
Porquê o entusiasmo com o conhecimento, com o aprender, com esse processo (aparentemente doloroso) de chegar a adquirir conhecimentos?
a) para Platão: porque regressamos - temos o sentimento de regressar - a casa. Adquirimos o conhecimento (verdade) no "céu do mundo inteligível"; esquecemos como o nascimento; aprender é, pois, recordar, anamnese, voltar a saber o que sabíamos; plenitude (em casa).
b) para Kant: quem tudo conhece é Deus, um sábio ideal; no processo de aquisição de conhecimentos, sentimo-nos, pois, a participar dessa experiência de tipo divino, junção da matéria e do espírito, do sensível e do inteligível; entendimento divino. Onde estão as verdades? No "entendimento divino". "Quando faço uma descoberta, quando aprendo algo importante, quando opero um progresso real nos meus conhecimentos, mesmo se for ateu, não posso deixar de ser tomado pelo sentimento de que me aproximo do divino, de que participo de alguma maneira do saber ideal, que seria o de um Deus ou de um sábio perfeito". "O processo de aquisição dos conhecimentos é, no sentido etimológico da palavra, «entusiasmante»: ele faz-nos entrar na esfera do divino (en theos)".
(pp.190-194)
[Então, se é assim, se há entusiasmo em adquirir conhecimentos, porque é que temos a sensação de que hoje novas gerações não estão entusiasmadas em os prosseguir, em chegar até eles, em participar nesse processo, com a sua penosidade, com as horas de estudo, mas a promessa da alegria da descoberta? Segundo Luc Ferry, um conjunto de imposturas pedagógicas, nomeadamente a ideia do conhecimento auto-construído pelas crianças como se fossem uma tábula rasa a criarem (-se) ex nihilo, a deslocação da noção da educação como continuidade na transmissão de uma herança de conhecimentos e competências (p.200), a perda da gramática, da civilidade, das boas maneiras (como se fossem uma imposição de classe), a inovação capitalista associada a uma "desconstrução muito problemática dos valores e das autoridades tradicionais" (p.225) são causas apontadas para muitos dos casos em que se não nota esse querer conhecer, sendo que o ex-ministro da educação francês não defende um regresso ao passado, mas deixa claro que medidas sublinhava da sua passagem como membro do Executivo: luta contra a incivilidade, reforço da autoridade dos professores, etc]
a partir de Luc Ferry, 7 lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017