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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O QUE É A CIVILIZAÇÃO

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Estavam guardados, os episódios da (nova) série Civilizações, da BBC, para ver agora, durante o Verão. E, o primeiro episódio, começa com um momento marcante, narrado por Simon Schama que o dirige: com a entrada do ISIS em Palmira (Síria), local de junção, síntese, alguma diluição também das culturas grega, romana, judaica, persa e árabe, depois da destruição de esculturas, estátuas e outras obras de arte, fosse em ataques à bomba ou com recurso a um furioso martelar, que haviam levado séculos a erguer, em cidades vizinhas como Mossul (Iraque), dá-se a captura do Curador-Chefe, Khaled al-Asaad, 81 anos. Quando os soldados do ISIS lhe perguntam onde se encontram os tesouros escondidos da cidade, este recusa-se a revelar semelhante informação. Então, aquele, foi decapitado num teatro romano, sendo o seu corpo mutilado colocado em suspenso, a cabeça entre os seus pés, num semáforo, com uma placa identificando-o como diretor da idolatria. Ou, diz Schama, como protector daquilo que precisa de ser salvo, acalentado, anunciado como obra da civilização. "Muitos de nós, passam os dias a falar sobre arte. Duvido que a maioria esteja preparada para morrer por isso, mas para Khaled al-Asaad as pedras e colunas de Palmira era mais do que um simples amontoado de antiguidades. Ele não precisava de um certificado da UNESCO para convencer-se da importância de Palmira como um lugar único e universal. Ela existe para os crentes e os infiéis, para o Ocidente e para o Oriente, e de algum modo coube a ele ser o guardião daquela herança". Ao que acrescentou, numa síntese que fez recordar o início de Civilização, de Kenneth Clark: "Podemos passar muito tempo debatendo o que a civilização é ou não é, mas quando o seu oposto aparece em toda a sua brutalidade, crueldade, intolerância e apetite por destruição, sabemos o que a civilização é".
Isto é, "sentimos a partir do choque da sua perda iminente como uma mutilação no corpo da nossa humanidade". 
Hoje, encontram-se em Genebra muitas das obras de arte preservadas de Palmira, algumas das quais retiradas antes da invasão do ISIS, por banda de particulares que com elas pretenderam ganhar dinheiro, vendendo-as. 


P.S.: diz Schama: a arte aspira  ser vista pelos outros e a perdurar no tempo, há algo para lá do útil e do abrigo. Há mais de 100 mil anos, onde hoje temos Espanha, cores humedecidas na língua e vaporizadas para as paredes das grutas (pelos próprios humanos). As primeiras descobertas destas grutas ocorrem no final do séc.XIX, em Altamira, no Norte de Espanha (desenhos, com noções de modelagem, muitos, de bisontes, retratavam a realidade, como hoje a fotografia). A pintura e a música surgiram ao mesmo tempo. Flautas feitas de partes do corpo de abutres. Pintura e música que combinavam em rituais sagrados. Estes lugares, grutas, podem ser comparados a templos, aos quais as pessoas iam em momentos sagrados. Um local subterrâneo, onde se pode parar ou pausar o tempo, estar num tempo fora do tempo. A pintura é o som, é o que resta daquela actividade (ritual/sagrada). Os especialistas dizem-nos que não deve ser vista como arte, pois tinham sempre uma função ritualista extra-corpórea. Um antropólogo dos nossos dias, calculou, com boas ferramentas, o tempo que levou a fazer um homem-leão e chegou à conclusão de que com certeza foi um verdadeiro artista que fez essas figuras primevas - que terão depois dado origem aos mitos pagãos- e que a comunidade o sustentava (dada a sua função primordial). A pintura de Picasso é bem expressiva quanto à admiração que o autor nutria pelas pinturas rupestres. La Dame de Brassampouy, encontrada numa caverna, no Sul da França, em 1892, e que tem entre 25 a 22 mil anos, é, para Schama, contra os eruditos, a prova de que as peças desse período podem/devem ser consideradas arte. Nesta peça temos o despontar da ideia de Beleza.
O mais antigo cultivo de trigo teve lugar nas margens do rio Jordão há cerca de 10 mil anos. As civilizações começam pequenas, necessitam de invenções práticas como vasos de cerâmica para consumo e armazenamento. Escavações em 1920-30 no Iraque, mostraram como a irrigação permitiu ali a emergência das primeiras cidades. Há 5 mil anos, cidades como UR ou URUK tinham milhares de habitantes. Nessa altura, produziam arte que expressava a auto-imagem dos poderosos. Com retratos sociais completos (eles que surgem com a escrita). Migrantes da Ásia fundaram a cultura dos Minoanos. Ainda hoje em Creta podemos ver esses vestígios de cidades. Salto ao touro era o desporto dominante entre os Minoanos. O cabelo era ritualmente arranjado antes da guerra. É a primeira cena de batalha na história do mundo, representada na arte. É um filme de acção diretamente vindo de 1450 a.C. Os Messênios apareceram há 3 mil anos; na China, surgiu uma outra cultura, Sanxingdui. As suas ruínas foram retiradas em 1986. Damos, então, com uma multidão de máscaras, e máscaras gigantes. Mas também máscaras minúsculas, de fácil manuseio. Olhos imensos, sempre. Forma de diamante. Nenhuma outra descoberta da China antiga se parece com estas máscaras, estes olhos enormes, estas cabeças. O bronze é o mesmo, mas não assim as cabeças e olhos. Nada que nos pudesse falar desse povo sobreviveu (nomeadamente, escrituras). Esta civilização, emergiu, floresceu e desapareceu da Terra. "Uma civilização é sempre uma questão de equilíbrio". Pode haver inimigos no portão, pode haver inimigos dentro, pode o lugar e o clima precisam de ser conquistados. Em Petra, Jordão, surgiu uma das mais espectaculares civilizações sobre a Terra. Aqui construíram os Nabateus. E os edifícios sobreviveram a exércitos e terramotos. Edificado por nómadas, no séc.IV a.C. Pastores de cabra, montavam camelos, viviam em tendas. Petra foi construída com o comércio do incenso. Nessa altura, incensos e mirra eram essenciais para os rituais diários. Começaram como navegantes e pilotos. Depois passaram a fornecedores. E, por fim, pensaram: porque não "sermos" comerciantes directamente? Monopolizaram os incensos aromáticos. Mas uma civilização seria ainda mais incompreensível sem a existência, ali, da água. Os Nabateus construíram sistemas para armazenar as chuvas de Inverno. Uma espécie de pequeno paraíso, com jardins, pomares, lugares aprazíveis para romanos, judeus, persas, árabes, um parque cosmopolita. Vilas requintadas entalhadas na rocha. Sobreviveu, na arte, a representação de uma deusa nebata. Petra desaparece porque outras rotas comerciais a tornaram irrelevante.
Já os Maias, no México (Calakmul), viviam na floresta tropical. Próspero ambiente e ambição comedida, eis o pano de fundo para boa relação governantes-governados. Teatro com para os poderes político e religioso erguido, sem animais de carga. Violência pavorosa com sacrifício de prisioneiros era o que, de baixo, viam as pessoas, obrigadas a olhar para o cima do teatro. O deus da chuva era Chaac. O poder dos reis maias avinha da promessa de estes convencerem Chaac a trazer as chuvas absolutamente necessárias à vida, durante o ano. A arte e arquitectura maia era uma prece pelo clima. Em 526, os Maias estavam no seu auge. Muitos pensam que a mais refinada arte Maia pode ser encontrada em  Copan, nas Honduras.
Todas as civilizações querem o que não podem ter: a conquista do tempo. Constroem mais alto e melhor para fugirem à mortalidade. Nunca funcionou. Há sempre um fim. Pode parecer, então, que foi tudo por nada. Mas isso é errado. Todas estas ruínas, todos os escombros são monumentos à criatividade humana, ambições humanas, esperanças humanas.


Nota: não deixa de ser muito eloquente que do singular "Civilização", com Kenneth Clark, centrado, em absoluto, na Europa, tenhamos, hoje, "Civilizações", com um olhar muito mais descentrado e visando alcançar todo o globo. Facto: na última década/década e meia, a China emergiu como grande potência. Descobrimos que se tratava de uma re-emergência, porque com excepção de uma breve pausa de poucos séculos, a China tinha estado sempre lá. E compreendemos, então, como não éramos o centro, ou, quando muito, seríamos um de vários centros. Facto: a crise iniciada em 2007-2008 gerou grandes brechas, preconceitos entre os europeus, o Brexit afastou, mais ainda, as placas tectónicas no Velho Continente, Obama já colocara o olhar predominante no Pacífico, o Inverno Demográfico impôs-se entre nós, deixámos de acreditar quase no que quer que fosse, o declínio europeu é anunciado a cada hora. Com mais, ou menos, exageros. Foi importante, tem sido importantes, a publicação de livros de história que contam com os outros, para lá do Ocidente, na humana história, nesta última década.
Claro está: "Civilização" contava, com exaustividade, a história de uma civilização (europeia-ocidental). "Civilizações" dá-nos conta de um mundo muito mais abrangente. Num episódio podem caber 5 civilizações, sensivelmente coetâneas. Ou seja, a exaustividade, a profundidade do estudo sobre cada uma das civilizações não deixa de poder ser sacrificada em favor da diversidade de olhar para variadas civilizações (em simultâneo).

domingo, 16 de setembro de 2018

Sociedades tradicionais e o mundo contemporâneo


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P: Os nossos antepassados, que dependiam daquilo que a Natureza lhes dava para sobreviverem, eram mais felizes do que nós? 

R: Com a minha experiência com povos tradicionais, principalmente na Nova Guiné, diria que em alguns aspectos eles são mais felizes do que nós, noutros menos. Eles morrem mais cedo, aos 40 ou 50 anos, e metade das crianças só vive até aos 5 anos. Têm mais dificuldades com fome, perigo, guerra e doenças. Por outro lado, têm relações sociais muito mais ricas. Talvez não seja assim em Portugal, mas os norte-americanos têm relações sociais pouco ricas. Em média, mudamos de casa a cada cinco anos e as amizades são menos profundas. Interagimos uns com os outros por telefone, email ou mensagens. Na Nova Guiné tradicional, todas as interacções são cara a cara. Pode olhar a outra pessoa nos olhos, ver a sua linguagem corporal, cheirá-la, ouvi-la...Por isso é que acho que, em média, as populações tradicionais têm vidas mais ricas do que norte-americanos e europeus.


P: O ser humano viveu durante milhares e milhares de anos em comunidades mais pequenas. Sentimo-nos mais confortáveis nesse ambiente?

R: Significativamente. Só nos últimos dez mil anos é que os humanos têm vivido em sociedades mais complexas. Nesse sentido, os povos tradicionais vivem de forma mais natural. Natural não significa melhor. Eu vivo em Los Angeles por escolha. Não quero mudar-me para a Nova Guiné. Prefiro visitar.


P: O que o surpreendeu mais no tempo em que esteve na Papua Nova Guiné? 

R: Tantas coisas! Fiquei chocado favoravelmente com algumas e negativamente com outras. Fiquei surpreendido com o tempo que passam a conversar. Muito mais tempo do que nós. Durante quase todo o tempo em que estão acordados, estão a falar uns com os outros. Mesmo quando estão na cama, às duas da manhã, alguém pode acordar e começar a gritar para alguém no outro lado da aldeia. Conversam 45 minutos e depois voltam a dormir. Do lado negativo, há muita crueldade e as mulheres são tratadas como bestas de carga. São espancadas pelos homens e lutam com eles, às vezes com armas. Na minha primeira visita à Nova Guiné, ouvi gritos e perguntei o que se passava. Disseram para não me preocupar, que era uma luta entre marido e mulher. E eu disse: "Coitada da mulher! Estão a lutar com o quê?". E eles responderam: "Com machados, claro." "OMG! Temos de ir ajudá-la", disse eu. Explicaram-me que a mulher era tão forte como o homem e conseguia defender-se. "Talvez mate o homem". Fico feliz por viver num país onde a minha mulher não vem atrás de mim com um machado.


P: Que lições deveríamos aprender com essas sociedades tradicionais?

R: Imensas lições. Influenciaram a minha vida. Quando os meus filhos nasceram - tenho dois gémeos -, a forma como os criei dependeu mais daquilo que vi os papuanos fazerem do que os americanos. Lá, as crianças têm imensa liberdade. Nós acharíamos que é demasiado, mas um bebé papuano pode ser deixado ao lado de uma fogueira, com hipóteses de rolar para o fogo. Se ele se aproximar, aprende que não pode voltar a fazê-lo. Não permiti aos meus filhos que pudessem cair em fogueiras, mas dei-lhes liberdade para fazerem as suas escolhas, desde que isso não os matasse. Aos três anos, um deles viu uma cobra e ficou fascinado. Pediu-me uma como animal de estimação. Eu e a minha mulher não adoramos cobras, mas sou biólogo...Não lhe demos uma víbora nem uma cascavel mas oferecemos-lhe uma pequena cobra do milho. Ele acabou por ter cada vez mais cobras, sapos, tartarugas e répteis até a nossa casa ter 146. 


P: O conceito de trabalho nessas sociedades tradicionais é muito diferente?

R: É drasticamente diferente. Eu e você distinguimos trabalho e lazer. Quando estou à secretária a escrever, isso é trabalho. Quando saio de casa de manhã para observar os pássaros, como fiz hoje, isso é lazer. Na Nova Guiné não fariam essa distinção. Tudo serve alguma função. Quando se sentam para conversar é lazer, mas também são relações sociais. Olhando para a Nova Guiné, percebe-se que o conceito de trabalho evoluiu à medida que a sociedade se complexificou. Ali, todos têm de ser capazes de cultivar a sua própria comida, ninguém tem um trabalho.

(...) 

P: Podemos ser os próximos Maias ou o próximo Império Khmer?

R: É possível. Mas a civilização Khmer colapsou sozinha. O mesmo com os Maias. O resto do mundo não colapsou. Hoje, nenhuma sociedade cai sozinha. Isso está a ver-se na Europa. Problemas nas sociedades africanas e no Médio Oriente levam as pessoas a fugir. Quando há problemas na Somália ou na Síria, isso é um problema para Portugal, Espanha e outros países europeus.


P: Partilhamos alguns dos problemas que estiveram na base do colapso dessas civilizações? 

R: Claro que sim. Essas civilizações colapsaram por motivos ambientais, gestão de recursos como água e floresta. Hoje, as sociedades do primeiro mundo têm esses problemas. No passado, havia dificuldades em manter a paz e, no mundo moderno, também as temos. 


P: Quais são as probabilidades de conseguirmos resolver esses problemas nos próximos 30 anos? 

R: Há 51% de hipóteses dos meus filhos serem felizes durante as suas vidas. Há 49% de hipóteses de eles e toda a gente acabaram a viver num mundo terrível.



P: O nosso futuro é mais frágil do que achamos. As grandes civilizações partilham uma certa arrogância?

R: Há arrogância, mas também ignorância. Muitas pessoas não sabem por que razão as sociedades colapsaram. Os líderes políticos, alguns do meu país, são propositadamente ignorantes. Não querem aprender. Desvalorizam a Ciência. A ignorância faz parte, o egoísmo também.

(...)

Eu diria que, daqui a 20 anos, cada vez mais gente vai dizer que não só foi horrível impedir as mulheres de votar e fazer experiências científicas em chimpanzés, como também, foi horrível criar porcos e vacas para os matar.


Jared Diamond, biólogo e escritor, entrevistado por Nuno Aguiar, para a Visão nº1332, de 13 a 19/09/2018, Há 49% de hipóteses de os meus filhos acabarem a viver num mundo terrível, pp.59-60.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Contra o populismo

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Na política alemã, existe actualmente consenso quanto à necessidade de imigrantes. Os óbitos excedem os nascimentos em quase duzentos mil por ano na Alemanha e esse número está a aumentar. Sem imigração, a população estaria a diminuir. O grupo de reflexão Instituto de Berlim para a População e o Desenvolvimento estima que, para manter valores constantes da população em idade produtiva (as pessoas que financiam as pensões para a crescente quantidade de reformados), a Alemanha precisaria de uma imigração bruta de cerca de meio milhão de pessoas por ano até 2050
Contudo, muitos refugiados não são a mão-de-obra qualificada necessária ao país, nem estão preparados para ingressar nos famosos programas de estágio. Mais de 15% são analfabetos. Muitos dos outros não são qualificados segundo os padrões alemães.

Robert Kunzig, Os novos europeus, in National Geographic, nº187, Outubro 2016, p.25