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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CP


São estruturais [os problemas da CP] e vieram para ficar. Tenho a profunda convicção de que se trata de um colapso. E é fácil explicar o que se passa: a CP tem material circulante antiquado, em alguns casos mesmo obsoleto. Isso obrigaria a que tivesse havido muito cuidado com as condições da EMFE [Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário]. Ora, esta empresa não é neste momento capaz de prestar o serviço devido: não tem trabalhadores suficientes nem o conhecimento adequado para responder às solicitações (...) A CP não tem material circulante para responder à oferta comercial. (...) O pico da crise será no Outono, quando se der o regresso à escola e ao trabalho. Depois, virão a chuva e a humidade prejudiciais para os materiais. Na junção desses factores haverá um agravamento. (...) Os comboios vão continuar a ser suprimidos ad hoc. (...) A CP está refém do material circulante. O que hoje acontece é o resultado directo de um conjunto de decisões tomadas durante o Governo PSD/CDS. Tem que ver com a intenção de privatizar a EMEF, o que deu uma machadada nesta empresa, pois foi emagrecida e os recursos cortados nunca foram repostos. (...) De forma curiosa, [o actual Governo] manteve o anterior administrador [Manuel Queiró, do CDS] mais 18 meses. Parece que até estava de acordo com a sua política. Se as coisas pioraram brutalmente com o anterior Governo, este nada fez de concreto na CP para evitar isso.

Francisco Fortunato, ex-Director de Logística da EMEF, em entrevista a Paulo Paixão, para o Expresso, 18-08-2018, p.9


P.S.: na peça sobre a situação da CP, Rosa Pedroso Lima, escreve no Expresso: "há falhas na manutenção preventiva dos comboios, avarias técnicas sem reparação à vista e até falhas nos programas obrigatórios de revisão dos equipamentos que se encontram na chamada 'meia vida' e cuja entrada no estaleiro conta já com vários anos de atraso. Neste momento, 20% das carruagens da CP estão imobilizadas e há linhas em que idêntica (ou mesmo maior) proporção de comboios está parada. A situação atinge toda a rede ferroviária nacional e todos os tipos de comboios, desde os Alfa Pendulares que circulam entre Lisboa e Braga até às automotoras da Linha de Leste (...) mais de metade dos Alfa que circulam na Linha do Norte precisavam de ser submetidos a uma reparação profunda. Dos 10 de que a empresa dispõe, apenas quatro foram sujeitos à revisão de 'meio de vida', uma recuperação exigida nos programas de manutenção obrigatória e que, apesar de estar planeada desde 2010, só começou a ser feita seis anos depois".

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Na margem



Este fim-de-semana, morreu Rafael Chirbes
Um dos prazeres deste Verão foi ler a sua escrita despudorada, carnal, sem contemplações, corrosiva, de um sarcasmo capaz de nos interpretar sem complacência. Conseguindo captar a coloquialidade, na sua forma mais bruta e nua, com a força que essa autenticidade carrega, mais desveladora de um modo de pensar e sentir (de um personagem, de um olhar sobre o mundo) do que uma purga eventual de interjeições politicamente incorrectas (inscrevendo-se nessa tradição), ao mesmo tempo que o artifício literário (dizer o homem é inocente é um oxímoro), a capacidade de analogia, de comparação (fugiu-lhe uma ideia como um flato), de gerar uma imagem, de forjar um humor desarmante, se afirmava, em simultâneo. 
Sem ser um romance de ideias, em A margem começamos por nos encontrar com as periferias geográficas, os fins do mundo que ninguém conhece, para logo serem humanas: os imigrantes que acorrem ao sul de Espanha - com o pano de fundo de um choque de civilizações, via religiões; desmontado, questionado, imediatamente, nos diálogos aduzidos entre os próprios imigrantes, e ao modo como são tratados nos respectivos países de origem, passando-se, assim, a um choque intra-civilizacional; e que num romance sobre o tempo presente se comece por aqui é muito revelador quanto aos marcos identitários de que se lança mão por estes dias -; os desempregados que ficam com o frigorífico vazio e não têm como alimentar os filhos; os que são gozados, cruelmente, nas tascas das aldeias onde o infortúnio do outro é conhecido (e comemorado); as vítimas dos patos bravos de uma aposta total no imobiliário que marcou a Península nas últimas décadas; a vida, explicada e detalhada, de uma prostituta; a decadência física e moral, motivada pela doença; a ausência de liberdade em uma inteira vida, o ter de viver sempre encurralado, sempre de mão a pedir o emprego na oficina do pai e, depois, o manter-se dependente deste quando aquele envelhece e não pode ser deixado só - a pobreza da infância à velhice; as empregadas domésticas que da Colômbia vieram para Espanha para ganhar mal e porcamente. Ao lado da margem, claro, os yuppies, os novos-ricos, os bon-vivant que conhecem toda a sorte de vinhos, se especializam a debitar e discorrer sobre todas as marcas, que assinam as melhores revistas da especialidade, e os chef's, quais novos ídolos que fazem jorrar michelins, os novos Nobel, a cultura que existe quando aquela com maiúsculas - Cultura - era, primacialmente, cultura animi...e se a alma desapareceu.... 
Há as guerras ancestrais entre Abel e Caim, há inveja, ódio, ciúme, chico-esperteza: as reuniões pela herança, as desavenças, em família, pela disputa de heranças, e há a fama pela fama, de quem não se destacou por nada na vida, mas vai à televisão uma vez e isso basta para se tornar numa figura. Normalmente, uma figurinha. A nossa espuma. Pelas vozes dos personagens, mundivisões diversas se apresentam na sua forma canónica: de um lado, a tua ética é o que tens no bolso, a moral não é para os pobres (os pobres não têm moral); do outro, o homem é o lobo do homem. Como que despida de qualquer ilusão, colocando-nos, não raro, e desde as linhas iniciais, num ambiente putrefacto - mas também o Orwell de O caminho para Wigan Pier não sublimou os retratados, cujas condições em que viviam denunciou -, a carne devolvida ao leitor num espelho cru e até num gracejo cínico, assim a mordacidade viva, contundente, forte para melhor revelar uma condição e um tempo, que atravessa uma escrita que marcou o nosso Verão 2015.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Números e pessoas (V)



Em 1950, havia 25 milhões de turistas no mundo. Hoje, são 1100 milhões. Duas companhias - Carnival e Royal Caribbean - controlam quase dois terços do negócio mundial de cruzeiros. Quando um cruzeiro atraca num porto produz uma poluição equivalente à produzida por 12 mil automóveis. Os chineses são os que mais viajam. E são os que mais gastam nas suas visitas. Em 2014, os chineses somaram 109 milhões de saídas ao estrangeiro. Gastaram 151.800 milhões de euros. Prevê-se que a tendência possa manter-se nas próximas décadas, a não ser que se instale, mesmo, uma catástrofe económica na China.