Depara-se-nos aqui um ponto essencial do cristianismo: estamos perante um sistema que tenta chegar ao âmago da realidade, que é o amor, e quando atingimos esse lugar luminoso descobrimos que se trata de um fluido que embebe tudo e que também beijou o passado. Neste sentido, a ternura que me habita é irmã da de Abraão, da de Moisés, tal como a esperança que me acende se revela semelhante à de Isaías. E já agora: as minhas traições a tudo isso são como as de Pedro, como as de Tomé. E mais ainda: podem chegar à negação porventura absoluta do gesto de Judas. (...)
Somos uma religião que mergulha fundo nas coisas, no universo, de tal forma que todos os tempos rumorejam nos dias da nossa existência. O passado, o presente e o futuro dão as mãos na nossa vida, porque, em todas as dimensões do tempo, o amor acontece. Uma essência amante liga todas as épocas, ao mesmo tempo que as ultrapassa, deixando-nos no limiar da eternidade. (...)
Um amor que vem ter connosco e, a partir de nós, deve ecoar nos irmãos e em tudo. Ora, este sermos amados e vivermos também amando liga-nos ao passado, acende-nos neste presente e irradia-nos para o futuro, ao mesmo tempo que nos planta na eternidade. Nesse sentido, ainda que o cristianismo tenha que ser inovador, como dissemos, ele comunica intensamente com o amor que aconteceu antes de nós, do qual, de facto, não se pode separar. Dito por outras palavras: existe uma tradição que viverá sempre no que somos - a dos que outrora amaram e estão presentes no nosso amor.
E agora surge um problema importante, principalmente no quadro europeu: muitas pessoas, sobretudo jovens, perderam a memória deste amor. E aqui o passado volta a ser importante porque é preciso explicar que, se uma catedral gótica nos impressiona, tal como acontece porque ela atrai o nosso coração para cima, rumo a uma felicidade e a um desejo de justiça que só na pátria de amarmos e sermos amados se pode encontrar.
Gabriel Magalhães, A casa da alegria. Reflexões sobre cristianismo e tempo na cultura europeia, Paulinas, 2019, pp.20-22.
*o autor venceu, em 2018, o Prémio de Jornalismo Memorial Bisbe Joan Carrera, de Barcelona, pelos seus artigos em La Vanguardia, um jornal desta cidade onde colabora regularmente.