Mostrar mensagens com a etiqueta coletes amarelos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta coletes amarelos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Gilets Jaunes


Descobriu-se, nas prisões que foram feitas depois das manifestações, que, embora houvesse militantes de extrema-esquerda e de extrema-direita, mais os segundos de resto, que uma grande parte das pessoas presas, por exemplo nos actos de pilhagem, eram gente comum que nunca tinha participado em manifestações ou em partidos políticos. Deve manter-se a distinção entre o movimento e os casseurs, mas não é só isso. Os gilets jaunes perceberam muito bem que o seu eco nos media e a atenção constante da sociedade se devia apenas ao facto de manterem um elevado nível de violência. Compreenderam que havia uma correlação muito forte entre o ritual dos sábados e a atenção dos media. Perceberam que ocupam as cadeias de televisão em contínuo justamente porque praticam a violência. (...) Em democracia, a forma de resolver os conflitos é a negociação. Mas como negociar com gente que recusa qualquer representação? Eles eliminaram imediatamente aqueles que, numa ou noutra altura, quiseram arvorar-se em porta-vozes. Em segundo lugar, como iniciar uma negociação com um movimento cujas reivindicações são um catálogo absolutamente diverso em que cabe praticamente tudo, incluindo coisas que são absolutamente contraditórias entre si? Foi talvez para contornar este problema que Macron lançou o seu grande debate. Neste momento, o único sítio onde pode haver algum debate são as mairies (as câmaras municipais), com presidentes que são democraticamente eleitos e que são, aliás, o pessoal político que, em França, recolhe maior confiança por parte dos cidadãos. Foi uma escolha inteligente de Macron, mas é uma descoberta tardia do Presidente, que tinha ignorado os municípios - é este, de resto, o outro aspecto importante do debate actual. (...) Há muitas causas para os gilets jaune, mas uma delas é o desaparecimento dos corpos intermédios - sindicatos, patrões, associações profissionais, mas também câmaras, que são os mediadores entre os cidadãos comuns e o sistema político. Macron desdenhou-os ao ponto de se recusar a participar no Congresso dos Maires da França e reduziu os seus meios financeiros. Escolher agora as câmaras é uma coisa boa. Não haver temas tabu também é. Aliás, Macron participou agora [na semana passada] no primeiro debate numa câmara da Normandia, que durou sete horas. Esteve sete horas de pé numa sala apinhada de gente comum, mas também pelos chamados "notáveis locais". Diz-se que se saiu muito bem. Mas a maior dificuldade vai ser ultrapassar o cepticismo reinante perante a política e perante as elites políticas. (...) Temos a questão da fiscalidade e um conjunto de problemas sociais ligados ao que podemos chamar de classes médias baixas, que sofrem um pouco por toda a parte no contexto da mundialização. E que não são diferentes das pessoas que votaram pelo "Brexit" ou que alimentaram o Tea Party na América. É o mesmo perfil de pessoas, acompanhado pela mesma rejeição do peso dos impostos e da sensação de que o dinheiro resultante do crescimento vai não sabem bem para onde, mas nunca para elas. (...)
Em Paris, a moda entre os BoBo [designação dada a uma parte das elites citadinas: "Bon chique, bon genre"] é não ter carro. Eles podem dispensá-lo porque dispõem de uma rede de transportes eficaz. Para as pessoas das cidades, a questão política mais importante deste século são as alterações climáticas e o ambiente. Do outro lado, há este movimento que não tem o mínimo interesse pelas alterações climáticas e que apenas diz: eu preciso do meu carro para ir trabalhar, levar os filhos à escola e ir fazer as compras do mês à periferia. (...) Há dois mundos. A França urbana das grandes cidades que é bastante próspera, e a França periférica. Mas o que deixou as pessoas ainda mais espantadas não foi tanto o carácter súbito do fenómeno, mas esse ódio, essa cólera que se exprimiu espontaneamente e sem disfarces. Esta raiva às elites é nova e atinge as elites, mas também as instituições, que exige a dissolução do Parlamento e que se exprime contra um Presidente que foi eleito há menos de dois anos. Mas é preciso pôr as coisas na sua dimensão. Hoje, é um movimento que reúne 50 mil a 60 mil pessoas num país de 66 milhões. O que eles conseguiram, através da violência, foi ocupar o espaço público e isso é novo. (...) Outra coisa muito importante. Normalmente, quando há uma crise como esta numa democracia, as pessoas viram-se para a oposição. (...) Hoje ninguém pode dissolver a Assembleia, a não ser alguém que queira dar o poder a Marine Le Pen. Basta olhar para as sondagens para ver que nenhum outro partido conseguiu beneficiar com os gilets jaunes. Nenhum. Os republicanos, que estavam em 10%, continuam aí. Os socialistas mantém-se à volta de 6%. Além disso, ninguém os ouve. Desapareceram. Nesse contexto, se a opção fosse eleições legislativas, não haveria qualquer alternativa. (...) Ela [Le Pen] pode ganhar as eleições mas não tem meios para governar. As sondagens não chegam a dar-lhe 25%. (...) Acreditou-se que [Marine Le Pen], com o seu duelo perdido com Macron, estava acabada. Está de regresso. Por enquanto, parece ser a grande beneficiária da crise


Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de Sousa, Público, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", pp.4-9


P.S.: apenas uma precisão: de acordo com dados publicados em diferentes jornais, os "coletes amarelos" reunirá cerca de 80/90 pessoas (o que, de qualquer forma, não implica nenhuma alteração do argumento aqui citado, apenas se procura o maior rigor possível).

domingo, 13 de janeiro de 2019

'O reparo do dia'


O leit-motiv da crónica desta semana foi esta notícia e imagem que chegaram de Vila Pouca.

Coletes amarelos portugueses

1.Uma das reivindicações do Movimento dos coletes amarelos portugueses, no documento que apresentaram em Dezembro último, era a da imediata redução, para metade, do número de deputados na Assembleia da República, passando-se, pois, dos actuais 230 para 115.
2.Acontece, contudo, que a Constituição da República Portuguesa fixou um intervalo para o número de deputados ao Parlamento português, cujo limite mínimo é de 180 deputados. A medida proposta, pois, pelos Coletes amarelos seria, desde logo, inconstitucional. Para além de que não se vislumbra em que medida a democracia portuguesa melhoraria com tal reivindicação.
3.Uma outra proposta deste movimento reclamava a passagem imediata do salário mínimo nacional para os 700 euros, afirmando que a subida significativa deste valor deveria ser compensada com o corte nas reformas acima dos 2000 euros. Ora, a subida do salário mínimo nacional, em boa parte, é um desafio às empresas e estas não podem valer-se do que seria o aludido corte nas pensões de reformas acima dos 2000 euros, mesmo que se entendesse, o que está por demonstrar, que este era justo, adequado, proporcional.
4.Estas duas propostas, a meu ver, são bastante significativas relativamente à ausência de preparação, razoabilidade, rigor nas pretensões dos coletes amarelos portugueses. Um capital de queixa e a indignação podem ser combustível e condições necessárias para o protesto; mas não são suficientes. Para que este obtenha vencimento é necessário trabalhar, prévia e arduamente, com afinco, as medidas que se pretendem ver concretizadas. Fazer política (a sério) dá muito trabalho.
5.Face a reivindicações como as que se acabam de descrever, e com vários outros comentários, no referido manifesto, menos abonatórios para com aquela que os autores definem como “classe política” foi não sem espanto que li, nos nossos jornais locais e regionais, que os Presidentes da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar e da Assembleia Municipal do mesmo município se equiparam com coletes amarelos para uma Assembleia Municipal realizada em Dezembro, naquele concelho.
6.Por muito que as críticas, ainda que pouco originais, ao centralismo de que o país, efectivamente, padece tenham razão de ser (e foi esse o motivo invocado pelos autarcas mencionados para o uso dos coletes amarelos), a colagem, objectiva, por via dos trajes usados, a um movimento com propostas inconstitucionais, demagógicas e sem qualquer preparação são de um sentido de responsabilidade, e de um respeito institucional, altamente questionáveis (em quem exerce funções políticas desta natureza).
7.O populismo consiste, basicamente, num discurso que divide a sociedade entre um povo puro e imaculado e uma elite corrupta e conspurcada. Que esse discurso seja produzido por quem, em situação de desespero, quer manifestar-se contra o que designa por «sistema», pode compreender-se (mesmo que não justificar-se, sobretudo se acompanhado de propostas políticas pouco razoáveis); que ele seja acompanhado por quem é dirigente e, pelo menos nessa acepção, elite – embora desejável fosse que as elites pudessem ser descritas mais do que em sentido formal, isto é, como aqueles que ocupam cargos/funções de topo, num sentido material, ou seja, como aquele conjunto de pessoas que pelo seu trabalho, pela sua dedicação à comunidade, pelo seu desempenho profissional, pelas suas atitudes e comportamentos fossem consideradas acima da média, ou exemplares – é que é bem menos aceitável (seja no panorama da política internacional, seja no âmbito da política local).
8.Um dos tópicos da agenda populista, explícito ou latente, é a contestação da democracia representativa, com demandas de uma democracia direta (talvez digitalmente exercida). Acontece que uma vez alcançado o poder pelos populistas é o próprio pluralismo político que pode ficar em causa, face a quem diz representar o povo, ficcionando-o enquanto estrutura homogénea com uma vontade única.
9.Não ignoro, todavia, os que entendem, no campo académico e da disputa ideológica, que o populismo deve entender-se como consubstancial à democracia, como factor corrector ou emenda desta, em situações, ou contextos históricos nos quais o pêndulo democrático se encontra encostado a elites autistas que não escutam o povo.
E, sem embargo, ao nível da política internacional o que vemos, não raramente, é o aproveitamento eleitoral, por banda de políticos ou empresários de topo, de um povo zangado e despolitizado, conquistado para as urnas com falsas soluções de muros, protecionismos comerciais ou generalização de porte de arma, para dar três exemplos, que não resolvem problema nenhum – antes agravam os problemas existentes.
10.Em épocas, como a que vivemos, em que a polarização emocional dos discursos, a personalização da política, despida de causas, a luta de egos sem qualquer outro horizonte, a busca do poder nu – isto é, o poder sem outra finalidade que não ele mesmo –, politicamente incorrecto seria produzir um argumentário, assentar na racionalidade, visar um ideário, lutar por alguma coisa que não uma carreira política, estudar e ser rigoroso em propostas para uma comunidade, em vez da pura desqualificação dos demais intervenientes, evitar reduzir tudo a um exibicionismo pessoal em redes sociais de aspectos banalíssimos do quotidiano. Isso é que seria prestar um bom serviço ao povo; isso é que seria um politicamente incorrecto corajoso por estes dias. O politicamente incorrecto utilizado por tantos como bandeira, em realidade mais não é do que a adaptação darwiniana a uma sociedade do entretenimento, causa, e não consequência, note-se, de um ocaso civilizacional (como sabemos desde o “pão e circo” dos romanos).

Boa semana.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Borga


Um automobilista vê um cidadão de colete amarelo e pensa: será um manifestante? Não, é um azarado a mudar um pneu. (...) O problema é que esse mal-estar [em relação a várias situações da vida política] produz um tipo de reivindicação vaga, que gera palavras de ordem pouco sedutoras, tais como "Somos a favor de coisas boas e contra coisas más!" (...) O senhor em causa [espécie de representante dos 'coletes amarelos' a falar aos jornalistas] também não é um tribuno especialmente notável, o que prejudica a eficácia da transmissão da mensagem. No início da entrevista disse: "Isto começou numa brincadeira de seis amigos. Ninguém se conhecia". Ou seja, eram amigos, mas de outras pessoas. Entre eles, não se conheciam. O que talvez explique o fiasco da organização. Talvez devessem ter estreitado laços primeiro (...).

Ricardo Araújo Pereira, Por um 2019 pouco amarelo, Visão, 27-12-2018

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Uma interpretação dos "coletes amarelos"


Resultado de imagem para coletes amarelos frança

Durante vários anos, esperou-se que a crise que entre 2010 e 2015 assolou Portugal, Espanha e sobretudo a Grécia ficasse acantonada ao Sul da Europa. Esta esperança desvaneceu-se agora - e por completo. As revoltas dos "coletes amarelos" provam-no. Trata-se de uma mescla de homens e mulheres empregados do sector privado, desempregados, funcionários públicos, agricultores, reformados. Todos indicam que a classe média em França, até há poucos anos usufruindo de uma situação económica privilegiada quando comparada com a sua congénere da Europa do Sul subiu para latitudes antes inesperadas. Com desfasamento temporal, ela atinge agora em cheio a sociedade francesa.
Na última década, a globalização levou à deslocalização massiva de milhares de empregos fabris para outros países - o Norte de França é disto o melhor exemplo. O filme-documentário Merci Patron! (2016) do jovem jornalista e hoje deputado François Ruffin, retrata com ironia esta desventura. (...) Os impostos tornaram-se progressivamente mais favoráveis ao capital e desfavoráveis ao trabalho. As rendas de casa volveram-se proibitivas para muitos, expulsos para subúrbios mal equipados em infra-estruturas. A vida nas regiões rurais é difícil: com a falta de transportes colectivos, o carro é imprescindível, fazendo do preço dos combustíveis um assunto melindroso.
Mas não foi só a crise que se estendeu para Norte. As manifestações de descontentamento acompanharam-na. Desde Novembro, grupos mais ou menos espontâneos ocuparam primeiro rotundas, portagens e estradas, depois centros de cidades importantes, enfim Paris e dois lugares simbólicos, rigorosamente interditos, enfim Paris e dois lugares simbólicos, rigorosamente interditos a toda a manifestação social - o Arco do Triunfo e os Campos Elísios (...) Um novo cabo foi dobrado quinta-feira, 6 de Dezembro, quando a polícia transformou a impotência sentida face aos "coletes amarelos" em raiva transbordante contra os alunos do Ensino Secundário que se manifestavam nesse dia. Mais de 130 antigos estudantes envolvidos em contestações de 1968 para cá, em anos de fortes mobilizações de rua, assinaram uma declaração dizerem nunca terem visto tal furor. (...) Desta feita, não foram os arrabaldes que se sublevaram. Pelo contrário, ficaram silenciosos como se não fosse nada com eles. Ou como se se tivessem acostumado a suportar uma tal vida penosa. Associações de bairro explicam este distanciamento contido: as periferias suscitam tanta desconfiança que, se se tivessem juntado aos "coletes amarelos", todos os distúrbios e delitos lhe teriam sido imputados, a elas e aos seus jovens, outrora estigmatizados por Nicolas Sarkozy como "a escumalha". (...)
Impossível dizer, por ora, aonde isto levará. A palavra de ordem dos "coletes amarelos", à qual adere uma parte significativa da população, é sem ambiguidade: "Macron démission!". Aquele em quem muitos franceses depositaram esperança há apenas um ano e meio é hoje olhado, no mínimo, com desconfiança e, cada vez mais, com repulsa. Ele, que se apresentou como a solução para os problemas franceses e inclusive europeus (a caminhada ao som do Hino da Alegria, de Beethoven, antes do discurso de vitória fica na lembrança), conseguiu atear a mecha social que estava extinta. Como pôde uma mudança tão radical ocorrer num lapso tão breve?
Emmanuel Macron tem traído, sem cessar, valores do quotidiano francês. Um exemplo recente foi o aumento das propinas pagas pelos estudantes exteriores à União Europeia. De 170 euros por ano, uma inscrição na licenciatura passa a custar, no caso deles, 2770 euros, 16 vezes mais. Em mestrado e doutoramento, 3770 euros contra os actuais 243 e 380 euros, respectivamente. (...) Atacando aqueles que menos podem defender-se, o Governo esperava fazer passar a medida sem contestação, aguardando depois o momento de aplicar o aumento das propinas aos alunos da UE e aos franceses, sob o pretexto de restabelecer a equidade. (...) Mas, inesperadamente talvez, os estudantes franceses mobilizam-se doravante por eles e entoam, sem ilusões, "Pas de tunes, pas d'etudes", ou seja, "sem graveto, não se estuda".  (...)
Massa pouco organizada [os 'Coletes Amarelos'], ela exprime uma mal-estar difuso que não se condensa em reivindicações precisas nem restritas. (...) Porém, a "luta pelo poder de compra" implica todo um programa governamental (...) O movimento não tem propriamente cabeças nem sequer porta-vozes. A ausência de estrutura convencional torna-o difícil de captar (...) Tão-pouco existe aqui uma direcção. (...)
Desde que ascendeu ao poder, [Macron] cercou-se de homens de mão vindos da direita economicamente mais liberal. Assim, o primeiro-ministro, Édouard Phillipe, é um afilhado político de Alain Juppé, presidente da Câmara de Bordéus, que se pensou que representaria a direita clássica nas presidenciais de 2017, até que o seu concorrente François Fillion o bateu nas primárias.
Personalidades independentes e de esquerda que seguiram Macron reconheceram ao cabo de algum tempo a impotência para aplicar medidas de impacto nas suas áreas. Foi o caso do ecologista Nicolas Hulot, que se demitiu em Setembro de ministro da Transição Ecológica e Solidária. Além disso, Macron entrou no conflito social desdenhando os sindicatos, como se viu este ano no sector do transporte ferroviário. (...)
Para onde irão, no futuro, os indivíduos que formam hoje os "coletes amarelos" e todos aqueles que, sem sair de casa, simpatizam com eles? Dois cenários principais são reconhecíveis. Primeiro, em situações de turbulência associadas a crises económicas, acontece por vezes que uma maioria de pessoas se volte para figuras autoritárias, crendo serem estas as únicas que resolverão os problemas de fundo. É um erro com consequências históricas conhecidas, mas que se repete regularmente. Ademais, os tempos são propícios a esta saída: Trump, Órban, Bolsonaro testemunham disso. (...) Retrospectivamente, compreender-se-ia então o efeito da política devastadora de Macron - atirar os eleitores para os braços de Marine Le Pen. (...)
Resta o segundo cenário. Uma parte importante dos insatisfeitos dispersar-se-ia pelas esquerdas, umas mais moderadas, outras menos, que promoveriam uma aliança precária e flexível. (...) Cada um faria concessões com vista a um governo de não austeridade, que favorecesse o aumento do poder de compra e reforçasse os mecanismos de segurança social. Não estando excluída, esta solução seria a mais inesperada, vistas as tendências mundiais presentes. (...)
As escolhas económicas de Macron são evidentes. Concorrência acrescida entre todos e cada um, emagrecimento da Segurança Social, transformação dos beneficiários de serviços públicos em clientes de entidades funcionando em competição. (...) Uma etapa próxima será o desmantelamento dos "intermitentes do espectáculo". Trata-se de um regime da providência específico para artistas e técnicos do universo cultural. Como a maioria destes não tem emprego de acordo com as necessidades das empresas e companhias, a Segurança Social indemniza-os sob certas condições durante as fases de inactividade. É um sistema que beneficia o cinema, o teatro, a rádio, o circo, a ópera...Em vez de o considerar a base duma vida cultural intensa, o Governo apresenta-o como um privilégio injustificado. (...)
Em suma, a lógica é a mesma em toda a parte: precarizar, entregar à sorte, proteger quem já tem. Macron, que se pôs em cena como a encarnação de uma geração filha da Europa, quer prosseguir com o que a UE tem de pior: compressão dos mais pobres pelos mais ricos, a austeridade imposta, a transformação de uns em serventes de outros. É também isto que indigna os "coletes amarelos", a postura daquele que ordena aos súbditos em lugar de respeitar cidadãos.

Diogo Sardinha, estudou Filosofia nas universidades de Lisboa e Nanterre. Foi Presidente do Colégio Internacional de Filosofia, em Paris, e o único estrangeiro a ocupar o cargo nos 35 anos de existência desta instituição. Aí dirigiu o programa de investigação "Violência e política: o motim como forma de movimento selvagem", Os coletes da ira, Visão nº1345, de 13-12 a 19-12 de 2018, pp.50-56.