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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Um conceito fundador


Esta palavra Xénos, que veio a significar estrangeiro, forasteiro, tinha a conotação primeira de "hóspede". É hóspede o que chega a uma terra, a uma casa, no decurso da viagem. Um dos epítetos de Zeus é Xénios, protector dos visitantes e vingador dos maus tratos exercidos sobre estrangeiros. A Xenía é um dos mais antigos conceitos da civilização ocidental. Ele é, ao mesmo tempo, teológico, ritual, espiritual e pragmático
É à Ilíada e à Odisseia  que vão buscar-se exemplos da extrema cortesia para com os visitantes e dos laços sagrados que se tecem entre o anfitrião e o visitante, laços que obrigam mesmo as gerações vindouras. À vista do forasteiro, o dono do lugar avança a recebê-lo, oferece-lhe um banquete, convida-o ao descanso. Só depois lhe pergunta o nome e pede um relato biográfico pois, sendo grego, não dispensa as narrativas
Mas, para além deste esplendor literário onde foram plasmadas experiências seculares, aquilo que sobretudo me comove é a descoberta de placas muito mais tardias em que os versos de acolhimento do Rei Nestor ao filho de Ulisses, vindos da Odisseia, são copiados e afixados à entrada das casas, um pouco como os nossos azulejos de boas-vindas nos alpendres das nossas casinhas da aldeia...Tratando-se de casas da antiguidade grega, a grandeza poética e ética do texto distancia-o, em muito, da nossa frasezinha.

Hélia Correia, em intervenção pelo Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (2018; pelo livro Um Bailarino na Batalha), O Dom da Hospitalidade, JL, nº1274, de 31 de Julho a 13 de Agosto de 2019, pp.32-33.


P.S.: na sua intervenção, Hélia Correia assinala que em função do tema dos refugiados, a peça Suplicantes, de Ésquilo, tem vindo a ganhar uma nova vida. 
Em registo auto-biográfico, e como remetendo para a sua condição (dita por si como sendo) de "bicho do mato", escreve com beleza: "eu tenho por irmã Emily Bronte que sufocava longe das urzes da charneca e continuava a vestir fatos fora de uso no colégio, em Bruxelas, sem mesmo perceber que era alvo de risos".
E elogia Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho, uma obra que "sendo alta literatura, no entanto não concede o alívio que o fim da história de ficção nos pode dar. Este é um livro que se lê na escuridão". 

sábado, 21 de outubro de 2017

MUITO BOM


Bárbara Wong entrevista Nuccio Ordine, no Público:




O meu livro é um grito de alarme. Quando pergunto aos meus alunos por que estão na universidade, respondem-me que é para obter um diploma. Um diploma não serve para nada! Há uma visão utilitarista da educação que mata a ideia de escola. Vamos à escola para sermos pessoas cultas! Para sermos pessoas melhores, para sermos éticos, não importa o curso. Na apresentação do meu livro, viajei de Norte a Sul de Itália e os estudantes diziam-me: “Professor, adoro os gregos e os latinos, mas os meus pais perguntam-me ‘o que vais fazer com literatura? Porque não te inscreves num curso onde possas vir a ganhar dinheiro?’ Isto é a corrupção da ideia do que deve ser a universidade! É corromper os estudantes. Temos médicos que o são porque ganham muito dinheiro e não por razões humanitárias e não pelo que prometem no juramento de Hipócrates. Esta corrupção – a ideia de ganhar muito dinheiro – atravessa a sociedade inteira, chega à política, à economia. Por isso temos corrupção no mundo inteiro. Costumo ler uma história belíssima de Kavafis [poeta grego, 1863-1933] sobre Ítaca, a história de Ulisses, que diz que a experiência da viagem é que fará de ti um homem rico, fará de ti um homem melhor. 



Contesto a ideia de que as universidades sejam empresas. A nossa missão não deve ser vender diplomas que os estudantes compram. Isso é uma enorme corrupção. A escola não pode ser uma empresa porque a lógica da educação não é a do mercado. O princípio da educação é aprender a ser melhor, para si mesmo e não para o mercado. O que vemos na City em Londres [no centro financeiro britânico] são pessoas com elasticidade mental, pessoas que vêm dos estudos clássicos ou da filosofia porque compreendem melhor o mundo do que os especialistas em economia ou programação. As consequências da Declaração de Bolonha, que veio alterar a forma como o ensino superior está organizado, são negativas? Bolonha foi muito dura para o futuro do ensino. Há coisas graves, a começar no léxico, as palavras não são neutras, têm significado, e quando as primeiras palavras que os alunos aprendem, quando chegam ao ensino superior, é “créditos” e “débitos”, impomos uma lógica da economia no ensino. As universidades recebem financiamento consoante os seus resultados, quanto mais alunos com sucesso, mais financiamento recebem, e assim baixa-se o nível para todos passarem. Ninguém vai avaliar a qualidade, só a quantidade. Deixa-se de financiar as pesquisas de base, mas se não fossem essas não seria possível fazer ciência. As grandes revoluções são fruto de pesquisas de base. Por isso, é preciso redireccionar as coisas porque o inútil de hoje pode ser o útil de amanhã. 





Na íntegra, aqui.