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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Profundidades


A psicologia das profundidades de C.G.Jung ajudou-me a confiar nos símbolos cristãos. Jung está convencido de que em cada alma estão disponíveis imagens arquetípicas. E essas imagens estão abertas a Deus. Jung fala da sabedoria da alma, que sabe da existência de Deus. Faz, pois, sentido confiar psicologicamente na sabedoria da alma. Pode dizer-se, certamente, que isso é apenas um truque da psique para, de algum modo, se viver com sentido neste mundo. A psicologia das profundidades não pode demonstrar Deus, mas a imagem de Deus está profundamente gravada na nossa psique. Como homem racional, posso confiar que a estas imagens corresponde uma realidade. Jung refere ainda que há, de vez em quando, fases de morte e do desvanecimento de Deus. Depois, ocorre outra vez uma nova busca de Deus.

Anselm Grun, Quando a fé e a descrença se abraçam - conversa conclusiva, in O abandono de Deus, Paulinas, 2017, p.213

domingo, 2 de abril de 2017

AMIZADE


Celebrando os amigos, sempre.
Um concentrado exemplar de um conjunto de estudos e reflexões reunidos em Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade.

José TOLENTINO MENDONÇAOS AMIGOS, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2317, 25. 03. 2017, 92

A AMIZADE É UMA ESPÉCIE  DE FRATERNIDADE QUE ELEGEMOS. (...) OS AMIGOS FALAM  UMA LÍNGUA SÓ DELES


NÃO HÁ OUTRAS RAZÕES  QUE EXPLIQUEM UMA AMIZADE VERDADEIRA ALÉM DESTE “PORQUE ERA ELE, PORQUE ERA EU”.  O RESTO É ACIDENTAL E NÃO TEM IMPORTÂNCIA

O que aproxima os amigos, o que os liga entre si é a descoberta de uma afinidade interior, puramente gratuita, mas suficientemente forte para fazer persistir no tempo o afeto, a cumplicidade, a relação e o cuidado. Se quisermos explicar que afinidade é essa nem sabemos.
E isto é verdade tanto na amizade anónima que, por exemplo, dois miúdos do mesmo bairro estarão agora a iniciar, como nas amizades célebres, como aquela de Montaigne por Étienne de La Boétie, que levou o primeiro a escrever: “Na amizade, as almas mesclam-se e fundem-se uma na outra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem.Se me intimam a dizer porque era seu amigo, sinto que só o posso exprimir respondendo: porque era ele, porque era eu”.Não há, portanto, outras razões que expliquem uma amizade verdadeira e duradoura além deste “porque era ele, porque era eu”. O resto é acidental e não tem importância.
A amizade é uma espécie de fraternidade que elegemos. São irmãs e irmãos para a vida; presenças de todas as horas; baluartes discretos, mas inamovíveisfaróis que prolongam os seus sinais na distânciacompanheiros de viagem, mesmo quando não estão fisicamente a nosso lado. Os amigos falam uma língua só deles: bastam meias palavras para entenderem tudoos silêncios são tão interpretáveis como as palavras; a comunicação nunca é só funcional, mas traz associada uma componente afetiva; e, muitas vezes, é nessa língua que melhor se desenha a esperança, a consolação e a alegria.
Pode ser esclarecedor recordar que o termo latino para amizade, amicitia, deriva da raiz — am, que no latim popular designa mãe (amma) e ama (mama). A etimologia da amizade reenvia-nos assim não a uma qualquer experiência casual de superfície, mas àmemória daquela afeição primeiraque estrutura silenciosamente a existência. Por isso, na sua espantosa leveza, e sem alardes,a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nósfaz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora. Nem todas as nossas amizades chegam a tomar consciência da extraordinária viagem interior que as mobiliza. Porém, mesmo quando a amizade parece simplesmente prosaica é este programa que realiza, pois há sempre um instante em que os verdadeiros amigos se revelam como aqueles que estão dispostos a acompanhar-nos aconteça o que acontecer.
A amizade tem a natureza real de um vínculo. Não tendo a proteção de um quadro jurídico ou de um código de obrigações,corresponde a um laço de vida que sentimos a sustentar-nos e que precisa de ser cuidado. Não esperamos nada dos nossos amigos, e essa franqueza é fundamental. Mas não esperando nada, esperamos tudo, na medida em que a sua existência nos permite existirA doçura da amizade é equivalente a este seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa de ser distanteMas é também o distante que sabe tornar-se próximo e íntimo. Por isso, não é a posse que conta na amizade, mas a afeição pela afeiçãoa dádiva atuada no desprendimento, a presença movida pela generosidade. Aceitamos de forma natural a diferença, que não vem considerada como obstáculo à confiança, mas, pelo contrário, é condição do encontro. Os amigos, mesmo aqueles que têm a felicidade de se encontrar diariamente, sabem que são linhas paralelas destinadas a encontrar-se no infinito.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

CUIDAR DA ALMA


Resultado de imagem para O regresso da princesa Europa

A primeira coisa que aprendeu com Platão foi que a verdadeira Filosofia é metafísica. É a Filosofia que ultrapassa o empirismo, o mundo quotidiano, porque procura compreender o significado mais profundo do que é ser humano. É isso que torna única a cultura europeia. A Europa não é uma tradição de costumes que passa de geração em geração, não, a Europa é antes de mais essa busca da verdadeira humanidade. Qual é a essência do ser humano? Bom, isso é o que Sócrates sublinha em quase todas as suas conversas: é a alma, a alma imortal o que faz um ser humano, humano. A posse de uma alma significa que os seres humanos são as únicas criaturas plenamente cientes da sua própria vulnerabilidade, da sua mortalidade. É essa a ansiedade fundamental que qualquer homem ou mulher sente. Ao mesmo tempo, é às nossas almas que temos de agradecer a nossa grandeza, porque nos permitem conhecer o absoluto, o eterno, o que não é transitório: a verdade, o bem, a beleza, o amor, a justiça. Ecce homo. A grandeza dos seres humanos é a sua capacidade de tornarem seus, com o tempo, estes valores espirituais, que são eternos. É também esse o propósito de todo o grande artista, permitir-nos ter a experiência deste mundo imperecível (...) Pelo que a linguagem do poeta, a linguagem das Musas, é um dos mais importantes dons que nos foram concedidos. É nessa linguagem que aprendemos a conhecer o Logos, o significado daqueles valores espirituais, expresso por palavras. O palavreado dos media, a conversa oca dos políticos, o discurso de vendas do comércio, o jargão vazio dos académicos, tudo isso, literal e figurativamente, nada diz. Porque é desprovido de significado. O cuidar da alma, a capacidade de dar ao eterno um lugar no tempo, é isso a Filosofia. Dá-nos a todos a capacidade de nos erguermos acima de nós próprios, de darmos o melhor de nós, de nos transformarmos, e de darmos à verdade e à justiça uma morada neste mundo. Por isso,  a essência da Europa não é a política, ou a economia, ou a tecnologia, não, é a cultura. Nada mais. Não é por acaso que o nosso conceito de cultura tem origem na afirmação de Cícero: Cultura animi, filosofia est. O cultivo da alma, é isso a filosofia. Palavras sábias, que lhe foram ensinadas por Sócrates, e todos os europeus de verdade deveriam tê-las gravadas nos seus corações. Em prol desse cultivar da alma, em prol da busca contínua desses valores espirituais e do esforço de os tornar nossos, em prol de todas essas coisas, qualquer filosofia digna desse nome é sempre metafísica. A filosofia nunca pode ser uma doutrina ou ideologia, pois o bem, o belo e o verdadeiro não podem jamais ser captados numa só forma. Esta busca, este cuidar da alma, este esforço de viver em verdade e de tornar o mundo justo nunca estarão completos. O que significa que ser europeu é acima de tudo um estado de espírito, e a Europa nunca está completa. Ser europeu significa também lutar, lutar por uma sociedade europeia humanista em que o que é central na educação não é o indivíduo mas  a ideia do ser humano - principalmente nas universidades onde os jovens podem adquirir uma consciência cultural e moral, onde se cultiva a alma humana de modo a que as pessoas se tornem moralmente maduras e sejam guiadas na sua sociedade por um desejo de verdade e justiça. Porque só isto, o cuidar da alma - o desejo que a alma tem de ser alimentada pela verdade e a justiça e de viver num mundo verdadeiro e justo - só isto pode ser a bitola, a linha orientadora para um mundo que quer ser civilizado.


Rob Riemen [aqui, dando voz a Radim, um dos intervenientes num conjunto de conferências-debate em que o filósofo também participaria, mas que pode ser visto em chave de uma leitura em que personagens-tipo como o padre que pretende restaurar a Cristandade, Sashi, o   deslumbrado tecnológico, ou Radim o velho sábio, Walter, o humanista que desfaz as ilusões da religião do cientismo, expressam um conjunto de pontos de vista acerca do modo como responder para que a princesa Europa regresse verdadeiramente ao proscénio da história], O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, pp.98-102.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

Livre-arbítrio (XVII)




Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


Laura BOSSI, Um Limite da Ciência: em Busca da Imortalidade, in A Ciência terá Limites? Conferência coordenada por George STEINER, Fundação Calouste Gulbenkian / Gradiva, Lisboa 2008, 219-239.

Sobre pessoas e coisas

Os não-cientistas que crescentemente confiam na ciência para explicar o lugar da humanidade no mundo são, assim, confrontados com duas perspectivas opostas do indivíduo humano, que é uma besta ou então um morto-vivo, como afirma Kenneth Malik num livro recente[1]. E apesar de provavelmente todos concordarmos que vivemos numa cultura fortemente individualista, não surgiu ainda uma concepção nova, partilhada, de indivíduo humano.
Porque, se o indivíduo humano designa apenas o organismo biológico, o espécime de uma espécie, aquele que transporta características genéticas únicas que fazem dele objecto de selecção natural, então não tem valor intrínseco. Para um carniceiro, os animais individuais, as galinhas ou as vacas que vende, não têm valor em si mesmos - exceptuando o seu preço. São objectos «produzidos» numa fábrica. As vacas loucas de que ultimamente tanto ouvimos falar não são abatidas: são «eliminadas» ou desfazemo-nos delas. E até para os ecologistas, preocupados em preservar a chamada biodiversidade, o ser natural individual não tem valor particular; as espécies é que são as entidades a preservar, de modo a assegurar a sua exploração ordenada como um recurso económico.
Tal como há muito fez notar Aristóteles, o indivíduo biológico não permite uma distinção entre zoé e bios, entre a vida animal nua e a vida humana; aos organismos biológicos (ou melhor zoológicos) é negada individualidade, não têm «biografia» e a sua morte individual não tem significado. Num passado recente assistimos, aliás, ao desenvolvimento de totalitarismos zoológicos, que autorizaram o eugenismo e a eutanásia em nome do interesse da «raça».
Na ausência de qualquer conceptualização da alma, para podermos destacar o indivíduo humano como o que transporta valor e para o distinguir dos animais (relegados para o estatuto de objectos ou máquinas) já só dispomos do conceito da pessoa, um conceito forense incorpóreo, a máscara ou persona que indicava originalmente o papel do actor no teatro, que os juristas romanos empregavam para definir o papel do homem na comunidade, e cujo significado teológico, derivado das hipóstases divinas, não é evidente para a maior parte das pessoas.
Contudo, como termo legal, uma pessoa não é idêntica a um ser humano vivo dotado de uma alma. Segundo o direito civil romano, uma pessoa podia morrer antes de o seu corpo morrer (o homo sacer, que perdera os seus direitos civis, deixava de ser um membro da comunidade e podia ser morto por qualquer um sem que fosse cometido um homicídio[2]). Podia-se também sobreviver à morte do corpo; o filho por nascer era considerado uma pessoa, a quem podia ser deixada uma herança em testamento. A corporação, ou persona ficta, foi inventada na Idade Média para definir instituições como as universidades e as ordens religiosas.
Sem surpresas, nos nossos dias o conceito de pessoa é muito controverso, inclinando-se alguns filósofos da tradição utilitária anglo-saxónica, como Peter Singer, para o aplicar a símios e golfinhos mas não a embriões humanos, doentes em morte cerebral ou idosos que sofrem de demência. No mesmo sentido, Paola Cavalieri sugeriu recentemente que fossem conferidos direitos humanos aos símios antropomórficos[3], mas criticou o Código de Nuremberga, que exige que as novas terapias sejam sujeitas a experimentação em animais, esquecendo os homens e mulheres que foram considerados infra-humanos e submetidos a experiências desse tipo.  
O mundo da tradição, composto por seres animados numa disposição ordenada na grande cadeia dos seres, na qual o homem era colocado no topo da série animal como um ser racional dotado de logos, ou linguagem, foi assim substituído por um mundo composto por pessoas e objectos, nada havendo entre umas e outros.
Mesmo no interior da pessoa humana, por detrás da máscara ou persona, já não há um ser vivo, animado, um «animal», mas uma criatura estranha que poderia ter sido sonhada pela ficção científica, um cérebro humano enxertado num robô. Porque o corpo humano, privado da sua alma, também se tornou uma coisa: tem uma «herança» genética, contém «materiais» (órgãos, células, sangue, esperma, óvulos) que podem ser armazenados em «bancos» ou usados como peças sobresselentes para transplante.
O próprio cérebro humano, o último baluarte da alma, não é considerado inteiramente humano: os meus colegas neurologistas estão a tentar localizar a consciência em regiões específicas; estão a ser propostos critérios de morte cerebral que tentam limitar a morte significativa a «estruturas cerebrais superiores», estando cientistas prometaicos como Gerald Edelman confiantes de que conseguirão criar artefactos conscientes.



[1] Ver K. Malik, Man, Beast and Zombie: What Science Can and Cannot Tell Us About Human Nature, Londres, Weidenfeld 8c Nicholson, 2000.
[2] Ver Giorgio Agamben, Homo sacer, Paris, Seuil, 1997.
[3] Ver Paola Cavalieri e Peter Singer (eds.), The Great Ape Project: Equality Beyond Humanity, Nova Iorque, Saint Martin’s Press, 1994.

sábado, 12 de abril de 2014

Norte




Dirigi-me de novo à minha tranquila e amada Alemanha, ansiando pelo silêncio íntimo que nos espera na bruma das suas florestas. A Alemanha sempre foi o local da alma, o local onde o nevoeiro, a falta de luz e a pele branca dos seus habitantes nos prometem a existência de um mundo interior, não apenas um mundo virado para fora, como no sul.

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra, p.30.