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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A única viagem é a viagem interior


De que te serve o Louvre ou a Tate Gallery, o troféu exibido, os grandes nomes, se não te demoraste num quadro, se não te dilataste, se não repousaste horas nele, se não contemplaste, se nenhuma fímbria, ou corda interior, foi tocada, se não chegaste mais perto do essencial de ti? De que servem os clássicos citados sem serem conhecidos (?), já deixava, em implícita interrogação, o Lipovetsky de A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. 
Um ideal de férias, podia ser este, o da viagem interior, a única, ou, pelo menos, a grande viagem - ainda que a viagem interior, é certo, possa coexistir com a exterior viagem física. Não por acaso, nos sublinhados do novo livro de José Tolentino de Mendonça, hoje lançado, começo por aqui, no que há de identificação com o geral sentido que se retira do passo em questão:


A imensidão que não se pode perder

Pode a muitos parecer um enigma a forma como Emily Dickinson construiu o seu itinerário poético. Ela viveu praticamente numa reclusão voluntária, subtraída a uma previsível vida de contactos e públicas relações. Transformou a casa paterna, em Massachussets, na sua fortaleza, onde podia inventar-se e reinventar-se livremente, segundo os seus próprios códigos de linguagem. O pequeno mundo doméstico tornou-se para ela um continente, um planeta brilhante, uma galáxia ou o inteiro universo. Isto é tanto mais curioso quanto na sua poesia transparece frequentemente o desejo de viagem. E o lema que adoptou é este: «A imensidão não se pode perder», referindo, à maneira de um peregrino da inquietação, uma sucessão incansável de lugares aonde nunca foi - Paris, Nápoles, Veneza, a Suiça, Frankfurt e o Reno.
Emily Dickinson era sobretudo uma viajante imóvel no que dizia respeito ao mundo exterior. Pode dizer-se que procurou incessantemente a porta da alma, como todos aqueles que fazem da vida interior o centro da própria obra. Os seus versos continuam, por isso, a representar sobretudo um desafio ao recentramento. E eles dizem-nos: «Debaixo! Explora-te a ti mesmo!/ Pois dentro de ti encontrarás/O continente desconhecido».

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, Lisboa, 2017, p.15