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domingo, 7 de abril de 2019

ESSÊNCIA (QUE RUMOREJA PELOS TEMPOS)


Depara-se-nos aqui um ponto essencial do cristianismo: estamos perante um sistema que tenta chegar ao âmago da realidade, que é o amor, e quando atingimos esse lugar luminoso descobrimos que se trata de um fluido que embebe tudo e que também beijou o passado. Neste sentido, a ternura que me habita é irmã da de Abraão, da de Moisés, tal como a esperança que me acende se revela semelhante à de Isaías. E já agora: as minhas traições a tudo isso são como as de Pedro, como as de Tomé. E mais ainda: podem chegar à negação porventura absoluta do gesto de Judas. (...)
Somos uma religião que mergulha fundo nas coisas, no universo, de tal forma que todos os tempos rumorejam nos dias da nossa existência. O passado, o presente e o futuro dão as mãos na nossa vida, porque, em todas as dimensões do tempo, o amor acontece. Uma essência amante liga todas as épocas, ao mesmo tempo que as ultrapassa, deixando-nos no limiar da eternidade. (...)
Um amor que vem ter connosco e, a partir de nós, deve ecoar nos irmãos e em tudo. Ora, este sermos amados e vivermos também amando liga-nos ao passado, acende-nos neste presente e irradia-nos para o futuro, ao mesmo tempo que nos planta na eternidade. Nesse sentido, ainda que o cristianismo tenha que ser inovador, como dissemos, ele comunica intensamente com o amor que aconteceu antes de nós, do qual, de facto, não se pode separar. Dito por outras palavras: existe uma tradição que viverá sempre no que somos - a dos que outrora amaram e estão presentes no nosso amor.
E agora surge um problema importante, principalmente no quadro europeu: muitas pessoas, sobretudo jovens, perderam a memória deste amor. E aqui o passado volta a ser importante porque é preciso explicar que, se uma catedral gótica nos impressiona, tal como acontece porque ela atrai o nosso coração para cima, rumo a uma felicidade e a um desejo de justiça que só na pátria de amarmos e sermos amados se pode encontrar

Gabriel Magalhães, A casa da alegria. Reflexões sobre cristianismo e tempo na cultura europeia, Paulinas, 2019, pp.20-22. 

*o autor venceu, em 2018, o Prémio de Jornalismo Memorial Bisbe Joan Carrera, de Barcelona, pelos seus artigos em La Vanguardia, um jornal desta cidade onde colabora regularmente.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A que espécie pertencemos?"


Quando Darwin e Wallace apresentaram a ideia de selecção natural, foi discutido se algumas das nossas características «superiores», como a moral, a consciência de nós mesmos, o simbolismo, a arte e as emoções interpessoais, cavavam um tal fosso entre nós e os animais «inferiores» a ponto de exigirem uma explicação de outro tipo. Inicialmente, Wallace pensou que não, mas depois mudou de ideias, chegando à conclusão de que existe um salto qualitativo na ordem das coisas que situa as faculdades mais elevadas da espécie humana numa categoria diferente da categoria daquelas características que partilhamos com os nossos vizinhos de evolução. Nas suas palavras: «somos dotados de capacidades intelectuais e morais não necessárias à luz dos requisitos da evolução», e a existência dessas capacidades não podia, por conseguinte, ser explicada pela selecção natural dos mais aptos.  (...)
Reflectindo nisto, parece-me claro que Wallace tinha razão ao colocar a ênfase nas características que pareciam pôr a Humanidade num mundo à parte, embora estivesse certamente errado ao pensar nessas características como «não necessárias à luz dos requisitos da evolução», pois se temos atributos adaptativos, a racionalidade é com certeza um deles. Por outro lado, a racionalidade está, num certo sentido dessa difícil expressão, «na nossa essência». Por conseguinte, Wallace apontava para o facto de nós, seres humanos, mesmo sendo animais, pertencermos a uma espécie que não ocupa um lugar no esquema das coisas comparável ao ocupado pelos outros animais. Aqui a controvérsia filosófica - uma controvérsia paralela à existente entre biólogos e psicólogos evolutivos relativa à importância da cultura - é precisamente uma controvérsia acerca da natureza humana: a que espécie pertencemos?

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.11-12 e 22.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Ideologias: "essência" e "história"


Se as leituras "essencialistas" sobre o que é ser de direita ou esquerda não deixam de ser sedutoras, possuir interesse e utilidade - penso em Direita e Esquerda, de Norberto Bobbio, por exemplo -, não deve deixar-se de as confrontar com a evolução histórica que o ser de direita, ou de esquerda sofreu e com a pluralidade de esquerdas e direitas existentes. Não deixa de ser bem curioso pensar, por exemplo, como alguns dos socialistas utópicos não só não eram democratas, como advogavam, mesmo, que a mudança social devia ser feita à margem do - da utilização de um instrumento como o - Estado. A 'revolução', para alguns dos socialistas utópicos, devia passar pela - pelo interior da - comunidade, do trabalho, da "empresa", e afastar-se da acção política tout-court (partidária). Hoje, esta "privatização" da mutação a empreender, esta "despolitização" dificilmente seria conotada com qualquer pensamento à esquerda. A mesma coisa se diga, de resto, de muito do que escreve Antero de Quental, nas Causas da Decadência dos Povos peninsulares: há, com efeito, um dado espírito do tempo, quanto a posições sobre o trabalho, a indústria, o empreendedorismo, a posição sobre os poderes públicos, os autores que influenciam e são citados como mestres, o apoio social requerido ao Estado que dificilmente resistem, como "essência imutável", de um "ser de esquerda".