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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A sempre discutida actualidade de "Os Maias"


Não é superficial falar na actualidade de Eça e na permanência de elites mal preparadas, de provincianismo, mas é redutor (...) Eça e Os Maias pedem muito mais do que uma leitura meramente 'funcionalista' da literatura. O princípio da actualidade de um escritor não é, por si só, um valor estético (...) A actualidade d'Os Maias é da ordem da transcendência dos grandes sentidos que lemos: a erosão do tempo, o sofrimento pelo falhanço amoroso, a perda das ilusões, a persistência do sentimento sobre a razão, o drama da decadência nacional, a pequenez do ser humano perante o destino, é tudo isto e muito mais que faz ressoar no nosso tempo aquilo que lemos n'Os Maias. Nesse sentido, eles são da mesma família d'Os Lusíadas.

Carlos Reis, em afirmações reproduzidas, no artigo de Sílvia Souto Cunha, Eça Agora, Visão nº1342, 22-11 a 28-11 de 2018, p.44.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Delírios do quotidiano (II)


Por um lado, Yu Hua, em China em Dez Palavras, dá-nos retratos de memórias delirantes, pitorescas, permeadas de um humor trágico-cómico sobre os dias da China que viveu, durante a Revolução Cultural, nos quais o culto de personalidade e um totalitarismo do qual não escapa o recanto mais íntimo (do qual a vigilância surreal sobre a linguagem não é pequena coisa) ficam bem patentes. E dar-nos esse retrato, esse contexto, esse pano de fundo do passado é um fim em si mesmo. Por outro, quando invoca inquéritos de internet, mais ou menos participados mas nos quais uma percentagem mirabolante de chineses (que a eles responderam), nos dias dos anos 2000, pretende o "regresso" de Mao, uma geração que mal o conhece o pretende ressuscitar, quando os anos de Mao - e ele descreve o grotesco com fina ironia, como vimos (no post anterior) - foram o que foram - um "ressuscitar" de tal figura que faz, obviamente, lembrar as vitórias de Estaline como o "maior russo de sempre", ou, mesmo, entre nós, de Salazar como "o maior português de sempre", em concursos televisivos, que, como costuma dizer-se, "valem o que valem", como o dito inquérito online, e as anedotas que circulam, via sms, pelo país, na China, acerca do modo como a moral, os bons costumes e a economia melhorariam a olhos vistos se Mao regressasse -, o que quer, ao mesmo tempo, é denunciar a China do final da primeira década de 2000 (quando o livro sai): "muitas pessoas sentem agora uma certa nostalgia em relação aos tempos de Mao. Penso que, na sua maioria, se trata apenas de nostalgia, e não de um autêntico desejo de regressar àquela época. Para estas pessoas, apesar da pobreza e da opressão, não existia a cruel competição pela sobrevivência que hoje se verifica. Havia apenas a luta de classes, mas era então uma luta vazia, pois na realidade já não existiam classes sociais na China, e assim este combate ficava apenas pelas palavras de ordem. Todos viviam de forma bastante igualitária, pobres, mas com o mínimo para sobreviver, e bastava ter cuidado com as palavras e as ações para viver uma vida sem grande ansiedade. A China é hoje completamente diferente. Uma feroz competição e pressão fazem com que a sobrevivência de muitos chineses se assemelhe a uma guerra. Neste contexto social, generalizam-se situações em que os fracos são presas fáceis dos mais fortes, ou em que as pessoas recorrem à força para defenderem a sua posição em em que poucos hesitam em praticar a vigarice e a fraude. Deste modo, é comum observar-se pessoas honestas e cumpridoras serem vencidas, e vigaristas e burlões alcançarem o sucesso. A transformação dos valores e da ética, associada à nova distribuição de riqueza, provocaram um processo de atomização social, que por sua vez originou inúmeros conflitos sociais. Hoje a China tem verdadeiramente classes sociais, e também luta de classes" (pp.31-32).

Em 1989, a quando da manifestação dos estudantes na Praça Tiananmen, em Maio, levando a um apoio maciço da população de Pequim, com a luta contra a corrupção no topo das prioridades (mas na agenda dos estudantes estava também, e de que maneira, a exigência de Liberdade e Democracia), numa altura em que a cidade parecia de "fraternidade universal" (os reformados, mesmo pouco remediados a levantarem poupanças para ajudar os estudantes manifestantes), a cidade sem "forças da ordem", e quando rapidamente o regime passou à repressão com balas, fazendo tábua rasa do que ali se passara, com a exibição televisiva, sistemática dos presos (estudantis), e imediatamente o apagar de tudo quanto ali se passara (em Outubro, diz Yu Hua, quando regressou à Universidade, já não havia vestígios de nada, e pessoas que participaram, tal a denegação imposta pelo regime, acabaram por esquecer aquele momento em que a palavra povo ainda parecia ter algum sentido), Yo Hua não antecipava a passagem da febre da política para a febre do dinheiro - a única coisa que contava nos anos 90, na China, diz-nos -, nem que a corrupção, mesmo na Justiça (um sistema de petições, à margem desta, para resolver litígios funciona naquele país), viesse a ser tão grande.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Nem um grama a mais


A propósito dos dinheiros, orçamentos, e tipos de concurso/selecção, para a área da cultura que chegaram a abrir, surpreendentemente, telejornais em Portugal - algo próximo do inédito -, em tempos bem próximos, ouvi a Clara Ferreira Alves um apontamento bastante pertinente: na actual cultura não há lugar para a...cultura, os livros foram substituídos pela gastronomia, pelo facebook...Com efeito, tomemos, a título de exemplo, o semanário no qual Clara Ferreira Alves assina (a cada Sábado): quantas entrevistas a chefs de cozinha cabem num ano de Expresso (que, sem dúvida, traz investigação relevante, publica algum ensaio com qualidade, e não se fica exclusivamente neste âmbito tão na moda - é verdade; mas que também raramente traz crítica literária em profundidade, para dar apenas um exemplo)? Demasiados, sem dúvida, se se partisse do pressuposto de que, sem prejuízo dos seus méritos, não seriam, por regra (mas sem absolutizar a regra; há sábios em todos os quadrantes e profissões/actividades), os profissionais que mais no elucidariam sobre as grandes/eternas questões do humano, ou aquelas que, em especial, neste tempo, mais o desafiam. Que o mais importante não é o sítio in, saber se a pizza deixou de ser fast-food e passou a comida gourmet, se a ideologia da saúde não fosse tudo, se o comamos e bebamos que amanhã morreremos não imperasse, se o bendito sucesso não fosse a medida de todas as coisas e, por sua vez, este não se medisse, entre outras coisas também, aos palmos de refeições e as redes sociais não pululassem com as fotos da última saída nocturna, se o corpo não fosse absolutizado (a ideia de que não seria o facto de a pessoa ser alta ou magra, gorda ou magra a interessar, a determinar, em absoluto, a pessoa, há muito que passou de moda; não é o aceder ao bem, à justiça, à verdade, ou esforços para alguma aproximação a estes valores que importa, não é o que se designou por "alma", entretanto perdida, mas o "corpo nu" que parece ter ficado, com(o) exclusivo). Nem um grama de actualidade, nem um pó de seriedade, como dizia o Houellebecq.