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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

UK: rescaldo eleitoral


A derrota dos trabalhistas teria sido muito maior com um sistema proporcional, pois muitos votaram com enorme relutância, sabendo que o voto noutro partido de esquerda ou centro-esquerda, sobretudo os Liberais Democratas, seria perdido para os conservadores em muitas circunscrições. Da mesma maneira, os conservadores absorveram os votos do Partido do Brexit, que desceu de 15% de intenções de votos para 2% de votos reais. O peso da Inglaterra, com 84% do eleitorado, fez-se sentir. Os conservadores perderam na Escócia, onde o Partido Nacional Escocês obteve a maior vitória de sempre, com 45% dos votos, perderam no País de Gales, embora com ganhos significativos, e perderam na Irlanda do Norte, onde os partidos anti-britânicos obtiveram a maioria dos lugares. Os riscos de desagregação da monarquia britânica são evidentes, com uma nova batalha politica pelo referendo da independência na Escócia, enquanto a situação na Irlanda do Norte poderá regressar às primeiras páginas dos jornais (...) O carácter cosmopolita de grandes cidades como Londres, Birmingham, Manchester ou Liverpool impediu maior progresso dos conservadores. A ambiguidade política respeitante à saída da União Europeia teve custos devastadores para os trabalhistas, enquanto a clareza política dos conservadores concentrou votos. (...) A verdade é que o Reino Unido aderiu à União Europeia em 1973 devido a declínio económico; nessa altura a Itália tinha melhor prestação. Foram os anos de integração europeia que permitiram a recuperação económica do Reino Unido, agora a terceira economia, muito próxima da França, enquanto a posição de Londres como grande centro financeiro mundial beneficiou do apoio europeu. (...) Finalmente, a renovação do pessoal político é essencial. Ficou à vista que a dupla Corbyn/McDonnell não tinha preparação para afrontar e argumentar com os conservadores formados nas escolas privadas e nas melhores universidades. A prestação no Parlamento e nas entrevistas foi francamente pobre, quando não era difícil colocar os conservadores na defensiva. Boris Johnson foi para mim uma surpresa, não vi a excelência de retórica que lhe era atribuída. O único grande retórico conservador é Michael Gove, embora os tiques faciais não lhe sejam favoráveis. (...) A única líder de esquerda com discurso articulado acima da média é Caroline Lucas, dirigente do Partido Verde, que segurou o seu lugar no Parlamento, mas com o sistema eleitoral de maioria simples tem poucas hipóteses de progressão. (...) Uma última nota sobre o Reino Unido. Não se pense que fica entregue a uma elite reacionária e atávica. Trata-se de um país com uma enorme capacidade económica, as melhores universidades da Europa e do mundo, excelentes museus, equipamentos culturais, escritores e artistas. Existe um dinamismo social que tenho visto raramente noutros países. O debate em torno do “Brexit” levou a uma profunda reflexão social. As opiniões favoráveis a imigrantes estão acima dos 40%, enquanto na Europa continental estão abaixo dos 15%. A capacidade de reação contra um mau governo é também segura. A fratura resultante do “Brexit” levará muito tempo a sarar, mas há condições para garantir uma sociedade civil ativa e participante. (...) A vantagem da democracia é que dá lugar a novas votações, emendas, arrependimentos, mudança de direção política.

Francisco Bethencourt, Eleições britânicas, Público, 19-12-2019, p.12.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

BREXIT


Nas escadas rolantes do metro [de Londres] (...) escorreguei. Perna torcida e pé do avesso. (...) Rumei ao Hospital Universitário perto de King Cross (...) Um médico de origem asiática, Paquistão ou Índia, atendeu-me. Raios X. Leitura dos raios X. Fratura múltipla. Tem de vir à Clínica da Fratura daqui a três dias para colocar uma bota de tala (...) Será vista pelos ortopedistas. O seu país é o melhor país do mundo, disse-me no fim. Antes de entrar na sala do gesso, outro médico, de origem paquistanesa ou indiana, vem falar comigo. (...) A operação é a única solução. Tudo se precipita. Tiram sangue para análises (...) Vão ligar-lhe do hospital logo de manhã, depois da conferência ortopédica. (...) Por esta altura, estava maravilhada com o NHS (...) Telefonam-me às 9h da manhã. Uma administrativa. Não a podemos operar. O sistema está cheio de emergências e temos de dar prioridade. Como é residente em Portugal, recomendamos que viaje para o seu país para se operar, a.s.a.p. Mas disseram-me que era urgente, entraria de madrugada. Sim, mas o serviço tem outras prioridades além da sua e tem a hipótese de se operar no seu país. Digo que não preparei as coisas, há aviões a tomar, há que avisar médicos que não me viram, tudo em menos de 24 horas. Pode dizer-me, se preferir operar-me aqui, quando o seria? Não lhe posso dar uma data, teria de ir aguardando dia após dia. (...) Tenho de ser operada com urgência, o edema, a embolia, a hemorragia, pois, não lhe posso adiantar mais nada. Regresse a Portugal. E a injecção? Não me deram a receita e a medicação. E os exames? Como ia ser internada, não os tenho. Venha ao hospital buscar a medicação, já não será observada por um médico. Regresse ao seu país. (...) Na recepção dizem-me que sou internacional. Onde está o meu seguro? Começo a berrar que eles ainda estão na União Europeia. A seguir, despejo uma torrente de argumentos que acabam com a ameaça de processo, linguagem jurídica complexa, nos anglo-saxónicos tem efeito seguro. Pedem logo desculpa, vão dar-me uma pulseira de prioridade. (...) [Um médico] pede-me desculpa das inconsistências do NHS. Diz-me para escrever uma carta e apresentar a reclamação. Porque foram rudes e isso afecta todo o sistema. Rudes? É esse o problema? Rudeza? Negaram-me tratamento. O NHS está muito sobrecarregado. Dá-me os exames, com ar pesaroso (...) Tenho direito a um CD, peço a análise do sangue, dão a injecção, não a medicação. Tenho 24 horas de efeito anticoagulante, por causa do avião. Tinham-me falado numa caixa de medicação, antes. Em Lisboa, trate do resto. Da ortopedista, nem sinais. (...) Fui expulsa do sistema
Estou em Lisboa, a ser muito bem tratada pelos médicos portugueses. Sei que o nosso depauperado SNS, para o qual pago impostos, jamais faria isto a um cidadão britânico. O 'Brexit' já aqui está. O português com sotaque britânico que conduzia o Uber que me levou a casa, depois de 25 anos a trabalhar no país, mulher e filha com passaporte britânico, viu-lhe negado o pedido de residência fixa por causa de uns papéis em falta dos últimos seis meses. Fazem-lhe a vida negra.

Clara Ferreira Alves, 48 horas no sistema de saúde inglês, Expresso, Revista do Expresso, 01-11-2019, p.3.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Políticas de austeridade


O número de sem-abrigo, no Reino Unido, aumentou 60% entre 2011 e 2017; o número de pessoas que dormem na rua aumentou 134% entre 2010 e 2016. Os cortes nas dotações para as autarquias fizeram com que a despesa destas com os serviços diminuísse 19%. Um reputado economista inglês calcula que o Governo britânico alienou 50% dos terrenos que estavam na posse do Estado em 1978. Com isso, perderam-se parques, recreios e habitação social.

[dados de um recente relatório da ONU, expostos também na mais recente edição do programa GPS, de Fareed Zakaria]

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Ministério da Solidão


Curioso o novo Ministério instituído pelo Governo (Conservador) britânico: o Ministério da Solidão.  A Visão conta que este novo ministério será dirigido por Tracey Crouch, actual subsecretária de Estado para o Desporto e Sociedade Civil, que dirigirá um grupo intergovernamental que terá a missão de dirigir a acção sobre a solidão em todas as partes do Governo. "A verdade é que não se trata de um problema singular. Afecta pessoas de todas as idades, com e sem deficiência, recém-mamãs, refugiados, quem tem família chegada e quem não tem, e não tem uma solução simples. O meu desafio é o de criar e coordenar uma estratégia que cruze o Governo, empresas, instituições de caridade e muitos outros parceiros para durar uma geração", explicou Crouch. Ainda citando a newsmagazine portuguesa, "um estudo da universidade de Cambridge acrescenta que as pessoas solitárias são 50% mais propensas a terem uma morte precoce".

in Visão, nº1289, de 25/01 a 31/01/2018, p.32

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Um mundo perigoso


Um polaco é espancado até à morte, em Londres, aparentemente apenas por estar a falar em polaco, ao telemóvel. O Brexit parece ter sido o salvo-conduto para que toda a xenofobia, os piores preconceitos pudessem expressar-se sem amarras - não pararam de suceder, estes casos, desde o referendo no Reino Unido. Na Turquia, já não podem ser representadas peças de autores não nacionais: Shakespeare, Dario Fo e tantos outros suprimidos dos teatros turcos. A nomenklatura autoritária surge em absoluta roda livre, descontrolada.