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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Vidas apressadas


A maior parte das pessoas que recebe não se sente bem com a vida que leva?

Diria 99%. Uma esmagadora maioria das pessoas que falam comigo não estão muito contentes. Claro que há uma insatisfação que é própria do ser humano, que nos faz evoluir. Num marasmo não haveria sequer arte, os movimentos criativos resultam de rutura, angústia. Portanto, ainda bem que o ser humano quer mais e melhor, outra coisa é sentir o stress e a angústia de uma vida apressada. Se tivesse de elencar o problema número um, seria esse. 

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, "Não vale a pena andarmos armados em super-homens, porque não somos", I, 08-02-2019, p.21.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

História do trabalho (síntese)


10000 a.C: O Homem vive como caçador-recolector até à Revolução Agrícola há cerca de 12 mil anos. O trabalho é visto como algo pouco digno, daí ser delegado, em grande parte, a escravos. 

315 a.C.: Aristóteles defende que quem tem de trabalhar para ganhar dinheiro é um escravo. Dinheiro e trabalho intelectual são opostos.

1518: Primeiro navio de escravos parte de África para a América, marcando uma nova era, em que milhares de africanos servem de principal fonte de mão de obra nas Américas.

1520: Lutero argumenta que o trabalho pode servir Deus. O protestantismo acabaria por ser decisivo para a valorização do trabalho quotidiano. 

1760: Arranque da Revolução Industrial e, com ela, inovações tecnológicas decisivas - como o motor a vapor - e o trabalho assalariado. Nasce o local de trabalho e o conceito de trabalhador fabril.

1790: Primeiras fábricas têxteis nascem em Rhode Island. A mão de obra era constituída por crianças entre os 7 e os 12 anos. 

1833: No Reino Unido, as crianças até aos 13 anos passam a "só" poder trabalhar 8 horas nas fábricas.

1850: Segunda Revolução Industrial, com rápida industrialização, novos processos aplicados à produção de aço e a forte expansão da comunicação e do transporte.

1886: Depois da explosão de uma bomba durante um protesto por uma jornada de 8 horas, em Chicago, o 1º de Maio é escolhido como o dia para celebrar os trabalhadores.

1911: Um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, mata 146 trabalhadores, quase todos mulheres, com salários muito baixos. As portas estavam trancadas, para impedir pausas não autorizadas. Foi o contributo decisivo para o crescimento dos sindicatos e do movimento laboral. 

1960: Terceira Revolução Industrial. A ascensão da electrónica, o nascimento dos microprocessadores e maior automação nas fábricas.

1974: É instituído em Portugal o salário mínimo. No ano seguinte, surgiria o subsídio de desemprego.

1989: Tim Berners-Lee inventa a World Wide Web e revoluciona a forma como comunicamos e trabalhamos.

1996: É instituída em Portugal a Lei de 40 horas de trabalho semanal.

2009: É fundada a Uber, na altura com o nome UberCab. Os condutores são vistos como colaboradores da empresa, não como trabalhadores. 

2018: Abre em Seattle a primeira mercearia da Amazon sem trabalhadores na caixa. Basta entrar, colocar os produtos no cesto e sair. 


Breve história do trabalho (excertos), in Visão, nº1332, de 13 a 19/09/2018, pp.44-45. Um dossier, o dedicado pela revista ao trabalho, esta semana, da autoria de Nuno Aguiar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Pessoas «altamente perigosas»



Para Auschwitz, foi enviado todo o tipo de gente perigosa de acordo com os cânones nazis: prisioneiros russos, ciganos, homossexuais, socialistas, sobretudo judeus. Tudo gente que ameaçava a pureza da raça. Entre os prisioneiros nos lager, também crianças (para as quais, havia roupa destinada ali; ver foto 1); entre as pessoas perigosas, um grupo de padres católicos polacos que não se vergavam aos ideais do regime nacional-socialista (foto 2).

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Novas palavras


Segundo o psicólogo evolucionista Robin Dumbar, aos 3 anos um criança, em média, consegue usar cerca de mil palavras; aos 6, 13 mil; aos 18, 60 mil. Dez novas palavras por dia, em média, desde o 1º aniversário. Uma nova palavra a cada 90 minutos de vida em estado de vigília.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crianças



Continuo a percorrer a memória do que fui escrevendo e dizendo no espaço público, nestes 10 anos. Hoje, partilho o texto que assinei no Lamego Hoje, a 20 de Abril de 2006:

Que relação com as crianças? Factos que explicam um Acórdão (I)  


“Vivemos num mundo em que o sofrimento das crianças se tornou um assunto mediático de primeira página (...) Apesar dos importantes progressos que se verificaram na consagração jurídica dos seus direitos (...) permanece como sendo a geração mais afectada pela pobreza, pela violência e pela doença” (Prefácio, Manuel Sarmento, in Martins, P.C. (2002), Maus Tratos a crianças: o perfil de um problema; Braga, Universidade do Minho)      

Num primeiro momento, a discussão em torno do Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) sobre alguns castigos aplicados por uma responsável de um lar de crianças com deficiências mentais, em Setúbal, conhecido, através da imprensa (e disponível, na íntegra em www.dgsi.pt e em www.stj.pt) na semana transacta, transportou-nos para o universo do debate acerca da melhor forma de educar uma criança; da (i)licitude ou (i)legitimidade de determinadas estratégias educativas; da contemporaneidade legislativa neste domínio e da validade dos pressupostos/teorias de que partiram os magistrados para produzirem um conjunto de juízos manifestamente polémicos.
Se, no decorrer do debate público, se partiu para a destrinça, fundamental, entre crianças portadoras de deficiência e crianças absolutamente saudáveis, e entre crianças educadas em casa e crianças institucionalizadas, censurando-se ao julgador o igualitarismo no tratamento destes casos diferentes, faltando aquilo que em Direito se sublinha ser a equidade – tratar de forma idêntica o que é igual, mas não tratar da mesma forma o que é desigual - importará dizer, contudo, que sem prejuízo de tais críticas se nos afigurarem certeiras em função do resultado universal a que parece pretender chegar-se no referido acórdão, através das máximas elaboradas sobre o dever-ser de uma educação sã, convém registar uma importante ressalva feita pelos juízes do STJ, a dado passo do acórdão: “Sempre com a consciencialização de que estamos numa situação extremamente vulnerável e perigosa quanto a abusos, mais ainda por se tratar de menores internados em instituição e com deficiências psíquicas”. Saber se houve por parte dos magistrados a consciencialização que reclamam, na apreciação dos factos submetidos a julgamento, é já uma outra questão...Ora, o que pretendemos é, no entanto, fixarmo-nos no primeiro momento da reflexão encetada. É que a indignação suscitada a propósito das palmadas, da bofetada ou da obrigatoriedade de ida para o quarto de crianças que, respectivamente, se recusaram a ir para a escola, atiraram uma faca à sua educadora ou não quiseram comer uma salada, colocaram-me perante um país diverso daquele que julgava (re)conhecer. Num Portugal que se quer à la Finlândia em tantos domínios (como no da tentativa de nos tornarmos craques na net, quando dois terços dos portugueses nunca a utilizaram...), vi no tom irado de quase todos quantos reagiram ao acórdão uma boa oportunidade de nos aproximarmos do modelo nórdico: desenharmos uma legislação que pura e simplesmente não permita os castigos físicos. Ao longo destes dias, a crer nas diversas reacções ouvidas sobre o tema, parecemos maduros para tal tarefa. Países como a Suécia, a Finlândia, a Noruega ou a Dinamarca há muito que aboliram os castigos físicos. Ora, do nosso primeiro-ministro, de felina têmpera nórdica, não é de esperar outra coisa que não seja uma rápida iniciativa legislativa neste sentido. A quem gosta de bater (em Rosseau) a propósito de tudo, duas objecções, neste âmbito muito concreto (já que também gosto de bater em Rosseau, de vez em quando): será que nos países em que se aboliram os castigos físicos a delinquência juvenil aumentou, passando a flagelo nacional? Será que nos países citados, não nos habituamos a ver povos civilizados e sociedades por norma mais cultivadas que a nossa? Ou será que o nosso código genético, torpedeado pelo rumor de décadas dos brandos costumes nacionais, não dispensa a correcção da praxe? Será de tal forma a nossa natureza específica que não permite a adopção de legislação tão avançada?
Ao contrário do que vi escrito, não é tanto o acórdão que envergonha o país. Na verdade, em minha opinião, o que envergonha o país é a realidade que nele se recobre e revê e esconde; é o caldo de cultura que permite que supremos magistrados da nação assinem tais sentenças. Vamos a factos. Num estudo organizado por Carla Machado, especialista em Psicologia da Justiça, docente no Centro de Estudos Judiciários (o CEJ é o local onde se formam magistrados...), datado de 2005, efectuado na zona Norte do país, em que todos os estratos sociais estão representados, com 2391 famílias constituídas por pai e mãe, e uma ou mais crianças com mais de 18 anos (ou seja, uma amostra composta pela chamada família intacta, não monoparental, portanto), constatam-se os seguintes dados: numa amostra com 691 pais, 25,9% admitiu ter praticado, no último ano, pelo menos um acto de mau trato físico ou emocional contra os seus próprios filhos. E em que consistiram tais maus tratos? Pois bem, no seio destes quase 26% de progenitores que admitiram maus tratos aos seus filhos, encontram-se abusos físicos de índole variada: bater deixando marcas (4,7%); dar murros e pontapés (4%); bater com o cinto (3,7%); bater com outros objectos (2,8%); atirar objectos (2,8%): abanar ou sacudir crianças com menos de 2 anos de idade (2,8%); bater causando ferimentos (0,3%). Quanto aos maus tratos emocionais: insultar a criança (14,91%); dizer que não se gosta da criança (8%); dizer à criança que nunca devia ter nascido (3,6%); fechá-la num quarto à chave (2%); fechar a criança num quarto escuro (0,7%). Todavia, o estudo diz que se verificaram “níveis relativamente baixos de tolerância face à punição física como estratégia educativa”. Pois...  
Se descentralizássemos o nosso olhar de um nível regional para uma escala local, observaríamos que num estudo com duas décadas, mas ainda hoje de referência a nível nacional (estudo encomendado pela Assembleia da República ao CEJ, coordenado por Fausto Amaro, realizado, no terreno, no ano de 1985, com os resultados a serem conhecidos em 1986 e em 1988; estudo que além dos contactos telefónicos estabelecidos com as pessoas, utilizou, igualmente, referentes, informantes-chave como os párocos ou os presidentes de Junta, o que o credibilizou de sobremaneira no plano científico), registava-se que atingindo o abuso físico maior incidência no Norte do país, era Vila Real o distrito português em que tal abuso se dava com maior frequência (!) (43,2 por cada 10000 famílias); no pólo oposto, estava Santarém (0,8 por cada 10000 famílias); (Amaro, Gersão e Leandro, 1988; Amaro, 1989). Quanto às opiniões que a população em geral fazia do recurso à punição física como forma de disciplina, obtiveram-se como respostas: os pais têm o direito de bater nos filhos desde que não exagerem (31,4%); os pais exageram a bater nos filhos (24%); os que pensavam, então, que a opinião maioritária, nas respectivas freguesias, era a de que as pessoas não achavam bem ou ficavam mesmo revoltadas quando sabiam que os filhos eram batidos pelos pais cifravam-se em 16,7% (Amaro, 1986, p.15). Por outro lado, Vila Real era o distrito com maiores taxas de aceitação do castigo corporal enquanto estratégia disciplinar (37%). O que, valha a verdade, só demonstrava coerência: defendíamos teoricamente aquilo que praticávamos ou, ao invés, se preferirmos, praticávamos aquilo que defendíamos.(continua)

P.S.: Agradeço à Vera Gonçalves, a concluir, brilhantemente, o curso de Psicologia na Universidade do Minho o contributo decisivo, na documentação e na reflexão que me proporcionou, para a elaboração deste artigo.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Trabalho infantil


Há menos de um ano, a 2 de Julho de 2015, a Bolívia, de Evo Morales, aprovou, através do seu Parlamento, um novo Código da Infância e Adolescência que autoriza o trabalho a partir dos 10 anos. Ainda que apresentado como excepção face à idade limite dos 14 anos, acaba por ser situação maioritária, legitimada na medida em que, não raramente, é conciliável com os estudos. Assim, a criança está «autorizada» a trabalhar a partir dos 10, desde que seja trabalho independente (vendedores ambulantes, engraxadores) e 12 para trabalhadores «dependentes» (empregados em estabelecimento comercial). A Bolívia e o Peru apresentam as mais elevadas taxas de trabalho das crianças entre os 6 e os 17 anos, na América Latina: 27,9% no primeiro caso e 29,8% no segundo (sendo que na Bolívia esta percentagem, em meio rural chega aos 65%). As Convenções Internacionais proíbem o trabalho antes dos 14 anos. O Movimento dos Trabalhadores adolescentes e Crianças, Filho de Operários Cristãos (Manthoc), do Peru, foi o primeiro sindicato de crianças no mundo, tendo sido fundado em 1976.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Outros factos


96 mil crianças pediram asilo à Europa, em 2015. Ou seja, quase 100 mil crianças chegaram sozinhas à Europa, em fuga de guerras.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Esperança (II)


Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto.
Essa sim, é digna de espanto.

Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece
    e acreditem que amanhã será melhor.
Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem
    que amanhã de manhã será melhor.
Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça.
E isso a mim mesmo me espanta.
Pois é preciso que a minha graça seja em verdade
      duma força inacreditável.
E que ela brote duma fonte, como um rio inesgotável.

Charles Peguy, em Os portais do mistério da segunda virtude (p.15), na nova colecção de clássicos cristãos que as Paulinas estão a publicar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O bolo de anos (anos 2013)






Amanhã faço anos, professor! Corre, corre, corre e ainda ofegante, antes que o portão seja atravessado até ao próximo encontro, quer dar a boa nova. Então estás de parabéns! Sim, senhor. Vais trazer um bolo para partilhares com os colegas? Não, responde, já, um rosto abruptamente fechado e circunspecto. O mau da fita, do fundo da sala, a manter o estilo? Errado. Então não queres partilhar uma fatia de bolo com os teus colegas? É a crise, respondeu-me, por uma vez adulto mas sempre durão, em tom disfarçadamente pragmático. 
Nem precisamos de introduzir a disciplina de literacia económica que, com o ministro Pires de Lima, nos guiará, sem sombra de pecado e muito menos de dúvida, aos paraísos da fortuna, pois que, hoje por hoje, bem pequeninos, já conhecem o jargão da “escassez de recursos” e outras grandes descobertas para o mundo que à hora de jantar lhes entram, literalmente, pelas goelas abaixo.