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sábado, 30 de setembro de 2017

O descampado


A vida tem a forma de um grito

Muitas vezes aquilo que somos projeta-se numa pergunta em forma de grito. E esse grito é uma espécie de interpelação dirigida ao outro para encontrar uma resposta, um ponto de apoio sem o qual sentimos que nos perderíamos. 
Nascemos assim, e esse modo acompanha-nos a vida inteira, mesmo se os nossos gritos se tornam depois tendencialmente inaudíveis de tão silenciosos. Mas estão lá, para quem os quiser ouvir. O grito expressa, por um lado, o descampado da vida. Sozinhos, descobrimo-nos expostos à contingência, desarmados diante da sua vertigem, invadidos por uma sensação de impotência e perigo. Mas o grito reitera, por outro lado, e de maneira inequívoca, até que ponto a presença do outro nos é imprescindível. Sem a resposta do outro a nossa vida definharia, permaneceríamos uma interrogação a tatear os muros noturnos do tempo, seríamos apenas uma vontade de viver que não chega verdadeiramente a consumar-se. Cabe ao outro atender o nosso grito, transformando-o numa palavra humana, interpretando-o como um pedido de amor.
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». Dá que pensar que, no cimo da cruz, Jesus viva os últimos instantes transformado num grito.

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.76

domingo, 25 de setembro de 2016

Lar


Até à porta de saída, percorro as portas abertas da casa, passo inclusivamente pela cozinha, quero assinalar que me vou. Não posso berrar, Oh da casa!, ninguém me ouviria de qualquer forma aposto, porque no rés do chão para onde sigo da visita, só há anciãos, cinco, cada um para si, em sono, o sono que é ainda o que lhes vale (menos penas), uma televisão que possa dar a ilusão, tão triste e tão frustre, de algo vivo, mas que não lhes interessa, quase já nada interessa aos que ali estão - a televisão para nós já não diz nada -, a maioria dos quais, quando lúcidos - o que está longe de ser a norma, O meu Alberto? Vem jantar? Mas não tenho nada para lhe aquecer - assinala, não raramente, e de modos diversos, que apenas está à espera que devenha o ocaso. Não divisando, pelo menos num tempo primeiro, a casa deixada sem apelo nem agravo, a casa suspirada e chorada, a casa sinónimo de privacidade, intimidade, (o primeiro) eu que se começa a perder antes de tudo o resto ir, outro motivo que não a espera terminal. Arrepia. Caminhar amparado em alguém quando alguém aparece, a cada passo um próximo ainda não desvanecido por completo mesmo que habite uma debilidade tão evidente e clara também, a comida que é tão desenxabida, a higiene confiada, que remédio tão duro de tomar, a outros. Ah, que a Luísa não fala, entrou em mutismo, tão ingrata. Que nada, que ideia é essa do humano?, o silêncio pertence-lhe, o último direito que não podem roubar-lhe, e a única atitude digna é compaixão, o braço de ferro definitivo que pode ganhar. Um grito surdo de revolta, a devolução do bilhete, quando se toca a finitude. Regressar-se-à, ainda, conceder-se-à à vida um último passou bem, um olhar pela paisagem, uma visita surpreendente, um encontro de amigos. Mas há um imenso luto, pelo meio, que se pressente, que se lê num rosto, numa expressão, num silêncio denso, tenso, fundo. Esse silêncio, que tanto comunica, deve absolutamente ser respeitado, porque é a exposição mais nua que nenhuma máscara já evita. Um desamparo, uma súplica.