Mas não foi apenas Newton. Cada nova descoberta parecia dar razão ao argumento do desígnio. De facto, para o século XVIII, essa tese era menos uma teoria que um dado adquirido. A sua afirmação central era apenas esta: a prova da existência de Deus não é mais nem menos que toda a criação. É que esta está tão impregnada de ordem e dos desígnios divinos que não poderia ter sido originada por acidente. Não há necessidade de apontar para algo tão grandioso ou distante como os céus; a estrutura das nossas mãos ou olhos também serve. Desígnios tão complexos requerem um autor. (...) A ciência não era vista como uma rival, mas como uma escrava da fé, já que cada nova descoberta o era da relação constante entre os fenómenos. Qualquer avanço na ciência era a indicação de mais ordem no universo. (...) No livro A Religião nos Limites da Simples Razão (...) Kant escreveu que o rei David jamais poderia ter adorado o Criador como nós, pois sabia muito pouco das maravilhas da criação. Assim, os seus salmos deviam ser ouvidos como um som vazio, pois a emoção que sentimos ao contemplar o trabalho da mão de Deus, agora manifestado na ciência moderna, é demasiado grande para se poder expressar. Estes pontos estiveram tão presentes na literatura como na Filosofia, tanto em francês como em alemão. (...) Newton encarava o seu trabalho como um testemunho da glória de Deus, e nenhum dos seus admiradores do século XVIII discordaria.
Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.44 e segs.
P.S.: Pope, ao escrever que "o estudo apropriado da humanidade é o homem", como que o precursor da passagem, quanto ao problema do mal, da metafísica e da teologia para o mundo da ética e da psicologia.