. Castos namoros, em cantigas de amigo. Uma ida à fonte mais demorada, a traço de lírica imemorial, com os irmãos, muitos, a cobrir as costas. Quando cobriam e não eram malvados.
A preto e branco, escolha subjectiva, o(s) retrato(s) de George Dussaud poderia(m) traduzir nessa fotografia a duas cores – sim, há, também, resíduos de cinza sobre o papel – uma dupla ideia que me ocorre enquanto percorro a exposição: a de que se o Norte do Norte de Portugal, 1980-1995, faz lembrar, verdade, “certas comunidades primitivas”, ele lança, simultaneamente, um forte apelo, interpela-nos instintivamente como espaço primordial.
Há alegria, por entre o frio que desenha caras, rugas rogadas dos céus, mas não corações, esses viçosos e flamejantes corações, há alegria por certo. Uma fotografia, Dussaud, percebemo-lo, colocado em plano sobranceiro ao restante grupo tira espontânea, espontâneo: há última ceia (!), vê, então, como um achado divino, como quem vê do alto. Doze pratos, em desfolhada feliz, debruada a feno, cadeira desnecessária e, logo, inexistente, posta em comunidade na simplicidade, ia a dizer solenidade, do linho sobre a mesa. Simplicidade na conversa cantiga à desgarrada, galarós a disputar poleiro, solenidade na reunião de quem partilha o pão e o vinho. Eis a fotografia que mais me encanta. Que mais me prende.
Fito, depois, a cara dos meninos-homens, sempre mais homens do que meninos apesar de serem meninos, mas são já meninos de canivete na mão, paradoxo, contradição ou circunstância (?) e parecem-me sempre tímidos, acanhados, desconfiados, talvez, do mundo lá fora, onde aqueles seres “simples e verdadeiros” não querem ser corrompidos.
Todos, no entanto, são bem-vindos ao reino maravilhoso. E bem tratados. Todos poderão partilhar da côdea que sustenta o porco acabado de matar. Telúrico retrato, onde o fogo não falta. E até, sofisticação literária em forma e força de imagem, Alice com textura de Lewis Carrol, onde o bocejo canino é, fortuitamente, adequado ao quadro artisticamente desejado.
Xailes pretos de luto? Sim, cemitérios católicos, mulheres peregrinas. Mas não serão, também, xailes pretos das Martas-anjos caídos de que fala Pires Cabral, na consabida arte transmontana do conto, em Vilar Frio (conto introdutório a Portugal Terra Fria, de George Dussaud)? Daquelas Martas que viram os maridos saltar fronteira em busca de um mundo melhor, que foram para a França e para a Suiça, para a Alemanha e os Brasis, e assim enviuvaram, fazendo promessas mil de que Ninguém, mais cedo do que tarde, desconfiara…acabaram, quase em definitivo, os fornos comunitários? Foi-se, maioritariamente, o espírito de entreajuda, de solidariedade, de caridade? Perdeu-se, de vez, a agricultura? Já ninguém, praticamente, faz pão em casa? Já ninguém faz troca-a-troca, em economia rudimentar? Foi-se o mundo onde “o valor de um homem mede-se pela sua coragem no trabalho e a dureza da vida não impede a alegria” (Dussaud)? Foi abalada a fortaleza-mor, no Norte do Norte?
Foram-se, cada vez mais, de um país que não lhes liga, que não os quis. Essa saída agora, já com a CEE e tudo, foi mais frustrante. Os doutores não aproveitaram a Europa. Frustrante de mais para quem, assim, ama e é ensinado a amar a terra. Emigração levou miúdos, já não ensimesmados, já não analfabetos, talvez já não tão mal vestidos e ranhosos, mas com eles a escola, os correios, a polícia, o médico, a televisão e o instituto de meteorologia. Levou quase tudo o Paço, e tornou o prenúncio de morte, lá dos lados de onde eu venho, um ruidoso sinal ao qual os tímpanos fogem, medrosos. Não é Soutelinho que se vai, na serra do Larouco; não estão em causa Pitões das Júnias, o Barroso, o Gerês e a serra da Nogueira, eternizados por Dussaud, mas, sobretudo, pelas gerações que no-los legaram: é o país, é Portugal que está pior.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ethos próprio


A senhora, visitada, no seu probo e recto café, pelo senhor padre H. e sua comitiva, aos Domingos, dias santos e festas de guarda para observação dos jogos do campeonato e demais competições, fartou-se dos “folhas” e “carvalhos” (sic), a toda a hora expelidos, e decidiu abandonar a TvCabo para que conflitos entre pessoas, algazarras e bulhas não sucedessem. 2013. Ethos próprio têm, ainda hoje, algumas aldeias transmontanas.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

90 anos

Adriano Moreira defende intervenção do TC no caso RTP (foto: DN)
 
 
 
 
De maneira que o Portugal que primeiro conheci e amei, era transmontano e tinha a sede principal em Grijó de Vale Benfeito (…).
Um dos problemas que por vezes afecta o meu espírito, porque lhe não encontro solução, é o de saber como é que vou poder ficar junto deles [familiares transmontanos], porque os meus filhos me obrigam a ter a âncora noutro lugar. Parece-me mais intolerável este afastamento que pressinto, do que ter assistido à morte desse homem valoroso [avô Valentim], porque assim nascemos e fomos criados, no amor à terra que não tem apenas um valor simbólico, é fisicamente a terra em que nos tornaremos, solidários no pó como na vida. (…)
Era a maneira de viver, e não a maneira de pregar, que dava carácter a toda a comunidade. Portugal não estava apenas nos mapas escolares, e nas histórias cívicas. Também se encontrava nas rezas familiares, repetidas de século em século, ao tocar das trindades, e que se mantinham nas comunidades da emigração.
Depois da ceia, quando o sino da aldeia chamava gravemente às devoções da fé, a mulher mais velha convidava às orações pelo descanso dos mortos, pelas almas do purgatório, pela paz na terra, e pela segurança dos marinheiros que andavam nos perigos do mar.
A maior parte dos que se reuniam na oração, nunca tinham abandonado a aldeia perdida na serra de Bornes, não sabiam de ver o que era um barco, nem uma só vez tinham tocado água salgada. Mas sabiam, sem o poeta lho dizer, que muito daquele sal eram lágrimas dos nossos. Foi o poeta que aprendeu com eles.
Os velhos sabiam que a integridade da Pátria podia ser ameaçada, e contavam, como se tivessem vivido, porque ainda o tinham escutado de seus pais, como tinham sido terríveis as invasões francesas.
De uma estranja que nunca tinham agredido, que não conheciam, que ficava numa lonjura sem medida, vinha repentinamente o golpe, o saque, o incêndio, a violação. A prontidão da defesa do território não era doutrinada por estrategas, era um ensinamento de experiência acumulado e transmitido de geração em geração.
A solidariedade comunitária, que depois mantinha reunidos os emigrantes em todos os lugares, também se aprendia vivendo.
Para necessidades comuns, reunia o Conselho da aldeia, convocado à noite por uma espécie de toque de corneta ou de ferrinhos.
No dia seguinte, no adro da Igreja, os homens bons decidiam sobre a protecção dos carvalhais, dos pastos, da ponte que era necessário escorar, do ribeiro que urgia regularizar. As leis dos sábios não criaram este procedimento, mas conseguiram acabar com ele.
Nas grandes desgraças individuais, esse comunitarismo era eficaz e obrigatório. Rebate de fogo mobilizava todos os braços livres, para impedir que o incêndio se transformasse num desastre geral. Depois, cada um dando o que podia, dias de trabalho, madeira aparelhada, pedra necessária, batatas de sobras, trigo de reserva, azeite do gasto, recompunha-se como se podia o património do atingido. (…)
Amar na paz do Senhor, com dispensa das regras codificadas, também fazia parte do ritual do campo.
As ceifas e as vindimas, momentos altos de comunhão com o mundo que foi criado para o homem, também obrigavam a descuidos na comunhão das gentes. Trabalhavam muitas vezes ao torna-jeira, cada um indo trabalhar na terra de outro, que lhe retribuía depois o serviço. O resultado é que não havia geralmente uma relação de patrão e empregado, salvo nas chamadas casas grandes que, depois, quando foram comparadas com os latifúndios do sul, pareciam leiras. O sentimento de igualdade, a democracia da vida civil, era a regra geral.
Sentados pela praça, no adro da aldeia, os homens só retribuíam cumprimentos, não se levantavam para ninguém. Havia uma modéstia cultivada, mas não se conhecia a humildade. A justiça civil tinha pouca ocasião de intervir na vida das gentes, salvo nos casos de furto. Mas a violência física e a morte de homem eram frequentemente problemas familiares. Não se denunciava o agressor, se calhava fazia-se justiça privada, muitas vezes com a colaboração da aldeia, quando o culpado era de fora, e o caso exigia paciência e busca para deparar com uma ocasião. (…)
Por cautela, um homem era informado de coisas essenciais, tais como fazer comida, dar um remendo, pregar um botão, e rezar em certas ocasiões. A minha tia Maria, que morreu pelos noventa anos e correu mundo, fez uma relação esclarecida de todos esses ensinamentos necessários, e tratou de nos ensinar, como o ler e escrever antes da idade de ir para a escola, a mim e ao meu primo Alexandre, pela Cartilha de João de Deus. (…)
Todos os anos se honrava o padroeiro do lugar, diferente em cada terra, e protector efectivo, porque era evidente que as coisas sempre poderiam ter ido a pior. Na nossa aldeia a festa era ao Senhor do Calvário.
A vinda da Imagem da capela para a Igreja paroquial era sempre uma cerimónia impressionante, com as mulheres de joelhos ao longo do caminho, e sofrendo de novo a lembrança vivida da Paixão.
Os arraiais eram a dor de cabeça dos párocos, que depois não tinham mãos a medir para as confissões. Mas ficava tudo na comunhão dos vivos e dos mortos, todos filhos do Céu e da Terra, com as virtudes de um dos lados e as fraquezas do outro.
Quando se emigrava, vinha tudo isto com as pessoas, incluindo o gosto pelo pão de centeio, pelas alheiras, pelos salpicões, pelo presunto, e a saudade infinita da terra, dos santos, das festas, das rezas, e dos homens bons que representavam o saber tradicional e ficavam como pontos de referência. (…)
Há uma lei sem réplica que obriga os pobres a emigrar, e os ricos a exportarem capitais. Os transmontanos emigravam, para constituírem colónias interiores em lugares de destino. Assim fez o meu Pai António que, com a minha Mãe Leopoldina, vieram para Lisboa, em 1923.

 

Adriano Moreira, A espuma do tempo – memórias do tempo de vésperas, Almedina, Coimbra, 2009, 12-19.