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sábado, 27 de outubro de 2018

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Que tratamento editorial a dar ao II Volume das Memórias do Prof.Cavaco? Por um lado, a grande novidade da obra, e normalmente isso é que faz/seria notícia, está em Cavaco colocar-se como a guarda avançada contra a troika, dado que esta era de "um absurdo e uma prepotência inaceitável" e tratava "Portugal como se fosse um protectorado", sendo "inconcebível a atitude de inflexibilidade e de insensibilidade social"; em assinalar Vítor Gaspar como mais troikista do que a troika - "o seu compromisso era com o país, não para com a troika. O que os portugueses esperavam era que ele enfrentasse a troika e a convencesse a recuar. E não me parecia que fosse impossível convencer os nossos parceiros europeus do absurdo da posição irredutível da troika"; em observar que alertou  Passos Coelho para os efeitos da Lei das Rendas, nomeadamente para o facto de os idosos, sobretudo os mais pobres, não terem os direitos acautelados - "o governo falhou ao não aprovar logo as condições de acesso ao subsídio de renda"; em notar a "obsessão" de Passos com o Tribunal Constitucional, em especial a ideia de se demitir em função de pronunciamentos por parte deste - "se desistisse significava que o PSD e o CDS não eram capazes de governar numa democracia constitucional. Não havia precedentes de uma tal atitude por parte de um Governo. O Governo não pode encarar uma decisão do TC como aprovação de uma moção de censura".
Por outro lado, também é manifesto que o principal significado político do livro, das entrevistas que Cavaco deu em sequência da publicação do mesmo, e do posicionamento político do ex-PM é o da crítica à actual solução governativa e uma colagem a Passos - que é um bocado paradoxal face a discrepâncias "profundíssimas", como ontem lhe sublinhava Clara de Sousa, na Sic, que sustenta, no livro, como as passagens vindas de destacar, terem existido face ao Executivo anterior
Um jornalista, portanto, que decida fazer uma notícia acerca do livro de Cavaco confronta-se, pois, com esta situação: dar ênfase a não notícias que estão plasmadas na obra, relativamente ao actual PM e à solução/coligação que o sustenta (que é o que o autor pretende, politicamente, passar); ou acentuar novidades, como as grandíssimas divergências que Cavaco manifesta face ao Governo Passos que, na verdade, são depois, em sucessivas entrevistas, "desdramatizadas", se possível ignoradas, sendo o foco colocado noutro lado (nem, se assim não fosse, Passos marcaria presença no lançamento da obra, nem todos os demais grandes protagonistas políticos portugueses, na actualidade, estariam ausentes do mesmo).
Em função das diversas pré-publicações em diferentes media, pelos excertos conhecidos, somos com Ricardo Sá Fernandes a dizer que o que mais impressiona no que se conhece do livro é a falta de reflexão acerca dos grandes temas nacionais. Ficam os retratos de caracteres, ficam as revanchezinhas, o pequeno corte na casaca que alimenta a política com minúsculas, mas nada há com grandeza, do que se conheceu nas últimas duas semanas sobre o livro. 
Cavaco fica com uma página saliente enquanto PM - com uma política desenvolvimentista, fontista, neo-keynesiana, em grande medida necessária, à época, ao país, com desenvolvimentos ao nível do Estado Social, sem ignorar do que houve, simultaneamente, contudo, de desindustrialização e dos dinheiros comunitários para destruir sectores económicos muito relevantes -, mas sem nota enquanto PR. A tentativa de se reencontrar com 10 anos muito aquém das expectativas, também não parece estar a ser particularmente feliz
Não deixa de ser curioso que o escrito de Cavaco se apresente, agora, com uma consciência social-democrata, na qual, não raro, ao longo de anos, o autor foi enquadrado, mesmo se, no momento presente, apenas por oportunismo - como o qualifica, em editorial, Ana Sá Lopes. Mesmo que o que escreve agora não tenha sido exactamente o que pensou, fez, ou pelo menos, com a relevância que agora se atribui, a verdade é que ao escrevê-lo, e assim querendo passar à história, Cavaco presta, objectivamente, tributo a esses valores (os da equidade que não foi garantida na distribuição dos sacrifícios, segundo agora refere - "cometeu o erro de não cuidar adequadamente da equidade na repartição dos sacrifícios que foram exigidos aos cidadãos"); o da preocupação com despejos desumanos de idosos - como o Público/RR confrontou Assunção Cristas, principal autora política da Lei das Rendas; o do respeito pela Constituição, ou, até, a recusa da TINA, quando sustenta o pluralismo no interior da Economia, afirmando que o PM não podia chamar "ignorantes" a quem não concordava com o Ministro das Finanças, pois "em Economia não há soluções únicas"). Já não é coisa pouca.

P.S.: Clara de Sousa continua a confirmar-se como uma entrevistadora política de excelente nível. Na TSF, com Fernando Alves, Cavaco não quis dizer se votaria no candidato que concorre contra Bolsonaro, no Brasil. Um pouco como fez Assunção Cristas. Pena que não tenham seguido bons exemplos, nesta matéria, como os de Freitas do Amaral, Pinto Balsemão ou Paulo Rangel. E a carta de David Dinis ao Observador é tremenda.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Discernimento




Na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier aduz nova causa para as declarações de Jean-Claude Juncker acerca da dignidade dos povos (afectados pela troika). Segundo o comentador, tais afirmações teriam sido produzidas em período pós-repasto, altura em que o autor das mesmas será dado a comoções. O surpreendente rasgo de Lobo Xavier, mesmo que envolto em linguagem erudita, não deixa de o colocar ao nível de não raros diálogos de dirigentes de futebol; evidencia um certo desespero político perante o que foi dito por Juncker; coloca em causa, até, a convicção que o âmbito das declarações do presidente da Comissão Europeia se situam em exclusivo campo formal - o de que a existência da troika, sem sufrágio democrático, é causa única da dignidade afectada dos povos a ela - à troika - sujeitos. Tal índole (formal) irritaria tanto Xavier?
Juncker, recorde-se, disse que a dignidade dos povos grego e português foi afectada, bem como, "muitas vezes" a do irlandês. Ora, se a questão releva do puro formalismo, o "muitas vezes" não se compreende muito bem, pois que, conquanto não fosse embora da Irlanda, "sempre" - e não "muitas vezes" - a troika estaria a colocar em causa a dignidade de tal povo. Se há uma dimensão material, relativamente aos programas e seu conteúdos, que esta alocução de Juncker incorpora - como tudo leva a crer, até pela "conjuntura grega" em que as frases são ditas - é evidente que, mais uma vez, é toda uma política que fica em causa, denunciada, é certo, de onde menos se esperaria. Mas que dizer, entre nós, dos textos de Vítor Bento ? (também terá recorrido a substâncias que afectaram o seu discernimento? A argumentação de Lobo Xavier promete...). 
Por outro lado, a tese de que era exclusivamente à questão da (i)legitimidade democrática da troika que Juncker se referia já tinha sido expendida por Paulo Rangel (p.ex., em declarações transcritas no site da RR, na tarde de ontem). A ideia de face a um problema na área política em que "alguém" se situa, ser para esse "alguém" um problema não substantivo, não um problema de políticas, mas (apenas) de forma (ou comunicação) é, desde há muitos anos, um modo de interpretar a realidade política cuja paternidade, entre nós, pertence a Marcelo Rebelo de Sousa.


O Observador publicou a reacção de Marques Guedes, classificando como "infelizes" as declarações de Juncker e, nesse texto, ontem, incluia este parágrafo: "E tendo em conta essa posição, “é bom que se aprenda com os erros”. Mas uma coisa é aprender com o que foi mal delineado desde início, outra é defender que isso atentou contra a dignidade de um povo, distinguiu". Neste excerto, sublinhe-se, alude-se ao que "foi mal delineado desde o início". Ora, se confrontarmos esta posição com a de Vítor Gaspar, expressa no livro de entrevistas a Maria João Avillez verificaremos que há, aqui, uma evolução: Gaspar considerava o desenho do programa bem delineado.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Do papel do estadista


Acredito que um político tem como uma das missões procurar persuadir os cidadãos do bom fundamento da sua visão da sociedade, dos ideais políticos que professa, das medidas de reforma que preconiza - e não apenas, necessariamente, ser um seguidor do que já está. Quando Pereira Coutinho argumenta, com Burke, que ao povo "deveis dar-lhe o benefício que ele pede - não aquilo que pensais que é o melhor para ele" (p.70) parece-me que leva tão longe a crítica aos desvarios da razão - e sobre os monstros produzidos pela razão, a escolha do quadro de Goya, por Vítor Gaspar, não deixou de ser lida como severa auto-crítica - que, por outro lado, como que reconduz o conservadorismo a um populismo. Se a história - a começar pela recente - deixa bem à vista as trágicas consequências do fanatismo ideológico, prova, igualmente, que as vozes encantatórias que, simultaneamente, resistiram (a ratificar o sentimento e axiologia predominantes, instituições aceites maioritariamente, em uma dada comunidade, em um dado momento) e contribuíram, determinantemente, para mudanças fundamentais em diferentes geografias, eram realmente urgentes. Um motivo estrutural, portanto, para nos afastarmos da convicção política do autor.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Vítor Gaspar (II)


No livro de entrevistas conduzido por Maria João Avillez, Vítor Gaspar – “agora um deus da minha área política”, na expressão de António Nogueira Leite, em entrevista à TSF, na noite da última sexta-feira – faz a selecção dos economistas que lê e em que se inspira: Milton Friedman, Friedrich Hayek, John Maynard Keynes, Joseph Schumpeter, Douglass North (p.98). Dos menos conhecidos, Knut Wicksell e Frank Ramsey.
Keynes, “escreve maravilhosamente bem. É um prazer lê-lo” (p.101). Talento que hoje parece reservado, apenas, segundo Gaspar, a Paul Krugman: “um artista da língua inglesa” (p.102).
Se, para os autores ‘social-democratas’, o elogio se centra em qualidades estéticas (de escrita), diferente é o caso de outros economistas evocados: “Friedman é o autor que, ao longo da sua carreira, possui um programa de investigação com mais afinidades com questões que me têm ocupado” (p.100) e é alguém por quem o ex-ministro das Finanças português tem “uma rasgada admiração” (p.101). Milton Friedman que, aliás, ficámos a saber através desta obra, chegou a discutir, por escrito, um artigo de Gaspar (escrito em co-autoria com Otmar Issing).
Hayek influenciou o entrevistado de Maria João Avillez por “razões substanciais e por afinidades de interesses, mas também porque, em alguns assuntos que são muito importantes para mim, a sua abordagem afigura-se-me exactamente a correcta” (p.99).
Em outro tipo de leituras, dado que o entrevistado lê mais “não-economistas do que economistas” e gosta bastante de ciência política, escolhe John Rawls, Karl Popper, Robert Nozick, Hannah Arendt, Isaiah Berlin, Immanuel Kant, Michael Walzer e Michel Foucault (nestas escolhas, maior equilíbrio…ideológico).
Para finalizar com humor, Gaspar diz ter notado que desde que passou por Portugal Paul Krugman é muito menos citado…por cá.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A versão de Vítor Gaspar


Ao contrário do que foi ideia dominante, em Portugal, o Governo de que Vítor Gaspar fez parte não se limitou a dialogar com os funcionários da troika, no nosso país: sempre que existiu um “exame regular”, os principais responsáveis, as cúpulas, garante o ex-ministro das Finanças, foram contactados, directa e indirectamente (p.272); a ideia da TSU teve-a, em uma viagem de avião, Gaspar (p.281), que ficou surpreendido com a reacção popular, aliás tão espontânea e sem que até hoje alguém a conseguisse enquadrar a seu favor, e com a recepção a este documento, aproximação que qualifica de padrão de leitura ao modo de “um documento socialista do séc.XIX” (p.283); Portugal beneficiou de “um enorme capital de boa vontade” dos parceiros europeus (estes “queriam mesmo ajudar-nos”, p.173); entre esses grandes amigos do nosso país conta-se o ministro das Finanças alemão, Schäuble; os interesses de credores e devedores (no caso, Portugal) eram os mesmos: que o ajustamento resultasse; é “peculiar”, diz Gaspar, que se ande a arremeter contra quem ajuda, contra quem nos empresta; “houve solidariedade europeia” sim, assume o entrevistado, “embora se possa discutir se podia ter sido maior”; Vítor Gaspar não é um “federalista” (p.359) quando quis ter um retrato, há já uns bons anos, de Paulo Portas, e sem que a fotografia tenha sido “sistemática”, a ideia com que ficou é que se tratava de alguém muito bom na comunicação e com enorme ambição; o PEC IV não trazia nenhuma garantia de que Portugal teria o financiamento necessário para saldar a sua dívida: apenas declarações de apoio; e “declarações de apoio não pagam dívidas” (“o PEC IV não oferecia qualquer compromisso firme e concreto de financiamento. Nenhum comunicado público o atesta”, p.315); Vítor Gaspar não se lembra de nenhuma reunião com responsáveis do PS, nomeadamente com António José Seguro (p.307); o PS oscila entre uma “oposição populista”, pretendendo evitar a discussão sobre modos de financiamento das políticas concretas e uma posição e outra “responsável”: nesta última dimensão, assinala aquela que continua a ser e promete assim permanecer uma matéria muito controvertida no interior do partido socialista: assinatura do Tratado Orçamental (“a obrigação de assegurar esse resultado [equilíbrio orçamental] constitui um constrangimento que condicionará, de forma permanente, a política orçamental entre nós”, p.306); adere ao ponto de vista dos que sustentam que são as instituições o factor que explica a maior ou menor prosperidade de um país e, nessa medida, considera importante o Tribunal Constitucional; simultaneamente, porém, entende que o importante é termos uma Constituição que permita adaptar-se a cada tempo; de modo espantoso, e apesar de admitir a dívida e o défice acima do inicialmente acordo no memorando, recusa que aqui se possa falar de engano, ou erro seu (das políticas, das medidas que preconizou e implementou): “Não usaria a expressão «engano», nem a expressão «erro». Quando um atleta, por exemplo, um corredor de 10 mil metros que se propôs bater, diz-se que ele não conseguiu. Não há aqui engano ou erro” (p.299). Quer dizer, propôs-se a um acto heróico, não o alcançou. E porquê? “O padrão de ajustamento da economia portuguesa foi substancialmente diferente do previsto”: p.ex., o desemprego foi bem superior às previsões. Ou seja, Vítor Gaspar não se enganou; foi a realidade a errar.
O mesmo se diga do ‘desenho do memorando’: o problema não foi o desenho (“não foi um erro do desenho”, p.296), mas da decisão do TC (“um imprevisto”, p.296). Para quem tanto relevara a dimensão institucional, o TC decidir em sentido contrário ao pensado pelo Governo ser visto como um “imprevisto” não é muito simpático.
A quando das negociações com a troika, pré-eleitorais, é Gaspar que decide contactar Eduardo Catroga, dado faltar, no PSD, quem tivesse o seu (de Vítor Gaspar) conhecimento e experiência nestas matérias; mais tarde, participa com Catroga e Carlos Moedas na redacção de textos que virão a fazer parte do programa do PSD para eleições; “A concertação social em Portugal é muito conservadora” (p.283) é outra das suas opiniões; não tem o talento de ser claro – reconhece – nem a modéstia é uma das suas principais características, assume; José Sócrates não soube antever a mudança e adaptar-se a ela (embora seja um bom comunicador); há uma boa gestão bancária em Portugal (p.324).
Durante o mandato de Gaspar, o modo como éramos vistos no exterior não tinha correspondência cá dentro.
Vítor Gaspar trabalhava 14 a 16h por dia no Ministério das Finanças. Deitava-se cedo. O seu humor desconcertante “é involuntário”. Queixa-se da entrevistadora: “A Maria João não tem interesse em argumentos ou ideias abstractas” (p.290).

E, numa frase que podia servir para voltar a olhar a sua interpretação da carta de demissão que deixou, aduz: “é muito difícil distinguir aquilo que se passou numa linha de tempo daquilo que recordamos depois, com a racionalização dos factos” (p.287)


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Haverá espaço político para um recuo?

(google)





Começa a desenhar-se uma (forte?) corrente de opinião que sustenta que o (1) governo deve recuar nas medidas que anunciou nos últimos dias (maxime, TSU) e (2) que esse recuo fará com que volte a ganhar legitimidade política.
Com efeito, desde conhecidos apoiantes do governo, e deste PM em particular, como Paulo Gorjão, no Bloguítica, passando por comentadores como Manuel Carvalho (vide seu comentário no mais recente Jornal das 24 h, na RTP Informação), director adjunto do Público, até ao Professor Freitas do Amaral, todos entendem que é urgente, para citar este último, nas declarações reproduzidas pelo I na sua capa desta quinta-feira, "dar um passo atrás para não perder legitimidade política".
A minha dúvida prende-se com a possibilidade de (2) ser passível de se realizar.
Vale a pena relembrar os factos e os tempos políticos: conhecida a decisão do Tribunal Constitucional quanto à iniquidade que carecia de ser corrigida, no Orçamento a elaborar para 2013, o Governo dispôs de mais de dois meses para preparar as medidas necessárias para que o Orçamento fosse equitativo e, simultaneamente, cumprisse as metas estabelecidas com a troika (ou renegociar estas últimas). Pois bem, dois meses depois, Vítor Gaspar garantiu que já conhecia "o padrão de ajustamento" português e que as medidas, nomeadamente em sede de TSU, garantiam 1% de aumento de emprego - ou melhor dito, de baixa do desemprego - ao mesmo tempo que existiria um crescimento, se a memória não me atraiçoa, de 0,5%. A sua convicção - dada como certeza - no plano seguido inabalável. "Já no segundo trimestre de 2012" voltaremos a crescer. O caminho é por aqui.
Quanto a Passos Coelho, não se pode dizer muito diferente: o caminho é muito duro, a intervenção de sexta-feira custou-me muito a fazer, mas é por aqui que devemos ir (as gerações futuras não precisarão de fazer sacrifícios).
Para mais, como o chefe da missão da troika diz na entrevista desta quinta-feira ao Público, o governo não foi, sequer, empurrado para a solução em causa, resultando, ao invés, de sua original ("criativa") proposta.
Ora, após 60 dias de intenso estudo, de discussão e apresentação das medidas à troika, depois de uma convicção dita inabalável, muda-se de um dia para o outro o mix de medidas, como se nada fosse e, aqui sim, como se se tratasse de umas variáveis (técnicas) no Excel que havia que alterar? O ministro das Finanças manté-se ao leme? Passos Coelho demite, ou aceita a resignação de Vítor Gaspar, como se a responsabilidade máxima não fosse política e não lhe coubesse a si, PM, assumi-la? 
Vai ser necessária muita mais criatividade - do que a tida para lobrigar a descida da TSU para as empresas, compensada com o aumento da mesma para os trabalhadores - para descalçar esta bota.
Mas a política portuguesa está num ritmo diário verdadeiramente vertiginoso, e todos os cenários estarão (?) em aberto.
 
 
 
P.S.: Mas, ainda pensando na entrevista desta noite de Manuela Ferreira Leite, muito especialmente dirigida a Vítor Gaspar, e nos sinais que são dados pelo PP, por favor não inventem um bode expiatório. Releia-se, apenas para se ficar por aqui, as entrevistas do MNE e o que dizia do Ministro das Finanças até há bem pouco tempo.
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vítor Gaspar, como é óbvio, o político


1 – Se a Seguro falta anima – embora falte muito mais -, o mesmo não se pode dizer de João Galamba, que esta tarde, no Parlamento, produziu um dos mais violentos discursos políticos, dito com uma raiva incontida, dos últimos tempos.

2- Vítor Gaspar fala mais rápido. A jactância do tom professoral, em registo arrastado, para que mesmo os pobres e limitados alunos – todos nós – o entendêssemos, foi, no mínimo, emendada.

3- Isso revela bem o lado político de Gaspar. Como a forma é, também, conteúdo, o tom asséptico, de quem está acima das coisas mexerucas, acima da política, e vem de ciência certa salvar o país, convinha à fase inicial de deslumbramento curricular/técnico com que o executivo fora apresentado à pátria.

4- Ora, tendo todas as previsões do Ministério das Finanças – emprego, crescimento, défice, etc. – falhado, bem como a execução orçamental, Vítor Gaspar, com argúcia, leu a alteração das circunstâncias: a conferência de imprensa, de ontem, não podia estar eivada – e, efectivamente, não esteve - do mesmo tom com que se explica, misericordiosamente, a um aluno relapso, a matéria que este devia saber e ainda não aprendeu (e, porque não foi capaz de interiorizar, foi ‘chumbado’, carecendo, pois, de explicador).

5- Gaspar, aliás, foi mais longe na habilidade política evidenciada. Tendo o jornalista Camilo Lourenço trazido à conferência de imprensa, dada pelo ministro das Finanças e seus secretários de Estado, a posição de uma “velhinha” (sic) que encontrou na rua – o estafado “Zé”, neste caso “Maria”, que Barroso, infelizmente, um dia inventou – e que se mostrara muito descontente com as últimas medidas anunciadas pelo governo – “se vai ao ministério das Finanças, tenha cuidado com a carteira!” (sic) -, o ministro das Finanças de modo algum se descompôs, colocou um sorriso e, tratando o jornalista em causa pelo nome próprio – o único presente a merecer tal distinção –, disse que achava muito bem a intervenção da “velhinha”, que tudo devia ser discutido, que isso é que era vitalidade democrática, que a qualidade dos argumentos que se utilizassem é que faria da nossa esfera pública um lugar melhor.

6- Há, com efeito, um conjunto de lugares-comuns que se repetem à exaustão e não têm relação com a realidade. Um deles é que Gaspar não tem nenhum faro político. Henrique Raposo percebeu bem essa dimensão política e, no seu blog, sugere-o mesmo para PM (em substituição do actual incumbente).

7- A conferência de imprensa de ontem principiou, de resto, com a comparação – para melhor, naturalmente, vinda de um actual governante – dos indicadores de hoje face à crise de 1983-1985. De seguida, cumprindo-se o guião do prof. Marcelo, falou-se de Espanha e Itália, explicitando-se a componente exterior que ajuda a explicar o espalhanço na execução orçamental. Anunciaram-se umas medidas relativas aos rendimentos de capital, mas nunca estas foram desenvolvidas, de modo a evitar a percepção de que pouco valeriam aos cofres públicos – não se explicou, por exemplo, quantos milhões o Estado encaixaria com uma nova taxação, em sede de imposto de selo, dos imóveis de valor igual ou superior a um milhão de euros, ou quanto embolsaria com o acréscimo de tributação dos juros e coisas que tais, nem, tão pouco, se indicou que o aumento tributário, a este nível, não chega aos 2%.
Outro ponto de inteligência comunicativa: a antecipação das críticas que seriam feitas, a partir das palavras, há apenas um ano, de Vítor Gaspar, de que as medidas como as agora lançadas relativas à TSU seriam “experimentalismo”, face ao seu (contrastante e com todo o ar de incoerência) acordo presente a que estas venham, afinal, a ser implementadas. Ora, para além de ter, assim, evocando-as o próprio, e não sendo, portanto, apanhado de surpresa em contramão e assumindo ter sido sua opção, evitado que um jornalista, ou alguém da oposição o viesse citar e lhe causasse embaraço, utilizou, ainda, um argumento que visou responder a uma das mais repetidas impugnações que têm sido levantadas, e, normalmente, utilizadas por um outro comentador muito lido pelo país (Miguel Sousa Tavares): os “modelos académicos”, sobre a TSU, sendo de muita “qualidade”, no entanto, podiam não encaixar na realidade portuguesa. Aquilo que se verificou foi que a equipa do ministério das finanças já “percebeu o padrão do ajustamento português” e poderá, portanto, melhorar as medidas – a pitada autocrítica que faltava. Neste sentido, não senhor, nós não nos guiamos, cegamente, pelos Friedman’s que vocês evocam, ainda por cima, sem os tererm lido, mas por “modelos empíricos”.
Claro que, do ponto de vista substantivo, se poderá/deverá questionar se um académico deve seguir o registo – tantas vezes pouco rigoroso, superficial, sem estudo – de alguns dos comentadores mais lidos do país, mas o tiro político – não somos insensíveis à realidade, não nos guiamos, dogmaticamente, by the book, pelas bíblias do liberalismo económico – era aqui um ganho maior (do que a perda populista ao ponto académico).
Em suma, explicitação do porquê de as metas orçamentais terem falhado, com o sublinhar dos méritos – credibilidade internacional, melhoria das taxas de juro, ausência de bancarrota – até aqui alcançados; uma ponta de autocrítica – agora, sim, já percebemos o ‘padrão de ajustamento’ português; falhámos na questão do emprego -, o destaque aos factores internacionais – Espanha, Itália – que confluem para a nossa má situação, disponibilidade para ouvir todas as críticas – mesmo as mais agrestes – e o gosto do jogo democrático, ampliação do sacrifício aos rendimentos do capital, futuro de crescimento “a partir do segundo trimestre de 2012”.

 

8- Dito de outra forma, com os mesmos dados que Passos Coelho possuía, Vítor Gaspar, poucos dias depois, revelou muito maior preparação e, este é ponto para os que repetem as frases-feitas de sempre, muito maior talento político.
Claro está que tendo sido muito melhor a performance de Gaspar – a que faltaria, e não é de somenos, uma outra linguagem menos hermética para a maioria das pessoas – os resultados, para todos nós, são exactamente os mesmos. E as reacções populares a tal desempenho, só demonstram a sabedoria de Marcelo, quando este receava que fosse tarde de mais. Outros dirão que Gaspar é bem mais perigoso que Passos, pois onde este é brutalmente transparente, aquele consegue um outro embrulho para o mesmo presente.


9- Pelo que me pude informar, a tal conta que o ministro das Finanças, conforme disse, na Sic, a José Gomes Ferreira, na entrevista da noite de ontem, quererá impor às empresas, para que os ganhos/capitais, com a poupança na TSU, não saiam do país e sejam reinvestidos, terá grande dificuldade – ou será mesmo impossível – de ser aplicada. Pior, só a sugestão/invenção dos movimentos cívicos se substituírem ao Estado na efectiva regulação dos preços praticados pelas empresas que beneficiam, no nosso país, de regimes de monopólio, ou concorrência limitada. Como dizia Helena Roseta, na sic notícias, minutos depois de tal entrevista, “mas estão a gozar connosco, ou quê?”.


10- Foi noticiado, hoje, um encontro entre Passos Coelho e Paulo Portas para acertar os desfasamentos que vêm sendo visíveis na coligação. À tarde, na Assembleia da República, o ministro das Finanças, respondendo ao deputado popular Nuno Magalhães, deu a entender que o governo estaria disposto a minorar alguns danos sociais, em sede de IRS, em troca de corte de despesa na “orgânica do Estado”. A ver vamos no que isto concretamente se traduzirá e como Portas se reinventará de novo.

 
11- Quando um partido decisivo do sistema político falha o timing de resposta a um enormíssimo sentimento de injustiça que paira por todo o país, onde vão as pessoas buscar ‘amortecedores’? Hoje em dia, por todos os motivos e mais alguns (o espírito do tempo individualista, o fim das narrativas e outras coisas pós-modernas), sem mediação, por via directa, nas redes sociais? Pelos vistos, o Financial Times terá notado, precisamente, esse escape.


12- Mas em que(m) pode confiar, de modo sustentado, um cidadão que se queira representado, sistemicamente, na nossa democracia? Pacheco Pereira tem razão quanto à desorientação que também grassa no PS – e não só ao nível do que se poderia chamar ‘poder interno’, mas, muito mais substantivamente, na (ausente) linha de orientação de resposta à crise.

 
13- Mau grado o post de Luís M. Jorge, como reagiria o PS – o aparelho do PS – se se fosse interromper o inimigo enquanto ele está a fazer asneiras? Como reagiria o PS se António Costa despoletasse, neste momento, uma crise interna, desviando as atenções de uma crise que o PS quer capitalizar?

 
14- Acredito no estudo, no trabalho sustentado, em papers feitos com tempo. É a isso que se chama preparação. Ontem, o porta-voz do PS disse que o partido socialista “está sempre pronto para governar”. Para lá de palavras de circunstância, isto quer e pode querer dizer alguma coisa? Não creio.
Já aqui elogiei o grupo de trabalho criado por António José Seguro, com Bruto da Costa, João Ferreira do Amaral, Francisco Assis, Paulo Trigo Pereira, entre muitos outros.
O que eu gostava de saber é quantas vezes reuniram, que propostas têm dali saído e se é possível em tão pouco tempo de existência já poderem ter assim tanto trabalho feito.
Como cidadão, importa-me muito mais isso do que declarações coreográficas e de propaganda.
Porque, e como muito bem registava Pedro Magalhães um destes dias, grande problema há quando a política se desvincula da técnica – e esta crise potenciou, irreflectidamente, e de vários lados, essa fractura.

 
15- Uma coisa são políticas travestidas de ciência; opções económicas (ideológicas), legitimas e sufragadas, mas que se querem arvorar acima da controvérsia – impossível, em democracia. Mas o contrário é, igualmente, um caminho para o abismo: descurar a preparação, o estudo, a verificação da adequação das nossas ideias à realidade.
O voluntarismo tem-se pago, em Portugal, com língua de palmo.