
Estavam guardados, os episódios da (nova) série Civilizações, da BBC, para ver agora, durante o Verão. E, o primeiro episódio, começa com um momento marcante, narrado por Simon Schama que o dirige: com a entrada do ISIS em Palmira (Síria), local de junção, síntese, alguma diluição também das culturas grega, romana, judaica, persa e árabe, depois da destruição de esculturas, estátuas e outras obras de arte, fosse em ataques à bomba ou com recurso a um furioso martelar, que haviam levado séculos a erguer, em cidades vizinhas como Mossul (Iraque), dá-se a captura do Curador-Chefe, Khaled al-Asaad, 81 anos. Quando os soldados do ISIS lhe perguntam onde se encontram os tesouros escondidos da cidade, este recusa-se a revelar semelhante informação. Então, aquele, foi decapitado num teatro romano, sendo o seu corpo mutilado colocado em suspenso, a cabeça entre os seus pés, num semáforo, com uma placa identificando-o como diretor da idolatria. Ou, diz Schama, como protector daquilo que precisa de ser salvo, acalentado, anunciado como obra da civilização. "Muitos de nós, passam os dias a falar sobre arte. Duvido que a maioria esteja preparada para morrer por isso, mas para Khaled al-Asaad as pedras e colunas de Palmira era mais do que um simples amontoado de antiguidades. Ele não precisava de um certificado da UNESCO para convencer-se da importância de Palmira como um lugar único e universal. Ela existe para os crentes e os infiéis, para o Ocidente e para o Oriente, e de algum modo coube a ele ser o guardião daquela herança". Ao que acrescentou, numa síntese que fez recordar o início de Civilização, de Kenneth Clark: "Podemos passar muito tempo debatendo o que a civilização é ou não é, mas quando o seu oposto aparece em toda a sua brutalidade, crueldade, intolerância e apetite por destruição, sabemos o que a civilização é".
Isto é, "sentimos a partir do choque da sua perda iminente como uma mutilação no corpo da nossa humanidade".
Hoje, encontram-se em Genebra muitas das obras de arte preservadas de Palmira, algumas das quais retiradas antes da invasão do ISIS, por banda de particulares que com elas pretenderam ganhar dinheiro, vendendo-as.
P.S.: diz Schama: a arte aspira ser vista pelos outros e a perdurar no tempo, há algo para lá do útil e do abrigo. Há mais de 100 mil anos, onde hoje temos Espanha, cores humedecidas na língua e vaporizadas para as paredes das grutas (pelos próprios humanos). As primeiras descobertas destas grutas ocorrem no final do séc.XIX, em Altamira, no Norte de Espanha (desenhos, com noções de modelagem, muitos, de bisontes, retratavam a realidade, como hoje a fotografia). A pintura e a música surgiram ao mesmo tempo. Flautas feitas de partes do corpo de abutres. Pintura e música que combinavam em rituais sagrados. Estes lugares, grutas, podem ser comparados a templos, aos quais as pessoas iam em momentos sagrados. Um local subterrâneo, onde se pode parar ou pausar o tempo, estar num tempo fora do tempo. A pintura é o som, é o que resta daquela actividade (ritual/sagrada). Os especialistas dizem-nos que não deve ser vista como arte, pois tinham sempre uma função ritualista extra-corpórea. Um antropólogo dos nossos dias, calculou, com boas ferramentas, o tempo que levou a fazer um homem-leão e chegou à conclusão de que com certeza foi um verdadeiro artista que fez essas figuras primevas - que terão depois dado origem aos mitos pagãos- e que a comunidade o sustentava (dada a sua função primordial). A pintura de Picasso é bem expressiva quanto à admiração que o autor nutria pelas pinturas rupestres. La Dame de Brassampouy, encontrada numa caverna, no Sul da França, em 1892, e que tem entre 25 a 22 mil anos, é, para Schama, contra os eruditos, a prova de que as peças desse período podem/devem ser consideradas arte. Nesta peça temos o despontar da ideia de Beleza.
O mais antigo cultivo de trigo teve lugar nas margens do rio Jordão há cerca de 10 mil anos. As civilizações começam pequenas, necessitam de invenções práticas como vasos de cerâmica para consumo e armazenamento. Escavações em 1920-30 no Iraque, mostraram como a irrigação permitiu ali a emergência das primeiras cidades. Há 5 mil anos, cidades como UR ou URUK tinham milhares de habitantes. Nessa altura, produziam arte que expressava a auto-imagem dos poderosos. Com retratos sociais completos (eles que surgem com a escrita). Migrantes da Ásia fundaram a cultura dos Minoanos. Ainda hoje em Creta podemos ver esses vestígios de cidades. Salto ao touro era o desporto dominante entre os Minoanos. O cabelo era ritualmente arranjado antes da guerra. É a primeira cena de batalha na história do mundo, representada na arte. É um filme de acção diretamente vindo de 1450 a.C. Os Messênios apareceram há 3 mil anos; na China, surgiu uma outra cultura, Sanxingdui. As suas ruínas foram retiradas em 1986. Damos, então, com uma multidão de máscaras, e máscaras gigantes. Mas também máscaras minúsculas, de fácil manuseio. Olhos imensos, sempre. Forma de diamante. Nenhuma outra descoberta da China antiga se parece com estas máscaras, estes olhos enormes, estas cabeças. O bronze é o mesmo, mas não assim as cabeças e olhos. Nada que nos pudesse falar desse povo sobreviveu (nomeadamente, escrituras). Esta civilização, emergiu, floresceu e desapareceu da Terra. "Uma civilização é sempre uma questão de equilíbrio". Pode haver inimigos no portão, pode haver inimigos dentro, pode o lugar e o clima precisam de ser conquistados. Em Petra, Jordão, surgiu uma das mais espectaculares civilizações sobre a Terra. Aqui construíram os Nabateus. E os edifícios sobreviveram a exércitos e terramotos. Edificado por nómadas, no séc.IV a.C. Pastores de cabra, montavam camelos, viviam em tendas. Petra foi construída com o comércio do incenso. Nessa altura, incensos e mirra eram essenciais para os rituais diários. Começaram como navegantes e pilotos. Depois passaram a fornecedores. E, por fim, pensaram: porque não "sermos" comerciantes directamente? Monopolizaram os incensos aromáticos. Mas uma civilização seria ainda mais incompreensível sem a existência, ali, da água. Os Nabateus construíram sistemas para armazenar as chuvas de Inverno. Uma espécie de pequeno paraíso, com jardins, pomares, lugares aprazíveis para romanos, judeus, persas, árabes, um parque cosmopolita. Vilas requintadas entalhadas na rocha. Sobreviveu, na arte, a representação de uma deusa nebata. Petra desaparece porque outras rotas comerciais a tornaram irrelevante.
Já os Maias, no México (Calakmul), viviam na floresta tropical. Próspero ambiente e ambição comedida, eis o pano de fundo para boa relação governantes-governados. Teatro com para os poderes político e religioso erguido, sem animais de carga. Violência pavorosa com sacrifício de prisioneiros era o que, de baixo, viam as pessoas, obrigadas a olhar para o cima do teatro. O deus da chuva era Chaac. O poder dos reis maias avinha da promessa de estes convencerem Chaac a trazer as chuvas absolutamente necessárias à vida, durante o ano. A arte e arquitectura maia era uma prece pelo clima. Em 526, os Maias estavam no seu auge. Muitos pensam que a mais refinada arte Maia pode ser encontrada em Copan, nas Honduras.
Todas as civilizações querem o que não podem ter: a conquista do tempo. Constroem mais alto e melhor para fugirem à mortalidade. Nunca funcionou. Há sempre um fim. Pode parecer, então, que foi tudo por nada. Mas isso é errado. Todas estas ruínas, todos os escombros são monumentos à criatividade humana, ambições humanas, esperanças humanas.
Nota: não deixa de ser muito eloquente que do singular "Civilização", com Kenneth Clark, centrado, em absoluto, na Europa, tenhamos, hoje, "Civilizações", com um olhar muito mais descentrado e visando alcançar todo o globo. Facto: na última década/década e meia, a China emergiu como grande potência. Descobrimos que se tratava de uma re-emergência, porque com excepção de uma breve pausa de poucos séculos, a China tinha estado sempre lá. E compreendemos, então, como não éramos o centro, ou, quando muito, seríamos um de vários centros. Facto: a crise iniciada em 2007-2008 gerou grandes brechas, preconceitos entre os europeus, o Brexit afastou, mais ainda, as placas tectónicas no Velho Continente, Obama já colocara o olhar predominante no Pacífico, o Inverno Demográfico impôs-se entre nós, deixámos de acreditar quase no que quer que fosse, o declínio europeu é anunciado a cada hora. Com mais, ou menos, exageros. Foi importante, tem sido importantes, a publicação de livros de história que contam com os outros, para lá do Ocidente, na humana história, nesta última década.
Claro está: "Civilização" contava, com exaustividade, a história de uma civilização (europeia-ocidental). "Civilizações" dá-nos conta de um mundo muito mais abrangente. Num episódio podem caber 5 civilizações, sensivelmente coetâneas. Ou seja, a exaustividade, a profundidade do estudo sobre cada uma das civilizações não deixa de poder ser sacrificada em favor da diversidade de olhar para variadas civilizações (em simultâneo).

