Oficialmente escolhido
pelo PS como (re)candidato à Câmara Municipal de Vila Real, Rui Santos deu esta semana, nessa
condição, a sua primeira entrevista, à rádio universidadefm. Como cidadão interessado, eleitor vilarealense,
escutei com atenção. E, sobre o que foi dito, naquela hora e um quarto de
terça-feira (11/12/12), gostaria de fazer um conjunto de anotações:
1-
Um dos problemas que mais interpela,
hoje, a política, no discurso com que tantas vezes se apresenta, prende-se com
a fragmentaridade com que enuncia um leque de questões, que não surgem
articuladas face a uma finalidade expressa e desenvolvida (detalhada), em razão
de um posicionamento acerca da sociedade, para que se perceba se os
meios/instrumentos elencados fazem, ou não, sentido (no âmbito do acervo
doutrinário/programático em que se situa). A ausência de uma verdadeira
narrativa – política/meta-política – e o modo disperso com que se aborda todo e
qualquer problema não permite que a conversa
na polis tenha um fio condutor
perceptível capaz de envolver, plenamente, o cidadão. O discurso sobre a cidade
tem que ser mais do que a soma das pequenas/grandes questões com que, de modo
fragmentário, o político é confrontado. A capacidade de configuração da
política passa muito, também, a meu ver, por este (aturado) trabalho.
2-
Se, sem um outro pano de fundo,
principiamos por nos deter, com pormenor técnico para iniciados, nas questões dos resíduos, das águas, nas teias ínfimas
conexas, então entraremos/estaremos já, de facto, centrados/rendidos/enredados
em específicos «jogos de linguagem», que tendem, em realidade, a ser
«incomensuráveis entre si» (Rorty). A política, tendo de ter um indiscutível
suporte técnico, não pode confundir-se com uma técnica, nem deixar-se submergir
por um canto de sereia que a pretenda
confinar aí.
3-
A afirmação, bastas vezes reiterada,
durante a entrevista - para fazer, agora, aqui, um ponto puramente político - de que se trata de uma “candidatura natural”;
a necessidade, tantas vezes repetida, da afirmação dessa “naturalidade” não
deixa, em verdade, de denunciar, justamente, aquilo que todos os que
acompanham, com (um mínimo de) interesse, a vida política (de Vila Real, em
concreto, também) não puderam deixar de registar: a “naturalidade” da
candidatura foi, com toda a “naturalidade” e legitimidade, aliás, disputada.
4-
Um outro ponto muito relevante, em minha
opinião, prende-se com algo que é dito – e tantas vezes corroborado neste blog
- para o âmbito nacional, mas que importa, igualmente, integrar no plano local:
a existência/ausência de estudo – e estudo sério – por parte dos partidos (e,
porque não, dos putativos think tank)
sobre as mais variadas questões da vida
em comum. Trata-se de perceber o melhor modo de organização colectiva, de alocação
de recursos, de compreender, por exemplo, se o dinheiro público atribuído aos
partidos é a) bem gasto por estes (i.é, ao serviço do bem comum), b) se as verbas atribuídas são suficientes. Porque,
evidentemente, esse estudo – com as vidas profissionais de cada um, e com os
custos que, de per se, tal estudo ou
estudos, envolve – exige pensar nos recursos disponíveis (e exige que não haja
a demagogia que costuma levar a que, depois, sem os papers prévios, as opções tomadas sejam muito menos conscientes e
envolvam prejuízos bem maiores para a comunidade).
5-
Que eu tenha notado, e certamente com
inúmeras razões válidas e diversas para que tal aconteça, o eleitor que vote na
lista encabeçada por Rui Santos – tal como, muito provavelmente, o eleitor que
vote em qualquer outra lista, em muitos dos assuntos de seguida descritos – não
sabe i) se, e quais, as empresas municipais de que o concelho estará dotado no
próximo mandato autárquico: Rui Santos deu, apenas, como certo o fim da Vila Real Social, desejou o fim
da Merval – que, todavia, não
garantiu – e expressou a vontade da manutenção da Culturval – que, contudo,
prognosticou difícil de alcançar; ii) se as (novas) piscinas municipais (a
erguer) significarão, ou não, o fim do campo do Calvário e, concomitantemente, se poderão caber em outro local da cidade (e com o mesmo modo de
financiamento). O mesmo é dizer, igualmente, se o S.C.Vila Real – e os seus
adeptos – poderão esperar um regresso do clube ao centro da cidade, algo que
tantos gostariam de ver suceder (o mesmo é dizer, ainda, que futuro para o
Monte da Forca, o que dele se espera, que Plano Desportivo para o Município?).
Manifestou o candidato à autarquia o desejo – uma vez mais, o desejo –
de que as piscinas não se façam no Calvário,
mas não o garantiu; iii) qual o modelo de agregação de freguesias
pretendido pelo PS, em vez daquele que foi gizado pela actual maioria?
Explicou bem, Rui Santos, o procedimento que deveria ter sido prosseguido e o
tempo que deveria ter levado a concretizar-se; expôs, a meu ver de forma
convincente, claros defeitos do desenho encontrado – maxime, vale da Campeã – mas, confrontado com qual seria o seu
projecto relativamente a uma matéria que sempre gera erosão eleitoral, não
apresentou o esboço; iv) o que
será do Hotel do Parque? Naturalmente
que os problemas jurídicos envolvidos – “o hotel do Parque é um mamarracho inacreditável;
o meu desejo era implodir aquilo, mas não há condições financeiras”, afirmou o
candidato - dificultam uma palavra definitiva sobre o tema, mas é um outro
assunto em que a incógnita, na altura do voto, será total; v) do ponto
de vista das questões sociais, propõe-se uma carta social que indique quais as necessidades de cada freguesia
quanto a centros de dia, lares, apoios domiciliários. Ou seja, após o acto eleitoral é que se
vai identificar as necessidades existentes neste domínio; vi) o candidato
do PS, por sua iniciativa, disse que gostava de voltar a ter as corridas e que
“se calhar” vai ser possível: “ainda podemos recuperar as corridas mesmo a um
nível mais baixo, para depois se poder ter um nível mais elevado”, afirmou Rui
Santos. Mais uma vez a expressão de uma vontade…
Repita-se,
de novo: muitas, diversas e justificadas serão, por certo, as razões que levam
a que para todo este conjunto, vasto, de matérias não haja uma resposta clara e
inequívoca quanto ao que será, efectivamente, o seu futuro, caso a lista em
causa saia vencedora. Dir-se-ia adicionalmente: de que adiantam promessas –
vide, corridas de Vila Real – que depois
dão lugar a um vazio embaraçoso? Certo. Em todo o caso, não podemos deixar de
nos interrogar se, pelo menos em alguns dos casos – da carta social para o concelho até à questão das piscinas municipais – não seria possível uma resposta preparada
atempadamente. Mais: na candidatura autárquica apresentada pelo partido socialista, em Vila Real, há 8
anos, garantiu-se uma solução para o Hotel
do Parque – as circunstâncias eram outras, os protagonistas também, com
certeza que sim, mas não se evitou uma resposta esclarecedora sobre o tema.
Do
ponto de vista comunicacional, de resto, creio que a candidatura então
prosseguida mereceria atenção, na medida, precisamente, em que, evitando uma
dispersão temática, assentou em um conjunto de três ou quatro eixos muito
claros e que correspondiam, sem dúvida, a anseios das populações, nomeadamente
a revitalização – com garantia da existência de novos investidores – do parque
industrial local, o reactivar das corridas automobilísticas, uma solução
garantida para o hotel do parque.
Não
se ter ouvido, quando a taxa de desemprego no concelho é bem superior à média
nacional, qualquer tipo de iniciativa a respeito do tema trabalho não deixou, a meu ver, de ser pecha importante na
entrevista – muito embora, e como é evidente, uma entrevista esteja muito longe
de poder esgotar a apresentação de um programa.
6-
Nota claramente positiva, de entre o que
foi proposto, para o fim da Vila Real
Social. Se durante os últimos anos, a denúncia da existência de rendas
incompreensíveis e incomportáveis para o todo nacional foi uma realidade com
que fomos convivendo quotidianamente, é preciso sublinhar devidamente quanto
estas rendas – inadmissíveis e indecorosas – foram existindo a nível local,
também. Se, como o candidato socialista
destacou, o Tribunal de Contas
indicou a necessidade do fim de tal empresa, há já 4 anos, torna-se
inexplicável a sua manutenção até hoje.
7-
Associar o ícone do Palácio de Mateus a
Vila Real para projectar a cidade, outra ideia lançada, que se espera desenvolvida
e detalhada para se perceber melhor os ganhos para a capital transmontana.
8-
“É para mim inacreditável termos 13500
cidadãos do concelho, no séc.XXI, sem saneamento básico”, foi outra das
afirmações produzidas e com as quais só se pode estar de acordo.
9-
Já a referência à hipótese de as funções
hoje acometidas à Culturval passarem
para a Câmara Municipal, implicarem uma situação difícil, porque, então, seria
necessário, p.ex., “fazer um concurso público para saber se seria um concerto
do Rui Veloso ou do Luis Represas” (sic), me deixou perplexo. Confesso que não
só não consegui acompanhar o raciocínio, como, além disso, transpareceu uma
ausência de perspectiva política sobre a cultura preocupante. A cultura não é
uma área afastada do escrutínio público e político. Não é algo para deixar a
técnicos. Releva, o tipo de programação cultural, de uma ideia de cidade. Esta
subtracção não pode passar em claro. O “concurso” devia, antes, debruçar-se
sobre se se pretende – para ficarmos na área musical, escolhida pelo candidato –
uma continuidade de uma procura de chegar a um gosto médio, ou se, por exemplo, faria sentido uma outra aposta na
música erudita, face ao entendimento que cada candidato tenha acerca do que é
uma cidade educativa.
10-
No domínio formativo, se das festas da
cidade não deverão ficar afastadas as marchas
da cidade que, nos anos mais recentes, tinham sido um acquis de autêntica religação do – de todo o – concelho, sendo
justa a crítica enunciada “à preguiça”(sic) que levou à não concretização das
mesmas no presente ano, por outro lado, uma perspectiva crítica sobre tais festas – e sobre o significativo gasto
com estas e com a eficácia, nomeadamente do ponto de vista do reforço das capacidades dos seus cidadãos, deste – não
devia, de modo algum, limitar-se ao apontar da ausência de tais marchas, em Junho. Foi muito redutor o
que se ouviu a esse respeito, nesta entrevista.
11-
Positiva a pretensão e o compromisso de
escuta das populações, a ida às freguesias, antes da elaboração do – de cada -
Orçamento Municipal, tal como a garantia de abertura – como a lei estipula – da
documentação municipal a quem tenha a legitimidade para a requer (algo que,
parecendo do domínio do óbvio, foi denunciado como problemático até ao
momento).