O risco, seja para a Igreja seja para a ONU, é cair no nominalismo: contentar-se em dizer que se deve fazer determinadas coisas e, em seguida, ficar de consciência tranquila e não fazer nada, ou apenas coisas pouco significativas.
No entanto, há que distinguir entre a ONU e a Igreja. A ONU deveria ter mais autoridade global e física. A Igreja é exclusivamente uma autoridade moral. A autoridade moral da Igreja depende do testemunho dos seus membros, os cristãos. Se os cristãos não testemunharem, se os sacerdotes passarem a ser especuladores e arrivistas e se os bispos forem assim...Ou se os cristãos não se cansarem de explorar o próximo, se pagarem «por fora» e não fizerem caso da justiça social, não serão fiéis. O testemunho é um acto necessário em ambas as instituições, mas sobretudo na Igreja. (...) Neste mundo de violência, por exemplo, há muitos homens, sacerdotes, freiras e religiosas que se dedicam aos hospitais, às escolas...Há muita gente boa e isso é uma afronta para a sociedade, uma «bofetada de luva branca». Pois é uma forma de testemunho: «Eu consumo a minha vida». Quando vamos a um cemitério em África e vemos aqueles mortos, missionários, sobretudo franceses, que morreram novos, aos 40 anos, porque contraíram malária...É comovente essa riqueza da misericórdia. (...) Já lhe disse que vi na República Centro-Africana? Uma irmã, de 83-84 anos, com uma menina de 5 anos. Cumprimentei-as: «De onde és?» «Sou de além, e vim esta manhã de canoa». Aos 83-84 anos! «Venho todas as semanas para fazer as compras. Estou aqui desde os meus 23 anos [vinha de Brescia, Itália], sou enfermeira e já fiz vir ao mundo 2300 crianças. Esta pobre menina perdeu a mãe no parto e não tinha pai, então, adoptei-a legalmente. Chama-me mãe.»
É profundamente enternecedor. A devoção. E toda uma vida! As obras dos misericordiosos. Para mim, fazer uma visita aos doentes, ir às prisões, fazer o prisioneiro sentir que pode ter esperança na reinserção: é essa a prédica da Igreja. A Igreja prega mais com as mãos do que com as palavras.
Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.60 e p.66.