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sexta-feira, 9 de março de 2018

O amor como razão

Resultado de imagem para harry g. frankfurt AS RAZÕES DO AMOR

Para Harry G. Frankfurt, não é possível recorrer-se à razão (com motivos universais) para esclarecer as actividades que têm sentido (e, por isso, às quais nos devemos dedicar/com as quais nos devemos preocupar). Não é possível, na perspectiva deste filósofo, pois, aceder-se a um ponto tal que saibamos, de modo objectivo, quais as coisas que deveriam importar-nos. E isto, porque, nessa indagação, os requisitos de inquirição são, já, eles mesmos, opções que nos conduzirão a um resultado já inscrito nesses mesmos critérios, pelo que há aqui uma circularidade inevitável e inescapável no raciocínio. "Isto é, suponha-se que, de algum modo, fica preocupada em saber se realmente se deveria importar com as coisas com que, de facto, se importa. Esta é uma preocupação sobre razões. Ao colocar a questão de se deveria conduzir a sua vida com base naquilo com que realmente se importa, está a perguntar se há razões suficientemente boas para justificar que viva desse modo, e se não poderão existir melhores razões para que, em vez disso, viva de outro modo (...) Colocar a questão tende a ser desorientador, antes de mais, porque é inescapavelmente auto-referencial e leva-nos a um círculo sem fim. (...) De modo a levar a cabo uma avaliação racional de um certo modo de vida, uma pessoa deve saber primeiro que critérios de avaliação empregar e como empregá-los (...) Para que uma pessoa seja sequer capaz de conceber e iniciar uma investigação sobre como viver, tem já de estar apoiada nos juízos aos quais a investigação se direcciona (...) Mas identificar os critérios a serem usados para avaliar vários modos de viver é também equivalente a proporcionar uma resposta à questão de como viver, dado que a resposta a esta pergunta é simplesmente que se deve viver do modo que melhor satisfaça quaisquer critérios que sejam utilizados para avaliar vidas. (...) de forma a que uma pessoa saiba determinar o que é importante para si, ela tem já de saber como identificar certas coisas como fazendo diferenças que são importantes para si. (...) O que não é possível é que uma pessoa que não se preocupa pelo menos com algo descubra razões para se importar com o que quer que seja" (pp.29-32). A questão mais importante na vida não será, assim, normativa: como devo viver. Na resolução sobre uma maneira de vivermos, "do que precisamos mais fundamentalmente não é de razões nem de provas. É de clareza e confiança" (p.34). Querermos preservar a nossa vida, ou defender os filhos: "estes compromissos são inatos em nós. Não são baseados na deliberação. Não constituem reacções a quaisquer comandos de racionalidade. Os comandos aos quais eles de facto reagem são baseados numa fonte que é constituída não por juízos ou razões, mas por um modo particular de se importar com as coisas. São comandos de amor" (p.35).
Defender o filho, mesmo quando terceiros o acham desagradável; salvar a mulher, quando há dois para salvar na piscina. Nada disto exige deliberação, raciocínio, pensamento. O amor que defende o filho e salva a mulher - sem pensamento, nem deliberação - esse amor é, afinal, a razão [mas uma razão sem razões, no sentido de deliberação, raciocínio; um tipo salta para a piscina para salvar a mulher, sem porquê] desse modo de agir e viver, diz Frankfurt.
Esses comandos inatos dizem-nos, também, que para Frankfurt - como, p.ex., para Scruton, mas já não para Ferry - há uma natureza humana. Mesmo que face a esses comandos se reaja de modo nem sempre uniforme - o repúdio de um filho, a indiferença face à mulher (após deliberação e raciocínio). Todavia, enquanto se amou filho ou mulher não foi a "razão" a sustentar a relação (as relações).
Podemos ter desejos sobre desejos e atitudes sobre atitudes nossas. Somos reflexivos, ao contrário dos animais não humanos ("a capacidade de se importar requer um tipo de complexidade psíquica que pode ser peculiar aos membros da nossa espécie. Pela sua própria natureza, importar-se manifesta-se e depende da nossa distintiva capacidade de ter pensamentos, desejos e atitudes que são sobre as nossas próprias atitudes, desejos e pensamentos. Por outras palavras, depende do facto de a mente humana ser reflexiva. Animais de várias espécies menores também têm desejos e atitudes. Talvez alguns tenham pensamentos também. Mas os animais dessas espécies - pelo menos assim parece - não são autocríticos. São motivados para a acção por impulso ou por inclinação, simplesmente como surge, sem a mediação de qualquer consideração reflexiva ou crítica dos seus próprios motivos. Na medida em que lhes falta a capacidade para formar atitudes em relação a si próprios, não há para eles possibilidade quer de auto-aceitação quer de mobilização de uma resistência interior a serem o que são", pp.23-24). Poderemos gostar das motivações para os nosso actos (um acto generoso, motivado pela generosidade), ou desagradar-nos as motivações para estes (um acto de fúria, motivado por um sentimento de revanche). Em suma, podemos procurar contrariar desejos e motivações, privilegiar outros. Não somos autómatos: "suponha-se agora que alguém está a praticar uma acção que quer praticar; e suponha-se adicionalmente que o seu motivo para praticar esta acção é um motivo pelo qual pretende verdadeiramente ser motivado. Esta pessoa não é de modo algum relutante nem indiferente no que respeita ao que está a fazer ou no que respeita ao desejo que a leva a fazê-lo. Por outras palavras, nem a acção nem o desejo que a motivam lhe são impostos contra a sua vontade ou sem a sua aceitação. Nem no que diz respeito a um nem ao outro essa pessoa é meramente um espectador passivo ou uma vítima.
Nestas circunstâncias, acredito, a pessoa experimenta tanta liberdade quanto é razoável para nós desejar. Na verdade, parece-me que experimenta tanta liberdade quanta é possível para nós conceber. Isto está tão perto da liberdade da vontade quanto seres finitos, que não se criam a si próprios, podem inteligivelmente esperar alcançar*" (p.26)

"*Dado que não nos criamos a nós próprios, tem de haver alguma coisa sobre nós de que nós próprios não fomos a causa. Na minha opinião, o problema crítico no que respeita ao nosso interesse na liberdade não é se os eventos nas nossas vidas volitivas são causalmente determinados por condições fora de nós mesmos. O que realmente conta, até onde vai a questão da liberdade, não é a dependência causal. É a autonomia. A autonomia é essencialmente uma questão de sermos activos em vez de passivos nos nossos motivos e escolhas - se, independentemente de como sejam adquiridos, são motivos e escolhas que realmente queremos e, consequentemente, de modo algum são estranhos para nós."(p.26)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Omnipotência


A omnipotência de Deus é a omnipotência do amor. Deus pode o que o amor pode. E o amor pode tudo. E Deus é amor. Não um senhor de barbas, nos bastidores, que infringe as regras da natureza.



Onde está a vossa fé? Onde está? Nos sinais da omnipotência? Num Deus que mostra ser capaz de infringir as regras da natureza? Num Deus omnipotente ou num omni-amante? É muito fácil acreditar perante o milagre que te salva. «Não, acreditar na Páscoa não é uma fé correta: «És demasiado belo na Páscoa! A fé verdadeira é na Sexta-Feira Santa» (David Maria Turoldo)

Ermes Ronchi, As inquietantes perguntas do Evangelho, Paulus, 2017, p.33.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ligações


Nas derradeiras leituras antes das aulas a sério começarem, registo que o filósofo Luc Ferry, mesmo sendo ateu, no livro que escreveu acerca da felicidade ("7 lições para ser feliz"), no capítulo acerca do amor, cita, com vários excertos, a encíclica "Deus Caritas Est", de Bento XVI. O livro acaba de sair na Temas e Debates; o original, em francês, foi publicado, no ano passado, em França.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Medo



O medo não pode ser expurgado. Uma das emoções mais constitutivas do nosso cérebro pré-hominídeo. Faz parte da geração de todos os vertebrados; não está provado que faça parte dos invertebrados. Há reacções de fuga, sim, mas não está provado que, nestes, haja a consciência do medo. O cão, o gorila, qualquer animal de quatro patas tem noção de uma ameaça superior às suas forças, à sua capacidade de defesa ou de ataque. O riso também não pode ser expurgado. Nem o sentimento afectivo que nos liga ao outro (podemos chamar-lhe amor, ou outra palavra que quiserem). Como não pode ser expurgado o nojo que sentimos. Afastarmo-nos do podre, do azedo, porque contamina a comunidade e pode gerar uma peste que mata uma grande percentagem da comunidade. É através da racionalidade, do neo-córtex que nós conseguimos controlar o medo. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Plenitude


Encontrei ainda uma outra forma de ateísmo nas conversas com pais. Muitas vezes, eles sentem-se impotentes perante os argumentos dos seus filhos acabados de entrar na puberdade, que dizem claramente aos seus pais que Deus não existe.  Este seria apenas uma projecção do homem, afirmam eles. Assumem a posição de Ludwig Feuerbach, ou, ainda, de Sigmund Freud, que não caracteriza Deus como projecção, mas como ilusão. Deus seria uma ilusão na qual os homens de boa vontade se refugiam para se sentirem um pouco mais aclimatados neste mundo áspero e severo. Eles argumentam, como Sigmund Freud, que a religião seria uma coisa infantil e que importa, sobretudo, ser adulto e aceitar a realidade e dominá-la como ela é. Muitas vezes, por detrás do protesto dos filhos pubescentes contra Deus esconde-se também a tentativa de se libertarem do abrigo junto dos pais e da sua convicção religiosa fundamental. Eles não notam que se excedem com esta crítica da religião. A posição de Freud está cheia de pessimismo. E, em Freud, não é prevista a felicidade do homem, que deve simplesmente contentar-se com a vida tal como ela é. Para os jovens, porém, esta não é a perspectiva que lhes permita viver. Ao invés, esta visão induz à resignação, ao cinismo e à oclusão perante tudo o que poderia ser maior do que nós próprios, tudo o que poderia abalar a nossa raquítica e estreita autoimagem. (...) Para mim, há duas respostas (...) Em todas as dúvidas sinto-me apoiado por Deus. E isto dá-me segurança. Apesar de tudo, agarro-me firmemente a Deus. Experimentei que não se trata aqui de nenhuma ilusão. A minha experiência diz-me que Deus é o fundamento em que posso sentir-me seguro e firme. E a outra seria antes uma questão aos jovens: que ouves tu, quando escutas uma música? Trata-se apenas de acalmar os nervos? Que vês tu, quando admiras a beleza de uma flor, quando contemplas um quadro belo? Para mim, a beleza é um vestígio de Deus. E isso dá cor, variedade, profundidade, animação e chama à minha vida. Que experimentas quando sentes o amor em ti? Será isso apenas um sentimento provisório, ou tocas aí o mistério de todo o ser, o fundamento de toda a realidade, que é amor? O argumento em prol da incredulidade em muitos jovens induz, a meu ver, à banalidade. E eu recuso-me a viver de forma apenas banal. Gosto de viver e saborear a plenitude. A minha tarefa seria, então, falar aos jovens da plenitude que também eles poderiam experimentar (...) Trata-se da questão do que é a vida real e onde e como ela se há-de encontrar.

Anselm Grun, A alma não conhece o ateísmo, in O abandono de Deus, Paulinas, 2017, pp.36-37.

domingo, 12 de março de 2017

Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (IV)


6. Daniel faz-se à vida como “one man show” (p.20), nada mais apropriado aos tempos (híper-individualistas), sendo o “bobo” – e o narrador reflete acerca do humorista como o colaboracionista que evita(va) ao mundo revoluções dolorosas e inúteis, pois que responde ele, com as suas piadas, sketches e outros motivos, com violência à violência (do mundo) - que converte todo o tipo de estereótipos sobre comunidades (particulares) em motivo de escárnio, fazendo do obsceno um veículo de atracção de massas. No mesmo espectáculo, congrega piadas anti-islâmicas e anti-semitas (p.41). Ele que passa pelo cinema (p.41), tem um último espectáculo precisamente intitulado “100% de ódio” (p.50). Chega a ter 6 milhões de euros (p.27). E não lhe escapa o que isso significou quanto ao modo como encarou o trabalho: “fora de certo modo uma espécie de puta, adaptara-me ao gosto do público” (p.174). A escrita, contudo, nesta narrativa de vida que enceta – e quanto à narrativa da vida, não há regras (p.26) –, e em particular a quando da perda no/do amor, dava-lhe “a ilusão do auto-controlo” e isso “permitia-me não desabar” (p.340). Até porque “é graças à memória que o sono não destrói de modo nenhum a sensação de identidade” (p.25).
As memórias de Daniel não são, em qualquer caso, um mero adentrar sociológico num dado espaço-tempo; elas são, em grande medida, uma reflexão existencial de quem parte da premissa de que “a vida não tinha [tem] nada de divertido” (p.174). “Na primeira parte da vida, só sabemos da felicidade quando a perdemos; depois, sabemos que quando começamos a viver uma felicidade a acabaremos por perder. Na terceira fase, a antecipação da perda de felicidade inibe a própria vida” (p.143). A juventude “era o tempo da felicidade, a sua única estação” (p.321). A maior parte das pessoas nasce, envelhece e morre sem conhecer o amor (p.144). A humanidade, já se sabe, está longe de ser grande coisa, na mundividência de Daniel1: “é uma tendência da sociedade (…) uma tendência geral para a barbárie, não há nenhuma razão para esta seita [elohimita, no interior da qual se registam homicídios e lutas fratricidas pelo poder] escapar” (p.299). Fox, o cão, era “o único ser digno de ter sobrevivido” (p.393), segundo o clone neo-humano do narrador que, acerca da vida, ela mesma, não era propriamente mais optimista que o seu antecessor: “o simples facto de existir era só por si uma desgraça” (p.390); “apreendia o meu corpo como um veículo de nada. Não fora capaz de ascender ao Espírito; continuava, no entanto, à espera de um sinal” (p.386). Este ser “nunca tivera decisões nem iniciativas a tomar, esse processo era-me totalmente estranho” (p.365), numa vida, aliás, organizada/regida pela Irmã Suprema, uma guia à laia de big brother (totalitário). E que lá pelo séc.XXIV vivia completamente isolado, rodeado de umas criaturas, os “selvagens”, que na economia do livro de Houellebecq como que são o mais aproximado dos (antigos) humanos: a “brutalidade das suas relações, com a ausência de compaixão pelos idosos e pelos mais fracos, pelo apetite indefinidamente renovado de violência, de humilhações hierárquicas ou sexuais, de crueldade pura e simples” (p.386). Havia, aqui, uma perenidade que se entendia observar: “as cenas a que eu assistira perto de Alarcón, ela vira-as repetir-se, quase as mesmas, em Nova Iorque – embora as tribos se encontrassem a distâncias consideráveis e não tivessem há sete ou oito séculos nenhum contacto” (p.386).
Interessado no religioso porque, como pontuou com grande sagacidade, ele tem a capacidade/natureza de permear/influenciar/determinar todos os sectores da vida social, Daniel que encontrara um católico com dificuldades de relacionamento sexual em virtude da sua filiação religiosa, no entanto “quando discutia com um cristão ou muçulmano no liceu tinha sempre a impressão de que a sua crença era de ‘segundo grau’: era evidente que eles não acreditavam, diretamente e no verdadeiro sentido, na realidade dos dogmas apresentados, mas de que se tratava de um sinal de reconhecimento, de uma espécie de palavra-passe que lhes facultava o acesso à comunidade dos crentes” (p.212). O seu clone, quando passa por “condições extremas” lamenta “a ausência de Deus, ou de uma entidade da mesma ordem” (p.384) a quem se dirigir [assunto de há muito arrumado no séc.XXIV; ao mesmo tempo, a resposta necessária face ao mal, no sentido de Pascal: é absurdo que Deus não exista – na medida de uma reparação final (necessária/urgente); embora também “é absurdo que Deus exista” em face do mal, para o francês; de qualquer modo, fica uma dada concepção e imagem que muitos possuem de Deus (como bombeiro)].
Num sublinhado curto, mas incisivo Daniel alude àqueles que “pelo simples facto de serem pais seriam [viriam a ser] julgados culpados” (pelos filhos) (p.327). Como que de tal sorte sublinhando ser essa a condição da parentalidade; dada a sua intrínseca imperfeição, a sobrevinda da crítica, o elenco de faltas ou falhas [pelo dedo acusador da descendência…que dali a nada se transformará em acusada, assim mude de papel]. Mal nasce, o pai ou a mãe, é culpado, pois que não foi – nunca será – perfeito. A sua “culpa” inapelável e nunca superada.
Em uma visão sombria da vida, dos humanos e do estádio civilizacional em que se encontra (em que nos encontramos), Daniel não pode contemplar ou conferir, como não contempla nem confere, qualquer carácter salvífico às suas memórias: as pessoas, mesmo que soubessem que o humorista/escritor estava a redigir acerca de um grande acontecimento “não se importariam, porque estavam habituadas a uma vida insípida e a um comentário” (p.302). O comentário insere-se na lógica do achismo quotidiano, que sobre cada assunto tem uma opinião, para no fundo não levar nada a sério, no meio da cacofonia (de que participa); o comentário da sociedade dos comentadores que merecia ser substituída pela sociedade dos artistas, bem mais inspiradora, seguramente (Tolentino de Mendonça).

Numa conferência, na Culturgest, há cerca de um ano, Maria Filomena Molder recordava que, em As razões de ser, Fernando Gil dizia que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária. Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência. Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa disposição para a vida. Lembra-te de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe)”.

Se tivéssemos que nos recolher a autores para quem a vida é um bem, na qual importaria depositar confiança, há um dom que importa agraciar e talentos a colocar a render, então, evidentemente, como pontos de partida, a ideia da vida como “desgraça”, a existência como incessante “dor de ser”, a imagem que retiramos desse mundo na mediação humana – sempre com lobos ferozes por rostos e companheiros, em vez de seres que fazem do amor, do apego, o essencial e entendem a alma, a dimensão espiritual como algo que lhes permite tocar os valores eternos – bem, verdade, beleza - não seria, evidentemente, à cosmovisão expressa pelo narrador Daniel que recorreríamos.
Todavia, se a partir de um ponto de vista em que queremos perseverar nessa confiança na vida e no mundo, se a mundividência postulada passa pela necessidade da relação, de um forte vínculo e preocupação com o outro, então a crueza, a brutalidade, a violência extrema de um universo povoado de átomos que são indiferentes ao que quer que seja – sem riso e sem lágrimas -, incapazes de se perguntar por qualquer sentido – nenhuma conversa séria – e deixando de fruir das grandes indagações filosóficas e teológicas que marcaram a sua caminhada (algo agora simplesmente inacessível, com o aniquilamento da religião, sob o signo do cristianismo, e da Filosofia, pelo culto do cientismo, do tecnológico), nesse mundo onde todo o dissenso foi castigado, nesse cosmos de humanos que não passam de exclusiva biologia, então, dizíamos, a denúncia sem equívocos de Michel Houellebecq adquire uma grandeza incontestável em virtude do seu talento literário (e de um background onde avultarão, nesse sombrio sobre a existência, Nietzsche ou Schopenhauer).
A propósito deste romance, e da distopia que ele encerra – o fim do amor, das relações como a libertação/emancipação da humanidade; o isolamento como a nova condição, num humano maquinal e petrificado, no qual apenas a razão instrumental permanece - Leonidas Donskis faz suas as palavras de Slawomir Mrozek: “o amanhã é o dia de hoje exceto por chegar um dia depois”. “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq, é uma teoria sociológica da morte da sociedade, uma teoria apresentada sob a forma de literatura e que desenvolve uma narrativa convincente. A morte da sociabilidade na fase tardia da modernidade não é uma fantasia. As pessoas já não querem estar juntas. Já não têm razão alguma para ficar umas com as outras”. Assim, “tudo o que resta da sociedade são indivíduos atomizados, solitários, fragmentados, com um frágil poder de associação. O seu único problema é consigo mesmo e com a sua morte e extinção. Uma cultura viva cria as suas próprias formas de vida. Uma cultura moribunda já não cria mais nada, apenas se interpreta” (Donskis). Num universo muito marcado pelo determinismo, o fatalismo assacado ao fim das próprias relações humanas, de cada relação que entabulamos, parece querer surgir como resposta - na narrativa de Houellebecq. Contudo, testando-o até ao extremo, circunscreve um limite que irrompe enquanto esperança, e esta com(o) uma força da natureza que não adquiriria num texto delicodoce: “a história das relações humanas é sempre cíclica: elas começam, desenvolvem-se e depois definham silenciosamente. Só uma pessoa amada ou amiga pode romper o ciclo e superá-lo. Vencer o ciclo das relações humanas e a sua morte constitui a própria essência do amor e da amizade” (L.Donskis). Como Daniel sabia, “acabamos sempre por morrer de amor ou falta de amor” (p.146). Um amor inscrito em/mediado por Esther: “não sobreviveria à sua partida [para Nova Iorque, para uma Academia de Piano, e para representar uma peça de Sócrates]” (p.273). A perda do amor seria uma verdadeira “catástrofe” e aí estava a angústia pronta a devorar (p.274). É na debilidade da ferida, na inocência talentosa – e talento é algo que falta aos sem carácter, desenvolve – que Daniel se oferece na beleza da lágrima, na redenção do sentimento, na verdade do viver [num inusitado golpe romântico, de alguém que, porém, assume as suas “oscilações ciclotímicas entre o desânimo e a esperança”, p.349]: “ao mesmo tempo, tornara-me um perfeito cachorro, que um simples torrão de açúcar teria bastado para apaziguar (…) mas ninguém me ofereceria esse torrão de açúcar” (p.341). Numa palavra, “um pouco sentimental, um pouco cínico” (p.327).
Podemos, pois, dizer que nesta obra “ainda assim, Houellebecq deixa-nos uma palavra de esperança (…) As suas palavras sobre o amor como mistura de desejo e compaixão transformam-se na esperança do homem líquido moderno (…) O breve e infeliz amor de Daniel por Esther (…) isso é esperança. Se a extinção dos poderes de comunidade, sociedade e sociabilidade representa o começo do fim do mundo, e se os indivíduos que se usam uns aos outros, mas não se querem ver nem ouvir, aceleram a autodestruição mútua, então esse ciclo só pode ser superado por uma vitória, mesmo que apenas momentânea, sobre o determinismo: por exemplo, uma inesperada palavra de compaixão” (L.Donskis).
O desiderato de despertar para a vida pode ribombar com um tremendo som estridente de um chicote usado sem clemência – “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia do século XXI, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada” (Donskis) - pela pena de um autor que, em qualquer caso, mesmo no mais tenebroso dos cenários encontrou espaço para a alteridade.  


(conclusão)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Para lá do espaço e do tempo


Quer dizer então que não faz sentido rezar pelos defuntos?

Claro que faz sentido. Mas, mais uma vez, devemos esclarecer os termos. Como se disse, a morte da pessoa não interrompe as relações que teve com os outros durante a sua vida terrena. A morte não é evento limitador, mas, antes, deflagração das potencialidades de amor. A morte exalta a ligação com o mundo dos vivos. Isto aplica-se também à nossa relação com os defuntos. Nós - ainda amarrados, limitados pelo espaço e pelo tempo - podemos continuar a relacionar-nos com eles, e isso acontece de modo especial mediante a oração. «Para o cristão, as possibilidades de ajudar e de dar não se extinguem com a morte» (Joseph Ratzinger). Atenção, porém. A oração não tem a função de fazer expiar os pecados aos nossos mortos.

Paolo Scquizzato, Por último virá a morte...e depois?, Paulinas, 2016, pp.74-75

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Abraão

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Génesis 22

1Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe: Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui.   2Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar.    3Levantou-se, pois, Abraão de manhã cedo, albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque, seu filho; e, tendo cortado lenha para o holocausto, partiu para ir ao lugar que Deus lhe dissera.    4Ao terceiro dia levantou Abraão os olhos, e viu o lugar de longe.    5E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o mancebo iremos até lá; depois de adorarmos, voltaremos a vós.    6Tomou, pois, Abraão a lenha do holocausto e a pôs sobre Isaque, seu filho; tomou também na mão o fogo e o cutelo, e foram caminhando juntos.    7Então disse Isaque a Abraão, seu pai: Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?    8Respondeu Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. E os dois iam caminhando juntos.   

9Havendo eles chegado ao lugar que Deus lhe dissera, edificou Abraão ali o altar e pôs a lenha em ordem; o amarrou, a Isaque, seu filho, e o deitou sobre o altar em cima da lenha.    10E, estendendo a mão, pegou no cutelo para imolar a seu filho.   

11Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui.    12Então disse o anjo: Não estendas a mão sobre o mancebo, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho.    13Nisso levantou Abraão os olhos e olhou, e eis atrás de si um carneiro embaraçado pelos chifres no mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho.   14Pelo que chamou Abraão àquele lugar Jeová-Jiré; donde se diz até o dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.   

15Então o anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu,    16e disse: Por mim mesmo jurei, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e não me negaste teu filho, o teu único filho,    17que deveras te abençoarei, e grandemente multiplicarei a tua descendência, como as estrelas do céu e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos;    18e em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz.    19Então voltou Abraão aos seus moços e, levantando-se, foram juntos a Beer-Seba; e Abraão habitou em Beer-Seba.   

20Depois destas coisas anunciaram a Abraão, dizendo: Eis que também Milca tem dado à luz filhos a Naor, teu irmão:   21Uz o seu primogênito, e Buz seu irmão, e Quemuel, pai de Arão,    22e Quesede, Hazo, Pildas, Jidlafe e Betuel.    23E Betuel gerou a Rebeca. Esses oito deu à luz Milca a Naor, irmão de Abraão.    24E a sua concubina, que se chamava Reumá, também deu à luz a Teba, Gaão, Taás e Maacá.   

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A fé tem o seu modelo em Abraão a quem Deus mandou sacrificar o filho. Segundo a exegese, o que o texto diz é que Deus põe termo aos sacrifícios humanos. Aliás, Kant, confrontado com o tema, escreveu que Abraão deveria ter dito a Deus que não era seguro que a voz que ouvia fosse de Deus, mas era certo que não devia matar. Kierkegaard, porém, coloca-se noutro plano: o do combate da fé, numa luta de vida e de morte com Deus. Deus põe à prova a fé de Abraão e o seu amor, quer ver se realmente O ama. Abraão, por sua vez, põe também Deus à prova: dispõe-se a matar o filho, mas, se Deus não intervier, só pode tornar-se ateu. Deus interveio. A fé e o amor são levados ao paroxismo.

Anselmo Borges, Deus Religião (In) felicidade, 92.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Os cientistas e a fé (V)


Einstein (...): «Sim, sou [uma pessoa religiosa],pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso».

in Anselmo Borges, Deus religião (in) felicidade, Gradiva, 2016, pp.52/53

terça-feira, 5 de julho de 2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O cosmos à flor da pele



Para a Bruna Meneses, que chora com os outros:

Um dia cantarei para ti na alvorada de um outro mundo: «Vi-te
uma vez na luz do mundo, no amor de um ser humano!»

Rabindranath Tagore, A asa e a luz, 91.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Eros



152. Assim, não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para o bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro, torna-se uma «afirmação amorosa plena e cristalina», mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, «sente-se que a existência humana foi um sucesso».

Papa Francisco, no nº152 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, publicada a 19 de Março de 2016.
 

domingo, 8 de maio de 2016

Uma só pergunta


Na verdade, diz Halík, as perguntas Deus existe? e Acreditas no amor? não são duas, mas uma só.

sábado, 23 de abril de 2016

Amor


Se eu tivesse de apresentar alguma definição sucinta de amor, seria esta provavelmente: Nós amamos realmente aquilo a que somos capazes de dar prioridade sobre o eu.

T.Halík, Quero que tu sejas!, p.140.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

AMOR, VIDA




A foto é de Joseph Eid, da AFP (encontrei-me com ela, hoje, na Visão). Em Homs, na Síria, país no qual terão morrido, soubemos hoje, cerca de 470 mil pessoas desde 2011, cidade que era a terceira maior do país, com 650 mil habitantes, destruída, devastada, em cacos. E, ainda ali, com espaço para o amor, numa homenagem incrível à vida. Nem a morte os separa (titulou a Visão) Uma foto extraordinária.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Dar rosto, dar nome



Jorge Pelicano vai à procura, nos seus filmes, "do desconhecido", dir-se-ia dos invisíveis a quem dá rosto ("não é como na televisão, em que as pessoas aparecem desfocadas...e acho que não são respeitadas"), cumprindo, num gesto poético, o respeito pela dignidade da pessoa. Do alto, filma os muros do Conde Ferreira, juntando-os, na mesma imagem, à subida para as Antas, com um amontoado de carros em fila, colocando-nos perante o binómio dentro/fora, sendo que, ao longo do documentário, percebemos que somos os mesmos. Lá dentro e cá fora. O traço de humanização da pessoa com doença mental é deliberado: o que encontrara, na história do cinema, na abordagem do tema, levara o realizador a considerar um olhar outro que não o do perigoso doente mental, felino, incontrolável, "babado". No Conde Ferreira, houve um par de pessoas que se apaixonou, a Rosa e o Carvalho são o par de namorados que aceitam falar sobre si, a família, os médicos (desumanos...ou nem tanto..."não sejas injusto", diz Rosa), projectos do passado e do futuro, sonhos por cumprir. 8 semanas de trabalho, num hospital devolvido, pelo Estado, à Santa Casa da Misericórdia pelo ano 2000, com melhorias a promover no edificado, na arquitectura - e todo o cuidado é pouco no tacto com que cada segmento é escolhido para passar a imagem do local filmado. Foram seis meses, três montagens diferentes - "a primeira era muito pesada", concede o realizador -, a final concordância da Administração, o sim dos utentes que aceitaram participar no filme, a sua assinatura com o médico ao lado ("também as questões éticas são muito delicadas e tornam difícil fazer um filme destes").
Enquanto o realizador sai todas as noites do hospital, "porque precisava de criar uma narrativa sobre aquilo", o actor Miguel Borges, nele permanecendo mesmo de noite, vai interagindo com aqueles que vêem a ser os personagens do documentário, conhecer os cantos à casa, até, em definitivo, com eles ensaiar uma peça de teatro e dar às palavras do doente com esquizofrenia Ângelo de Lima o sentido vivido de quem as ouve pela primeira vez. Estes utentes que aceitam participar, diga-se, "são os melhorzinhos" - nas palavras do responsável pelo departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Vila Real, em linguagem para todos entenderem -, quer dizer, são aqueles, ainda assim, que conseguem falar, que estão dispostos a participar, que são capazes de rir do mundo: "aquele muro está ali, para que os malucos lá de fora não saltem cá para dentro". Jorge Pelicano assume, plenamente, o particular "ponto de vista": do que se trata, não é, em realidade, de registar uma amostra científica, uma média ou mediana, e mostrar o Conde Ferreira como ele é (como, de resto, se fosse possível aceder a uma essência dele; mas, em todo o caso, sempre seleccionando, cortando, mostrando umas coisas e escondendo outras, negociando, reconheça-se, ainda, o passível de ser mostrado). No início da pesquisa, basicamente as primeiras quatro semanas, as tiradas destes utentes pareceram ao realizador da Figueira da Foz, que desde pequenino ouvira o papão de "se te portas mal, vais para a casa dos malucos", verdadeiras pérolas filosóficas, uma ironia - "se Deus que foi Deus não agradou a todos...; há remédios para o frio, há remédios para o calor, há remédios para comer, há remédios à noite...." - que os torna especiais, mas sempre próximos de nós: "são pessoas". Pelicano prossegue esse labor ético de dar nome às pessoas. Falta, muito, ali, naquele espaço, naquele hospital, a família. Algumas famílias, só vêem, mesmo, no dia da morte, procurando a última migalha ("a reforma..."); outras, nem isso. Há utentes que reconhecem que o máximo que conseguem é chegar ao Marquês, à Areosa; depois, o sentimento de desprotecção, de medo, de ansiedade, de dependência do hospital é tremendo. Há quem viva no Conde Ferreira há mais de 25 anos. Chegar a essa etapa de dependência é já estar num caminho muito complicado. Há muitos casos de esquizofrenia, ali expostos, mas a ansiedade e depressão, que encontramos mais quotidianamente, tenderão a ser as verdadeiras pragas do Egipto.
Na plateia, o filme prende desde o instante inicial - "valeu a pena ter vindo de Lisboa", dirá Pelicano -, o público não tem medo de rir, de rir muito, reconhecendo-se naquela humanidade, naqueles ironistas capazes de troçarem de si próprios, mas também faz um fecundo silêncio - "era capaz de se ouvir uma mosca", afirmará o Director do Departamento  de Psiquiatria do Hospital Magalhães Lemos, dr.Dario Martins que certo dia deu com a Rosa e o Carvalho aos beijos num café do Porto, indo, de imediato, cumprimentá-los..."verdadeiras stars, verdadeiras stars" -, respeitando o sofrimento, a dor, o mistério e a intimidade do outro.
Há quem fique sentado pelo chão, "um ambiente mágico" (Dario Martins) percorre a sala do pequeno auditório do Teatro de Vila Real, perante um filme de uma grande "sensibilidade", que nos mostra "gente com sentimentos e pensamentos", personagens que são verdadeiras enciclopédias da doença mental, gente que encontra no hospital um porto de abrigo. Muitas perguntas, reflexões profissionais, parabéns dados ao realizador, por parte dos espectadores que são, essencialmente, médicos, enfermeiros, profissionais da área da saúde.
Excelente iniciativa do Departamento de Psiquiatria do Hospital de Vila Real, no âmbito, já, da celebração do dia mundial da pessoa com doença mental, numa noite elevada, sem fantasmas e com gente de corpo inteiro, no Teatro de Vila Real.

domingo, 23 de agosto de 2015

Jean-Luc Marion


Para o Luís:

Só sob a forma de conceito, Deus poderá ser refutado, ou provado. Logo, se Deus está para lá de todo o conceito...

[a partir de Dios sin el ser, Ellago, 2010, p.64]

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Amor e sacrifício


El ascensor estaba a punto de cerrar sus puertas, pero los vecinos que acababan de entrar en él fueron tan amables de mantenerlas abiertas para que pudiera aprovechar el viaje y subir con ellos. Tuve que darme una pequeña carrerita desde el portal y cuando, por fin, entré, algo agitado, en el cajetín, me sorprendió encontrarlos inusualmente engalanados. No pude evitar hacer una referencia a dicha circunstancia (con un comentario del tipo “vais muy elegantes” o cosa parecida: no recuerdo ahora bien mis propias palabras), y fue la segunda parte de su respuesta la que, tiempo después, ha regresado con nitidez a mi memoria. “Venimos de la boda de un sobrino”, explicación a la que, tras un breve silencio, se sintieron obligados a añadir: “veremos cuánto duran juntos…”
Tal vez resulte menos banal de lo que parece el hecho de que uno de los primeros comentarios que se le ocurra a gente absolutamente normal (quiero decir, a gente no caracterizada por mantener un discurso ideológico-político radical, anti-institucional o cosa parecida, ni que formen parte de los profesionales de la antropología o cualquier otra ciencia social que se ocupe de las formas del parentesco) sea la referencia al dudoso futuro de cualquier fórmula que pretenda estabilizar institucionalmente a una pareja. Importa plantearlo de esta manera, haciendo referencia a la normalidad de los protagonistas de la anécdota, porque ese mismo tipo de personas hace unos cuantos años hubiera reaccionado, sin duda, de manera bien diferente en idénticas circunstancias: deseando suerte a los contrayentes, instándoles a que fueran padres cuanto antes, sugiriéndoles paciencia para los momentos de crisis o cualquier otra recomendación de parecido tenor. Ahora, en cambio, lo primero que, de manera completamente espontánea, les venía a la cabeza era una consideración acerca del dudoso futuro del compromiso que sus sobrinos acababan de adquirir.
Se argumentará, con toda razón, que ese cambio en su forma de valorar algo que, tradicionalmente, era recibido con inequívoca alegría (todavía conserva parte de esa connotación festiva la expresión “ir de boda”) no deja de ser el resultado de una persistente experiencia que, de cerca o de lejos, a todo el mundo le resulta familiar. En efecto, no parece razonable en estos tiempos dar por descontado que una ceremonia nupcial constituya el primer acto que anuncia la etapa de larga felicidad a la que hacía referencia el “fueron felices y comieron perdices” de los viejos cuentos infantiles. Del mismo modo que nadie en su sano juicio se atrevería a garantizar que a tan intensa felicidad solo le podrá poner fin la desaparición física de uno de los cónyuges, de acuerdo con la otra fórmula (medio anuncio, medio amenaza) “hasta que la muerte os separe”. Nada más lógico, pues, que el hecho de que la gente se haya visto forzada a adaptarse a la nueva situación y haya terminado, como mis vecinos, abandonando expectativas que ahora tienden a verse como absolutamente ilusorias. Lo que merece la pena plantearse es la razón o las razones por las que la situación en cuanto tal ha variado, haciendo estallar, como un corsé inservible, las formas institucionalizadas de convivencia heredadas.
Sin duda, y por paradójico que en primera instancia pueda parecer, una de las razones de este fracaso debe ser saludada con alborozo. En efecto, las personas decepcionan porque esperamos demasiado de ellas. Pero la ausencia de decepción puede producirse por más de un motivo. Una cosa es que no exijamos al otro más de lo que parece sensato exigir, y otra cosa, bien diferente y que fue —ay— durante siglos el caso, que no lo hagamos porque no nos consideremos con derecho a ello. Todas las mujeres que en el pasado ni tan siquiera se planteaban la posibilidad de tener una sexualidad propia no estaban en condiciones, como sí lo están afortunadamente hoy muchas, de reclamar su plena satisfacción sexual como un elemento básico, irrenunciable, de la felicidad conyugal. Lo propio cabría afirmar respecto de todos esos varones a los que antaño ni se les pasaba por la imaginación la idea de que su pareja fuera la interlocutora con la que compartir en pie de igualdad sus preocupaciones de todo tipo, y que en la actualidad no conciben una relación estable y completa con alguien con quien no puedan mantener este tipo de comunicación.
Ha sido precisamente la conquista de determinados objetivos colectivos o el libre acceso a determinadas dimensiones de la propia realidad personal (el cuerpo, sin ir más lejos) lo que ha hecho que se planteen como básicas para la vida en común exigencias que en otro tiempo hubieran resultado directamente impensables. Los mencionados en el párrafo anterior eran solo dos ejemplos, pero profundamente significativos, de la paradoja que habíamos anunciado: sin la emancipación de las mujeres, ni el listón de lo que ellas esperan ni el de lo que cabe esperar de ellas estaría a la altura a la que hoy se encuentra, convertido para mucha gente en un listón insalvable precisamente a causa de las ambiciosas expectativas de felicidad generadas en ambos sexos. Pero resultaría en el fondo demasiado simple atribuir en exclusiva a estos avances sociales y culturales la causa del fracaso de la idea tradicional de pareja. Todo cuadraría: la bondad de aquéllos legitimaría el ocaso de ésta, sin que tuviera sentido que experimentáramos el menor sentimiento de pérdida por ello ni hubiera necesidad de plantearse forma alguna de autocrítica. Sospechosamente fácil para ser (toda la) verdad. Sin duda, otras transformaciones, tanto en el plano de lo real como en el del imaginario colectivo, han contribuido a dicho fracaso y, en esa misma medida, deberían hacernos reflexionar sobre su signo. Porque parece un hecho, casi tan incontrovertible como los señalados hasta aquí, que de nuestro lenguaje y de nuestro discurso han desaparecido categorías y elementos que hasta hace no tanto formaban parte de lo que se consideraba la esencia misma de la relación amorosa.
Así, valores como la generosidad, la entrega o incluso el sacrificio han quedado asociados, con excesiva ligereza por parte de mucha gente (que parece desconocer la existencia del concepto griego de ágape), a posiciones conservadoras, de inspiración inequívocamente religiosa, empeñadas en convertir el vínculo contingente que establecen dos personas en el ejercicio de su inalienable libertad individual, en una especie de destino fatal y, en todo caso, inmodificable. Se comprende que para quienes llevan a cabo tal asociación, rebelarse contra semejante estado de cosas y afirmar la reversibilidad de cualquier relación no solo constituya algo justo por completo sino, además, incluso abiertamente progresista.
Conviene llamar la atención sobre el doble lenguaje del que a menudo se sirven quienes jalean esta perspectiva. Porque no deja de ser llamativo que los mismos que no tienen el menor empacho en proponer un modelo de vida productivista (además de consumista) en el que los sacrificios son ensalzados cuando tienen como premio la promoción personal en el trabajo, la conquista del poder, la obtención de riquezas y otros bienes parecidos, ironizan acerca de su obsolescencia cuando el individuo pretende ponerlos al servicio de su felicidad personal con otra persona. No deja de ser sintomático que el irónico desdén aparezca en el preciso momento en el que no son ellos —con frecuencia apologetas también de la cultura del esfuerzo— los que pueden obtener beneficio del sacrificio ajeno.
En el fondo, si este mensaje desdeñoso ha calado tanto en nuestra sociedad (o, a la inversa, si determinadas formas de entender el amor han pasado a ser crecientemente disfuncionales) es porque se corresponde con el nuevo orden del mundo. En tiempos de individualismo desatado, la generosidad es una inversión de alto riesgo, cuya rentabilidad nadie está en condiciones de garantizar. Es más, probablemente, aplicando esta lógica, no haya negocio más ruinoso que el del amor, a fondo perdido siempre por definición. Ahora bien, si el amor no se concibe como un negocio, entonces tal vez todo aparezca bajo otra luz. Y se entienda que la generosidad, la entrega o incluso el sacrificio personal en una relación amorosa no cumplen la función de convertirla en útil (y ya no digamos en rentable), sino en hermosa y buena, valores de todo punto diferentes a la utilidad y a la rentabilidad, pero sin duda mucho más importantes. Si sus sobrinos entienden esto, mis vecinos pueden quedar tranquilos.

Manuel Cruz é catedrático de Filosofia Contemporânea na Universidade de Barcelona. ELPAIS, 19/08/14.


sábado, 12 de julho de 2014

Sinal de fogo



               Só perdido de si alguém dá lume
         
              Vitorino Nemésio (verso inserto no poema Pelo sinal de Fogo, de 13/07/1959, presente na antologia Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa, uma selecção de Tolentino de Mendonça e Pedro Mexia)
             

sábado, 23 de março de 2013