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sábado, 19 de janeiro de 2019

O percurso de Gorbatchev (II)


Gorbatchev não fumava e limitava o uso de álcool; essencialmente, alguém que é visto como educado e assisado (p.168). Ao contrário da maioria de líderes locais do Partido Comunista, Gorbatchev leu, mesmo, Marx e Lenine (p.173). Ironicamente, a URSS dava aos seus melhores quadros a possibilidade de viajar para o Ocidente (ir ao Ocidente era, pois, como que uma prenda para os melhores do partido). Até 1970, as viagens de Gorbatchev haviam-se limitado ao bloco soviético - Alemanha Oriental, Checoslováquia e Bulgária -, mas, entre 1970 e 1977, ele fará 5 visitas à Europa Ocidental (p.175).  A primeira viagem ao Ocidente, dos Gorbatchev, foi, em 1971, a Itália - sendo que, em Moscovo, recebendo uma delegação de comunistas italianos, durante o Festival Mundial da Juventude, de 1961, se apercebera do carácter extrovertido e descontraído dos seus visitantes (no que contrastava com a sua experiência russa quotidiana) e, bem assim, que aqueles nunca cumpriam horários -, país no qual, observando as «contradições do capitalismo» - calçado a preços proibitivos, casas vazias porque os pobres sem dinheiro para pagar as rendas, as desigualdades brutais que constatou na Sicília entre os bairros de luxo dos endinheirados frente aos bairros imundos dos periféricos -, mas do qual levou, essencialmente, não reflexões de tipo ideológico, mas muito mais impressionado por os italianos falarem a várias vozes, terem opiniões divergentes sobre todos os assuntos e, nomeadamente, a política, em claro contraste com o falar a uma só voz do povo russo - se exceptuarmos o que se sussurrava nas cozinhas. "Abertura", "afabilidade", "frontalidade" foram traços marcantes dos italianos para o casal Gorbatchev. Este, sentiu-se inesperadamente bem, confortável no Ocidente, surpreendentemente em casa, apreciando, ainda, de sobremaneira, a cultura e as artes (italianas; p.176). Em 1972, visitariam a Bélgica e a Holanda; em 1975, a Alemanha Ocidental e, em 1976, a França. Numa quinta perto de Toulouse aprendeu três lições que lhe pareceram preciosas: "a vantagem, para os camponeses, de participarem em cooperativas que lhes fornecessem tecnologia moderna e conselhos sobre processamento e marketing; como a prática de contrato direto de processadores aumentava o incentivo para um trabalho de qualidade; como o interesse próprio os levava a organizar a criação de gado de modo adequado às condições climatéricas" (p.177). 
As viagens ao Ocidente proporcionaram a Gorbatchev uma informação que era muito escassa na URSS e gerida com pinças pela nomenklatura: "o que mais o espantou foi a prontidão dos europeus ocidentais de falarem livremente acerca de tudo um pouco, até mesmo o seu governo e os líderes políticos. «Discordavam amiúde entre eles sobre estas questões, ao passo que nós tínhamos de mostrar uma unanimidade total de opiniões em todas as questões - tal como acontecia no nosso país, salvo durante as conversas privadas que mantínhamos à mesa da cozinha" (p.178). Todavia, Gorbatchev 'ocultou' a forma como aquelas viagens «abalaram a nossa crença a priori na superioridade da democracia socialista sobre a democracia burguesa». Ele e a esposa concluíram que «as pessoas lá vivem melhor. Porque viverá o nosso povo pior do que os de outros países desenvolvidos? Esta questão sempre me atormentou» (p.178). 
Os Gorbatchev não colocaram a filha numa escola de elite (como poderia supor-se, dada a sua condição), mas numa normal; a filha dos Gorbatchev, Irina, ajudava a engomar as camisas, em casa, local onde discutiam tudo. Pensou ir para a Faculdade de Filosofia de Moscovo, replicando o trajecto da mãe; mas, perante a insistência dos pais que a não queriam longe de casa visto ser filha única, acabou por candidatar-se, e ser aprovada, na Faculdade de Medicina de Stavropol - ela que no Secundário tinha nota máxima a tudo, excepto a Desenho. Já no decorrer do curso, o pai nunca quis privilégios e excepções para a filha (como acontecia com descendentes de outras figuras gradas do regime).
Nesta biografia de Gorbatchev, também as grandes questões sobre o homem, e a relação entre a barbárie e a cultura, podem ser colhidas em pequenos passos, como este sobre Yuri Andropov, líder da KGB, um homem que gostou de Gorbatchev e dele deu boas indicações: "que tipo de chefe de polícia secreta cantava músicas de Vysotsky ao mesmo tempo que enviava dissidentes para hospitais psiquiátricos?" (p.166)

[a partir de William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018]

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O percurso de Gorbatchev


Enquanto os seus colegas de partido corriam atrás de mulheres, bebiam até cair para o lado, participavam em grandes caçadas, Gorbatchev afirma-se por estar acima desse provincianismo. Era, por exemplo, muito respeitador das mulheres, mesmo que a sua atitude não pudesse ser propriamente rotulada de feminista (à maneira ocidental), o que na Rússia, aliás, seria mal visto e compreendido. Além do mais, os Gorbatchev eram dados a uma intelectualidade que nas províncias não era acompanhada pelos apparatchick. Raisa e Mikhail, por exemplo, prescindiram, deliberadamente, de ter televisão e o futuro homem da Perestroika orgulhava-se de ter uma filha apaixonada pela leitura - já Raisa, "com a ajuda do marido, na década de 1960, conseguiu adquirir exemplares da Bíblia, dos Evangelhos e do Corão, tudo obras difíceis de encontrar num estado ateu", p.140). Possuíam um apartamento modesto, quando comparado com quem tinha idênticas funções partidárias na então Checoslováquia - assinala um comunista checo que então os visita. E será, precisamente, a um checo comunista que lhe havia garantido que aquele país iria a caminho da democracia que Gorbatchev dirá que isso não seria possível de suceder na Rússia (p.143).  Mas Gorbatchev não deixou de ser apontado a dedo por a sua mulher, Raisa, não ser uma grande trabalhadora doméstica. E dele sempre se dirá que se deixava convencer pelos outros, que os ouvia sempre, a sua mão não era de ferro (o que numa cultura autoritária como a soviética não deixará de lhe valer críticas). Depois de ter cursado Direito, Gorbatchev fará um segundo curso, também motivado por este poder ser instrumento de ascensão pessoal no partido, por correspondência, no Instituto Agrícola no qual a sua mulher lecciona. Por momentos, hesitará em prosseguir uma vida intelectual/académica em vez de prosseguir a sua via política-partidária. Mas muito novo, será escolhido como chefe regional do partido em Stavropol (sendo que Fyodor Kulakov, que assumiu a liderança em Stavropol em meados da década de 1960, foi determinante na ascensão de Gorbatchev). E rapidamente ascende a Secretário do Comité Central em Moscovo, fazendo parte do Politburo. Ainda que com reserva mental crescente, em 1968 condenará os reformistas checos e elogiará a intervenção soviética (na repressão da Primavera de Praga). Acima da média, porventura, em vários comportamentos e no desassossego intelectual, mas também, evidentemente, cumprindo o roteiro que o manteve no topo do partido (o que o levará a dirigente máximo da URSS, que contava com 15 Repúblicas; a Rússia tinha 83 regiões).
Tendo, durante anos, entendido que a estratégia para melhorar o sistema, a economia, a produção, a Federação era promover novos quadros, gente mais empreendedora no Partido, Gorbatchev irá notar, paulatinamente, que tal antídoto não irá ao fundo do problema quer era de raíz estrutural: "o grave excesso de centralização da economia, em que todas as decisões cruciais eram tomadas no topo. Como resultado, ele e outros líderes regionais eram obrigados a fazer «inúmeras viagens à capital», onde tinham de adular os grandes chefes e «suportar linguagem abusiva e má-criação por parte dos oficiais». «A tentativa supercentralizada de controlar cada pormenor da vida de um estado imenso drenava a energia vital da sociedade.» Muito mais tarde, depois de se tornar líder soviético, Gorbatchev iria ainda mais fundo, remontando os problemas que via em Stavropol à essência mais básica do socialismo estatal soviético, ou seja, o monopólio do poder político e económico pelo partido comunista. Nesse processo seria informado por uma série de livros heréticos de autores ocidentais esquerdistas, traduzidos e publicados em edições extremamente limitadas pela Progress Publishing House de Moscovo, obras essas que conseguiu obter na sua condição de chefe regional do partido. Muitos anos depois, Gorbatchev afirmaria orgulhosamente que ainda guardava alguns desses volumes nas suas prateleiras: História paralela da URSS, de Louis Aragon, O modelo francês de socialismo de Roger Garaudy, História da União Soviética e História do Marxismo de Giuseppe Boffa, bem como livros sobre o líder comunista italiano Palmiro Togliatti os famosos cadernos da prisão de Antonio Gramsci" (p.153). B.Sadykov preconizou reformas que nos anos 80 Gorbatchev levaria a cabo, mesmo que, a quando da publicação dos escritos daquele, tenha sido este um seu crítico implacável (p.151).

[a partir de William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018]

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Para se compreender Gorbatchev


Deviam ser os mais experientes a fazer a monotorização da reabilitação das vítimas inocentes estalinismo, entenderam os dirigentes, pelo que a inicial colocação profissional de Gorbatchev cessa rapidamente (p.100). A segunda tentativa, enviado para o gabinete do Procurador, também não corresponde às expectativas do jovem formado na Universidade de Moscovo.
Gorbatchev pede a mudança para a Konsomol, uma estrutura com milhões de membros entre os 14 e os 27 anos de idade - os líderes eram mais velhos -, cuja tarefa era mobilizar a juventude soviética de modo a cumprir tarefas impostas pelo partido comunista (p.104).
Mikhail Gorbatchev irá paulatinamente construindo uma carreira sólida no interior das estruturas soviéticas, sendo que o espírito reformista/liberal, a adesão a esta ala - como se verificará, até indo mais longe do que se suporia, e sobretudo avançando mais do que julgariam mesmo os seus apoiantes...alguns dos quais, se soubessem dos seus futuros avanços não o teriam apoiado/suportado; mas isto será muito mais tarde - e a sua ascensão estão intimamente ligadas ao surpreendente espírito, face ao estalinismo, assumido por Khrushchev: "Para se compreender a ascensão de Gorbatchev em Stavropol é preciso entender a era de Khruschev, cujo espírito reformista incorporou, e os primeiros anos de Breznhev, onde ele também conseguiu encontrar um lugar (...) Enquanto os herdeiros de Estaline debatiam o que dizer acerca do seu antigo mestre, atrás da cortina do Kremlin, Khruschev preparava-se para o condenar, um gesto que se arriscava a minar o regime que haviam herdado. Khruschev deu esse passo fatídico tanto para deter os rivais no Kremlin que haviam sido mais próximos de Estaline do que ele, como enquanto gesto de contrição pela sua cumplicidade nos crimes de Estaline. O discurso de Khruschev, reflectindo a sua ambivalência em relação ao homem que fora, a um tempo, seu mentor e seu atormentador, não foi longe de mais - condenando Estaline, mas não o sistema soviético -, mas chegou para provocar um terramoto político. Milhares de delegados no Kremlin escutaram-no num silêncio chocado. O mesmo sentimento acometeu milhões de pessoas pelo país, à medida que, nas semanas que se seguiram ao congresso, o relatório lhes foi lido ou resumido. Khruschev não prendia que o seu «discurso secreto» permanecesse secreto; queria que se espalhasse a palavra, mas não esperava a reacção provocada entre a elite intelectual. Os jovens exigiam saber como a geração mais velha fora capaz de permitir o terror estalinista. Os estudantes da MGU expulsaram os seus líderes da Komsomol e substituíram-nos por novos. Alguns estudantes, entre eles vários que mais tarde se tornariam defensores da glasnost de Gorbatchev, começaram a pôr abertamente em causa o plano de estudos: «Marx e Lenine são banais», «Lenine está ultrapassado». O Comité Central do partido não é um ícone».  (...) Muitos aspirantes a reformistas seguiram a deixa de Khruschev, apelando a um regresso ao Leninismo que Estaline supostamente traíra. Só em finais da década de 1980, sob a liderança de Gorbatchev, é que o próprio Lenine se veria sob um ataque generalizado devido à criação de um sistema repressivo que Estaline aperfeiçoou. (...) Entre 1957 e a sua destituição em 1964, a campanha de desestalinização de Khruschev seguiu um rumo contraditório. Ao deparar-se com resistência por parte de conservadores comunistas, ele alternava entre o encorajar de autores e artistas pensadores livres e a sua censura, entre a abertura do país a novos ventos vindos do Ocidente e o seu encerramento. Não obstante, manteve-se um estado de espírito de um modo geral optimista - sustentado pela sensação de que as coisas estavam a melhorar, mercê dos êxitos científicos e tecnológicos soviéticos, como por exemplo o lançamento do Sputnik, mas assente na ideologia comunista propriamente dita. Muitos dos elementos da geração de Gorbatchev, «pessoas dos sessentas», como mais tarde seriam chamados, continuavam a acreditar que a sociedade humana podia ser aperfeiçoada com a disseminação de educação e de cultura, que a ciência e a tecnologia podiam transformar a natureza. (...) Neste ambiente encontravam-se comunistas orientados para as reformas até no aparelho do partido. «Marxistas genuínos» ou «leninistas genuínos», e contando com o próprio Gorbatchev, autodenominavam-se «filhos do Vigésimo Congresso»" (pp.116-117, William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018).

sábado, 29 de dezembro de 2018

Infância-Juventude de Gorbatchev

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Mikhail Gorbatchev nasceu a 2 de Março de 1931, na aldeia de Privolnoye, cerca de cento e cinquenta quilómetros a norte da cidade russa de Stavropol, no Cáucaso do Norte
A aldeia natal de Gorbatchev não tinha electricidade, telefone ou rádio (com excepção de uma coluna) (p.70). Filho de pais camponeses, o seu pai tinha tido 4 anos de instrução formal, a mãe analfabeta. Baptizado secretamente com o nome Mikhail - que continha ressonâncias bíblicas -, era tratado por Viktor pelos pais (talvez, à cautela, como sinal de vitória pelos bem sucedido primeiro plano quinquenal previsto por Estaline) (p.35). Amaria profundamente o pai (p.36), de quem se tornaria muito próximo (mesmo que pai e filho não verbalizassem um ao outros os sentimentos que nutriam entre si); a mãe teria um registo de maior severidade e dureza, com um forte lado punitivo: disciplinaria o filho, a golpes de cinto, até aos 13 anos (altura em que o adolescente Gorbatchev o retira das mãos maternas e lhe diz basta). O avô materno mostra-lhe "ternura" (o que era raro naquele ambiente cultural), o avô paterno tinha um pendor mais "autoritário" (mesmo que se rendesse ao neto). Durante alguns anos, viveu com os avós maternos e não com os pais.
A infância e adolescência de Gorbatchev é atravessada, de facto, por uma especial rudeza: além da pobreza do meio em que nasce, a colectivização das terras - gerando não apenas enormes injustiças, milhões de mortos, deportados, mas ainda uma divisão/fractura no interior das próprias famílias -, obrigá-lo-à a um trabalho pesado desde muito novo, a que se somará a guerra que levará o pai para a frente de batalha - tendo a família chegado a receber notícia falsa do seu falecimento, chorando três dias por algo que não sucedera -, como a própria aldeia, tinha Mikhail 10 anos, será alvo do saque e violência nazis. Os tempos de indigência são de tal ordem que se comem sementes que eram para plantar, cozem-se e comem-se rãs, a mãe sai durante 15 dias para trocar roupa por trigo - durante duas semanas, Mikhail está completamente entregue a si próprio, como que passando diretamente da infância para a maioridade. Muitas vezes se questionará se o horror à violência que demonstrará quando podendo usar da força em favor da democracia, deixa que os seus adversários o vençam com recurso aos piores instrumentos, nos idos de 90, não radicará nesta sua experiência. Gorbatchev recusar-se-à, questionado diretamente, a responder, ainda que tenha dito não conseguir não perdoar.
Mesmo no fim da guerra, quando regressar à escola terá as margens do manual de tractor em que o seu pai trabalhava como caderno e mesmo a tinta teriam de ser os alunos a produzi-la. Quando o ano era mau de colheitas, e como os impostos e demais injunções sobre as famílias se faziam sobre o número de árvores que cada um tinha a seu cargo (e mesmo que estas nada dessem), a sobrevivência física era o limite. Em ano de boas colheitas, as famílias desunhavam-se para mostrar os melhores padrões de produtividade socialista, em favor da comunidade e o pai Sergei e o filho Mikhail serão premiados pelo que conseguem arrecadar com o seu labor. A ética de trabalho (duro) é um dos traços mais marcados/marcantes dos anos mais tenros da vida de Gorbatchev, um rapaz de temperamento alegre e optimista (p.36), o primogénito de uma família (jovem; Mikhail terá uma avó com 38 anos, por exemplo) que terá dois filhos
O homem que nascera com um sinal na cabeça que seria uma das suas imagens de marca, sinal, esse, que, para o folclore russo remetia para o demo - e veríamos dali a tanto tempo como, muito embora admirado a Ocidente, Gorbatchev foi muitas vezes vítima de desprezo na sua pátria.
Aluno e cidadão exemplar na escola, era um dos melhores alunos, Gorbatchev seria o primeiro rapaz da sua aldeia a frequentar a Universidade de Moscovo (p.57) - que era uma espécie de Harvard, mas sem a existência da Ivy League.
O liceu ficava a 20 km de casa, mais de duas horas a pé, às vezes a ajuda de um carro de bois; terá, afinal, que permanecer nessa localidade para estudar, regressando a casa Sábado à tarde e fazendo caminho inverso Domingo à noite. Gosta especialmente de História e Literatura, sem negligenciar a Física e a Matemática, receberá uma medalha de prata de mérito escolar; desde cedo gosta de liderar e adora representar: fará parte do grupo de teatro da escola e representará várias peças. Também vê filmes com os colegas, por esta altura.
É tempo de se decidir: passará a trabalhar com o pai, ou continuará a estudar? O pai escreve-lhe colocando-lhe esta questão e prometendo ajuda em tudo o que puder, caso a opção seja a segunda. Entretanto, Mikhail enviará pedido formal de adesão ao Partido Comunista. Pondera, decidido a ir para o Ensino Superior, o curso a seguir. Finalmente, preenche a candidatura assinalando Direito. Trata-se, à época, naquele lugar, de um curso não muito prestigiado, num Estado que não é de Direito. Receberá, daí a pouco, o telegrama que revela que é aceite. Entra na Universidade sem fazer o exame de admissão - no que a candidatura a membro do Partido Comunista e a medalha de produtividade, a meias com o pai, poderão ter desempenhado um papel com relevo.
Parte para Moscovo, onde está longe de brilhar à primeira: o sotaque camponês, o olhar provinciano não impressionam os colegas citadinos. Andará tempos sem meias, à falta de recursos para as mesmas - ele que antes se vira com dificuldades em ir para a escola precisamente por falta de roupa. 
Será um aluno muito aplicado, capaz de estudar sistematicamente até às 2/3h da manhã, acordando às 6h. Participará em debates, tertúlias em que algumas opções do sistema com que se vê confrontado - a confissão como bastando para a condenação, por exemplo - não o convencerão. Mas, de um modo global, é um comunista convicto, mesmo que perceba os laivos de propaganda de musicais que colocam camponeses muito felizes a trabalhar - ele, que veio da terra, sabe que aquilo é tudo falso.
Licencia-se em 5 anos, durante os quais assiste à sua primeira ópera e conhece os museus de Moscovo. Ele que, até aos 13 anos, nunca vira um comboio, ao fim de cinco anos de licenciatura é outro, está bastante mudado. Não quis saber de álcool, cartas e mulheres durante o período da sua formação académica (p.76). Não era propriamente o melhor da turma, ainda que sendo bom aluno, e sentava-se discretamente na penúltima fila
Encontrou, num acaso, Raisa, num baile chamado pelos colegas; para ele, foi amor à primeira vista. Para a rapariga da Faculdade de Filosofia - na altura, com bastante mais prestígio do que o Direito, na Rússia -, nem tanto. Andava com outro caso, cujo fim - dir-se-ia ditado por questões de "classe"; a mãe do namorado não queria o descendente a fixar-se em alguém que viera de "baixo" - a marcou negativamente. Mas dali a nada, o novo casal, para a vida, Mikhail e Raisa, de origens muito semelhantes, far-se-ia e seria ela, de algum modo, a tutora da vida cultural moscovita de Gorbatchev - este, muitas vezes já envolvido na vida do partido, não tinha o mesmo tempo que a namorada para ler. Terão um primeiro filho (por uma falta de cuidado; o objectivo era ter descendência, mas não naquela altura), mas entre o risco de vida para a mãe e para o bebé, o casal decide-se pelo aborto. Mais tarde, mesmo desaconselhados por médicos, serão progenitores de uma menina, Irina. Os amigos dirão sempre que Gorbatchev, um homem considerado muito auto-confiante, era "dominado" pela mulher
O título da tese de Gorbatchev será "Participação em Massa na Administração Estatal a Nível Local" e bem cedo, em 1955, está com um tipo de trabalho que corresponde às suas "convicções políticas e morais", a saber, o processo de reabilitação das vítimas inocentes da repressão estalinista (p.100). Mas por pouco tempo.


[a partir de William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018]