Para o ano vamos celebrar 500 anos da viagem de circum-navegação. O Fernão de Magalhães saiu do porto com 180 homens. Três anos depois, regressaram 18. Morreram os outros todos pelo caminho para a gente hoje andar de paquete. É como no espaço. Para o espaço só mandamos heróis. A gente só vai saber andar no espaço quando uma mulher der à luz lá, a criança nascer com saúde, a mulher ficar com saúde. Até lá mandamos heróis para aprender. Cada vez que há uma "estrada" nova, a gente mete-se nela, estão lá os perigos e as oportunidades. Passados uns anos, andamos todos nessa estrada. Todos. (...)
Aprendi várias lições na NATO [onde foi director do Programa de Ciência entre 1992 e 2012]. A primeira foi que não há nenhum general que queira ir para a guerra. São os civis que querem. Embaixadores, governantes, etc. A outra coisa que aprendi é que o que está a acontecer agora começou a ser preparado há três anos. É mesmo este tempo. Três anos. A guerra requer tamanha preparação que começa muitos anos antes. Dou-lhe o exemplo da segunda invasão do Iraque. Ninguém pode pensar que numa questão de horas se mandam 400 mil pessoas para 20 quilómetros de distância, tendo de lhes dar seis milhões de litros de água todos os dias, se aquilo não estiver a ser preparado durante dois, três anos. Quando é anunciado é porque já está feito.
Fernando Carvalho Rodrigues, Físico, Professor Catedrático do IST, entrevistado por Filipa Lino para o Jornal de Negócios, Weekend, pp.6-7.