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terça-feira, 25 de abril de 2017

RELEITURA (crucial)


Mas como é que os discípulos de Jesus, e sobretudo os Apóstolos, acabaram por lhe aplicar semelhantes títulos, que lhe atribuíam um estatuto transcendente em relação à condição humana e até um estatuto divino?

Devemos ser muito claros sobre este ponto: eles fizeram-no e foram levados a fazê-lo porque acreditavam firmemente que Jesus estava ressuscitado - quer dizer, que tinha definitivamente passado pela morte! É essa a única razão pela qual os Apóstolos foram levados a descobrir e a anunciar que Ele era o Cristo-Messias, o Filho de Deus e o Senhor-Kyrios que acabámos de evocar. A questão que se levanta, portanto, é a de saber o que é que os terá levado a professar que o seu mestre estava ressuscitado (...) 
- Em primeiro lugar, é evidente que, após a morte de Jesus, os seus discípulos ficaram esmagados, dispersos e desmotivados. Vemo-los, portanto, incapazes de encontrar em si próprios a energia para prosseguir e recomeçar tudo de novo, se não se tivesse produzido nada de importante em relação ao seu mestre e à respectiva «causa».
- Em seguida, foi-se tornando cada vez mais claro que a velha argumentação racionalista que desqualificava de imediato o testemunho apostólico já não é minimamente plausível: os discípulos teriam inventado do princípio ao fim a fábula do sepulcro vazio e, a partir daí, ter-se-iam dedicado a tornar credível a tese de uma suposta ressurreição de Jesus...e «isso teria resultado» ao longo de vinte séculos...e catrapus! [Cai tudo por terra] Mas a crítica textual, com efeito, estabeleceu que a tradição literária anunciadora do sepulcro vazio e aquela que relata várias aparições de Jesus após a sua morte são completamente independentes. Já não se pode afirmar, portanto, que a primeira foi inventada para dar crédito à segunda.
-Aliás, é garantido que os discípulos não esperavam de modo algum aquilo que viriam a anunciar...pelo menos da forma precisa como o fariam. Aquilo que eles esperavam, como todo o povo, sob o termo de «ressurreição», correspondia a dois tipos de acontecimentos: a restituição de um ser humano à sua condição mortal, o que o expunha a morrer novamente (como sucedeu a Lázaro) ou a transformação do universo no contexto da grande conflagração apocalíptica do fim do mundo. Ora, os discípulos anunciaram uma ressurreição que 1) dizia respeito a um único indivíduo, Jesus, e 2) que, no entanto, já fazia aceder esse ser humano única - independentemente, portanto, de uma transformação universal -, à própria condição escatológica.
Devemos interrogar-nos, portanto, sobre aquilo que terá podido levar os Apóstolos a passar de um esmagamento total, após a morte de Jesus, à proclamação segura da sua ressurreição, entendida de forma tão assombrosa. A resposta é clara: quando os Apóstolos explicam aquilo que os levou a acreditar num acontecimento tão extraordinário e, portanto, tão inesperado para eles, descrevem aquelas experiências denominadas «aparições» de Jesus após a sua morte. Na realidade, a questão principal será, portanto, trazer tanto quanto possível à luz aquilo que se poderá de facto ter passado em termos daquilo que é designado por essa palavra! Para sabê-lo, o único método possível é a análise crítica dos únicos documentos de que dispomos, ou seja, daqueles «relatos de aparições pascais» que o Novo Testamento apresenta (...)
Após a morte do seu mestre, que os tinha deixado completamente desamparados, de uma forma completamente inesperada para eles, os discípulos de Jesus fizeram a experiência de restabelecer a ligação com Ele, de reencontrá-lo: durante uma refeição, no caminho, à beira do lago...Por outras palavras: o seu mestre desaparecido «deixava-se ver por eles» em contextos que lhes eram familiares, mas de uma forma totalmente inesperada. Com efeito, impõe-se destacar que foi essa a maneira como eles traduziram, na linguagem corrente, aquilo que lhes era dado viver e experimentar naquelas circunstâncias completamente desanimadoras. Os Apóstolos não disseram: «Nós vimo-lo (ou voltámos a vê-lo)», como seria de esperar, mas «Ele foi visto por nós» e, até, «Ele deixou-se ver por nós». Eram os Apóstolos que viam, certamente; mas tudo se passava, no entender deles, como se a iniciativa e a própria operação desse «ver» fossem exteriores a si próprios, tendo lugar naquele, precisamente, que «se deixava ver por eles», que «lhes permitia vê-lo», que os «fazia vê-lo».
Houve dois factores que lhes permitiram compreender essa coisa tão estranha que «lhes sucedia». Por um lado, julgavam poder reconhecer, por fim, que fora atendida a esperança que sempre conduzira a sua vida e a vida de todo o seu povo; por outro lado, eles consideravam que Ele os deixar, lhes transmitia uma iluminação decisiva sobre aquilo que viviam agora, de forma tão inesperada.

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.102-106

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Confissão (V)


Confissão


O erro de Tolstoi, segundo o próprio, foi ter-se atido ao seu meio e visto os demais como "ELES". E, no entanto, é neles, nos que labutam, e não nos "ricos" e "parasitas" que frequenta, e de que é membro, que se encontra a resposta mais importante: a fé. A mais sincera das fés, aquela que não se fica nas enunciações elaboradas desmentidas pelo viver dos seus autores ou transmissores, mas a do povo que vive como reza. A fé que Tolstoi "adiciona" ao conhecimento racional. Este só permite somar o finito ao finito, e o infinito ao infinito, em jogos de soma zero. Nada. Só a fé (re)liga finito e infinito, forma de conhecimento maior, portanto. "Onde há vida, há fé"(p.87), formulação que Torres Queiruga colocará deste modo: o viver do homem que podia matar-se é o referendo mais concreto de que a vida tem sentido. Tolstoi abandona a sua "classe", ruma a uma vida ascética, deixa todos os bens, renuncia à propriedade privada. Todos, sem excepção - aqui contraria um pouco o Kung de Aquilo em que creio -, se confrontam com o sentido da existência, só que milhões não se entediam com este, mas penam, sofrem, vivem com a dignidade que lhes advém de acreditarem genuinamente no que professam. O luxo não permite aceder à vida verdadeira (p.117). Como Guardini, Tolstoi aceita a não pedagogização (p.126) da liturgia. Como Agostinho, o caminho é o do regresso: "Tal como a força da vida foi gradualmente extinta e imperceptível, e cheguei à impossibilidade da ida, a cessação da vida e a necessidade de suicídio, também a força da vida regressou a mim, não era algo novo mas a mesma velha força que me atraiu no período inicial da minha vida. Regressei a todas estas coisas que tinham sido parte da minha infância e juventude (...) Noutras palavras regressei a uma crença em Deus, na perfeição moral, e à tradição que deu sentido à vida (...) A baía era Deus, a direcção a tradição, e os ramos eram a liberdade que me havia sido dada para remar para a baía e juntar-me a Deus" (pp.113 e 115).
Não se julgue que este regresso é um conto de fadas - haverá momentos de dúvida, ainda. A ausência de ecumenismo entre as Igrejas cristãs será algo que impressionará o autor de Confissão. Que, assentando na verdade essencial do que lhe era transmitido, esforçou-se no estudo dos textos para neles compreender, em equilíbrio, o que menos aí se sustentava. Um percurso exigente, permanentemente no fio da navalha. Acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa (que nem no ano 2001, a pedido de um ainda familiar, reviu a condenação).


Confessar (II)


Tolstoi também segue várias escolas, peregrina entre escritores - que se julgam os educadores do mundo, donos de uma vaidade incomensurável, que se elogiam mutuamente ao mesmo tempo que se invejam, frivolidade entre fama e dinheiro como comuns motivações de escrita -, jornalistas, professores; salta da oferta do aperfeiçoamento pessoal (tudo devorar para ser, ele próprio, melhor, acompanhando a evolução das coisas; primeira escola), para o aperfeiçoamento colectivo (contribuição para o progresso, a educação do povo através de jornais, livros, e aulas mesmo que nada se tivesse para ensinar) até chegar à vida familiar (terceira escola) - "as novas circunstâncias da vida familiar feliz distraíram-me completamente de qualquer busca do significado da vida" (p.26). Mas eis que o aturdimento lhe chega: para quê a educação do filho?, para quê ajudar as crianças camponesas?, para quê ser um escritor mais famoso do que Shakespeare? Para quê tudo isso, afinal? Infantis, as perguntas? Nada. Inevitáveis, incómodas, militantes. Fugir-lhes? "Nem sequer queria saber a verdade porque adivinharia o que era. A verdade era que a vida era sem significado" (pp.31/32). O cordão sai do quarto, a espingarda de caça abandona o seu carro: "Lutei o quanto pude contra a vida. Os pensamentos de suicídio chegavam-me com a mesma naturalidade com que chegaram os anteriores de melhorar a vida" (p.32). E isto em alguém que, confessa na aurora do texto confessional, nunca abandonou a crença em Deus, a crença em Cristo.


domingo, 20 de julho de 2014

Confissão


Pedro MEXIA, Mal nenhum, in Expresso. Atual, 12. 07. 2014, 3.

Mal nenhum

Quando foi a última vez que se confessou? Que pecados cometeu desde então? Está arrependido? E tem o firme propósito de não voltar a pecar? Este conhecido interrogatório aterrorizou sucessivas gerações. James Joyce dedicou-lhe páginas e páginas de angústia, culpa, excitação e impunidade.
Pode dizer-se que a confissão corresponde a uma necessidade e a um excesso. Existe sem dúvida uma dimensão “terapêutica”, semelhante à de qualquer “cura pela linguagem”. Aliás, desde Paulo VI que a confissão é também designada como “reconciliação”, até para sublinhar a dimensão comunitária. Erros e sofrimentos são contados a alguém que supostamente ouve, entende, aconselha e perdoa, ou transmite um perdão. Mesmo os adversários da confissão têm em geral reconhecido o benefício desse trabalho sobre a subjectividade e a intimidade, sobre a consciência e o discurso autobiográfico; falar acerca do que nos acontece é catártico, é um acto de humildade, de humanidade, de empatia, de aceitação. Os católicos acreditam que também pode ser um sacramento, ou seja, uma manifestação da Graça divina.
Porém, certos autores, como Michel Foucault, e, recentemente, John Cornwell (“The Dark Box”, 2014), vêem a confissão sobretudo como um mecanismo de controlo social. Durante séculos, grupos inteiros declaravam em público os pecados graves que afectavam a vida comum; mas na Idade Média a prática torna-se individual, inspirada no modelo da “confissão auricular” dos conventos e mosteiros, e passou a incluir pecados “mortais” mas também “veniais”, quer dizer, triviais. O IV Concílio de Latrão, de 1215, decretou como obrigatória a confissão anual. E, em 1576, o cardeal Borromeo, arcebispo de Milão, concebeu um móvel, chamado “confessionário”, que constava de duas secções: de um lado uma cadeira e uma porta; do outro, um estrado onde o penitente se ajoelhava; a meio, uma grelha e uma cortina garantiam a distância física e o quase-anonimato. Era uma escuridão cautelosa, inquisitiva, tridentina.
Ao longo dos tempos, a Igreja publicou inúmeros manuais de confissão, textos de uma minúcia e bizantinice inconcebíveis. Teólogos morais estudavam em detalhe a intenção e a gradação dos actos, pensamentos e omissões, as divisões e subdivisões de cada acção pecaminosa. Tudo isto provocava no penitente um escrúpulo maníaco, não apenas sobre o pecado em concreto mas sobre as infindáveis “ocasiões de pecado”. É a confissão enquanto intromissão. Embora o sacramento tenha uma base bíblica indesmentível, que é a referência aos pecados perdoados na terra e nos céus, é fácil perder-se o rumo. E toda a gente conhece histórias de abusos, clarificações excessivas e perguntas impróprias, tal como toda a gente conhece padres rigoristas, ignorantes, inábeis.
O historiador católico dissidente John Cornwell argumenta que a insistência na sexualidade como pecados dos pecados, assunto omnipresente em tantas experiências de confissão, explica em grande medida o abandono em massa desse sacramento por parte dos fiéis. Desde que se deu a liberalização dos costumes, muitos cristãos não vêem nenhum mal em certos pecados que ainda estão no “catálogo”, e não sentem qualquer culpa ou contrição. É por isso, observa Cornwell, que muitos confessionários são hoje usados como armário de arrumos.
Parece-me no entanto que essa evidência sociológica é demasiado evidente, demasiado pobre. Prefiro uma formulação do dominicano Herbert McCabe, que escreveu que não se é perdoado por causa da confissão, mas que uma pessoa se confessa porque sabe que o perdão lhe foi concedido