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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Tecnologia, cultura (II)


Talvez não soubéssemos que a palavra computador significava, originalmente, desde que foi usada no séc.XVII, e até meados do séc.XX, pessoa que efectuava cálculos, ou computações (p.49). Computador é alguém ou algo que executa sequências de cálculos simples - sequências que podem ser programadas. Antes dos computadores digitais, as tabelas científicas e militares eram calculadas por grandes equipas de pessoas chamadas «computadores» (p.41). Nos séculos XVI e XVII "foram construídos vários dispositivos de cálculo mecânicos, mas nenhum deles era programável. Charles Babbage foi o primeiro a conceber e a construir parcialmente um computador mecânico totalmente programável; chamou-lhe o Engenho Analítico" (p.49). Nos primeiros tempos dos computadores digitais, estes foram usados, pois, em aplicações científicas e militares; na década de 1960, os mainframes (grandes computadores que ocupavam salas inteiras) começaram a ser usados em aplicações empresariais. Só nas últimas décadas "se tornou claro que os computadores iriam tornar-se o aparelho mais versátil e mais difundido alguma vez criado" (p.41). Só com a World Wide Web (que começou de forma quase imperceptível, em 1989, como uma proposta para interligar documentos em diferentes computadores, de modo a que os leitores de um documento pudessem aceder facilmente a outros documentos relacionados) que os computadores entraram na vida quotidiana da maioria das pessoas (p.41).
Segundo Arlindo Oliveira, muito provavelmente, "nenhum fenómeno alterou tão rapidamente e tão completamente a cultura e a vida diária em todo o mundo como a internet" (p.42). Um dos exemplos gráficos dados passa pela comparação do mundo com a Encyclopaedia Britannica e a Wikipédia, embora a aproximação feita em Mentes Digitais tenha uma natureza de tipo quantitativo e não qualitativo (algo que aqui provavelmente mereceria outro aprofundamento; factores como "credibilidade", "certeza", "segurança", "redigido por reputados especialistas", "estabilidade" etc. mereceriam ser neste contexto considerados): "no momento em que escrevo, a versão inglesa da Wikipedia (uma enciclopédia construída na web por milhares de voluntários) inclui mais de 4,6 milhões de artigos de artigos que contêm mais de mil milhões de palavras. Isso é mais de 30 vezes a quantidade de palavras existentes na maior enciclopédia de língua inglesa jamais publicada, a Encyclopedia Britannica. O crescimento do número de artigos na Wikipédia (...) seguiu uma curva acelerada, embora mostre uma tendência para desacelerar, à medida que a Wikipedia começa a abranger uma fracção significativa do conhecimento mundial, relevante para um grande conjunto de pessoas" (p.44). Além deste exemplo, o acrescentar valor em plataformas como o youtube, o facebook ou o a importância imensa que tem hoje o comércio electrónico, bem como a interligação entre milhões de jogadores em jogos em linha - a comercialização de bens que apenas existem no mundo virtual, a elevados preços, no mundo real - são alterações aduzidas. As tecnologias digitais representam uma fracção crescente da economia mundial - a sociedade actual é completamente dependente das tecnologias de informação e comunicação - e os cálculos, para os EUA, apontam a 7% do PIB deste contributo (p.45). Registe-se: "os serviços digitais que já sustentam uma grande parte da nossa economia são, na verdade, prestados por computadores sem assistência humana significativa. No entanto, presentemente esses serviços são prestados em nome de uma qualquer empresa que, em última instância, é controlada por proprietários ou acionistas, que são seres humanos. O cálculo do valor global da economia atribui, em última análise, o valor acrescentado por uma empresa aos proprietários dessa empresa. Neste sentido, toda a produção económica hoje gerada é atribuível às actividades humanas. É certo que, em muitos casos, a propriedade é difícil de determinar, por as empresas serem propriedade de outras empresas. Porém, no final, alguma pessoa ou grupo de pessoas será o proprietário de uma empresa e, portanto, o gerador da produção económica que, na realidade, é criada por sistemas muito autónomos e, em certos casos, muito inteligentes. Esta situação permanecerá inalterada até ao dia em que algum agente computacional tenha personalidade jurídica, com direitos e deveres, comparáveis aos dos seres humanos ou das corporações, e possa ser considerado o derradeiro produtor dos bens ou serviços. Nesse momento, e só nesse momento, teremos de mudar a forma como vemos a economia mundial enquanto produto que resulta unicamente da actividade do homem" (p.47)
Segundo o Professor Arlindo Oliveira, a chamada Lei de Moore, o poder de processamento dos computadores duplicaria a cada 18 meses, começa a ficar em causa: "existem evidências de que, ao fim de 25 anos, a Lei de Moore está a perder momento - porque o número de transístores que podem ser inseridos num circuito integrado não está a aumentar tão rapidamente como no passado. Mas é provável que outras tecnologias entrem em jogo, resultando num aumento contínuo (embora mais lento) do poder computacional dos computadores."

[a partir de Arlindo OliveiraMentes DigitaisA ciência redefinindo a humanidade, IST Press, Técnico, Lisboa, 2017, tradução do original em inglês por Jorge Pereirinha Pires