A recusa do "risco moral" [no manifesto, de 14 renomados economistas alemães e franceses, publicado dia 18 de Janeiro de 2018] significa duas coisas: 1) que os círculos dominantes na Alemanha esquecem que, sobretudo entre 2010 e 2014, o verdadeiro risco moral e as transferências permanentes foram do Sul para o Norte. As respostas à crise, desenhadas em Berlim, traduziram-se numa brutal fuga de depósitos e numa enorme transferência de capital da periferia para o centro. Como escrevi na altura, os bancos alemães tornaram-se na "sala de pânico" dos aforradores dos países intervencionados pela troika; 2) que o federalismo alemão é um "federalismo de trazer por casa", no sentido rigoroso do termo. Ao recusar um orçamento europeu, Berlim está contente com manter o federalismo nas suas fronteiras nacionais, interpretando o euro apenas como uma moeda que favorece as suas exportações, dado que, caso as moedas europeias ainda existissem, o marco alemão seria uma moeda muito mais forte, penalizando a capacidade exportadora da indústria germânica.
A "disciplina de mercado" [aludida no mesmo referido manifesto] é também um espantalho ideológico, que mascara a realidade. A crise financeira global de 2008 foi causada pela "indisciplina de mercado"! Não só nos EUA com o subprime, mas também na Eurozona com os bancos da Alemanha e da França a emprestarem imoderadamente aos sectores público e privado dos países do Sul. Os mesmos bancos que, depois de 2009, tomados por pânico, exigiram ser resgatados pelos seus governos, através dos "pacotes de auxílio financeiro" entregues com dura condicionalidade aos países endividados, administrados com "mão de ferro" pela troika, e que tiveram na libertação dos créditos desses bancos dos países credores o seu primeiro e imediato objectivo. Falar em "disciplina de mercado", quando todos os países europeus se endividaram colossalmente para salvar os seus bancos nacionais dos riscos financeiros sistémicos causados pela desmesura e má gestão dos seus administradores, é um insulto ao nosso direito a interpretar a história recente a partir dos factos e não das ilusões.
O relatório franco-alemão padece de um mal endémico na construção europeia depois de Maastricht. A doença dos peritos que se habituaram a pensar como os políticos que deveriam assessorar. A ilusão dos conselheiros que se olham no espelho dos princípios, tornando-se em sábios sem luz própria e em pseudo-políticos incompetentes. Isso é também o resultado da brutal perda de independência e de autonomia das Universidades europeias - sobretudo nas àreas da economia e gestão - que se vão transformando em empresas ao serviço de clientes, em vez de honrarem a missão milenar da Universidade que é a de perseguir a verdade objectiva, por mais dura que ela possa ser e aparecer.
Mas não estamos condenados a isso. Dois dias antes do aparecimento do Manifesto dos 14 economistas franco-germânicos, foi publicado em Bruxelas, pela Fundação alemã Heinrich-Boll, um estudo elaborado por seis professores e investigadores portugueses (nos quais se inclui o autor destas linhas). Trata-se de uma proposta longa e fundamentada de reforma da Eurozona, baseada na combinação entre teoria económica séria, não tingida pelas tintas do preconceito ideológico, e os dados empíricos. Sobretudo, o estudo português recusa-se a separar a Eurozona das pessoas que nela habitam.
O ponto forte do estudo consiste na ligação estrutural entre a reforma da arquitectura da Eurozona (orçamento, dívida, governação, competências, princípios de articulação entre política monetária e política económica, etc.) e três eixos fundamentais da vida dos europeus de carne e osso: a) colocar o euro ao serviço da "economia real" e da criação de empregos bem remunerados e qualificados; b) colocar o euro na linha da frente da revitalização e qualificação das cidades europeias, que são o habitat da maioria esmagadora dos europeus; c) transformar o euro num instrumento de aceleração do combate à crise ambiental e às alterações climáticas, que constituem a principal ameaça existencial ano nosso futuro comum. (...)
Aqueles que nos países mais ricos continuam a resistir a uma integração europeia democrática e solidária, invocando os custos de uma "união de transferências", deveriam antes fazer as contas ao custo final, para nós e para as gerações futuras, dos funestos resultados do seu egoísmo de vistas curtas. Qual será o preço que teremos de pagar para deixarmos os bárbaros destruírem tudo aquilo que, dolorosa e arduamente, construímos no Velho Continente depois a partir dos escombros de 1945?
Viriato Soromenho-Marques, Reformar a Eurozona, com gente dentro (excerto), in JL nº1235, Ano XXXVII, de 31 de Janeiro a 13 de Fevereiro de 2018, p.26.

