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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

COMO CAIU MUSSOLINI


O momento crucial surgiu em finais de 1942, quando as forças aliadas forçaram a saída do Eixo do Norte de África, criando uma plataforma para libertar a Europa a partir do Sul, através da Itália. A deterioração da posição deste país reflectiu-se em mudanças no seu dirigente.
Nem o italiano comum, nem as forças armadas, nem o acossado rei desejavam ser associados ao Terceiro Reich. O paganismo transparente de Hitler não caía bem nos católicos e muitos resmungaram quando, em 1938, Mussolini permitiu os mesmos estatutos antissemitas aprovados anos antes na Alemanha. Mesmo os que adoravam o Duce, e talvez especialmente esses, não gostaram de o ver sócio minoritário de um racista teutónico (...) O Grande Conselho do Partido Fascista reuniu-se [em Julho de 1943] em Roma. (...) Enquanto ele [Mussolini] discursava os delegados fizeram circular furtivamente uma declaração propondo o restabelecimento dos plenos poderes constitucionais do rei e do Parlamento. O principal autor, Dino Grandi, estivera no início entre os companheiros mais militantes de Mussolini. Agora, levantava-se para enfrentar o antigo chefe:

O senhor acredita que conta com a devoção do povo, mas perdeu-a no dia em que amarrou a Itália à Alemanha. O senhor sufocou a personalidade de toda a gente sob o manto de uma ditadura historicamente imoral. Deixe-me dizer-lhe que a Itália se perdeu no dia em que o senhor colocou o galão dourado de marechal no seu boné.

A resolução de Grandi, posta à votação, foi aprovada (...) contando-se o genro de Mussolini entre os que pediam a mudança. O ditador infalível já não contava com o apoio do partido que tinha forjado na bigorna do próprio poder - e desta maneira uma votação de vinte minutos fechou a cortina sobre vinte anos de fascismo. Numa última tentativa de salvação, o Duce procurou obter uma renovada declaração de solidariedade por parte do rei - em vão. Durante mais de duas décadas, Vítor Emanuel curvara-se perante Mussolini porque sentia que não tinha outra opção e porque era cobarde. 
Agora, finalmente, as cartas mais altas tinham caído na sua mão. «Hoje, o senhor é o homem mais odiado de Itália», disse o rei ao visitante. «Se isso for verdade, apresento a minha demissão», foi a resposta. «E eu aceito-a incondicionalmente», declarou ainda Vitor Emanuel. 
As notícias sobre o fim de Mussolini foram recebidas com celebrações por toda a Itália. As fotografias emolduradas do ditador deposto foram retiradas das paredes aos milhares e deitadas nos caixotes do lixo; de repente, não havia nada mais difícil de encontrar do que um fascista confesso. (...) As tropas de Hitler ocuparam a parte setentrional do país e insistiram em que Mussolini fosse o chefe de um regime fantoche. Ele aceitou, infeliz, praticamente prisioneiro dos alemães. (...)
Nos dias finais da guerra, soldados americanos e comunistas italianos convergiram para o mal defendido quartel-general de Mussolini. O ditador caído fugiu, primeiro com a esperança de se encontrar com o que ele imaginava ser um resíduo substancial de seguidores preparando-se para resistir. Fracassado este plano, ele e os companheiros juntaram-se a alguns soldados alemães que estavam em fuga na direcção da fronteira austríaca. No dia 28 de Abril de 1945, apesar de ele envergar um sobretudo e um capacete da Luftwaffe, foi reconhecido por membros de um destacamento comunista. Um pelotão de fuzilamento matou-o, bem como a amante de longa data, Claretta Petacci, e outros membros do grupo, meteu os corpos num camião e despejou-os em Milão.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, 2018, pp.99-103

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Links


*Algoritmos e ética, do Prof.Arlindo Oliveira





*Baixas "fraudulentas"? A primeira notícia conveniente tinha por título: “Mais de metade das baixas na Educação foram fraudulentas”. Teve origem em dados divulgados pela Comissão Europeia, relativos a cerca de 3000 doentes, que juntas médicas mandaram regressar ao trabalho. Fraudulentas? Se uma junta delibera em desacordo com o médico que segue o doente, trata-se de uma fraude? Saberão os autores da notícia que a maioria dos médicos que integram as juntas são tarefeiros, cuja contratação arbitrária pela Segurança Social deixa legítimas reservas sobre o seu grau de autonomia? Que se guiam por tabelas de duração média das doenças? Tendo as depressões o peso que têm na classe docente, poderá uma pronúncia de escassos minutos derrogar o parecer de um psiquiatra, fundamentado em horas de consultas, ao longo de meses? À memória veio-me o caso escabroso do funcionamento de uma junta, que testemunhei, onde o mais inocente do processo foi o relatório final ser assinado por alguém que nem sequer esteve presente naquele acto médico. À memória vieram-me mais casos. De Manuela Estanqueiro, doente de leucemia, em estado terminal, mandada regressar às aulas na EB 2/3 de Cacia, por uma junta médica. Morreu um mês depois, em sofrimento atroz, para não ser despedida por faltas injustificadas. De Artur Dias, professor na Escola Secundária Alberto Sampaio, de Braga, vítima de um cancro na garganta, que uma junta médica mandou regressar às aulas, apesar de não ter laringe. Morreu três meses depois. De Manuela Jácome, professora de Faro, doente oncológica que, apesar de não ter um quarto do estômago, vesícula, baço, duodeno e parte do intestino, foi considerada, por uma junta médica, apta para dar aulas. (do Prof. Santana Castilho, hoje no Público)

*Salários de professores:  Por fim, a terceira notícia conveniente foi o dilúvio de mentiras que a divulgação do relatório Education at a Glance proporcionou. Dólares, euros e paridades de poder de compra foram alegremente misturados, atirados ao ar e caíram onde calhou, para serem traduzidos em letras de imprensa e sons de rádio e televisão. Por negligência ou pura malícia, mas sem que uma só voz soprasse dos lados do Ministério da Educação para repor a verdade e defender os professores, miseravelmente enxovalhados. O relatório coloca os salários dos professores portugueses no topo da carreira acima da média da OCDE. Mas os números apresentados são muito superiores aos reais e não têm em conta os anos em que as carreiras estiveram congeladas. Situação que determina que não há no activo um só professor no último escalão, o 10º. E quanto teria de vencimento líquido esse hipotético professor (não casado, sem dependentes), depois de um mínimo de 36 anos de serviço? Uns milionários 1989,70 euros. O relatório situa um professor com 15 anos de carreira no 4º escalão. Mas porque durante 9 anos, 4 meses e 2 dias as carreiras estiveram congeladas, ele está, de facto, no 1º escalão, com o invejável salário líquido de 1130,37 euros. Durante os tempos negros da austeridade, relatórios deste tipo lograram pôr escravos pobres, modernos, contra pobres escravos, antigos. António Costa disse-nos que a austeridade acabou. Mas os relatórios e os seus efeitos continuam. (Santana Castilho, Público)

*Sobre a pedofiliaComo penso que sobre qualquer matéria, tanto quanto possível, se deve procurar chegar o mais próximo possível da verdade das coisas, mesmo quando possam estar mais afastadas de concepções dominantes, ou que tenhamos sobre as mesmas matérias, aqui fica o texto, de há 3 dias, no Público, acerca da pedofilia e do que se está a fazer na Alemanha, a propósito de uma conferência organizada pela Faculdade de Medicina do Porto: https://www.publico.pt/2018/09/15/sociedade/noticia/como-evitar-que-um-pedofilo-se-transforme-num-abusador-1844107

O texto diz coisas que me parecem importantes (em havendo consenso científico) sobre este âmbito: 

a) a OMS considera a pedofilia uma doença;
b) "a pedofilia não é uma escolha, é um destino";
c) a pedofilia não tem cura;
d) a pedofilia não conduz, necessariamente, a abusos sexuais;
e) o sujeito com essa orientação sexual não está (pré)"determinado" a abusar sexualmente de crianças;
f) assim sendo, havendo esse abuso há culpa, porque houve liberdade;
g) não sendo a doença curável, é possível prevenir, tomar medicação, ter terapia para evitar a consumação da filia em abuso sexual;
h) há 1% da população com semelhante orientação

sábado, 15 de setembro de 2018

Yu Hua e a China


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Durante a Revolução Cultural chinesa, a par da opressão, da violência, das mortes, o desenvolvimento foi lento, os resultados económicos parcos. A desigualdade, contudo, diminuiu, com a excepção da disparidade cidade-campo que se manteve elevada. Para ilustrar quanto a "abertura e reforma" de Deng Xiaoping não só não alcançou resolver este problema, como o agravou, Yu Hua, em China em dez palavras (Relógio d'Água, 2018) conta-nos como em 2006, por altura do Mundial de Futebol da Alemanha, ao qual assistiram 100 milhões de telespectadores chineses (o record, a este respeito, havia-se cifrado nos mais de 200 milhões que televisionaram o Brasil-China de 2002), visitou uma zona muito pobre junto da cidade de Xining e levando consigo o objectivo de colocar crianças desfavorecidas a alegrar-se com um desafio de bola, ficou a perceber duas coisas: a) naquela zona, não havia lojas para se comprar uma bola (sendo que nenhum miúdo tinha uma); b) as crianças chamadas a campo não sabiam, nem nunca tinha ouvido falar acerca, da existência de um desporto chamado futebol. Isto, num país no qual, desde 1978, são transmitidos os mundiais e em que, nesse mesmo ano, surgiu uma liga de futebol chinesa
A disparidade entre o mundo urbano-rural, litoral-interior, ficaria ainda resumida, com especial eficácia, numa outra história: nas cidades costeiras chinesas, desde há muitos anos se bebia, com grande assiduidade, Coca-Cola. Pois os que viajaram do Interior para trabalhar no litoral, em alturas festivas em que regressassem a casa, ainda nos anos 90, levavam uma Coca-Cola como presente para os seus familiares/amigos, pois estes nunca tinham visto, e muito menos bebido, uma Cola.
Durante trinta anos consecutivos, a China cresceu, sucessivamente, a uma média anual de 9%. No entanto, ao segundo lugar na economia mundial, correspondia apenas o centésimo rendimento médio anual (à data da elaboração do livro, publicado originalmente em 2010). O número de multimilionários, de muito ricos, dos que ascendem ao mercado de luxo, confronta-se com a pobreza mais miserável (um filho pede uma simples banana aos pais, cujo dinheiro não chega para tal, pelo que a criança irrompe num choro tal que termina no desespero paterno e no suicídio deste; e logo depois deste, seguir-se-à o da mãe, na mesma noite, conta Yu Hua)
Se Mao não emparelhava com os ideais confucianos - e se Mao e Lu Xun, uma citação real ou inventada de qualquer um destes autores, esta última raríssima tal a heresia que representava, das referências dogmáticas chegava para resolver uma contenda, uma discussão em casa, ou com os amigos (sobre isso, o senhor Lu Xun disse que...), eram para seguir sem desvios -, e se uma das suas máximas, "a tudo o que o inimigo se opõe, nós devemos apoiar; a tudo o que o inimigo apoia, nós devemos opor-nos",p.126) era capaz de expressar enfaticamente quanto se vivia a preto-e-branco, com Deng Xiaoping, "não me interessa se o gato é preto ou branco, desde que apanhe o rato é um bom gato", ficava clara que a obsessão ideológica não era um motivo para a nova China. 
Depois de 32 anos consecutivos a ver crescer ininterruptamente o número de candidatos ao exame de acesso ao superior, em 2009 o ano foi de retrocesso a este nível. O número de alunos nas universidades, entre 1998 e 2006 quintuplicou. A subida das propinas foi ainda bem mais vertiginosa (aumentos entre os 25 e os 50%). Para as pagar, as pessoas das cidades necessitariam, face ao seu rendimento médio anual, de mais de 4 anos para as pagar; as do campo, de um pouco mais de 13 anos. As pessoas de poucas posses foram-se endividando para tentar um futuro melhor para os filhos, mas entretanto, na viragem da primeira década do séc.XXI o número de desempregados licenciados, na China, aumentava (1 milhão, na altura; dados divulgados no ano passado apontavam para uma taxa de desemprego de 5%, na China, em cálculos sempre muito questionados: ver aqui).
No livro de Yu Hua, não faltam, como por cá nas idades adolescentes, as comparações entre os ténis dos meninos dos colégios, que usam fardas iguais e, assim, se distinguem pelos Nikes de vanguarda que colecionam (conta, não já o Nike, mas o último air Jordan ou air Kobe). Um país que é um palco onde se encenam duas peças, uma comédia (rica), e uma tragédia (pobre). Nesta última, a demolição de casas, pelos governos locais, quando as famílias não aceitavam as migalhas da indemnização, com as pessoas arrancadas das camas, presas, levando socos - em cenas que, à época, podemos testemunhar em documentários que não faltaram para expor a ditadura -, evidencia como algo do espírito da Revolução Cultural não deixou de permanecer (por muito que se pretendesse apagar da História).

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Delírios do quotidiano


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Além de Mao Zedong, existiam outros quatro líderes. Na sala de aula da primeira classe, por cima do quadro, estava pendurado o retrato de Mao. Na parede de trás estavam os retratos de Marx, Engels, Lenine e Estaline. Foram os primeiros estrangeiros que vi na vida. (p.28)

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Uma rapariga da primeira classe da nossa escola dobrou algumas vezes um retrato de Mao, o que fez com que surgisse uma cruz de vincos sobre a sua cara. Por esta razão foi denunciada, e passámos todos a chamá-la de 'pequena contrarrevolucionária'. Na sessão de crítica, em frente de toda a escola, ela chorou convulsivamente e de forma desarticulada confessou o seu crime. (p.29)

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Depois desta sessão o professor reuniu a turma da primeira classe, pedindo-nos para expor os outros pequenos contrarrevolucionários que se escondiam entre os colegas. Lembro-me de dois colegas que foram denunciados. O primeiro nome não reconheci, só depois de o professor falar algum tempo é que percebi que se tratava de uma criança de três anos, denunciada por um vizinho, por ter proferido uma frase reacionária. Um dia, ao início da noite, disse: "O Sol pôs-se". Na época, as pessoas referiam-se frequentemente a Mao como o "Sol Vermelho", consequentemente não se podia dizer "sol" de forma casual. Assim, quando anoitecia, declarava-se "o céu está a escurecer. Ao dizer que o Sol se pôs, aquela criança estaria a sugerir que Mao fora derrubado. (p.29)

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Durante a Revolução Cultural não foram apenas os poemas de Mao que foram adaptados para canções, o mesmo aconteceu com vários excertos do seu livro de citações. Estas músicas eram cantadas por adultos e crianças, assim como por académicos e analfabetos. Não só as massas populares as sabiam de cor, como também os donos das terras, camponeses ricos, contrarrevolucionários, maus elementos e direitistas. Podemos assim concluir que Mao Zedong foi seguramente o letrista mais influente da história da China.
Ao mesmo tempo, os versos e as citações de Mao estavam em toda a parte, rodeando cada momento das nossas vidas. Da cidade ao campo, dos muros de tijolo às paredes de terra, dentro e fora das casas, tudo estava forrado com as palavras de Mao, e também com o seu retrato em que aparecia irradiando luz e brilho como o Sol vermelho. As tigelas onde comíamos tinham escrito: "A revolução não é uma refeição com amigos", e nos copos onde bebíamos água estava escrito o verso de Mao: "Ah, o sabor das águas de Changsha, e agora comer o peixe de Wuchang". As palavras de Mao eram presença constante nos nossos dias, e na hora de dormir deitávamos a cabeça numa almofada com a inscrição "nunca esquecer a luta de classe", e tapávamo-nos com lençóis que diziam "avançar com coragem face ao vento e às ondas".
Nas paredes das casas de banho havia retratos de Mao, e nas cuspideiras estavam escritas algumas das suas citações mais famosas. (p.35)

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Durante a Revolução Cultural, um homem da nossa vila foi a Pequim e, ao regressar, contou que tinha apertado a mão ao Presidente Mao. Com lágrimas nos olhos, disse-nos: "O Presidente Mao apertou-me a mão e, com grande afecto, perguntou-me o meu nome. No total, segurou a minha mão por mais de quatro segundos, mas depois outra mão puxou-o para longe". Em seguida, lamentou-se: "Por pouco não foram cinco segundos...".
Como é evidente, este homem tornou-se herói da vila, e via-o frequentemente a passar na rua muito feliz, sempre com uma mochila militar às costas. Como a sua mão direita tinha tocado na mão de Mao, ele não a lavou durante um ano, até que a certa altura parecia maior do que a mão esquerda, assemelhando-se à pata de um urso de tão escura e suja que estava. As pessoas que o conheciam corriam para apertar aquela pata de urso, e depois exclamavam com satisfação: "Apertei uma mão que apertou a mão do Presidente Mao!".
Depois de crescer, quando conversava com amigos de outras zonas do país sobre as nossas experiências da Revolução Cultural, costumava contar esta história. No entanto, rapidamente percebi que toda a gente conhecia um homem destes na sua terra, e às vezes até mais do que um. Comecei a desconfiar da veracidade da história que o herói da minha vila contou, pois era impossível ser assim tão fácil apertar a mão de Mao Zedong. O mais provável é ele ter apenas visto Mao ao longe, no meio das grandes massas que se juntavam na praça de Tiananmen. Talvez tenha visto a mão do líder e depois tenha imaginado que deram um aperto de mão. Mais tarde, quando toda a gente da vila acreditou sem reservas na sua história, é possível que ele próprio também tenha passado a achar que era verdade. (p.37)

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A minha mulher contou-me que na sua vila havia um presidente de um sindicato que tinha o apelido de Mao. As pessoas da vila tratavam-no por "Presidente Mao", e ele naturalmente respondia. Consequentemente, foi derrubado durante a Revolução Cultural, sendo o seu crime fazer com que no mundo existissem dois presidentes Mao. Este homem caiu em desgraça e, sentindo-se injustiçado, defendia-se em lágrimas dizendo que eram os outros que o chamavam por esse nome, ele nunca afirmou ser esta a forma como o deviam tratar. As massas revolucionárias que o denunciaram retorquiram: "Os outros podem chamar-te assim, mas tu não podes responder. Ao responder por esse título estás a assumir o teu carácter contrarrevolucionário" (p.27)


Yu Hua, China em dez palavras, Relógio d'Agua, Lisboa, 2018. A tradução é de Tiago Nabais, o livro foi publicado originalmente em 2010 (embora esta seja a 1ªedição em português).


sábado, 17 de março de 2018

Um esforço de democracia


Pensar fora da caixa ou seja fora do "economês" da troika

Aquilo que talvez mais distinga a possibilidade de se poder andar para a frente num país como Portugal é a capacidade de sair do pensamento, do vocabulário, do argumentário, da política e mesmo da filosofia dos anos da troika e da herança ainda demasiado viva e poderosa do “economês” da troika. Os anos de lixo que vivemos são--nos apresentados como tendo sido um período de resistência “reformista”, quase heróico, após a bancarrota, atravessando todas as dificuldades e conseguindo no fim “sair” sem consequências de maior e ainda por cima “mais bem preparados” para o futuro imediato, “permitindo” a “coragem” “passista” a recuperação “costista”. Teria sido um período de “verdade” da nossa economia e sociedade, uma espécie de limpeza lustral de tudo aquilo que nos tinha “afundado” na bancarrota, o Estado, o despesismo, o “viver acima das suas posses”, os excessos sindicais, o crescimento da função pública, o “socialismo”, a “social-democracia”, e a corrupção BES-Sócrates, e uma sociedade de “direitos adquiridos”, ou em que os mais velhos exploravam “injustamente” os mais novos, porque tinham reformas e pensões. PUB Eu quase que tenho que pôr todas as palavras entre aspas para indicar que o seu uso é ideológico, e sem qualquer correspondência com a realidade, e que remetem para um universo orwelliano de manipulação das palavras e das ideias. Nem houve reformas, o que houve foi um “brutal aumento de impostos” de que ainda não saímos, nem podemos sair, visto que ele é a coluna vertebral do cumprimento das chamadas “regras europeias”. Nem houve qualquer “recuperação” estrutural da nossa economia, muito menos resultante das “reformas” laborais que tornaram ainda mais desigual a relação entre patrões e trabalhadores, nem houve qualquer diminuição do peso do Estado na economia, bem pelo contrário. E pagou-se um preço caro na institucionalização à margem da vontade popular e da Constituição, de uma servidão a uma certa política europeia, com perda de poderes dos parlamentos e de soberania. Há três pressupostos que não vou desenvolver aqui, mas sem os quais não se pode pensar fora da caixa da troika: a democracia é um regime frágil face à barbárie; o objectivo da “boa” política é garantir que as pessoas melhorem a sua vida enquanto a vivem; e um desses aspectos básicos da “melhoria” é dar-lhes mais poder, permitir o “empowerment” individual, social e colectivo, assente na procura da igualdade social, cultural e política. É tão simples como isto: ou se luta por estas coisas, ou perde-se democracia, riqueza e igualdade. Tudo o que se perdeu nos anos de lixo da troika. Ah!, e não era inevitável que fosse assim, podia ser de outra maneira, mas não foi, e esta é a mais importante mentira que deve ser combatida. Nenhum destes pressupostos é adquirido, e uma das coisas que o “economês” da troika fez foi atacá-los. Atacou a democracia, subordinando-a um determinado tipo de política económica e social apresentado como sendo a “realidade” que não se podia mudar. É difícil imaginar melhor forma de autoritarismo do que chamar para o seu lado a “realidade”. É como dizer que Deus estava ao lado da economia neoliberal. Atacou a democracia pondo em causa a soberania nacional — sim, é um valor da democracia face ao não democrático processo da União Europeia e do Eurogrupo —, diminuindo o poder do Parlamento e desse modo desvalorizando a liberdade do voto popular, que passa a ser de primeira, nos partidos europeístas, e de segunda nos que criticam o caminho seguido pela Europa. Atacou a democracia propondo sistematicamente legislação inconstitucional e criticando o Tribunal Constitucional pelo seu papel na defesa da legalidade. Atacou o “melhorismo”, disfarçando transferências de bens e recursos entre grupos sociais no presente, empobrecendo uns e enriquecendo outros, com argumentos neomalthusianos sobre o “futuro”. Atacou e desprezou a mobilização dos cidadãos, remetendo-a para um limbo de ineficácia, tentando destruir todos os instrumentos de mediação, enfraquecendo o seu papel na defesa de direitos conquistados. Estamos tão viciados na maneira de pensar ao modo da troika que não somos capazes de colocar as prioridades no sítio certo. No debate sobre a Segurança Social, por exemplo, uma das áreas mais devastadas por várias crendices neomalthusianas, a questão da “sustentabilidade da Segurança Social” aparece sempre em primeiro lugar, com o pressuposto a reboque de que dar-lhe “sustentação” é “poupar”, a expressão orwelliana dos anos da troika para “cortar”. E se experimentássemos pensar de outro modo, o modo como um democrata-cristão, um social-democrata e um socialista podem pensar, se forem fiéis às suas fontes? Sim, é preciso reformar a Segurança Social e para isso primeiro que tudo é preciso que ela “segure” quem mais precisa, é preciso maximizar essa “segurança” para os mais pobres, os mais velhos, os mais desprotegidos. Experimentem começar por aí e verão que mesmo com os actuais recursos é possível fazer muito melhor e “dar”, outra palavra maldita, mais às pessoas que precisam. E, depois, e só depois, pensar como isto se pode fazer de forma sustentável, vendo que recursos se podem trazer para a Segurança Social e como é que se pode racionalizá-los e poupar sem aspas. É que não se chega aos mesmos resultados, se se começar por um lado ou por outro, porque a Segurança Social não é uma coisa neutra em cima de uma mesa sujeita apenas a leis da economia, se é que existem, e da “realidade”, mais uma construção social, atrás da qual estão muitos anos de luta e sacrifício, sem aos quais não existia. E não existia, porque tem adversários e inimigos, e tem políticas e políticos que, em nome da sua visão da sociedade e da economia e do modo com gerem ou são “capturados” por diferentes interesses, não consideram prioritário que haja uma rede universal que proteja as pessoas e proclamam que isso é “socialismo”. O debate à volta do Obamacare nos EUA pode ensinar-nos a perceber com clareza como é que se movem interesses e políticas na questão da Segurança Social ou da Educação ou da Saúde. Para o PS, que é hoje no plano prático um muito capaz defensor do “economês” da troika, mas em particular para o PSD, ainda subordinado aos mitos do papel do “passismo” e preso na sua herança, é vital que se passe e pense à frente para fora da caixa da troika. Sejam mais radicais a pensar e depois moderados na acção, como é apanágio da democracia. Pensem sem a “realidade” com que vos querem manietar e que não é realidade nenhuma, mas um quadro político e ideológico que devastou a alternativa política na Europa, reforçou o populismo, abriu uma crise em todos os sistemas políticos e, acima de tudo, tirou o poder às pessoas e empobreceu-as. Pensem com seriedade e profundidade o caminho desastroso da Europa, e o modo como evitá-lo, sem tabus. Não vão conseguir fazer tudo e muito menos ao mesmo tempo, mas experimentem e vejam os resultados. Não é assim muito difícil. Basta começar por outro lado, por um lado diferente, onde há muito mais pessoas e menos abstracções, menos dinheiro mas mais trabalho, mais vontade de igualdade do que de poder. Talvez um dia de manhã, naquela hora de pensamento mais livre, aquela a que os anarquistas chamavam a “bela aurora”, percebam como é o mundo se pensado fora desse terrível molde.

José Pacheco Pereira, Público, 17-03-2018

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

No comments (IV)



Adenda: "O direito à denúncia de situações pouco claras, imorais e até ilícitas é inalienável. Próprio das democracias. Fingir que não se passa nada é que não é. O silêncio das pazes podres só interessa a quem delas tira proveito" (André Pipa, ABola, 27-09-2017, p.37)

domingo, 18 de outubro de 2015

Lutas justas



No Expresso, José Eduardo Agualusa traça a actual luta de Luaty Beirão como a mais grave crise para a cúpula do poder angolano desde a independência do país e geradora da maior turbulência social desde o fim da guerra civil. Uma frente contra o poder dirigido por José Eduardo dos Santos, capaz de juntar elites culturais, filhos de antigos membros do regime, diplomados no estrangeiro nas melhores universidades e que assim se juntam aos mais fustigados socialmente. Uma rede que perpassará a diáspora angolana, colocando, em especial desde os tempos que se seguiram às primaveras árabes, a agenda democrática no centro dos debates. Nicolau Santos associa uma decadência, que vê nas sugestões de saída de postos-chave da sociedade angolana feitas pelo ainda Presidente, mas negada pelas personalidades solicitadas a abandonarem os seus cargos, às dificuldades económicas que a baixa do preço do petróleo fez o país sentir, a tremideira por que passa o regime de Dos Santos. A peça do Expresso não deixa de tocar na vergonha do silêncio das autoridades portuguesas face à cilada montada ao cidadão (também) português, Luaty Beirão, filho de uma antiga figura destacada do regime angolano, quando viajou, pela última vez, para Lisboa. E o silenciamento da situação esteve longe de se confinar ao poder político, mas que teve, igualmente, acolhimento mediático.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mestres (VI)



"A beleza é o carácter", concretiza, em fórmula depurada, a definição solicitada, Wole Soyinka. É mesmo isso. O homem que esteve preso dois anos, pela ditadura nigeriana, encontra prazer, mas não beleza na sexualidade, no orgasmo. Na cadeia, nunca foram tais temáticas que solicitaram a sua atenção. Motivo de consolação, aí, as obras de arte entranhadas em si, em especial a música, sinfonias sabidas de cor que interiormente percorreu e o salvaram, num silêncio preenchido, na prisão. Além disso, muito logicamente, precaveu-se, lutando para encontrar as fórmulas, equações matemática aprendidas na escola para preservar a sanidade mental, ocupando-lhe muito tempo. Um ofício. Mas, momento belo, na cadeia, ele que viu seus semelhantes agrilhoados, nos pés, a caminho do enforcamento, foi escutar, certo dia, sem aviso, os seus companheiros naquele lugar inóspito, cantarem, cantarem colectivamente, canções tradicionais e outras, cristãs. Uma força que assim se afirmava, ainda que não agressiva.
Saberá Soyinka, o Nobel da Literatura de 1986, porque é que quem leu Rilke e ouviu Beethoven foi capaz, no momento seguinte, de torturar (a grande questão de Steiner)? Tal como Rilke quis aceder ao âmago, à essência (pura) da poesia, os carrascos podem ver-se no papel de escultores de uma humanidade purgada de elementos não puros, perfeitos. O mesmo quanto à exaltação, harmonia e perfeição, dimensão visionária em Beethoven: a transposição dessa perfeição cabia ao verdugo. Soyinka conheceu-o de perto: aquele julga que a humanidade se divide em escumalha e elite, e, obviamente, pertence a este segundo grupo, pelo que cumpre-lhe pôr fim ao restante conjunto (de [sub-]humanos).
O pressuposto de que a vida vale a pena não lhe interessa. Parece-lhe isso: um pressuposto, um a priori que rejeita. Vive-se e pronto. Sem fatalidade, cabendo a cada um cumprir o seu destino (moldá-lo). 
Para a religião yoruba, a que pertence, há três esferas inter-relacionadas: a dos que não nasceram, a dos vivos e dos mortos.
A conversa começara pela indagação acerca de uma eventual percepção do belo pelos animais (maxime, pavão), ou se se trata de propriedade - a percepção - dos humanos. Na infância, já Soyinka retirava consolação da literatura e da Natureza - estando a sós com ambas; gostando, ainda, hoje, de uma hora no mato, para descansar; gostando, ainda, da caça.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Papelão (II)




P. ¿Intentaron colaborar con otros países endeudados?
R. No, porque dejaron muy claro desde el principio que era nuestros peores enemigos, sobre todo si lográbamos un acuerdo más favorable para Grecia que les dejara en mal lugar ante sus propios ciudadanos.

sábado, 7 de março de 2015

Bons exemplos: um "social-democrata de inspiração cristã"




Afora o concílio, o momento mais empolgante da vida da Igreja foi a publicação, em Abril de 1963, da encíclica Pacem in Terris por João XIII, que assinalou o fim da desconfiança (provocada pela filosofia do século XVIII e pelas correntes laicistas) perante a proclamação dos direitos do homem e da democracia e que continha, ela própria, uma verdadeira declaração de direitos (...) 
O salazarismo estava nos antípodas destes ensinamentos. A Pacem in Terris teve um impacto enorme em todo o mundo, católico e não católico, mesmo se a paz no interior de cada povo e entre os povos fosse continuar longínqua. Também na minha geração universitária, em Portugal, ela alertou consciências, serviu de estímulo para grupos de reflexão, esteve na base da Cooperativa Pragma (depressa encerrada pela PIDE) e, em conjunto, com o concílio, para o trabalho pioneiro e desinteressado de António Alçada Baptista e da Livraria Morais. (...)
Fui, entretanto, acrescentando à democracia como forma de governo a consideração de uma democracia também social, em que, em vez de uma pretensa ordem natural da sociedade e da economia, se pudesse enfrentar as desigualdades injustas e bem visíveis no acesso aos bens indispensáveis à vida, à educação, à saúde, ao bem-estar; em que, sem perda da liberdade política, se afirmasse um princípio de solidariedade. Mais: fui-me convencendo de que a própria democracia, para ser autêntica e efectiva, exigia que todos os cidadãos, tendo acesso a esses bens, pudessem tomar parte inteira na tomada das decisões colectivas. Apenas assim o poder seria assumido e exercido por todos.
Foi uma evolução natural, quase intuitiva, de um pensamento mais maduro. Porém, fui estimulado por encíclicas como a Mater et Magister de 1961 e a Populorum Progressio de 1967 («o desenvolvimento integral do homem implica o desenvolvimento solidário da humanidade»); estimulado por livros tão diversos como O personalismo, de Emmanuel Mounier; Pour Une Théologie du Travail de M.-D.Chenu, Geopolítica da Fome de Josué de Castro, O Estado do Futuro de Gunnar Myrdal, A democracia de Georges Burdeau e tantas outras obras, inclusive algumas literárias que fui lendo; estimulado ainda por conversas e encontros na universidade.
Nunca simpatizei com as correntes marxistas-leninistas, quer por razões religiosas e filosóficas, quer pela prática ditatorial dos regimes que delas se reclamavam, quer pelas intervenções soviéticas em 1956 na Hungria, e em 1968, na Checoslováquia (...)
Durante algum tempo considerei-me um democrata-cristão na linha de Giorgio La Pira. Com a deslocação progressiva dos partidos democrata-cristãos para a direita (apesar da «abertura à esquerda» feita na Itália em 1963) e com o abandono do marxismo pelo SPD, na Alemanha, e o programa de Bad Godesberg, passei a ver-me mais próximo dos partidos social-democratas e trabalhistas. Tornei-me um social-democrata de inspiração cristã e é isso que tenho sido desde então.

Jorge Miranda, Da Revolução à Constituição - memórias da Assembleia Constituinte, Principia, Cascais, 2015, 29-33.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Crítica




Lendo, hoje, a crítica que Gonçalo Mira faz, no Público, às últimas obras publicadas por Gonçalo M.Tavares, ou atentando no que escreveu, no ExpressoPedro Mexia sobre a tradução de Não sabemos mesmo O que interessa, de Paul Celan, parece estar a perder pertinência aquela crítica que Pacheco Pereira fazia a recensões de livros que, em Portugal, só diziam bem (dos recenseados; dos livros e seus autores); "em Portugal, não há livros maus" (atirava, com sarcasmo, JPP). Na medida em que atribuía tal postura a uma mentalidade tributária do medo do conflito, legado por décadas de ditadura, significarão estes exemplos, que contrariam a sua tese, uma corrente em que o respeitinho já não está, ou está menos, presente? Mudança de mentalidades?