Na esteira de José Pedro Castanheira, Medeiros Ferreira, em Memórias anotadas, aceita caracterizar a sua relação com João Bosco Mota Amaral como "amizade competitiva". Caracteriza o ex-Presidente do Governo Regional dos Açores como "o melhor aluno do liceu". De si mesmo, refere-se a alguém (que tendo sido mimado é) auto-confiante, com um pai a tender para o autoritário, ligado a forças de segurança, esperando para os filhos uma carreira militar - "ao menos podias ir para Direito", dirá ao filho, face à decisão deste de ir para Letras. E que tendo uma liderança natural - aos 34 anos, ministro dos Negócios Estrangeiros, o mais jovem dos estados-membros da ONU, era popular, mas almejava o reconhecimento enquanto estudante, o que não era, claramente, um adquirido, mas, em boa medida, compensado, tal desejo, pelas excelentes notas nos Exames nacionais (com a excepção do latim). Desde cedo, escreveu nos jornais e fez crónica cinematográfica.
"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
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quinta-feira, 20 de abril de 2017
Vidas (II)
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terça-feira, 21 de abril de 2015
Recebido (e entregue, espero)

É mesmo a tua cara, diz-me ela, sobre o tema da tese. Sim, penso que sim, o cruzamento entre o político e o religioso, com as suas minudências teológicas, as suas construções filosóficas é, realmente, o terreno que, provavelmente, resultando de uma traditio dada gratuitamente - há sempre uma biografia...e um conjunto de biografias que nos precedem e/ou são coetâneas companhias de eleição...e que contribuem para sermos o que somos -, mais foi irrigada pelo interesse e curiosidade intelectuais, pela procura do conhecimento (em si mesmo), pelo prazer e pelo trabalho, pelo lúdico e pelo científico. Tinha coisas escritas há uns sete ou oito anos e que juntei agora ao trabalho - o que me deu esse traço de continuidade no interesse por estas questões. Há prazos, claro, e viagens por continuar. Sempre. Mais uma etapa.
segunda-feira, 9 de março de 2015
As memórias de Jorge Miranda (II)

Filho de médico, irmão de médico, com um bisavô que fora deputado às cortes, no tempo da Monarquia, e um tio-avô presidente da União Nacional de Braga, Jorge Miranda retrata-se como um bom, mas não muito bom, aluno durante a licenciatura, sendo que a excelência, e o "estudar a sério Direito" lhe acontece pelo ano complementar à licenciatura (6º ano, que faz com outros dois colegas, um deles Diogo Freitas do Amaral), tendo, em esse âmbito, tido um dos momentos mais duros da existência com a redacção da tese em 47 dias, em Moledo, no Minho. Ao tempo do 25 de Abril de 1974, a sua companheira trabalhava em um ministério. Ainda assim, não só acalmou temores de tempos revolucionários, como se declara "felicíssimo" com o "dia inicial, inteiro e limpo" (que cita de Sophia). Pensando vir a advogar, descobriria a vocação do ensino que o mantém feliz, sempre. Marcello Caetano, escreve Jorge Miranda, "foi e será sempre para mim o modelo de professor que eu gostaria de ser" (p.44, nota de rodapé 50). Tal não envolve, como se percebe pelo que diz, claramente o constitucionalista, nenhuma espécie de vinculação política com uma primavera que nunca chegou a emergir. Mas isso não impediu que, mesmo no exílio, Caetano não mantivesse, sempre, uma boa relação com o orientando de doutoramento.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Básico
Onde exegetas ortodoxos
e menos ortodoxos não discrepam:
Para começar, com a
possível excepção de Lucas, nenhum dos evangelhos que temos foi escrito pela
pessoa que lhe deu o nome. Na realidade, isto é verdadeiro para a maioria dos
livros do Novo Testamento. Tais
obras, chamadas pseudoepígrafas ou
obras atribuídas a um autor específico mas não escritas por ele, eram
extremamente vulgares no mundo antigo e não se devem considerar, de modo
nenhum, falsificações. Dar a um livro o nome duma pessoa era um modo normal de
reflectir as crenças dessa pessoa ou de representar a sua escola de pensamento.
Reza
Aslan, O zelota,
Quetzal, Lisboa, 2014, p.24.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Galileu Galilei

Galileu GALILEI
(1564-1642)
VIDA E OBRA
No
ano de 1633, 90 anos após a morte de Copérnico, a Inquisição levou o matemático
e astrónomo Galileu Galilei a Roma para ser julgado sob a acusação de heresia.
A acusação teve origem na publicação do Diálogo sobre os Dois Máximos
Sistemas do Mundo: Ptolomaico e Copernicano (Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo: Tolemaico e Copernicano).
Neste livro, Galileu desafiou abertamente o edicto de 1616 contra a
propagação da doutrina de Copérnico ao afirmar categoricamente que o sistema
heliocêntrico deixava de ser apenas uma hipótese e se confirmava. O
resultado do julgamento nunca foi objecto de dúvida. Galileu admitiu que havia
ido longe demais na sua argumentação a favor do sistema de Copérnico, não
obstante as reiteradas advertências da Igreja Católica. A maioria dos cardeais que constituíam o tribunal concluiu que o réu
«era veementemente suspeito de heresia» por apoiar e ensinar a ideia de que a
Terra se move e que não é o centro do Universo. O tribunal condenou Galileu a
prisão perpétua.
Galileu foi também
forçado a assinar uma confissão redigida pelo seu próprio punho e a renunciar
às suas ideias em público.
Ajoelhou-se e, com a Bíblia em suas mãos, declarou a sua abjuração em latim:
Eu, Galileu Galilei,
filho do falecido Vicenzo Galilei de Florença, com 70 anos de idade, julgado
pessoalmente por esta corte, e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e
Reverendíssimos Cardeais, Inquisidores-Gerais de toda a República Cristã contra
a devassidão da heresia, tendo sob os meus olhos os Santíssimos Evangelhos, e
colocando sobre estes as minhas próprias mãos, juro que sempre cri, que creio
agora e que, com a ajuda de Deus, crerei sempre no futuro em tudo que a Igreja
Católica e Apostólica afirma, prega e ensina.
Mas visto que, após
receber a admonição da Igreja Católica, abandono inteiramente a opinião falsa
segundo a qual o Sol é o centro do Universo e está imóvel, e a Terra não é o
centro do Universo e que se move, a dita falsa doutrina, na qual não devo crer,
defender ou ensinar sob qualquer forma, seja verbalmente ou por escrito, e após
ser notificado que tal doutrina é contrária aos escritos sagrados, tendo
escrito e publicado um livro que trata da doutrina condenada no qual argumento
com bastante eficácia a seu favor sem chegar a qualquer solução: fui julgado
por suspeita veemente de heresia, isto é, de ter afirmado e acreditado que o
Sol é o centro do Universo e está imóvel, e que a Terra não é o centro do mesmo
e que, por sua vez, se move.
Portanto, com o desejo
de remover dos pensamentos de Vossas Eminências e de todos os fiéis esta
veemente suspeita concebida justamente contra mim, abjuro, de todo coração e,
com verdadeira fé, detesto e amaldiçoo os supraditos erros e heresias, e todo e
qualquer erro em geral que seja contrário à Igreja Católica. E juro que, no
futuro, não direi nem afirmarei verbalmente ou por escrito coisas que venham a
colocar-me sob este género de suspeitas e, ao conhecer algum herético ou algum
suspeito de heresia, denunciá-lo-ei a este Santo Oficio, ou ao Inquisidor, ou ao
Ordinário do lugar onde me possa encontrar.
Juro ainda e prometo
cumprir e observar na sua completude todas as penitências que tenham sido ou
venham a ser impostas a mim por este Santo Oficio. E se vier a transgredir
quaisquer uma de tais promessas, protestos ou juramentos (que Deus me
proteja!), eu me submeterei a todas as dores e penas que forem impostas e
promulgadas aos transgressores pelos Cânones Sagrados e por outros decretos em
geral. Que Deus e os Sagrados Evangelhos que tenho em mãos me protejam.
Eu, Galileu Galilei,
abjurei, jurei, prometi, e me obriguei como mencionado acima, e em fé do
verdadeiro, de meu próprio punho subscrevi a presente cédula da minha abjuração
e a recitei palavra por palavra, em Roma, no Convento della Minerva, neste
vigésimo segundo dia de Junho de mil seiscentos e trinta e três. Eu, Galileu
Galilei, tendo abjurado como descrito acima, por minha própria mão.
Diz a lenda que, ao
levantar-se, Galileu resmungou «Eppur si muove” — «E no entanto, move-se». Esta
frase cativou cientistas e estudiosos durante séculos, uma vez que significou
simultaneamente um confronto com o obscurantismo e uma nobreza de intenções sob
as circunstâncias mais adversas. Apesar da
descoberta de um retrato a óleo de Galileu do ano de 1640 com a inscrição
«Eppur si muove», a maioria dos historiadores considera essa história um mito.
Ainda assim, não destoaria da personalidade de Galileu ter atendido apenas
formalmente aos requerimentos da Igreja com a sua abjuração, para então voltar
aos seus trabalhos científicos, independentemente de estes se enquadrarem ou
não dentro dos princípios de Copérnico. Foi, afinal, a publicação de Os Dois Máximos Sistemas do Mundo que o
levou à corte da Inquisição, obra que contesta directamente o edicto de 1616
que o proibia de ensinar a teoria de Copérnico, segundo a qual a Terra se
movimenta ao redor do Sol, que não fosse estritamente como mera hipótese.
«Eppur si muove» pode não ter sido a conclusão do seu julgamento e da sua
abjuração, mas certamente simbolizou a sua vida e as suas realizações.
Galileu
nasceu em Pisa, no dia 18 de Fevereiro de 1564, filho de Vincenzo Galilei,
músico e matemático. A família mudou-se para Florença
quando Galileu ainda era jovem, e foi num mosteiro florentino que ele
começou seus estudos. Galileu desde cedo demonstrou facilidade na
matemática e interesse na mecânica, mas o seu pai, inabalável, encaminhou-o
para campos mais úteis, de modo que Galileu entrou para a Universidade de Pisa
em 1581 para estudar Medicina e Filosofia Aristotélica. Foi em Pisa que a
rebeldia natural de Galileu transpareceu. Ele tinha pouco ou nenhum interesse
em Medicina e passou a estudar Matemática apaixonadamente. Diz-se que foi ao
observar as oscilações pendulares de um candeeiro pendurado na Catedral de Pisa
que descobriu o isocronismo do pêndulo (segundo o qual, o período do pequeno
movimento pendular não depende de sua amplitude), que seria aplicado meio
século mais tarde na construção do relógio astronómico.
Galileu
persuadiu o seu pai a deixá-lo abandonar a universidade sem o diploma, tendo
retornado a Florença para estudar e ensinar Matemática. No ano de 1586, Galileu
já questionava a ciência e a filosofia aristotélicas, preferindo reexaminar o
trabalho do grande matemático Arquimedes, também conhecido por descobrir e
aperfeiçoar métodos de integração para o cálculo de áreas e volumes. Arquimedes
tinha ainda a reputação de ter desenvolvido várias máquinas usadas
provavelmente no campo de batalha, como catapultas gigantes que lançavam
projécteis para impedir o avanço do exército inimigo e grandes guindastes para
derrubar barcos. Galileu inspirou-se principalmente no génio matemático de
Arquimedes, mas também se entusiasmou pelo espírito das suas invenções,
concebendo uma balança hidrostática para medir a densidade de um objecto quando
pesado dentro de água.
Em
1589, Galileu tornou-se professor de Matemática na Universidade de Pisa; uma
das exigências era ministrar o curso de Astronomia Ptolomaica, segundo a qual o
Sol e (409) os planetas descrevem órbitas ao redor da Terra. Foi em Pisa aos 25
anos de idade que Galileu desenvolveu um conhecimento mais profundo da
astronomia e começou a apartar-se de Aristóteles e Ptolomeu. Notas de aulas
recuperadas desse período mostram que Galileu adoptara a posição de Arquimedes
acerca do movimento, ou seja, Galileu ensinava que a densidade de um objecto em
queda livre, e não o seu peso, como afirmara Aristóteles, era proporcional à
velocidade da queda. Há relatos segundo os quais Galileu demonstrou a sua
teoria, deixando cair vários objectos da mesma densidade mas com pesos
diferentes do alto da torre inclinada de Pisa. Foi em Pisa que Galileu escreveu
Do Movimento (De Motu), um livro que
contrariava as teorias aristotélicas do movimento e que o estabeleceu como
líder da reforma científica.
Após
a morte de seu pai em 1592, Galileu não viu quaisquer vantagens em prolongar a
sua estada em Pisa. O salário era baixíssimo, e, com a ajuda de um amigo da
família, Guidobaldo del Monte, foi nomeado catedrático de Matemática na
Universidade de Pádua, na república de Veneza. Ali a sua reputação cresceu.
Galileu viveu em Pádua durante 18 anos, ministrando cursos de Geometria e
Astronomia, além de aulas particulares de Cosmografia, Óptica, Aritmética e o
uso do sector circular na engenharia militar. Em 1593, escreveu tratados sobre
fortificações e mecânica para os seus alunos particulares e inventou uma bomba
para elevar água com a força de um único cavalo.
Em
1597, Galileu inventou um compasso geométrico e militar que se tornou útil para
os engenheiros mecânicos e militares. Galileu também começou a corresponder-se
com Johannes Kepler, depois de ler o seu livro Mistérios do Cosmos (Mysterium Cosmographicum). Galileu
simpatizou com a visão copernicana de Kepler, nutrindo este a esperança de que Galileu
apoiasse abertamente a teoria heliocêntrica. Mas, como os seus interesses
científicos estavam ainda centrados na mecânica, Galileu não acedeu aos desejos
de Kepler. Naquele período interessou-se por uma veneziana chamada Marina
Gamba, de quem teve um filho e duas filhas. A filha mais
velha, Virgínia, nascida em 1600, foi sempre muito próxima de Galileu. O
relacionamento com o seu pai foi mantido em grande parte por correspondência,
já que Virgínia passou a maior parte da sua curta vida adulta num convento,
onde tomou o nome de Virgínia Celeste, honrando o interesse do seu pai pelas
esferas celestes.
Durante
os primeiros anos do século XVII, Galileu realizou experiências com pêndulos e
explorou a sua associação com o fenómeno da aceleração natural. Também começou
a elaborar um modelo para descrever o movimento de corpos em queda livre. Estes
estudos envolviam a medida do período de tempo necessário para que algumas
bolas percorressem diversas distâncias ao longo dum plano inclinado. Uma
supernova observada numa noite de 1604 em Pádua reacendeu questões sobre o
modelo aristotélico dos céus imutáveis. Galileu precipitou-se para o centro do
debate através de palestras ousadas, embora hesitasse em publicar as suas
teorias. Em Outubro de 1608, um holandês, Hans Lipperhey, pediu uma patente de
uma luneta capaz de fazer com que objectos distantes parecessem estar próximos.
Ao ser informado da invenção, Galileu (410) dedicou-se ao seu aperfeiçoamento.
Em pouco tempo projectou um telescópio (com aumento de nove vezes) três vezes
mais poderoso do que o aparelho de Lipperhey e, no prazo de um ano, um
telescópio com um aumento de 30 vezes. Quando Galileu dirigiu o seu telescópio
para os céus, em Janeiro de 1610, o cosmos abriu-se literalmente à Humanidade.
A Lua deixou de ser um disco perfeito, ganhando montanhas e crateras. Usando o seu telescópio, Galileu
determinou que a Via Láctea era, na verdade, uma vasta aglomeração de estrelas
individuais. O facto de maior importância, porém, foi a descoberta por Galileu
de quatro luas em redor de Júpiter, um facto de tremendas consequências para os
numerosos simpatizantes do geocentrismo, que acreditavam que todos os corpos
celestes se moviam exclusivamente ao redor da Terra. Nesse mesmo ano
Galileu publicou O Mensageiro Estelar (Sidereus Nuncius), no qual anunciava as
suas descobertas e que o colocou na liderança da astronomia da sua época.
Galileu sentiu-se impossibilitado de continuar a ensinar teorias aristotélicas,
e a sua fama permitiu-lhe retornar a Florença como matemático e filósofo ao
serviço do grão-duque da Toscana.
Livre
das suas obrigações do ensino, Galileu pôde dedicar-se à telescopia.
Prontamente observou as fases de Vénus, fases estas que confirmaram a teoria de
Copérnico, segundo a qual também esse planeta percorria uma órbita ao redor do
Sol. Ele notou, além disso, o formato oblongo de Saturno, que o levou a
concluir que o planeta era circundado por numerosas luas, já que o seu
telescópio não lhe permitia identificar os anéis de Saturno.
A Igreja Católica
afirmou e elogiou as descobertas de Galileu, mas discordou das suas
interpretações. Em 1613, Galileu publicou Cartas sobre
Manchas Solares, onde colocava pela primeira vez em palavras impressas a sua
defesa do sistema copernicano de um universo heliocêntrico. O seu trabalho foi imediatamente alvo de
ataques, com denúncias ao seu autor, o que chegou rapidamente aos ouvidos da
Inquisição. A publicação em 1616 da sua teoria sobre as marés, teoria que
segundo Galileu provava que a Terra se movia, levou-o a Roma, respondendo a uma
chamada para esclarecer as suas posições. Um conselho de teólogos emitiu um
edicto declarando que Galileu praticava má ciência ao ensinar o sistema de
Copérnico como real. Galileu, entretanto, não chegou a ser condenado
oficialmente. Um encontro com o papa Paulo V levou-o a acreditar que o
pontífice lhe tinha especial afecto e que ele poderia continuar a ensinar sob a
sua protecção. Galileu, em todo o caso, foi severamente advertido a respeito
das teorias copernicanas, que eram consideradas contrárias às Sagradas
Escrituras e que deveriam ser apresentadas apenas como hipóteses.
Quando Paulo V morreu,
em 1623, o seu sucessor, o cardeal Barberini, eleito com o nome de papa Urbano
VIII, era um dos amigos e defensores de Galileu, o que o levou a supor que o
edicto de 1616 fosse revogado. Urbano disse a Galileu que havia pessoalmente
eliminado a palavra «heresia» do edicto e que, enquanto Galileu tratasse o
sistema de Copérnico como uma hipótese e não como um facto, ele teria liberdade
para publicar. Galileu contou com esta garantia para trabalhar no Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do
Mundo durante os seis anos seguintes, livro esse que acabaria por levá-lo à
prisão.
O
Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo foi redigido como uma polémica
entre um defensor de Aristóteles e Ptolomeu e um defensor de Copérnico, estando
ambos os interlocutores interessados em convencer um leitor leigo, mas culto,
das respectivas posições filosóficas. Galileu escreveu um prefácio ao livro
onde defendia o edicto de 1616 contra a sua pessoa e, ao apresentar as teorias
nas vozes dos seus personagens, conseguiu furtar-se a uma declaração inequívoca
acerca da sua posição. Os leitores porém perceberam
claramente que Galileu, em Dois Máximos
Sistemas, ridiculariza a teoria aristotélica. Na polémica, o sistema
aristotélico é proposto com pouca convicção por um defensor ingénuo e duramente
atacado por um copernicano convicto e eloquente. O livro teve um grande êxito,
apesar dos protestos generalizados na época da sua publicação. A escolha de
Galileu em escrever o seu texto no vernáculo italiano, em vez do latim, idioma
reservado aos membros da Igreja e aos estudiosos, fez com que o seu livro
atingisse o público mais amplo dos italianos alfabetizados. Os rivais de
Galileu, apoiantes das ideias de Ptolomeu, ficaram furiosos com o menosprezo
com que o autor tratava a sua própria visão científica. Simplício, o nome dado
ao defensor das ideias de Ptolomeu no livro, assemelhava-se muito, na opinião
dos leitores, a uma caricatura de Simplicius, conhecido comentador de
Aristóteles do século sexto. Já o papa Urbano VIII, por sua vez, interpretou a
figura de Simplício como uma caricatura de si próprio. Sentiu-se ridicularizado
por Galileu, que, aparentemente, ao pedir licença ao papa para escrever o
livro, deixou de o informar sobre qualquer obrigação que o edicto de 1616 lhe
impunha. Galileu, por sua vez, jamais recebeu uma admoestação por escrito e
parecia ignorar qualquer transgressão que pudesse cometer.
Em
Março de 1632 a Igreja ordenou que o editor do livro interrompesse a sua
publicação e que Galileu se apresentasse em Roma. Galileu recusou-se a ir,
alegando estar seriamente doente, mas o papa insistiu, comunicando que o traria
mesmo acorrentado. Onze meses depois Galileu compareceu em Roma para ser
julgado. Galileu foi forçado a abjurar as teorias de Copérnico e condenado a
prisão perpétua. A
sua pena, porém, foi prontamente comutada em prisão domiciliária, bem mais
leve, na cidade de Siena, sob a guarda do arcebispo Ascanio Piccolomini, um dos
seus ex-alunos. Piccolomini
não só permitiu, mas encorajou Galileu a voltar aos seus escritos. Foi
neste período que Galileu começou a sua última obra, Diálogos sobre Duas Novas Ciências, onde examina os seus resultados
na física. Entretanto, no ano seguinte, ao saber do tratamento preferencial que
vinha recebendo, Roma decidiu obrigá-lo a mudar de residência, desta vez para
as montanhas vizinhas de Florença. Alguns
historiadores crêem que foi durante esta transferência, e não durante o seu
julgamento, que ele terá proferido as famosas palavras «eppur si muove».
A
mudança reaproximou Galileu da sua filha Virgínia que, contudo, contraiu uma doença e faleceu
daí a pouco tempo, no ano de 1634. Galileu ficou destroçado, (412) mas
conseguiu retomar os seus trabalhos em Duas
Novas Ciências, terminando o livro em menos de um ano. A Congregação do
Index, o órgão de censura da Igreja, impediu, entretanto, a sua publicação.
O manuscrito foi contrabandeado de Itália para Leiden, cidade no Norte
protestante da Europa, por Luís Elsevier, o editor holandês, antes de ser
publicado em 1638. Diálogos sobre Duas Novas Ciências,
obra onde explicou as leis que governam os corpos em queda livre, é vista
consensualmente como a pedra angular da física moderna. Neste livro,
Galileu reviu e aperfeiçoou as suas análises do movimento e dos princípios da
mecânica. As duas novas ciências que dão o título ao livro são a resistência
de materiais, um ramo da engenharia, e o estudo do movimento ou a cinemática,
um ramo da matemática. A primeira metade do livro centra-se nas
experiências que Galileu realizou com o plano inclinado e relativas ao
movimento acelerado. Na segunda parte do livro, Galileu dedicou-se ao problema
mais complicado do cálculo da trajectória de um projéctil disparado de um
canhão. De início acreditava-se que o projéctil seguia uma trajectória
rectilínea, até que perdia o «ímpeto» e caía verticalmente ao chão. Mais tarde,
observadores atentos notaram que, na verdade, o projéctil caía segundo uma
curva descendente, mas a motivação para tal e a descrição exacta da curva fugia
a qualquer tentativa de compreensão. Galileu foi o primeiro a determinar as
causas e a descrever o fenómeno. Concluiu que a trajectória do projéctil
combinava dois movimentos, um vertical, causado pela gravidade, que puxa o
projéctil para baixo, e o outro horizontal, governado pelo princípio da inércia.
Galileu
demonstrou que a combinação dessas duas forças independentes determinava a
trajectória do projéctil, que era uma curva descrita matematicamente. A sua
demonstração consistiu em fazer com que uma bola embebida em tinta percorresse
um plano inclinado, continuando a sua trajectória pela superfície de uma mesa
de cuja beira ela caía livremente no chão. A queda da bola pintada deixava
marcado no chão no ponto de impacto, sempre a uma certa distância da beira da
mesa. Galileu conseguiu provar que a bola continuava a mover-se horizontalmente
a uma velocidade constante enquanto a força da gravidade a puxava para baixo.
Ele observou que a distância aumentava em proporção ao quadrado do tempo
transcorrido. A curva adquiriu uma forma matematicamente precisa, denominada
parábola pelos Gregos.
Duas
Novas Ciências
deu uma contribuição tão significativa à física que vários estudiosos há muito
afirmam que esse livro antecipou as leis de Newton do movimento.
Na época da sua publicação, porém, Galileu já tinha perdido a visão. Os
seus últimos anos decorreram em Arcetri, onde veio a falecer no dia 8 de
Janeiro de 1642. As contribuições de
Galileu para a Humanidade foram continuadamente reconhecidas. Albert Einstein
prestou-lhe o seu tributo quando escreveu: «As proposições deduzidas através da
lógica pura são completamente nulas em relação à realidade. E Galileu, por ter
percebido esta verdade, e por tê-la instigado no mundo da ciência, tornou-se o
pai da física moderna, na verdade, o pai da ciência moderna.»
Em 1979, o papa João
Paulo II declarou que a Igreja poderia ter cometido um engano ao condenar
Galileu, convocando uma comissão para reabrir o caso de Galileu. A comissão
concluiu os seus trabalhos ao fim de quatro anos, chegando à conclusão de que
Galileu não deveria ter sido condenado e publicando todos os documentos
relevantes sobre o julgamento. Em 1992 o papa assinou o resultado do inquérito.
Stephen
HAWKING, Galileu GALILEI (1564-1642),
Vida e
Obra, in Stephen HAWKING, Aos Ombros de Gigantes. As grandes
Obras da Física e Astronomia, coligido e comentado por Stephen HAWKING,
coordenação científica e prefácio de Carlos FIOLHAIS, Texto Editora, Alfragide
2010, 407-414.
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