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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A vida como ela é

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A Lídia, professora, podia esperar que os insultos que lhe foram dirigidos sob anonimato - mas cuja autoria, afinal, não tardou a descobrir - viessem, ainda que mal, ainda que tristemente, do Guilhemundo, o rapaz da última fila da turma mais conflituosa do ano anterior, com quem mantivera acesas trocas de palavras, diálogos duros, por vezes excessos mesmos (de que se arrependia imediatamente, e pelos quais se torturava enquanto percorria os vinte minutos a pé que mediavam entre os portões escolares, e os de casa). Sucede que as palavras grosseiras, ordinárias, lhe vieram do Reinildo, o campeão das boas notas, o rapaz dos "100%" teste sim, teste sim, o homem dos quadros de excelência. Ele, a quem tanto elogiara, ele a quem tanto se apegara, chamava-lhe, agora, os piores nomes, ainda que pensando encontrar-se em lugar escondido e sem hipóteses de ser apanhado - como é o digital dos nossos dias. A Lídia chorou, sentiu-se atraiçoada como só quem esteve na pele deste muito mais que ofício pode saber. Talvez, semanas depois, a Lídia se convença - "eu quero acreditar..." - que se tratou "apenas" de uma imbecilidade, de um arroubo (cobardolas) de uns fedelhos entusiasmados na necessidade de dedilharem no ecrã a sua virilidade tão banal e rasteira, eles - "eu quero acreditar..." - não pensam isso dela, não sentiram o que escreveram. E talvez não tenham pensado, nem sentido isso, quem sabe?, na verdade nem os próprios. Apeteceu-lhes dizer uns palavrões, mostrarem-se másculos, mesmo que com o gorro electrónico metido para não se dar por eles (como diz o ti Aníbal, "um homem quer-se com génio, nem que seja debaixo da cama..."), e identificaram um alvo que lhes pareceu adequado, ou fácil. Mas, recuando ao momento da notícia, ao choque, ao rompante a Lídia reviu toda a forma de se relacionar com os alunos, ao longo dos anos. A Lídia desconfia agora de um elogio, de uma palavra amiga, de uma simpatia, de uma benévola troca de olhares dos "discentes". Os novos alunos nada têm a ver com o que se passou, desconhecem, aliás, a existência desse passado, não têm culpa. Sim, claro. Mas é impossível, psicologicamente, até o luto interior estar feito, dar-se, como até ali, por inteiro. O que se encontrará por detrás de cada palavra "amiga"? Por isso, note-se a responsabilidade do Reinildo (e do Fonseca), o como o seu gesto afecta tanto os seus colegas (que aparentemente nada teriam a ver com o assunto). Uma vez mais, a verdade de que a pessoa é relação e de que afecta, para o bem e para o mal, com os seus gestos, os demais. 
É certo que, por vezes, pode ser difícil ao Reinildo dizer que não a uma aproximação simpática de um professor - vai responder com frieza, indiferença ou agressividade a quem o solicita? Sucede na sala o que reina no humano mundo: gostamos mais de umas pessoas do que elas nos apreciam e, por vezes, o inverso calha a suceder: têm por nós um afecto mais intenso do que nós por elas. O que, em qualquer caso, se deveria procurar evitar, era cair-se na crueldade: por o aluno Reinildo não gostar, porventura, tanto da professora Lídia gosta do aluno Reinildo, não tem este o direito de lhe atirar os piores insultos, mesmo que às escondidas.
Há, ainda, a noção dos papéis e dos lugares de cada um; estes são importantes, e deles se há-de ter consciência bem clara. Mas, por outro lado, a ideia de que, ainda assim, há um plus além destes no relacionamento quotidiano professor-aluno, parece-me inevitável, num quadro entre dois humanos. A não ser que tenhamos chegado, de facto, a um paroxismo tal nas relações humanas que estas se limitem a funções e papéis, burocraticamente assumidos. Sem uma vírgula, um ponto, uma adversativa.
Contam-me, por fim, que a prática de cyberbullying se dá, em boa medida, por parte dos que nasceram bem, habituados, portanto, a falar de cima (para baixo).
Quando digo à Lídia que mesmo ter pessoas (alunos) com quem estávamos/nos sentíamos tão próximos em Junho que chegam, vá lá, a Outubro e nos viram olhos, já é suficiente pena - "quanto mais isto..." - ela responde-me: "a isso de virar a cara já estamos habituados...". E fico a pensar que a frase "com a idade ficamos mais tolerantes..." anda ali numa perigosa fronteira com "com a idade deixamos, muitas vezes, passar o mal, como se não fosse nada". Um cumprimento, só isso, é um "quero que tu sejas". A recusa dessa mínima troca, pode ser a antítese desse bordão. O Peguy dizia que as crianças ainda não foram derrotadas pela vida. A Lídia vai ter que conviver com mais uma - e a Lídia é ela e nós.

Se as pessoas passam a duvidar sobre se conseguem transmitir, para além dos conhecimentos técnicos, alguma coisa (ao nível da relação humana), ou se duvidarem mesmo do próprio ser humano, em casos como estes, aquilo que fazem (dar aulas) pode perder para elas o sentido e isso é muito complicado. 

domingo, 6 de janeiro de 2019

Os alunos e "Os Maias"


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Uma coisa é certa e pode ser explicada e mostrada: é que Os Maias obedecem a uma arquitectura muito bem construída, onde tudo bate certo. Outra coisa é se o aluno tem ou não tem apetência para ler um romance com esta extensão, com longas descrições, etc. A esse propósito, digo duas coisas. A primeira tem que ver com um grande equívoco que existe no sistema educativo em Portugal. Nem todos os alunos têm de gostar loucamente de ler - até porque nem todos os alunos gostam de Física, de História ou de Matemática. Tem de se aceitar isto. O que não se pode é aceitar a ideia de que, como nem todos os alunos gostam de ler, se retire do currículo as obras difíceis - isso é uma desistência cobarde e politicamente irresponsável. Segunda coisa, e esta é talvez a mais difícil: é preciso recuperar na relação pedagógica e no ensino a ideia de esforço. O menino não gosta de ler? O menino senta o rabo e vai ler. O menino não desiste: tem que ler. (...) Dou como exemplo o caso do meu filho, que é engenheiro informático. Anos depois de o ler na escola, voltou ao Eça e hoje lê-o com gosto. É preciso insistir e dar a conhecer. Não se pode gostar daquilo que nem sequer nos é dado a entender. Há outra coisa que eu não consigo aceitar nestes traumas que se armam à volta das obras de leitura integral e das obras grandes. E se os alunos não gostam de fazer equações de três incógnitas ou de estudar certos teoremas? Vamos deixar de as fazer e de os estudar?

É como se o Português e a leitura fossem parentes pobres de tudo o resto.
De facto, a desistência só é tolerada e legitimada nestes casos. Porquê? (...)

São obras difíceis? [Os LusíadasMensagem, Peregrinação, Os Maias] Paciência. Ninguém disse que aprender era fácil ou que é uma festa.  (...)

[Aos jovens] Falta-lhes maturidade [para captarem o poder de sedução de Os Maias]. Por isso digo que a leitura d'Os Maias na escola não é aquela que se faz mais tarde. É mais um projecto de leitura para o futuro, e não há nada de mal nisso.


Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, Ler, nº151, Outono 2018, pp.61-62. 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Universidades americanas


Concretamente, o que é que lhe agrada nas universidades americanas?

Primeiro, os recursos de que dispõem. Depois, a abordagem do ensino: é muito democrático. O aluno é respeitado como uma pessoa inteligente que quer aprender. Não vai decorar um catecismo para depois repetir no exame. O professor orienta, abre os horizontes do aluno. Há uma grande consciência de que o aluno precisa de crescer por si, a partir de dentro, e desenvolver-se. (...)

[E relativamente às universidades portuguesas?]

Há facetas que são endémicas. Muitos dos professores foram formados na universidade onde leccionam. Herdaram hábitos e estão a transmiti-los aos alunos. Nas universidades americanas, em regra, uma pessoa não fica a leccionar na universidade onde se formou. Quando termina o doutoramento, tem de ir leccionar noutro lugar, para se libertar do "complexo do pai" e sentir-se livre de expressar divergências em relação aos seus formadores. Há um grande arejamento. (...)

A questão da hierarquia é mais atenuada aqui ou nos EUA?

Lá, a relação é bem mais horizontal. Não é que não haja hierarquia, mas encaixa numa atitude completamente diferente. A começar por algo simples. A rapaziada nova, no primeiro ano, pergunta: "Como é que o senhor quer que eu o trate?". E eu, que não sou nenhuma excepção, costumo dizer: "Olha, desde que eu saiba que estás a falar comigo, podes tratar-me como quiseres. Podes chamar-me Onésimo". E muitos fazem-no. Um ou outro chama-me "Mister Almeida", outros tratam-me por "Professor". Hoje, o mais normal é o uso do primeiro nome. E, no entanto, na aula sou Professor. Uma coisa é a autoridade e o respeito pela pessoa que está a ministrar, a gerir o conhecimento, outra o facto de ele ser uma pessoa humana. (...) Se o professor falhou, qualquer aluno pode corrigi-lo. Se o professor não for capaz de admitir: "Tem razão" ou "Não sei, mas vou ver e logo te respondo por e-mail", esse professor fica diminuído perante os seus alunos. 

Mas já se sentiu desconfortável por ser chamado à atenção por um aluno?

Não. Por exemplo, no outro dia eu estava a explicar que, tal como no inglês, em que Josephson significa "filho de Joseph", também em português Fernando Fernandes é Fernando filho de Fernando. O mesmo acontece noutras línguas. E dei exemplos, inclusive em italiano: Galileu Galilei...Um aluno interveio: "Desculpe, mas no caso de Galileu não foi essa a razão". E explicou-se. Eu agradeci. Mais tarde fui verificar e ele tinha razão. Mas na altura disse-lhe apenas: "Olhe, não sabia. Obrigado". Aprendi imenso a ensinar. Dizia-se antigamente que no primeiro ano nós ensinamos mais do que sabemos; no segundo, ensinamos o que sabemos; e a partir daí começamos a ensinar menos do que sabemos. Quanto mais inteligentes os alunos são, mais inteligentes são as perguntas. E uma pergunta inteligente é a melhor coisa que um professor pode ter. Nunca penso naquilo, no entanto, vai pensar. Quem tem um grupo de alunos muito dotados, e motivados e interessados, está sempre a aprender.

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.8

domingo, 10 de setembro de 2017

Colocações


1. Atualmente, há 82 cursos com média superior a 16 e 20 com média superior a 17 valores.

2. Este ano, foram já pedidas 40 mil bolsas de estudo.

3. As estatísticas de empregabilidade por curso, universidade, politécnico:

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Manuais escolares (gratuitidade)


Para o Professor Gomes Canotilho, na questão da distribuição gratuita dos manuais escolares, pode não estar a observar-se, devidamente, o problema da igualdade de oportunidades: como se exige a devolução dos manuais, e a sua preservação dos mesmos em "bom estado" (sem anotações à margem?, sem apontamentos?), tal poderá prejudicar os alunos oriundos de meios mais desfavorecidos, que ficam, assim, sem um manual de um ano para o outro, sendo este importante, muito em especial, para provas de final de ciclo, ou exames nacionais. Sendo que, em um momento inicial, a gratuitidade dos manuais (que não das fichas de trabalho) incidirá sobre o 1º ciclo do Ensino Básico - e, portanto, em este quadro, sem exames nacionais -, pretende-se, e prescreve-se, que os restantes ciclos de Ensino, incluindo o Secundário, venham a ser abrangidos. E, nesse caso, quando os exames nacionais visarem 3 anos (de matéria), então os manuais de anos anteriores poderão ser requeridos (como fundamentais), mas já deixados a alunos mais novos. Acrescem questões jurídicas aduzidas pelo constitucionalista, como a da difícil concretização do conceito de "bom estado", no qual os livros deverão ser deixados a alunos vindouros (sem que critérios hajam sido fixados para o determinar), bem como a (controvertida legalidade da) responsabilidade em que os pais incorrerão - tendo que subscrever um documento nesse sentido - caso o "bom estado" (dos manuais) não venha a verificar-se no final do ano lectivo. Isto, na medida em que a penalização (pecuniária) de alguém por uma responsabilidade sem culpa só pode estabelecer-se em casos muito contados. E, de resto, tal responsabilidade poderá concorrer, outrossim, para que os pais limitem a utilização dos livros escolares, por parte dos seus educandos. Segundo o constitucionalista, não apenas a Constituição (CRP) não obriga à gratuitidade dos manuais escolares, como, ademais, seria preferível uma regulação que obrigasse a preços razoáveis/acessíveis a famílias de menores recursos económicos do que a oferta dos livros, ou, ainda, suplementarmente, a aposta (reforço) no digital. Tudo somado, questionando: o que se poupa nos manuais, não poderá ser perdido (em dobro) em resultados menos bons (em exames, por exemplo)?, prejudicando, particularmente, quem não tem outras obras de consulta e estudo?
Se não se ignora a complexidade do que se joga, aos mais variados níveis, com as políticas relativas aos manuais escolares, os interesses económicos em jogo, e do passado transitam gastos excessivos e, para alguns incomportáveis, com os livros para os filhos, não será, nunca, demais, sopesar uma significativa gama de questões que o posicionamento de Gomes Canotilho sustenta.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Iniciativa




Por vezes, sem que lhes seja solicitado, chegam junto do professor, e perguntam se podem projectar o que têm preparado na pen, sobre a matéria, para os colegas (verem). Neste caso, penso que o a-vontade tecnológico lhes confere um poder de iniciativa que a geração anterior, na mesma idade, não tinha. Preparam os materiais e expõem-nos, se for caso disso. Claro que nem sempre a aula está vocacionada para o efeito, nem sempre faz sentido o que pretendem, nem a qualidade é garantida, mas, entre perdas e ganhos, sublinhe-se o traço empreendedor. O gostar de ser reconhecido é que é intemporal.