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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Para adultos

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A lei portuguesa (entre outras) prevê a possibilidade de pessoas sem licenciatura fazerem mestrados e doutoramentos. No livro A universidade como deve ser, os dois académicos que o redigem, António M. Feijó e Miguel Tamen, assinalam a páginas 55 (nota de rodapé 32): "A tese de doutoramento de um candidato admitido nestas condições no programa de pós-graduação a que estamos associados foi publicada pela Cambridge University Press". Ou seja: tivemos aqui um não licenciado que fez uma tese de doutoramento publicada na editora de uma das mais respeitadas universidades do mundo. Para quem tem a visão quadrada dos doutores e não doutores, deve ser um choque; para quem percebe, com facilidade, que não é o "dr" (ou "eng", ou "arq.") que distinguem - mesmo ao nível do conhecimento, de forma necessária - as pessoas (antes, a curiosidade intelectual, o mundo, a paixão pelo saber, o gosto de cultivar-se, o ser hoje mais sábio do que ontem), isto é perfeitamente plausível.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Ennui


Hoje em dia, a opinião universal, ou aproximadamente universal, é que ser um maçador é um pecado imperdoável. Isto é um engano tremendo. Se é para se usar esta terrível fraseologia, deve-se dizer antes que o pecado imperdoável é ficar aborrecido. O Ennui é, de facto, o grande pecado, o pecado pelo qual todo o universo tende continuamente a ser subvalorizado e a desaparecer da imaginação. Mas trata-se da pessoa que o sente, não da pessoa que lhe dá origem (...) A culpa, se é que faz sentido falar de culpa, é somente nossa por nos deixarmos aborrecer. O assunto não é de todo maçador; não existe no mundo um só assunto que seja maçador. O simples facto de ele, o nosso interlocutor, uma pessoa perante todas as evidências muito mais estúpida do que nós, ter encontrado o segredo e captado o charme desse assunto em particular constitui a demonstração suficiente de que não se trata necessária ou invariavelmente de um assunto maçador. Se ele consegue ficar entusiasmado com o mecanismo de uma alavanca ou com a abominável conduta dos Robinsons, como não poderemos nós partilhar desse entusiasmo? Achamo-nos subjugados, ele mantém-se extasiado. Numa frase, somos apresentados à sua definitiva e imensurável superioridade. O homem feliz é natural e necessariamente superior ao homem enfastiado. A tristeza e a inércia do indivíduo aborrecido podem revelar-se como o resultado da educação ou da intelectualidade, mas não é possível que estas sejam particularidades tão cativantes em si mesmas quanto a grande convicção, o cintilante entusiasmo e a divina felicidade do maçador. (...) Uma discussão familiar, por exemplo, pode ser um acontecimento deveras sórdido e maçador (...) Mas seguramente uma discussão familiar não é por si algo de desinteressante (...) Que ninguém se felicite a si próprio por abandonar a vida em família com o pretexto de partir em busca da arte ou do conhecimento; ele abandona-a porque anda a fugir do desconcertante conhecimento da humanidade e da impossível arte da vida (...) O pecado diz respeito àquele que se deixa aborrecer, não à pessoa maçadora. Dada a fraqueza de espírito da humanidade, vamos permitindo que se façam revoluções e se promovam emancipações e rupturas com laços afectivos. Mas o indivíduo vigoroso, o indivíduo ideal, achar-se-ia interessado por qualquer ambiente em que, pela ordem natural das coisas, fosse inserido. O herói seria assim uma pessoa inteiramente domesticada; o Super-humano sentar-se-ia aos pés da sua avó.

G.K. Chesterton, Em defesa dos maçadores, in Ficar na cama, Relógio d'Àgua, tradução de Frederico Pereira, 2016, pp.50-53


sábado, 7 de novembro de 2015

Ainda, e sempre, a defesa das Humanidades


Sou um grande defensor de os cursos das ciências duras terem a obrigatoriedade de frequência de duas cadeiras das ciências humanas. A Universidade de Aveiro já faz isso. Está testado. Harvard e o MIT têm isto (...) Porque o conhecimento das ciências humanas é fundamental. Têm sido tratadas como fait-divers. E não são. São elementos estruturantes. Nos EUA, é comum encontrar um cirurgião que é simultaneamente um grande músico. Em Londres consultei um médico que é um superespecialista em lúpus, tem mais de 70 anos, e lidera uma banda de música, a que chamou «Lupus Band». (...) Eduardo Lourenço disse uma coisa que nunca esquecerei: sabemos pouco sobre o Estado Novo porque ainda há poucos romances passados nesse período. É muito interessante em relação ao modo como se devem estudar as coisas.

Eduardo Marçal Grilo, em entrevista concedida a Isabel Nery, Visão nº1183, 05-11 a 11-11-2015

P.S. Num exemplo extraordinário de curiosidade intelectual, Marçal Grilo, aos 73 anos, regressou à universidade para fazer uma cadeira de História dos Fascismos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Aluno de Fernando Rosas, "um comunicador magnífico". O ex-ministro da educação, considera que os exames do 4º ano de escolaridade, em Portugal, estão "a mais": "o risco do excesso é transformar os professores em treinadores para os exames. É redutor. É pobre. Há mais educação para além dos exames". Estes exames são, ademais, fonte de competitividade: "mas o maior competidor de cada um deve ser ele próprio (...) A cultura da exigência não se esgota nos exames, começa em casa. Mas também é preciso tempo para brincar". Quanto ao momentum político português: "nesta eventual coligação à esquerda existem muitos ingredientes para que não corra bem. Mas, se correr bem será um facto histórico e mudará radicalmente a vida política portuguesa. Radicalmente".