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domingo, 24 de setembro de 2017

Na universidade (portuguesa) (II)


A valorização social do emprego como fim último, se não único, da educação universitária revela uma aspiração social pobre. (...) É, todavia, de notar que o nível de emprego dos licenciados portugueses é estatisticamente alto, e que o benefício financeiro projectável de uma formação universitária em Portugal é dos mais significativos no espaço europeu [o salário de um trabalhador com licenciatura universitária correspondia em média em Portugal (dados de 2014) a 231% do de um trabalhador com o ensino secundário. A média da OCDE era de 183%; a fonte é a OCDE no seu Education at a Glance 2016]. (...) O que possa decorrer da obtenção de um vínculo de emprego, que consecução de outros fins possa ele permitir, é, contudo, deixado cepticamente no limbo das interrogações desnecessárias, ou considerado um exclusivo bem privado de quem consiga obtê-lo. A empregabilidade que o Estado defende como valor ignora a noção socrática de que uma vida não examinada não merece ser vivida. Ao ser tomada como virtude abstracta de qualquer actividade que a assegure, a empregabilidade igualiza toda e qualquer actividade, e obscurece a diferença de valor que diferentes formas de trabalho humano possam ter para quem as pratique.
Este zelo pragmático do Estado, que o debate público sobre educação genericamente perfilha, elege como fim maior, se não exclusivo, de um curso profissional as «saídas profissionais» que possibilita. Nenhuma ideia de educação minimamente robusta subjaz a este entendimento, que ignora qualquer valor intrínseco que a educação possa ter. O diploma concedido a um licenciado na conclusão de um curso é tido por um brevet ou licença necessária ao acesso a uma profissão. Um diploma é considerado uma nota promissória de que uma actividade profissional é devida a quem o possua, não sendo todavia claro quem tenha a obrigação de pagar o que nela é prometido. Se considerarmos, como consideramos, que o trabalho é parte decisiva da vida de qualquer pessoa e, por isso, uma questão política maior, não nos parece, porém, daí decorrer que uma política de emprego deva reconfigurar, e nessa reconfiguração perverter, os fins da universidade. Na sua acepção precisa, um diploma é um documento retrospectivo que inconsequentemente atesta que o seu detentor percorreu com sucesso um curso de estudo organizado numa sequência ordenada de disciplinas. Este percurso curricular traduz uma ideia de educação: a de que, nessa sua progressão bem-sucedida por uma sequência de disciplinas, o diplomado teve importantes ganhos cognitivos, e que, na socialização intensa com os seus pares e instrutores em que essa progressão se fez, se constituiu como adulto, ou como mais adulto, e conhece agora melhor as exigências e pressões do lugar que ocupa.

António M. Feijó (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Vice-Reitor) e Miguel Tamen (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.17-19


Neste passo do ensaio ora publicado na colecção de ensaios da FFMS, algumas notas bem claras:

i) a noção generalizada no debate público de que universidade é, ou deve ser igual, a licença para um emprego; 
ii) com tal noção, assim a universidade deixa de ser vista como fim em si mesmo, e adquire um mero carácter instrumental;
iii) se essa noção correspondesse à realidade, se a universidade tendesse a significar exactamente essa licença para o emprego, afinal quem o garante e o paga (ao diplomado)?;
iv) pensar que é boa, sem mais, a finalidade "emprego" é tornar igualmente bom/pensar como igualmente bom qualquer emprego que se consiga (que se siga do curso; e independentemente de como ele venha a ser valorizado pelo próprio empregado); 
v) não se pensa, pois, que outros fins esse emprego possa permitir alcançar (por exemplo, se permite prosseguir a conversação iniciada na universidade e, muito em particular, uma vida examinada); 
vi) toma como assente que um curso é exclusivamente um bem privado da pessoa;
vii) ora, um diploma universitário é "inconsequente" no sentido de que não conduz, necessariamente, a uma dada "consequência" (por exemplo, no plano laboral), é fim em si mesmo, que reconhece ganhos cognitivos e avanços no adulto em formação.