
"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
terça-feira, 11 de julho de 2017
Epistocracia (IV)
Uma das formas de sufrágio epistocrático restrito requer que os votantes potenciais passem num exame de qualificação. Este exame podia ser aberto a todos os cidadãos independentemente dos seus enquadramentos demográficos. O exame filtraria os cidadãos fortemente desinformados ou ignorantes relativamente à eleição, ou que carecessem de conhecimento sociológico básico. Os Estados Unidos, por exemplo, podiam requerer que os cidadãos passassem no exame de cidadania, ou tivessem uma classificação de três ou mais nos exames de Advanced Placement de Economia e de Ciência Política. Em alternativa, o teste podia ser inteiramente não ideológico. Podíamos simplesmente requerer que os potenciais votantes resolvessem alguns problemas lógicos e matemáticos, ou fossem capazes de identificar 60 por cento dos países do mundo num mapa. Neste caso, o exame não testaria directamente o conhecimento mas coisas que pudessem estar positivamente correlacionadas com conhecimento político.
É provável que seja impossível conceber um exame que testasse precisamente o conhecimento necessário para qualquer eleição específica. Afinal o que está em causa, e portanto que conhecimento é necessário, varia de eleição para eleição. Além disso, o que conta como conhecimento relevante é razoavelmente discutido. Isto não se destina a negar que haja uma verdade sobre a qual o conhecimento é relevante (...) É possível que um exame eficaz de qualificação de votantes exija testar conhecimento sociológico básico, como matérias de Introdução à Microeconomia e Introdução à Ciência Política. Para encorajar (...) a tornar-se bons votantes, os governos poderiam oferecer incentivos aos cidadãos que conseguissem passar no exame e obter direito de voto. Por exemplo, o governo poderia oferecer um prémio: qualquer pessoa que se qualificasse para votar obtinha um crédito de imposto de mil dólares. (...) Num regime de voto plural (...) um cidadão poderia obter mais votos por desenvolver certas acções, passar em certos exames ou mostrar competência e conhecimentos de outra forma (...) Podíamos dar a todos os cidadãos um voto aos dezasseis anos, atribuindo mais dez votos aos cidadãos se passassem no exame de qualificação de votante.
Jason Brennan, Contra a democracia, Gradiva, 2017, pp.295-297
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Roma (Antiga) (V)
Roma (antiga) e o Cristianismo:
Provavelmente Plínio [advogado, defensor, ex-cônsul, novo governador da Bitínia, em 109 d.C. nomeado pelo Imperador] e Trajano [Imperador] teriam ficado surpreendidos ao descobrir que, dois mil anos mais tarde, a sua mais famosa troca [epistolar] estaria relacionada com o aparentemente insignificante, mas desagradável e desgastante, novo grupo religioso: os cristãos. Plínio admitiu que não sabia como lidar com eles. Para começar dera-lhes várias oportunidades para se retratarem e executara aqueles que não o faziam («a sua teimosia e obstinação inflexível devem, sem dúvida, ser castigadas»). Contudo, foram-lhe trazidos muitos mais nomes, à medida que as pessoas começaram a tentar resolver velhas disputas acusando os seus inimigos de serem cristãos. Plínio continuou a permitir aos que eram investigados que se retratassem, desde que provassem a sua sinceridade derramando vinho e incenso à frente das estátuas dos imperadores e dos verdadeiros deuses. Mas para descobrir o que estava no fundo de tudo aquilo, ordenou que duas escravas cristãs fossem torturadas e interrogadas (tanto na Grécia como na Roma antigas, os escravos só podiam apresentar testemunhos legais sob tortura) e concluiu que o cristianismo «não é mais do que uma superstição perversa e rebelde». Ainda assim, desejava que Trajano confirmasse que aquela fora a abordagem certa. E foi mais ou menos isso que o imperador fez, embora tivesse acrescentado uma nota de prudência: «Os cristãos não devem ser perseguidos», escreveu, «mas se forem acusados e considerados culpados, têm de ser castigados». Esta é a mais antiga discussão sobre o cristianismo, fora da literatura judaica e cristã, a ter chegado até nós. (...) [As cartas de Plínio] apontam para dilemas mais vastos acerca das relações oficiais com os cristãos que, com o passar do tempo, se tornariam um dos conflitos mais desagregadores do mundo romano.
Mary Beard, SPQR, pp.521-523
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Da política (IX)
Desde meados dos anos 70 que os melhores estudos mostram o declínio do voto classista. O eleitorado torna-se, pois, mais volátil, faz demandas mais complexas e fragmentadas. Mais difícil, assim, a resposta dos partidos, formatados como partidos-contentores, no pós-modelo fordista, em que tu está em su sítio. Decai, ainda, o voto ideológico, programático e a personalização é a pedra de toque. Com o plus de esta não recair em representantes conhecidos, mas em produtos fabricados pelo marketing, gente longínqua que nos chega pelos ecrãs. E, no entanto, os que acreditavam nas promessas miríficas de uma sociedade totalmente horizontalizada, e uma democracia direta na internet, certamente perceberam que partidos não organizados - aparentemente mais fashion e sedutores, sem a carga pesada de outrora - potenciam, por paradoxal que pareça, a liderança autoritária e despótica (a ausência de regulamentos, a ausência de baias, corpo doutrinário a que obedecer, que se intrometam entre a vontade de poder de quem quer exercê-lo totalmente e os direitos e interesses dos representados: "a organização é a arma dos fracos contra o poder dos fortes"). Da esquerda digital à direita que pretende enfraquecer os mecanismos de exigências sociais, o espaço político vem sendo desregulado. Por vezes, partidos monotemáticos, sem ideologia, irrompem em cena. A diferença (necessidade de reconhecimento) como o tópico que parece suplantar, no espaço político, a desigualdade (necessidade de redistribuição) como factor determinante das lutas hodiernas (não é só a economia...). Como que só assentindo na diferença se encontrasse maior igualdade. Como se a diferença entre direitos individuais e colectivos tivesse deixado de fazer sentido (não podendo ser olhados de modo cindido: "os culturalmente excluídos costumam ser economicamente excluídos (...) não existem zonas puramente económicas nem espaços exclusivamente culturais", p.70). No equilibro precário entre o comunitarismo e a privatização das identidades. Exigindo lideranças sensíveis, em que o psicológico conta, em que a articulação do pluralismo é o grande desafio.
[a partir de Daniel Innerarity, A política em tempos de indignação, D.Quixote, 2016]
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Pensar sem fim e o regresso à 'banalidade do mal'
Fundamental ler o texto
citado no post precedente, para se compreender o sentido deste artigo de
opinião, que, de resto, cita directamente Browning:
El
malentendido sobre Hannah Arendt
La película de
Margarethe von Trotta sobre la filósofa alemana ha despertado una nueva ola de
críticas contra su libro ‘Eichmann en Jerusalén’. El problema es que muy pocos
de sus detractores lo han leído
Cuando en 1961 se
celebró en Jerusalén el juicio del líder nazi Adolf Eichmann, la revista The New Yorker escogió como enviada
especial a Hannah Arendt, una filósofa judía de origen alemán exiliada en
Estados Unidos. Arendt, que se había dado a conocer con su libro Los orígenes del totalitarismo, era una
de las personas más adecuadas para escribir un reportaje sobre el juicio al
miembro de las SS responsable de la solución final. Los artículos que la
filósofa redactó acerca del juicio despertaron admiración en algunos (tanto el
poeta estadounidense Robert Lowell como el filósofo alemán Karl Jaspers
afirmaron que eran una obra maestra), mientras que en muchos más provocaron
animadversión e ira. Cuando Arendt publicó esos reportajes en forma de libro
con el título Eichmann en Jerusalén y
lo subtituló Sobre la banalidad del mal,
el resentimiento no tardó en desatar una caza de brujas, organizada por varias
asociaciones judías estadounidenses e israelíes.
Tres
fueron los temas de su ensayo que indignaron a los lectores. El primero, el
concepto de la “banalidad del mal”. Mientras que el fiscal en Jerusalén, de
acuerdo con la opinión pública, retrató a Eichmann como a un monstruo al
servicio de un régimen criminal, como a un hombre que odiaba a los judíos de
forma patológica y que fríamente organizó su aniquilación, para Arendt Eichmann
no era un demonio, sino un hombre normal con un desarrollado sentido del orden
que había hecho suya la ideología nazi, que no se entendía sin el
antisemitismo, y, orgulloso, la puso en práctica. Arendt insinuó que Eichmann
era un hombre como tantos, un disciplinado, aplicado y ambicioso burócrata: no
un Satanás, sino una persona “terriblemente y temiblemente normal”; un producto
de su tiempo y del régimen que le tocó vivir.
Lo
que dio aun más motivos de indignación fue la crítica que Arendt dispensó a los
líderes de algunas asociaciones judías. Según las investigaciones de la
filósofa, habrían muerto considerablemente menos judíos en la guerra si no
fuera por la pusilanimidad de los encargados de dichas asociaciones que, para
salvar su propia piel, entregaron a los nazis inventarios de sus congregaciones
y colaboraron de esta forma en la deportación masiva. El tercer motivo de reproches
fueron las dudas que la filósofa planteó acerca de la legalidad jurídica de
Israel a la hora de juzgar a Eichmann.
De
modo que lo que esencialmente provocó las críticas fue la insumisión: en vez de
defender como buena judía la causa de su pueblo de manera incondicional,
Arendt se puso a reflexionar,
investigar y debatir. Sus lectores habían esperado de ella un apoyo surgido del
sentimiento de la identidad nacional judía y de la adhesión a una causa común,
y lo que recibieron fue una respuesta racional de alguien que no da nada por
sentado. En palabras de Aristóteles, en vez de limitarse a ser una
“historiadora”, Arendt se convirtió en “poeta”.
Sus
adversarios llegaron a ser muchos; el filósofo Isaiah Berlin no quería ni oír
hablar de ella, y el novelista judío Saul Bellow afirmó que Arendt era “una
mujer vanidosa, rígida y dura, cuya comprensión de lo humano resulta
limitadísima”, aunque otra conocida escritora, Mary McCarthy, publicó en Partisan Review un largo ensayo en apoyo
de Eichmann en Jerusalén. Así, el
libro de Arendt generó en los sesenta toda una guerra civil entre la intelectualidad
neoyorkina y europea.
Ahora, medio siglo después
de la primera polémica, la realizadora alemana Margarethe von Trotta ha
ofrecido al público su película Hannah
Arendt, que ha despertado una nueva ola de reacciones contra el tratado de
la filósofa. Lejos de ser un documental sobre Arendt, esta “película de ideas”,
que se estrenó en mayo en Estados Unidos y en junio en España, enfoca el caso
Eichmann sirviéndose de escenas de su juicio en Jerusalén, extraídas de los
archivos. Otra vez en Estados Unidos y en Europa se ha despertado una
polémica, aunque más respetuosa con la filósofa, la cual, a lo largo de las
décadas, ha ido cobrando peso.
La
mayoría de los participantes en el debate actual sostienen que, en la
“banalidad del mal”, Arendt descubrió un concepto importante: muchos
malhechores son personas normales. En cambio, según ellos, Arendt no supo
aplicar adecuadamente ese concepto. Según lo expresó
Christopher Browning en New York Review
of Books: “Arendt encontró un concepto importante pero no un ejemplo válido”. Elke
Schmitter argumenta en el semanario alemán Der Spiegel que “la actuación en
Jerusalén fue un exitoso engaño”, y que Arendt no llegó a entender al verdadero
Eichmann, un fanático antisemita. Alfred Kaplan ha escrito en The New York Times que “Arendt
malinterpretó a Eichmann, aunque sí descubrió un gran tema: cómo las personas
comunes se convierten en brutales asesinos”.
Todos los críticos —y hay muchos más que los citados— invocan los documentos
hallados sobre Eichmann tras la publicación de Eichmann en Jerusalén y las investigaciones posteriores, y afirman
que Arendt en su época los ignoraba y debido a ello malinterpretó a Eichmann.
El problema es que —y
aquí subyace el primer malentendido— Arendt sí conocía, al menos
parcialmente, esos materiales, y su tratado los tuvo muy en cuenta. Dichos
documentos provienen de la estancia del jerarca nazi en Argentina, antes de que
allí le capturaran los servicios secretos israelíes: se trata de sus
memorias y apuntes, además de una entrevista. A partir de esos materiales, diversos estudiosos han publicado en
los últimos años nuevos ensayos sobre Eichmann y, por lo general, le dan la
razón a Arendt en el hecho de que Eichmann no era un maniático que odiaba a los
judíos, sino un hombre común. En
cambio, esos historiadores le echan en cara a Arendt su idea de que Eichmann
meramente obedecía órdenes.
Y
aquí está el segundo malentendido: la filósofa nunca sostuvo que Eichmann se
limitara a obedecer órdenes. En su libro, Arendt resaltó la rebelión de
Eichmann contra las órdenes de Himmler quien, al aproximarse la derrota,
recomendó un mejor trato a los judíos, mientras que Eichmann “se esforzó por
hacer que la solución final lo fuera realmente”, escribió Arendt.
La filósofa dibujó un minucioso
retrato de Eichmann como un burgués solitario cuya vida estaba desprovista del
sentido de la trascendencia, y cuya tendencia a refugiarse en las ideologías le
llevó a preferir la ideología nacionalsocialista y a aplicarla hasta el final.
“Lo que quedó en las mentes de personas como Eichmann”, dice Arendt, “no era
una ideología racional o coherente, sino simplemente la noción de participar en
algo histórico, grandioso, único”. El
Eichmann de Arendt es un hombre que, engañándose y convenciéndose a sí mismo,
está persuadido de que sus sangrientas acciones manifiestan su virtud.
Muchos
ensayistas y comentaristas no han entendido y siguen sin entender las ideas de
Arendt porque no han leído su libro, o lo han leído bajo la influencia de los
comentarios anteriores. Por eso el malentendido sobre Eichmann
en Jerusalén no acaba de disiparse y Hannah Arendt se ha convertido en una
autora de la que se habla mucho, pero a quien leen pocos.
Sus
ideas siguen molestando hoy como lo hicieron hace cincuenta años.
Nada en la historia es blanco y
negro, y los análisis de Arendt despiertan la animadversión de los que
prefieren explicárselo todo con esquemas simples que no permitan la duda ni
obliguen a reflexionar sin fin. Por
ello es más preciso que nunca ir a la fuente y leer a Hannah Arendt, porque
ella puso de manifiesto que el mal puede ser obra de la gente común, de
aquellas personas que renuncian a pensar para abandonarse a la corriente de su
tiempo. Y eso es válido también para los tiempos que vivimos.
Monika
Zgustova es escritora. Su última novela es La noche de Valia (Destino), ElPais, 09/08/13.
Da responsabilidade do povo alemão na Shoa
A crescente tomada de
consciência quanto ao Holocausto, tanto nos meios académicos como na sociedade
em geral tornou-se evidente em finais da década de 1970 e intensificou-se nos
anos 1980. (…)
Ainda
em falta estava um cuidadoso estudo empírico sobre a forma como a política
racial nazi foi também praticada pelos alemães ‘comuns’.
Dois
acontecimentos, ocorridos na década de 1990, alteraram esta situação. O
primeiro foi a publicação do meu livro Ordinary
Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland (trad. Literal
– “Homens comuns: O 101 Batalhão de Reserva da Polícia e a Solução Final na
Polónia”), em 1992, seguida, pouco tempo depois, pela obra de Daniel Goldhagen Hitler’s Willing Executioners: Ordinary
Germans and the Holocaust (trad. Literal – “Os solícitos carrascos de
Hitler: os alemães comuns e o Holocausto”), em 1996.
O
segundo acontecimento foi a exposição do Instituto de Investigação Social de
Hamburgo Guerra de Aniquilação: os crimes
da Wermacht, 1941-1944, que percorreu extensivamente a Alemanha de 1995 a
1999 e gerou, por um lado, uma elevada afluência, por outro, uma controvérsia
considerável. (…)
Ambos
os livros demonstraram que o homem alemão ‘comum’ – e não apenas os fanáticos e
ideólogos das SS, cuidadosamente selecionados e doutrinados – tinha-se tornado
um assassino em massa. Mas os dois livros divergiam significativamente na sua
tentativa de explicar este fenómeno de participação não coerciva. Eu enfatizei
os atributos universais da natureza humana e os factores sócio-psicológicos na
formação da dinâmica de grupos; factores como a conformidade, a deferência para
com a autoridade e a adaptação ao desempenho de certos papéis dentro de uma
unidade de ocupação estacionada em território inimigo durante os tempos de
guerra.
Goldhagen
enfatizou uma particularidade cultural alemã que assumiu a forma daquilo que
ele descreveu como um antissemitismo ‘eliminacionista’ profundamente arreigado,
que levou praticamente todos os alemães a desejar a morte dos judeus e depois a
eliminá-los com entusiástica crueldade quando lhes foi oferecida uma
oportunidade pessoal para isso. (…)
A
investigação daqueles que tomaram parte na perseguição nazi continuou ao longo
do novo milénio, basicamente confirmando e expandindo mais ainda, ao invés de
rectificar ou refutar as conclusões anteriores. Nenhum académico sério alguma
vez tentou discutir que o homem alemão comum se tenha
tornado num assassino em massa ou que a Wehrmacht – a instituição que moldou a
experiência e o comportamento daqueles que foram, de longe, os mais alargados
grupos de alemães na Segunda Guerra Mundial – estivesse profundamente implicada
na criminalidade nazi. Mas uma vasta panóplia de vastos estudos, baseados em
fontes inéditas e em abordagens inovadoras, aprofundou o nosso conhecimento e
compreensão sobre o assunto. Dois exemplos disso são os livros de Mary
Fulbrook, A small town near Auschwitz: Ordinary
nazis and the Holocaust (trad. literal – “Uma pequena cidade perto de
Auschwitz: o nazi comum e o Holocausto”), e da dupla Sonke Neitzel e Harald
Welzer, Soldaten: on fighting, killing,
and dying: the secret World war II transcripts of german POWs (trad.
literal – “Soldados do Terceira Reich: testemunhos sobre lutar, matar e morrer:
transcrições secretas das conversas dos prisioneiros alemães da Segunda Guerra
Mundial”).
Mary
Fulbrook convida-nos a ir além da distinção que coloca, de um lado, o alemão
ideologicamente motivado e o nazi puro e duro e, do outro, o homem alemão ‘comum’.
Ela
quer que tomemos em consideração o papel da figura híbrida, que ela apelida de ‘nazi
comum’, no Holocausto. No centro do caso por ela estudado está Udo Klausa, o Landrat (a principal figura civil da
administração local) do condado de Bedzin (Bendsburgo), e a sua mulher,
Alexandra. (…)
Que
tipo de pessoa era Udo Klausa e o que quer Fulbrook dizer com a expressão “nazi
comum”? (…)
“Apesar
do facto de Klausa, no seu âmago, ‘se sentir vinculado à religião cristã’, ele
não tinha, ‘de modo algum’, permitido que isto fosse um obstáculo para o seu ‘empenhamento
prático na causa do nacional-socialismo’ e para a sua preparação ‘no sentido de
dar o seu máximo pela obra do Fuhrer’.
Klausa
partilhava a mesma presunção de muitos dos seus concidadãos acerca do direito
da Alemanha ao domínio imperial na Europa de Leste sobre povos considerados
racial e culturalmente inferiores. Notoriamente alheado no que respeita ao
impacto humano das políticas raciais e de ‘germanização’ nazis junto dos judeus
e dos polacos, ele sentia ser uma pessoa ‘decente’ – não ‘verdadeiramente’ um
nazi – e um funcionário administrativo apolítico que estava envolvido ‘apenas e
só na administração’ do seu território. Através de um relato paralelo da
experiência vivida e do destino dos judeus de Bedzin, Fulbrook demonstra que
aquilo que era para Klausa era ‘apenas e só administração’ era, na realidade, a
implementação de políticas que humilharam, expropriaram, exploraram,
empobreceram, esfomearam, desterraram e, por fim, assassinaram os judeus de Bedzin
(…)
Quanto
à sua própria responsabilidade nos custos humanos provocados pelo facto de ter
administrado e levado a cabo a política nazi e de ter, assim, facilitado a
Solução Final, Klausa parecia alheio, tanto durante como após a guerra. (…)
Fulbrook
não é o primeiro historiador a descobrir o papel central dos implementadores e
coadjuvantes, que não fizeram as políticas nem mataram pessoalmente as suas
vítimas. Fundamentalmente na análise de Raul Hilberg sobre a destruição dos
judeus europeus, enquanto processo administrativo abrangente, foi a apreciação
que fez acerca da falange de burocratas cuja contribuição para definir,
expropriar, concentrar e transportar judeus foi essencial para a Solução Final.
No centro da estratégia de defesa de Eichmann, em Jerusalém, estavam os
esforços por estes enviados no sentido de se fazer passar por apenas mais um no
meio de muitos outros burocratas banais do género, uma estratégia que produziu
os efeitos pretendidos juntos de Hannah Arendt, mas não no tribunal de
Jerusalém ou junto de numerosos historiadores.
Arendt
apreendeu um conceito importante, mas não encontrou o exemplo certo. O que faz
do livro de Fulbrook um marco na historiografia do Holocausto não é, portanto,
a descoberta de uma nova categoria de perpetradores. O que ele tem de notável
é, por um lado, o excepcional acesso e recurso da autora aos documentos
pessoais da família de um desses perpetradores e, por outro, a habilidosa
justaposição feita da história destes com a aterradora realidade da experiência
judia em Bedzin. (…)
Dois
destes quadros de referência foram cruciais, afirmam Neitzel e Welzer. O
primeiro foi o Terceiro Reich e a sua ‘moralidade nacional-socialista’, baseada
numa fundamental desigualdade racial e no primado da ‘comunidade do Volk’ (‘Povo’) alemão sobre outros grupos de cidadãos, bem como acima do próprio indivíduo alemão.
O segundo foi a guerra, durante a qual cerca de 17 milhões de alemães prestaram
serviço nas forças armadas, e como elas se identificaram, e sustentaram os
valores militares, amplamente partilhados, da coragem, dureza e prontidão para
o sacrifício. (…)
Os
autores também sublinham que a compreensão histórica contemporânea da era nazi,
que coloca o Holocausto no cerne da questão, não foi a perspectiva através da
qual a maioria dos alemães – tanto soldados como civis – viram a Segunda Guerra
Mundial.
(Aliás,
Neitzel e Welzer podiam ter acrescentado que observar o Terceiro Reich e a
Segunda Guerra Mundial principalmente através do prisma do Holocausto só se
tornou preponderante, entre os profissionais da História e na sociedade em
geral, a partir da década de 1980). Mas as conclusões que os autores retiram
destas conversas, sub-repticiamente gravadas, quanto ao grau de consciência, às
atitudes tomadas e à participação dos soldados em crimes de guerra e no
assassínio de judeus são o ponto forte do livro. (…)
Em
conclusão, os autores sustentam que embora o Holocausto seja ‘um crime
historicamente único’ que domina a nossa compreensão actual da Segunda Guerra
Mundial, ele ‘não definiu o carácter da Segunda Guerra Mundial’. A maioria dos
50 milhões de vidas perdidas ‘não [foi] um resultado do Holocausto. Daí que
devesse ser o fenómeno da guerra, em si mesmo (e não as políticas e
comportamentos alemães específicos), o centro da nossa atenção.
Christopher R. Browning,
publicado originalmente na New York
Review, traduzido e adaptado por Adelaide
Cabral, QI, ano 2, nº100, Sábado, DN, 10/08/13, p.13-16.
(sublinhe-se como embora, ao longo do ensaio, Browning descreva várias situações/atitudes de diferentes personalidades retratadas nas obras que cita que se diriam conformarem, excepcionalmente bem, um comportamento passível de ser descrito como exemplificativo da "banalidade do mal", o autor entende que, no que respeita a Eichmann, tal conceito não se aplicaria).
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