A derrota dos trabalhistas teria sido muito maior com um sistema proporcional, pois muitos votaram com enorme relutância, sabendo que o voto noutro partido de esquerda ou centro-esquerda, sobretudo os Liberais Democratas, seria perdido para os conservadores em muitas circunscrições. Da mesma maneira, os conservadores absorveram os votos do Partido do Brexit, que desceu de 15% de intenções de votos para 2% de votos reais. O peso da Inglaterra, com 84% do eleitorado, fez-se sentir. Os conservadores perderam na Escócia, onde o Partido Nacional Escocês obteve a maior vitória de sempre, com 45% dos votos, perderam no País de Gales, embora com ganhos significativos, e perderam na Irlanda do Norte, onde os partidos anti-britânicos obtiveram a maioria dos lugares. Os riscos de desagregação da monarquia britânica são evidentes, com uma nova batalha politica pelo referendo da independência na Escócia, enquanto a situação na Irlanda do Norte poderá regressar às primeiras páginas dos jornais (...) O carácter cosmopolita de grandes cidades como Londres, Birmingham, Manchester ou Liverpool impediu maior progresso dos conservadores. A ambiguidade política respeitante à saída da União Europeia teve custos devastadores para os trabalhistas, enquanto a clareza política dos conservadores concentrou votos. (...) A verdade é que o Reino Unido aderiu à União Europeia em 1973 devido a declínio económico; nessa altura a Itália tinha melhor prestação. Foram os anos de integração europeia que permitiram a recuperação económica do Reino Unido, agora a terceira economia, muito próxima da França, enquanto a posição de Londres como grande centro financeiro mundial beneficiou do apoio europeu. (...) Finalmente, a renovação do pessoal político é essencial. Ficou à vista que a dupla Corbyn/McDonnell não tinha preparação para afrontar e argumentar com os conservadores formados nas escolas privadas e nas melhores universidades. A prestação no Parlamento e nas entrevistas foi francamente pobre, quando não era difícil colocar os conservadores na defensiva. Boris Johnson foi para mim uma surpresa, não vi a excelência de retórica que lhe era atribuída. O único grande retórico conservador é Michael Gove, embora os tiques faciais não lhe sejam favoráveis. (...) A única líder de esquerda com discurso articulado acima da média é Caroline Lucas, dirigente do Partido Verde, que segurou o seu lugar no Parlamento, mas com o sistema eleitoral de maioria simples tem poucas hipóteses de progressão. (...) Uma última nota sobre o Reino Unido. Não se pense que fica entregue a uma elite reacionária e atávica. Trata-se de um país com uma enorme capacidade económica, as melhores universidades da Europa e do mundo, excelentes museus, equipamentos culturais, escritores e artistas. Existe um dinamismo social que tenho visto raramente noutros países. O debate em torno do “Brexit” levou a uma profunda reflexão social. As opiniões favoráveis a imigrantes estão acima dos 40%, enquanto na Europa continental estão abaixo dos 15%. A capacidade de reação contra um mau governo é também segura. A fratura resultante do “Brexit” levará muito tempo a sarar, mas há condições para garantir uma sociedade civil ativa e participante. (...) A vantagem da democracia é que dá lugar a novas votações, emendas, arrependimentos, mudança de direção política.
Francisco Bethencourt, Eleições britânicas, Público, 19-12-2019, p.12.