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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Ecologias políticas e culturais


Por que razão a direita mais à direita precisa desesperadamente do PSD?

Se deixarmos a competição por lugares nas listas de deputados, que não têm ideologia, sobra uma questão que tem a ver com a ecologia dos actuais conflitos no PSD. Não explica os conflitos, mas explica a razão pela qual os contestatários da actual direcção têm tão boa imprensa em tudo o que é de direita mais pesada em Portugal, ou seja a direita que vai da Aliança ao CDS, ao Observador, ao Sol, à alt-right nacional, e aos comentadores e autores de blogues que se apresentam como sendo "liberais", quando na realidade são conservadores e reaccionários. A razão é clara: precisam do PSD para lhes arranjar os votos para prosseguir com as suas políticas, visto que nenhum dos partidos e grupos dessa área tem votos suficientes para governar. E já tiveram, no mais que saudoso governo da troika-Passos-Portas. Por isso, há uma enorme orfandade por essas bandas, com o risco de perderem o instrumento que lhes permitiu virar a ecologia política do país, com efectivo sucesso.


O que mudou sem retorno

Há duas grandes diferenças na vida política portuguesa nos últimos dez anos, e essas diferenças marcam muito daquilo que é o actual contexto da acção política: a "geringonça" e o aparecimento e o acesso ao poder de uma direita muito à direita. São diferenças qualitativas que implicam mudanças profundas na vida política e, em ambos os casos, são diferenças sem retorno. Quem queira agir politicamente nos dias de hoje e não as percebe, comete erros. 
A "geringonça", acabando com uma longa história de impossibilidade prática de alianças à esquerda, tornou a espelhar a capacidade da esquerda de aceder ao poder, que já existia à direita, por via de alianças e acordos parlamentares. A direita era capaz de se unir, e a esquerda não. Mas acabou: hoje só se acede ao poder tendo uma maioria absoluta. E isso torna vital a aliança PSD-CDS, a todos os níveis do processo eleitoral, para potenciar os resultados. 
O segundo factor é igualmente novo. Nos últimos 10 anos a esquerda perdeu a hegemonia do debate político e ideológico e, mesmo com a "geringonça", continua a perder. A corrupção dos governos socialistas, o caso Sócrates e a bancarrota, tudo contribuiu para abrir um terreno para que crescessem os embriões, até então isolados, de um pensamento de direita radical. Esses embriões germinaram nos anos da troika encontrando condições para influenciar think tanks, universidades, jornais, televisões, blogues e redes sociais com grande dinamismo. Com a troika a encontrar um governo muito próximo ideologicamente da sua visão da economia e da sociedade, e esse governo a usar a troika e a situação extraordinária do "ajustamento" para fazer engenharia social, estes sectores não só influenciaram o poder, como acederam ao poder. Ganharam, do ponto de vista político, mas também, o que é mais importante, mudaram a economia da cultura política a favor da direita


José Pacheco Pereira, Sábado, nº769, 24/01/2019, p.32-33.