Esta palavra Xénos, que veio a significar estrangeiro, forasteiro, tinha a conotação primeira de "hóspede". É hóspede o que chega a uma terra, a uma casa, no decurso da viagem. Um dos epítetos de Zeus é Xénios, protector dos visitantes e vingador dos maus tratos exercidos sobre estrangeiros. A Xenía é um dos mais antigos conceitos da civilização ocidental. Ele é, ao mesmo tempo, teológico, ritual, espiritual e pragmático.
É à Ilíada e à Odisseia que vão buscar-se exemplos da extrema cortesia para com os visitantes e dos laços sagrados que se tecem entre o anfitrião e o visitante, laços que obrigam mesmo as gerações vindouras. À vista do forasteiro, o dono do lugar avança a recebê-lo, oferece-lhe um banquete, convida-o ao descanso. Só depois lhe pergunta o nome e pede um relato biográfico pois, sendo grego, não dispensa as narrativas.
Mas, para além deste esplendor literário onde foram plasmadas experiências seculares, aquilo que sobretudo me comove é a descoberta de placas muito mais tardias em que os versos de acolhimento do Rei Nestor ao filho de Ulisses, vindos da Odisseia, são copiados e afixados à entrada das casas, um pouco como os nossos azulejos de boas-vindas nos alpendres das nossas casinhas da aldeia...Tratando-se de casas da antiguidade grega, a grandeza poética e ética do texto distancia-o, em muito, da nossa frasezinha.
Hélia Correia, em intervenção pelo Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (2018; pelo livro Um Bailarino na Batalha), O Dom da Hospitalidade, JL, nº1274, de 31 de Julho a 13 de Agosto de 2019, pp.32-33.
P.S.: na sua intervenção, Hélia Correia assinala que em função do tema dos refugiados, a peça Suplicantes, de Ésquilo, tem vindo a ganhar uma nova vida.
Em registo auto-biográfico, e como remetendo para a sua condição (dita por si como sendo) de "bicho do mato", escreve com beleza: "eu tenho por irmã Emily Bronte que sufocava longe das urzes da charneca e continuava a vestir fatos fora de uso no colégio, em Bruxelas, sem mesmo perceber que era alvo de risos".
E elogia Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho, uma obra que "sendo alta literatura, no entanto não concede o alívio que o fim da história de ficção nos pode dar. Este é um livro que se lê na escuridão".